
Luxo

Cecily Von Ziegesar


                      http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057






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     so as rainhas da vida social de Manhattan. Pelo menos,  o que parece.
           Quando as duas descobrem que sua posio na alta sociedade de Nova York no
     est nem um pouco segura, subitamente todos - incluindo Penelope Hayes, uma
     alpinista social traioeira, Henry Schoonmaker, o mais charmoso solteiro da cidade, e
     Lina Bround, uma criada invejosa - ameaam o futuro dourado de Elizabeth e Diana.
           O destino da famlia Holland est nas mos de Elizabeth, que precisar escolher se
     vai cumprir suas obrigaes ou seguir seu corao. Mas quando sua carruagem tomba s
     margens do rio Hudson, a garota que vivia figurando nas colunas sociais da cidade 
     engolida pela corrente glida. Toda Nova York est em prantos e alguns comeam a se
     perguntar se a vida deslumbrante de Elizabeth se tornara um fardo pesado demais para
     ela, ou se havia algum que desejava que a mais famosa jovem de Manhattan
     desaparecesse...
           Num mundo de luxo e iluso, onde as aparncias so o mais importante e no
     cumprir as regras pode levar ao ostracismo, cinco adolescentes levam vidas
     perigosamente escandalosas. Essa emocionante viagem  era da inocncia no  nada
     inocente.




     GAROTAS LINDAS COM ROUPAS PERFEITAS, DANANDO AT DE
                           MANH.

         GAROTOS IRRESISTVEIS COM SORRISOS SAFADOS E MS
                            INTENES.

             MENTIRAS, SEGREDOS E AMORES ESCANDALOSOS.

                 ESTAMOS EM MANHATTAN E O ANO  1899...


                        Assim comea a srie       g{x _xA


        "Mistrio, romance, cimes, traies, humor e uma incrvel
       pesquisa dos costumes da poca. Quando comecei a ler Luxo,
                        no consegui parar mais!"
      Cecily Von Ziegesar, autora dos best-sellers da srie GOSSIP GIRL.




                           Para Suzanne e Gordon


      Essa era a maneira de agir da velha Nova York... as pessoas tinham mais medo
     de escndalos do que de doenas, valorizavam mais a decncia do que a coragem
      e achavam que nada era pior do que "cenas", com exceo do comportamento
                                daqueles que as causavam.

                    Trecho de A era da inocncia, de Edith Wharton.




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                                     cTMz
                     Na manh do dia 4 de outubro de 1899, Elizabeth Adora Holland, filha
                     mais velha do Sr. Edward Halland (in memoriam) e de sua viva,
                     Louisa Gansevoort Holland, foi para o reino dos cus. O funeral ser
                     amanh, domingo, dia 8, s dez da manh, na Igreja Escopial da Graa,
                     no nmero 800 da Broadway, Mahattan.

     TIRADO DA PGINA DE OBITURIOS DO JORNAL NEW YORK NEWS OF THE WORLD
     GAZETTE, SBADO, 7 DE OUTUBRO DE 1899.




          X            m vida, Elizabeth Adora Holland fora conhecida no apenas
                       por sua beleza, mas tambm por sua moral. Portanto,  justo
                       acreditar que, aps a morte, ela ocuparia um lugar elevado no
     paraso, com uma vista especialmente deslumbrante. Se Elizabeth houvesse
     olhado para baixo de seu posto celestial, numa determinada manh de outubro, e
     observado seu prprio funeral, teria ficado lisonjeada ao ver que todas as
     melhores famlias de Nova York haviam comparecido para se despedir dela.
           Estavam causando um engarrafamento na Broadway com sai carruagens
     negras, que seguiam gravemente at a esquina da rua Dez, leste, onde ficava a
     Igreja Episcopal da Graa; Embora no estivesse fazendo sol nem chovendo,
     seus empregados as protegiam com enormes guarda-chuvas pretos, escondendo
     seus rostos crispados de choque e dor do olhar intrometido do pblico. Elizabeth
     teria aprovado ao ver sua melancolia e tambm sua indiferena em relao ao
     povo curioso que se imprensava contra as barricadas da polcia. A multido viera
     ali para dar vazo ao seu espanto com a morte de uma menina perfeita e dezoito
     anos de idade, cujas aparies em festas e eventos sociais sempre haviam sido
     relatadas nos jornais matinais para deixar seus dias mais alegres.
           Um frio sbito surgira em Nova York naquela manh, tingindo o cu de um
     inexplicvel cinza. Era como se Deus no pudesse mais imaginar a beleza agora
     que Elizabeth Holland se fora, murmurou o reverendo Needlehouse quando sua
     carruagem chegou  igreja. Os jovens que iam carregar o caixo de Elizabeth
     assentiram e foram para dentro da sombria igreja gtica ao lado do reverendo.
           Aqueles jovens eram do mesmo nvel social que Elizabeth, e eram os
     mesmos rapazes com quem ela danara em incontveis bailes. Todos haviam
     sido enviados para escolar particulares como St. Paul's e Exeter em algum
     momento e haviam retornado com idias adultas e uma vontade enorme de flertar
     com as meninas. Aqui estavam eles agora, com seus sobretudos negros e fumo
     nas mangas, parecendo tristes pela primeira vez na vida.
           Primeiro surgiu Teddy Cutting, que era conhecido por ser to alegre e que
     pedira Elizabeth em casamento duas vezes, sem ser levado a srio por ningum.
     Ele estava elegante como sempre, mas Liz teria percebido os vestgios de barba


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     loura em seu queixo, um sinal de profundo pesar, pois Teddy era barbeado por
     seu criado toda manh e jamais era visto em pblico sem estar com a pele
     perfeitamente lisa. Logo surgiu o belo James Hazen Hyde, que em maio herdara
     o controle acionrio de uma enorme empresa de seguros. Ela uma vez deixara
     seu rosto prximo ao pescoo de Elizabeth, que cheirava a gardnias, e lhe
     dissera que ela tinha um perfume melhor que o de todas as mademoiselles do
     Boulevard Saint-Germain, em Paris. Depois de James veio Brody Parker Fish,
     cuja famlia tinha uma casa vizinha  dos Holland no Gramercy Park, e ento
     Nicholas Livingston e Amos Vreewold, que muitas vezes haviam competido para
     ver quem seria o prximo par na dana com Elizabeth.
           Eles ficaram imveis, com o olhar preso ao cho, esperando por Henry
     Schoonmaker, que apareceu por ltimo. As figuras elegantes de negro que se
     dirigiam para a igreja no puderam deixar de soltar uma exclamao de espanto
     ao ver Henry, e no apenas porque estavam acostumados a encontr-lo com um
     brilho perverso nos olhos e um drinque na mo. Pareceu-lhes profundamente
     injusto que Henry precisasse carregar o caixo de Elizabeth no mesmo dia em
     que iria despos-la.
           Os cavalos atrelados  carruagem funerria eram negros e lustrosos, mas o
     caixo havia sido decorado com um enorme lao de cetim branco, pois Elizabeth
     morrera virgem. Que pena, sussurraram todos eles, soprando pequenas nuvens
     fantasmagricas nas orelhas um dos outros, que uma morte to prematura
     ocorresse com uma menina to boa.
           Henry, com os lbios comprimidos numa linha fina, moveu-se na direo da
     carruagem funerria com os outros rapazes logo atrs de si. Eles ergueram o
     caixo, muito mais leve do que o normal, e se dirigiram para a porta da igreja.
     Alguns soluos audveis foram abafados por lenos bordados no segundo em que
     toda Nova York se deu conta de que jamais voltaria a ver a beleza, a pele de
     porcelana ou o sorriso sincero de Liz. No restara qualquer vestgio dela, pois seu
     corpo no fora recuperado do rio Hudson, apesar de ela j estar sendo procurado
     h dois dias e apesar da bela recompensa oferecida pelo prefeito Robert
     Anderson Van Wyck.
           Na verdade, o funeral fora organizado muito rapidamente, embora todos
     estivessem chocados demais para pensar nisso.
           A prxima a surgir no cortejo foi a me de Elizabeth, que usava um vestido
     e um vu de sua cor preferido, o preto. A sra. Edward Holland, cujo nome de
     solteira era Louisa Gansevoort, sempre fora uma mulher fria e amedrontadora,
     mesmo para suas prprias filhas, e s se tornara distante e intratvel quando seu
     marido falecera no ltimo inverno. Edward Holland fora um homem estranho, e
     sua estranheza s fizera crescer nos anos que antecederam sua morte. No entanto,
     ele fora tambm o filho mais velho de um filho mais velho dos Holland, uma
     famlia que prosperara na pequena ilha de Manhattan desde os dias em que ela se
     chamava Nova Amsterd, e por isso a alta sociedade sempre perdoara suas
     excentricidades. Mas, nas semanas anteriores  sua morte, Elizabeth notara algo
     de diferente em sua me, algo que lhe causava pena. Agora, Louisa se inclinava
     levemente para a esquerda, como se desejasse que o marido estivesse ali para
     apoi-la.



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           Ao lado da sra. Holland estava Edith, tia de Elizabeth e irm mais nova de
     seu falecido pai. Edith Holland fora uma das primeiras mulheres a continuar
     tento um papel proeminente na alta sociedade aps seu divrcio; todos sabiam,
     embora no se falasse muito no assunto, que ela se casara muito jovem com um
     nobre espanhol dado a ataques de mau humor, a bebedeiras e a devassides. Ela
     agora voltara a usar seu sobrenome de solteira, e parecia to devastada pela morte
     de Elizabeth como ficaria com a morte de uma filha.
           A seguir, notou-se uma estranha ausncia, que todos foram educados
     demais para comentar, e ento surgiu Agnes Jones, que soluava copiosamente.
           Agnes no era uma menina alta e, embora parecesse bem-vestida para a
     multido que tentava furar o bloqueio policial para ver melhor, Elizabeth, se a
     estivesse observando, teria reconhecido o vestido preto que ela portava. A
     prpria Elizabeth o usara apenas uma vez, no funeral de seu pai, e ento dera 
     amiga, que o aumentara na cintura e diminura a bainha. Elizabeth sabia muito
     bem que o pai de Agnes ficara arruinado financeiramente quando ela tinha
     apenas onze anos e subseqentemente se atirara da ponte do Brooklyn. Agnes
     gostava de dizer a todos que Elizabeth fora a nica que continuara sua amiga
     naquela poca negra de sua vida. E ela se tornara sua melhor amiga, dizia Agnes
     sempre e, embora Elizabeth se sentisse constrangida pela afirmao exagerada,
     jamais sonhara em corrigir a pobre menina.
           Depois de Agnes veio Penelope Hayes, que em geral era considerada a
     verdadeira melhor amiga de Elizabeth. Elizabeth decerto teria reconhecido a
     expresso de impacincia que Penolope estava fazendo agora - ela detestava
     esperar, especialmente ao ar livre. Uma das Vanderbilt que estava parada ali
     perto reconheceu a expresso tambm, e soltou um muxoxo de reprovao quase
     inaudvel. Penelope, que tinha um perfil egpcio, enormes olhos com clios muito
     longos e que, no momento, usava penas negras no cabelo, gozava da admirao
     de todos, mas da confiana de poucos.
           E havia tambm o fato constrangedor de que Penelope estivera com
     Elizabeth quando seu corpo desaparecera nas guas geladas do Hudson. Todos j
     sabiam que ela fora a ltima pessoa a ver Elizabeth com vida. No que
     suspeitassem dela,  claro. Mas Penelope no parecia to arrasada quanto
     deveria. Exibia um cola de diamantes no pescoo e um acompanhante
     formidvel: Isaac Phillips Buck.
           Isaac era um parente distante dos Buck - to distante que seu parentesco no
     podia ser provado ou contestado - mas era formidvel em tamanho, trs palmos
     mais alto que Penelope e possuindo uma barriga robusta. Liz jamais gostara dele;
     ela sempre tivera uma preferncia secreta pelas solues prticas e corretas, ao
     contrrio de Isaac, que escolhia sempre o luxo. Para ela, Isaac era um mero
     escrevo da moda e, de fato, at seu canino esquerdo, que era de ouro combinava
     com a corrente do relgio que ia do casaco at o bolso de sua cala. Se a
     Vanderbilt que estava ali perto houvesse dito em voz alta o que estava pensando -
     que Isaac parecia mais preocupado com as aparncias do que com o luto -, ele
     provavelmente teria considerado o comentrio um elogio.
           Penelope e Isaac entraram na igreja e foram imitados por todos os restantes,
     que inundaram o corredor central com suas roupas negras, a caminho dos
     compartimentos especialmente reservados para eles. O reverendo permaneceu em


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     silncio no plpito enquanto as melhores famlias de Nova York - os
     Schermerhorn, os Van Peyser, os Harriman, os Buck, os McBrey e os Astor - se
     sentavam. Os que no conseguiram mais se controlar comearam a falar aos
     sussurros sobre a chocante ausncia, apesar de estarem sob a abbada de uma
     igreja.
           Finalmente, a sra. Holland assentiu de forma abrupta para o reverendo.
           --  com nossos coraes pesados... - comeou ele a discursar.
           Mas foi tudo que conseguiu dizer antes que as portas da igreja se abrissem
     de sbito, atingindo as paredes de pedra com um estrondo. As senhoras educadas
     da alta sociedade de Nova York desejaram muito se virar e olhar mas o decoro, 
     claro, proibia tal gesto. Elas mantiveram suas cabeas, encimadas por penteados
     elaborados, voltadas para frente, e seis olhos fixo no reverendo Needlehouse,
     cuja expresso de espanto no estava tornando seu esforo mais fcil.
           Atravessando o corredor central da igreja com passos rpidos estava Diana
     Holland, irm caula da falecida, com alguns cachos de cabelo surgindo por
     debaixo do chapu e as bochechas coradas de tanto correr. Apenas Elizabeth, se
     esta de fato pudesse observar tudo do paraso, poderia compreender por que
     havia um pequeno sorriso no rosto de Diana quando ela se sentou no primeiro
     banco.




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                      A FAMLIA RICHMOND HAYES SOLICITA O PRAZER DE SUA
                      COMPANHIA NUM BAILE EM HOMENAGEM AO ARQUITETO
                        WEBSTER YOUNGHAM NA NOITE DE SBADO, 16 DE
                       SETEMBRO S 21 HORAS EM SUA NOVA RESIDNCIA, NA
                       QUINTA AVENIDA NMERO 670, NA CIDADE DE NOVA
                                          YORK.

                                  FANTASIAS SO OBRIGATRIAS.




          @g                    odos esto perguntando por voc - disse Louisa
                                Holland a Elizabeth sem levantar a voz, porm de
                                forma autoritria.
           Elizabeth passara dezoito anos sendo treinada para ser motivo de orgulho
     para sua me e aprendera, entre outras coisas, a interpretar perfeitamente seus
     tons de voz. Esse significava que ela deveria retornar agora ao salo de baile e
     dana com um parceiro qualquer que sua me escolhera, provavelmente um
     jovem de boa famlia, ainda que um pouco prejudicado geneticamente pelo
     inmeros casamentos entres parentes prximos ocorridos ao longo dos sculos.
     Elizabeth deu um sorriso de desculpa para a meninas com quem estivera
     conversando - Annemarie d'Alembert e Eva Barbey, a quem ela conhecera na
     ltima primavera na Frana, e que estavam ambas fantasiadas como cortess do
     reinado de Lus XIV. Elizabeth estava contando a elas como Paris lhe parecia
     distante agora, embora houvesse sado do transatlntico naquela manh. Agnes
     Jones, sua velha amiga, tambm estava sentada no sof damasco com listras cor
     de marfim e cor de ouro, mas a irm caula de Elizabeth, Diana, havia
     desaparecido. Ela devia ter desconfiado que seu comportamento estava sendo
     observado o que,  claro, era verdade. Elizabeth sentiu-se irritada ao pensar na
     criancice de Diana, mas rapidamente controlou a emoo.
           Afinal de contas, Diana no tivera um baile formal ao ser apresentada para
     a sociedade, como ocorrera com Elizabeth h dois anos, logo aps ela fazer
     dezesseis. Elizabeth passara um ano tendo aulas com uma professora de etiqueta
     junto com Penelope Hayes, com quem dividira diversos tutores, e recebera lies
     de comportamento, dana e lnguas modernas. Diana completara 16 anos durante
     a viagem de Elizabeth para Paris, mas nenhum festejo especial fora preparado. A
     famlia ainda estava de luto por causa do falecimento do pai das meninas, e no
     lhes pareceu apropriado fazer uma grande celebrao. Diana meramente
     comeara a freqentar os bailes acompanhada por sua tia Edith durante o vero
     que ambas haviam passado em Saratoga. No era  toa que ela andava mal-
     humorada.


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           -- Sei que lamenta deixar suas amigas - disse a senhora Holland, tirando
     Elizabeth da pequena sala em que ela estivera envolta numa atmosfera silenciosa
     e feminina e lavando-a de volta para o salo de baile.
           Elizabeth estava usando uma fantasia de pastora feira de brocado branco, a
     parecia mais bela e alta do que nunca ao lado da me, que ainda vestia seu luto
     de viva. Edward Holland morrera no incio do ano e sua mulher usaria luto
     formal por mais um ano pelo menos.
           -- Mas aparentemente, voc  a jovem mais disputada pelos rapazes essa
     noite - continuou a sra. Holland.
           Elizabeth tinha um rosto em forma de corao, feies delicadas e tez de
     alabastro. Um menino que no seria admitido no salo de baile dos Richmond
     Hayes um dia lhe dissera que sua boca tinha o tamanho e o formato de uma
     ameixa. Elizabeth tentou formar um sorriso com aquela boca, embora estivesse
     preocupada com o tom de voz de sua me. Ela sempre fora uma mulher severa,
     mas, desde que sara do navio, Elizabeth a achara mais ansiosa, o que era
     alarmante. Elizabeth partira logo aps o enterro de seu pai, h nove meses, e
     passara toda a primavera e o vero aprendendo a ser charmosa e elegante nos
     sales de Paris, comprando vestidos na Rue de la Paix e tentando esquecer a
     perda que sofrera.
           -- Mas eu j dancei tantas vezes esta noite - disse Elizabeth timidamente.
           -- Talvez - retrucou a sra. Holland. - Mas voc sabe o quanto eu ficaria
     satisfeita se um de seus parceiros lhe pedisse em casamento.
           Elizabeth tentou rir para disfarar o desespero que aquele comentrio
     causara nela.
           -- Bem, a senhora tem sorte por eu ser to jovem, e por ainda ter anos antes
     de precisar escolher qualquer um deles.
           -- Ah, no. - Os olhos da sra. Holland observaram rapidamente todo o
     salo de baile. Era estonteante: tinha a abbada do teto feita de vidro fosco, as
     paredes cobertas por afrescos e inmeros espelhos de moldura dourada, e ficava
     no centro da manso da famlia Hayes, cercado por inmeros outros cmodos
     menores, porm to luxuosos e exagerados quanto ele. Prximos s paredes
     ficavam vasos com enormes palmeiras formando um escudo que protegia as
     mulheres que estavam nos cantos do salo dos pares de danarinos que
     deslizavam freneticamente pelo cho de mrmore xadrez. Havia cerca de quatro
     criados para cada convidado, o que pareceu ostentao at mesmo para Elizabeth,
     que passara os ltimos meses aprendendo a se comportar como uma dama na
     Cidade Luz.
           -- A nica coisa que no temos  tempo, Elizabeth. - continuou a sra.
     Holland.
           Ela sentiu um frio na espinha mas, antes que pudesse perguntar a sua me o
     que aquela frase significava, chegaram ao salo de baile e estacaram junto ao
     local onde casais ricamente vestidos estavam valsando. Todos eram conhecidos
     das duas, que acenaram para eles.
           Aqueles eram seus iguais: quatrocentas pessoas pertencentes a apenas cerca
     de quarenta famlias, danando como se no houvesse amanh. De fato, o dia
     seguinte provavelmente nem seria percebido por eles, que o passariam dormindo
     sob dossis de seda, acordando apenas para aceitar um copo de gua gelada e


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     para expulsar os criados do quarto. Era dia de igreja,  claro, mas, aps uma noite
     to cintilante e pica, era quase certo que haveria poucos fiis presentes. A maior
     vocao daquela sociedade era receber e ser recebida, atividade pontuada
     ocasionalmente pelo investimento de suas vastas fortunas em negcios ainda
     mais lucrativos.
           -- O ltimo rapaz que perguntou por voc foi Percival Coddington. Ele
     herdou toda a propriedade do pai no ltimo vero, como voc bem sabe -
     informou a sra. Holland para Elizabeth, posicionando-a ao lado de uma
     gigantesca coluna de mrmore rosa.
           Havia diversas colunas como aquela no salo, e Elizabeth teve certeza de
     que no estavam ali apenas para suportar o peso do teto, mas tambm para
     impressionar os visitantes. Ao construir sua nova casa, a famlia Hayes parecia
     ter se aproveitado de cada pequena oportunidade de exibir sua grandiosidade.
           Elizabeth suspirou. Ela pensou no nico rapaz que conhecia que no ia estar
     no baile naquela noite, mas no foi o suficiente para tornar a perspectiva de
     dana com Percival Coddington mais atraente. Elizabeth conhecia Percival desde
     criana, quando ele fora o tipo de menino que evitava o contato humano e
     preferia passar seus dias sendo cruel com animas de pequeno porte. Tornara-se
     um homem de poros enormes, que fungava com freqncia e colecionava
     artefatos antropolgicos obsessivamente, embora no tivesse estmago para ir
     em pessoa nas exploraes.
           -- Pare - disse a sra. Holland. - Voc no reclamaria tanto se seu pai
     estivesse aqui.
           Elizabeth teve um sobressalto. No imaginava ter demonstrado qualquer
     emoo. A meno do Sr. Holland fez com que seus olhos de enchessem de
     lgrimas, e ela se sentiu mais solidria  causa da me.
           -- Sinto muito - desculpou-se Elizabeth, mantendo a voz bem firme e
     lutando contra as lgrimas. - Mas eu me pergunto se o Sr. Coddington, que tem
     tantos talentos, se lembrar de mim aps eu ter passado tanto tempo fora.
           A sra. Holland respirou fundo enquanto duas meninas da famlia Wetmore,
     que tinham um e trs anos a mais do que Elizabeth, passaram por elas.
           --  claro que ele se lembra de voc. Especialmente quando a alternativa 
     danar com meninas como essas. Parecem ter se vestido para trabalhar no circo -
     respondeu a sra. Holland.
           Elizabeth estava tentando pensar em algo de bom para dizer sobre Percival
     Coddington e no o comentrio seguinte de sua me. Ela chamara algum de
     vulgar. Assim que a sra. Holland pronunciou essa palavra, Elizabeth notou que
     sua amiga Penelope Hayes estava no mezanino. Ela usava um vestido cor de
     papoula cheio de pregas com um corpete baixo, e Elizabeth ficou um pouco
     orgulhosa ao ver como sua amiga estava deslumbrante.
           -- Eu nem devia ter honrado esse baile com a minha presena - comentou a
     sra. Holland. Houve uma poca em quae a sra. Holland nem sequer se dignaria a
     visitar as mulheres da famlia Hayes, que considerava novas-ricas, apesar de seu
     marido ter aceitado um ou dois convites para caar com Jackson Pelham Hayes.
     Mas a opinio da sociedade mudara  sua revelia e a sra. Holland fora obrigada a
     aceit-las. - Os jornais vo dizer que eu aprovo esse tipo de exibio de mau
     gosto, e voc bem sabe a dor de cabea que isso vai me dar.


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           -- Mas senhora sabe que teria sido um escndalo muito maior se no
     vissemos. - afirmou Elizabeth.
           Ela estendeu seu pescoo longo e deu um sorrisinho sutil para Penelope.
     Gostaria de estar l em cima com ela, rindo da pobre menina que tivera a m
     sorte de ser tirada para danar por Percival Coddington. Penelope, olhando para
     baixo deixou que uma de suas plpebras cobertas de sombra escura se baixasse,
     piscando o olho de maneira lenta e sensual de sempre. Elizabeth teve a certeza de
     que fora compreendida.
           -- Alm do mais - disse ela para a me -, a senhora nunca l jornais.
           -- Isso mesmo, nunca - concordou a sra. Holland.
           Ento, ela ergueu seu pequeno queixo, nico trao fsico que passara  filha,
     enquanto Elizabeth cumprimentava sua melhor amiga.
           Elizabeth e Penelope haviam se tornado amigas durante a adolescncia,
     perodo em que a primeira estivera mais do que nunca interessada no que teria de
     fazer para ser considerada uma jovem elegante. Penelope tinha o mesmo
     interesse, embora desconhecesse as regras da alta sociedade, da qual tanto
     desejava fazer parte. Mesmo assim, Elizabeth, que estava apenas comeando a se
     importar com essas regras, desejara sua amizade. Ela rapidamente descobrira que
     gostava da companhia de Penelope - tudo parecia mais divertida quando se
     estava com a jovem senhorita Hayes. Logo, Penelope se tornara uma apta
     estrategista nas batalhas sociais, e Elizabeth no podia imaginar ningum melhor
     para ter ao seu lado durante uma noite formal como aquela.
           -- Olhe! - exclamou a sra. Holland, fazendo com que a ateno de
     Elizabeth se voltasse para o salo de baile. - Aqui est o senhor Coddington!
           Elizabeth forou-se a sorrir e a escapar Percival Coddington, de quem no
     havia mais como escapar. Ele fez uma espcie de mesura, enquanto seus olhos
     perscrutavam o decote quadrado do corpete da jovem. Elizabeth sentiu o
     desnimo lhe tomando ao ver que ele usava uma fantasia de pastor, composta por
     culotes, botas rsticas e suspensrios coloridos. Eles estavam combinando. O
     cabelo de Percival estava alisado para trs e ele respirava pela boca de forma
     audvel. Elizabeth ficou esperando o convite para danar.
           -- Bem, sr. Coddington, aqui est ela. - Ouviu-se a voz melodiosa da sra.
     Holland alguns segundos depois.
           -- Muito obrigado - rosnou Percival.
           Elizabeth viu que estava sendo examinada por ele e sentiu-se constrangida,
     mas manteve-se bem ereta e com um sorriso no rosto. Fora treinada para ser uma
     dama.
           -- Srta. Holland, a senhorita me daria o prazer desta dana?
           --  claro, sr. Coddington.
           Elizabeth ofereceu a mo a Percival, que a pegou com sua palma suarenta,
     levando-a por entre a multido de danarinos fantasiados. Ela olhou para trs
     para sorrir para a sra. Holland - poderia, ao menos, ter o prazer de v-la satisfeita.
           Em vez disso, Elizabeth viu sua me falando com dois homens. Reconheceu
     primeiro a figura esguia de Stanley Brennan, que fora contador de seu pai, e
     depois o imponente William Sackhouse Schoonmaker, patriarca da velha famlia
     Schoonmaker, que fizera uma segunda fortuna investindo em estradas de ferro. O
     nico filho dele, que se chamava Henry e passara algum tempo estudando em


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     Harvard, largara a faculdade na primavera e desde ento as moas da elite de
     Nova York no falavam em outra coisa. As cartas que Elizabeth recebera de
     Agnes enquanto estivera em Paris faziam diversas menes ao nome dele, e
     contavam que todas as meninas estavam disputando-o. Ele tinha uma irm
     chamada Prudie que era um ou dois anos mais nova que Diana. Prudie s usava
     preto e nunca era vista, pois no gostava de multides. Elizabeth ainda tinha uma
     impresso vaga de Henry Schoonmaker, embora o visse e ouvisse falar nele
     muitas vezes quando os dois eram mais jovens. Ela lembrava que ele, quando
     menino, gostava de fazer travessuras e pregar peas nos outros.
           O parceiro de Elizabeth provavelmente percebeu que o pensamento dela
     estava longe, pois a trouxe de volta para o presente com um comentrio bem
     direto:
           -- Creio que a senhorita teria preferido continuar na saleta com suas
     amigas - disse Percival amargamente.
           Elizabeth tentou no tropear nos ps dele, que danava muito mal.
           -- Asseguro-lhe que no, sr. Coddington. Estou apenas um pouco cansada -
     retorquiu ela.
           No era de todo mentira. Seu navio chegara trs dias atrasado, e ela
     desembarcara h menos de vinte e quatro horas. Ainda sentia-e um pouco tonta
     aps tantos dias passados no mar e, no entanto, ali estava, j danando. A sra.
     Holland exigira que Elizabeth demitisse a criada que lhe servira em Paris e por
     isso ela precisara cuidar de seu cabelo e das suas roupas sozinha durante toda a
     viagem. Penelope a visitara, naquela tarde, para ensinar-lhe os passos das novas
     danas e para lhe dizer que teria ficado furiosa se o navio houvesse atrasado mais
     e feito com que sua melhor amiga no estivesse presente em uma das noites mais
     importantes de sua vida. Depois, ela falara durante muito tempo sobre seu novo
     amor secreto, cuja identidade revelaria para Elizabeth mais tarde, assim que as
     duas conseguissem ficar a ss. Nas horas que antecederam o baile havia muitos
     criados zanzando para l e para c e no teria sido prudente dizer o nome do
     rapaz. Penelope parecia ainda mais competitiva do que o normal em relao a sua
     aparncia e a seu vestido, e Elizabeth acre ditava que era por causa desse
     namorado e pelo fato de aquele baile marcar a abertura da nova manso de sua
     famlia. Alm de tudo isso, Elizabeth tambm estava tensa por causa do estranho
     comportamento de sua me.
           E ela j danara quadrilha, jantara e conversara com diversos tios e tias,
     relatando inmeras vezes como fora sua atribulada travessia transatlntica.
     Quando finalmente se sentara com algumas amigas para tomar uma taa de
     champanhe e conversar sobre como tudo estava deslumbrante, fora forada a
     voltar para o centro das atividades, e logo para danar com Percival Coddington.
     Mas continuara sorrindo,  claro. J era um habito seu.
           -- Bem, ento no que a senhorita est pensando?
           Percival franziu o cenho e pressionou a mo contra as costas de Elizabeth.
     Ela sabia que ele era o ltimo homem do mundo indicado para gui-la por um
     salo repleto de pessoas levemente embriagadas.
           -- Hum... - comeou Elizabeth, dando-se conta de que estivera pensando
     que nem mesmo a saleta onde estava com as amigas era um refgio perfeito. Na
     verdade, ficara um pouco aliada ao se afastar de Agnes, embora ela fosse uma


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     amiga to leal, pois o vestido com franja de couro que estava usando era apertado
     demais e lhe caa muito mal. Por isso, Elizabeth no pudera deixar de sentir pena
     ao v-la, o que lhe era desagradvel. Agnes lhe parecia um constrangedor
     vestgio da infncia, especialmente ao lado de suas novas amigas parisienses, que
     eram to glamorosas.
           Ela se concentrou novamente no rosto feio de Percival e tentou obrigar seus
     ps a se moverem no ritmo correto pelo salo. Pensou em como fora a noite at
     ali, com todas aquelas horas de conversa inspida, elogios cuidadosamente
     aceitos e ateno minuciosa s aparncias. Lembrou-se do luxo da poca que
     passara em Paris. O que realmente fizera durante todo aquele tempo? E o que ele
     - o rapaz que estava tentando desesperadamente esquecer, e que de fato
     acreditava ter esquecido - fizera durante os meses que ela passara fora? Elizabeth
     se perguntou se ele deixara de am-la. J podia sentir o enorme peso de uma vida
     inteira de arrependimento por ter desistido dele, e soube que seria o suficiente
     para enterr-la viva.
           De repente, o salo ficou silencioso e suas luzes se tornaram mais vvidas.
     Elizabeth fechou os olhos e sentiu a respirao quente de Percival Coddington
     em seu ouvido, perguntando-lhe se ela estava bem. Seu espartilho, que fora
     apertado por sua criada Lina horas antes, subitamente pareceu-lhe estar cortando
     sua respirao. Elizabeth se deu conta de que sua vida era uma armadilha.
           E ento o pnico, que surgira de forma to abrupta, instantaneamente
     desapareceu. Elizabeth abriu os olhos. Os sons alegres do salo retornaram num
     timo. Ela olhou para a abbada do teto, que cintilava l em cima, para ter
     certeza de que ela no havia cado.
           -- Estou bem, obrigada por perguntar, sr. Coddington - respondeu
     Elizabeth finalmente. - No sei exatamente o que houve comigo.




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          W                iana Holland viu sua me subir a escada de mrmore que
                           havia do outro lado do salo, de brao dado com um
                           velhote robusto que ela teve certeza de que conhecia. O
     contador e amigo da famlia delas, Stanley Brennan, ai logo atrs. Logo antes de
     os trs desaparecerem, indo na direo de uma saleta no segundo andar, que
     decerto seria to suntuosa quanto o resto da casa, a sra. Holland olhou para trs,
     encarou Diana e lanou-lhe um olhar severo. Diana ficou furiosa por ter sido
     vista e por um breve momento considerou a possibilidade de permanecer no
     salo de baile e esperar pacientemente que um de seus primos lhe chamasse para
     danar. Mas a pacincia no fazia parte da sua natureza.
           Alm do mais, ela se orgulhara tanto de sua esperteza quando escrevera o
     pequeno convite mais cedo, no banheiro das mulheres, e depois o colocara na
     mo do assistente do arquiteto Webster Youngham, que estivera parado na frente
     da arcada da entrada para explicar para os convidados as muitas referncias
     arquitetnicas que haviam sido incorporadas  nova manso da famlia Hayes.
     Diana atravessara a multido, fizera uma mensura, apertara a mo dele e lhe
     entregara o bilhete.
           -- O senhor  de fato um artista, sr. Youngham - dissera ela, embora
     soubesse que o arquiteto j estava bbado de vinho Madeira e no momento
     descansava numa das salas de jogos que havia no segundo andar.
           -- Mas eu no sou o sr. Youngham - respondera ele, com um ar
     adoravelmente confuso. - Sou James Haverton, assistente dele.
           -- Mesmo assim.
           Diana piscara o olho para James e desaparecera em meio aos danarinos.
     Ele tinha ombros largos e lindos olhos azul-acinzentados e, apesar de ser apenas
     um assistente, parecia ser tambm um homem viajado, que j vivera a vida.
     Diana no vira nenhum outro rapaz to interessante quanto ele na hora que se
     passara desde que entregara o bilhete.
           Por isso, ela apanhou a saia nas mos e passou rapidamente por entre os
     vasos de palmeiras e a parede. Olhou para trs uma vez antes de deixar o salo
     para certificar-se de que no estava sendo seguida e ento entrou no closet. Era
     enorme e muito ornamentado, pensou Diana, principalmente considerando-se que
     era um cmodo cujos principais ocupantes seriam os casacos e chapus dos
     convidados. Eles no dariam a mnima para o fato de que o closet fora decorado


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     em estilo mourisco, com o cho coberto de mosaicos coloridos e antiguidades
     exibidas em nichos em forma de torreo.
           Diana olhou em volta, tentando localizar seu casaco, que era do mesmo tipo
     usado pelos tenentes do exrcito francs. Ela viera de fantasiada como a herona
     de seu romance preferido: Trilby, de George Du Maurier. Trilby surge pela
     primeira vez nas pginas do livro fazendo uma pausa em seu trabalho de modelo-
     vivo e vestindo apenas uma combinao, chinelos e o casaco de um soldado.
     Diana no obtivera permisso para usar uma combinao sem o vestido por cima,
     mas ter conseguido ir ao baile com aquela fantasia j fora um triunfo. Sua me
     mandara fazer outra roupa de pastora para que o vestido dela combinasse com o
     de Elizabeth, o que teria sido horrvel e humilhante. Mas ali estava ela, com uma
     saia de listras brancas e vermelhas que lhe dava um ar bomio e com um corpete
     simples de algodo que rasgara em alguns lugares sem que a sra. Holland
     percebesse. Ningum entendera a fantasia,  claro. Todas as meninas da idade de
     Diana eram conformistas e suas fantasias pareciam com as roupas que usavam
     todos os dias, com a adio de um pouco mais de p de arroz e de espartilhos
     mais apertados do que o comum.
           Diana estava comeando a se perguntar se um dos criados no levara seu
     casaco esfarrapado pensando que era dele, quando o relgio que havia num dos
     cantos bateu uma vez, assustando-a. Ela deu alguns passos para trs, surpresa,
     cambaleando um pouco por causa de todo o champanhe que tomara escondida e,
     quando o fez, sentiu o calor do peito de um homem e duas mos em seus quadris.
     A adrenalina tomou conta de seu corpo.
           -- Ah,  voc. - disse ela, tentando mostrar indiferena, embora aquela
     fosse de longe a coisa mais excitante que lhe acontecera a noite toda.
           -- Ol.
           A boca de James estava muito prxima do ouvido dela. Diana se virou
     devagar e encarou-o.
           -- Espero que tenha trazido cigarros - disse ela, esforando-se para no
     sorrir demais.
           James tinha sobrancelhas curtas, pequenas e bem distantes uma da outra, o
     que fazia com que seus olhos parecessem enormes e sinceros.
           -- No achei que moas de famlia tivessem permisso para fumar.

     Diana fez biquinho.
          -- Ento voc no tem nenhum cigarro?
          James no respondeu e olhou-a de uma maneira que no a fez sentir como
     uma moa de famlia.
          -- Eu tenho cigarros - disse ele. - Mas no sei bem se devo lhe dar um...
          Diana percebeu que havia um brilho maroto nos olhos dele e concluiu que
     devia ser o vislumbre de um esprito igual ao seu.
          -- O que preciso fazer para convenc-lo? - perguntou ela, virando a cabea
     alegremente.
          -- O que a senhorita est me pedindo para fazer  muito srio - respondeu
     ele.
          James fingiu seriedade ao dizer isso, mas ento caiu na gargalhada. Diana
     gostou do som de seu riso.


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           -- Voc  bonita - disse ele, dando um sorriso mais largo agora.
           Diana e Elizabeth tinham muitas caractersticas fsicas em comum, mas
     eram bem diferentes. Assim como Elizabeth, ela possua as feies pequeninas e
     a boca redonda das mulheres da famlia Holland, embora tivesse uma aparncia
     menos que a de sua irm mais velha. Diana gostava de acreditar que seus cachos
     castanhos lhe davam um certo ar de mistrio, mas eles na verdade eram
     completamente indomveis. Seus olhos eram sempre descritos como sendo
     "cheios de vida". E,  claro, ela e Elizabeth tinham o mesmo queixo - o queixo de
     sua me. Diana o odiava.
           -- Oh, sei que sou bonitinha - disse Diana, corando de falsa modstia.
           -- Muito mais que bonitinha.
           James continuou a observ-la enquanto tirava uma cigarreira do bolso do
     palet. Ele acendeu um cigarro e entregou-o a ela.
           Diana deu uma tragada e tentou no tossir. Adorava fumar - na verdade,
     adorava a idia de fumar - mas era difcil aprender a faz-lo direito com sua me
     e os criados sempre a vigi-la. Mas at que estava fingindo bem. Ou, ao menos,
     pensou estar, soprando pequenas baforadas. Fumar parecia ser a coisa certa a
     fazer naquele momento, principalmente porque os detalhes em metal e azul-
     turquesa do cmodo onde estava sugeriam um lugar distante e extico. Diana
     levantou uma sobrancelha, perguntando-se o que James ia fazer agora.
           -- Se voc  um arquiteto, isso que dizer que  um artista?
           -- As opinies divergem - respondeu ele. - Alguns arquitetos gostam de
     pensar que fazemos o tipo de arte mais monumental e duradouro de todos.
           -- Que timo! Porque venho tentando encontrar um artista a noite toda.
           -- Com que propsito? - perguntou James, apoiando-se sobre os casacos e
     colocando um cigarro na boca.
           -- Para beij-lo,  claro.
           Diana respirou fundo aps dizer isso. At ela prpria s vezes ficava
     surpresa com as coisas audaciosas que lhe saam da boca.
     James exalou a fumaa, pensativo, e o doce cheiro do tabaco os envolveu. Por
     um segundo, Diana achou que estava a milho de quilmetros dali, numa tenda
     escondida em algum recanto da Tunsia ou de Marrakesh, comprando um p
     mgico de um feiticeiro.
           -- Parece-me que voc est sendo uma menininha muito levada - disse
     James e seu sotaque rspido de americano fez com que Diana se lembrasse de que
     estava em Nova York e, ainda por cima, na Quinta Avenida.
           -- Acha mesmo? - perguntou Diana, tragando seu cigarro.
           Ela tambm se afundou na parede fofa de casacos, aproximando-se um
     pouco de James.
           -- No  comum para senhoritas de classe se encontrarem com homens
     mais velhos em lugares como esse, com toda a alta sociedade a poucos metros de
     distncia.
           -- E porque voc acredita que eu posso ser comparada com as senhoritas de
     classe?
           Diana falou as duas ltimas palavras com nojo. As meninas de classe eram
     escravas da etiquetam, e levavam a vida - se  que se podia chamar aquilo de
     vida - de manequins inanimados.


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           -- Eu disse a voc que estava procurando um artista - disse ela
     impacientemente. - Por isso, se for pensar igual a todo mundo,  melhor eu ir
     embora.
           James sorriu e largou seu cigarro no cho de mrmore preto e branco,
     pisando nele para apagar a brasa e chutando-o para o lado. Diana achou-o
     subitamente velho, embora ele no devesse ter mais do que vinte anos. Ele veio
     rapidamente na direo dela. Assim que seus lbios de tocaram, Diana soube que
     no havia qualquer mgica naquilo. Aquele no era o toque pelo qual estivera
     esperando a noite inteira, pois James achava que beijar algum era meramente
     amassar seu rosto contra o rosto alheio. Diana quase morreu de decepo.
           Ela o beijou tambm, s para se certificar de que seus instintos estavam
     corretos, mas j havia sido beijada antes e sabia como era a sensao de um beijo
     bom. James era muito pior que Amos Vreewold, a quem ela beijara diversas
     vezes durante o ltimo vero que passara em Saratoga, e s um pouco melhor do
     que seu primeiro beijo, que ocorrera aos treze anos e fora desagradvel a ponto
     de faz-la esquecer-se completamente da identidade do garoto. Diana estava
     finalmente aceitando que James Haverton, assistente de arquiteto, no era o tipo
     de artista que estava procurando, quando a porta rangeu e passos soaram no
     vestbulo.
           -- Srta. Diana? - chamou a voz de um homem, com mais mgoa do que
     choque.
           Diana sentiu James apertando-a com mais fora por um momento, antes que
     eles se voltassem na direo da porta. Ela imediatamente reconheceu o rosto
     longo e cansado de Stanley Brennan. Ele s tinha 26 anos - o posto de contador
     dos Holland lhe fora passado por seu pai -, mas, como estava sempre ansioso,
     parecia bem mais velho.
           -- Sua me me mandou ver onde a senhorita estava - disse ele, hesitante. -
     Para me certificar de que no estava se metendo em nenhuma confuso.
           James tirou a mo da cintura de Diana e se afastou. Ele no parecia muito
     satisfeito com a apario de Stanley, mas nada disse. Diana sentiu-se livre quase
     instantaneamente, tomada pela alegria de no precisar mais sentir o queixo
     spero de James contra o seu.
           -- Obrigada, Stanley - disse ela. - Gostaria de me acompanhar at o salo
     de baile?
           Stanley aproximou-se cuidadosamente, estendendo a mo na direo dos
     rasges do corpete de Diana. Eles haviam se aberto mais durante aquele
     malfadado beijo.
           -- Pare, no h problema - disse ela, dando o brao a Stanley e voltando-se
     para James. - Muito obrigada por me explicar as referncias islmicas do closet,
     sr. Haverton. Eu jamais esquecerei.
           Diana olhou para trs apenas uma vez, imaginando que a careta que surgira
     no rosto de James marcava o incio de uma vida solitria e cheia de decepes.
     Era mesmo o destino dela destruir coraes. Ela e Stanley deixaram o closet e
     caminharam para o salo de baile.
           -- No vou contar a sua me - sussurrou Stanley. - Mas sinto que, como era
     amigo de seu falecido pai, devo lembr-la de que esse tipo de comportamento
     pode ser sua runa.


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DI
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          -- No tenho medo - disse Diana alegremente.
          -- Considero-a quase como se fosse minha irm, e  minha
     responsabilidade cuidar da senhorita. Ao menos  isso que sua me pensa. - disse
     Stanley, parando de andar como se quisesse mostrar que estava falando srio. -
     Se ela descobrisse o que a senhorita estava fazendo e que eu sabia de tudo, seria
     o fim de ns dois.
          -- Isso  verdade.
          Diana parou ao lado dele. J era possvel ouvir as vozes e a msica vindas
     do salo e num segundo eles seriam envolvidos pelas luzes cintilantes do baile.
     Ela fez um biquinho falso com sua boca redonda, embora seus olhos brilhassem,
     sedutores.
          -- Mas ser que seria to ruim assim? - perguntou ela.
          Ento, Diana riu, agarrando a mo de Stanley e levando-o de volta para o
     centro das atividades. Estava procurando por algo que no sabia explicar, e no ia
     deixar que um beijinho desagradvel lhe impedisse de seguir em frente.




                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DJ
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          @h                  ma pastorinha.  a fantasia perfeita para Liz. - comentou
                              Penelope Hayes, pronunciando as palavras, como
                              sempre, com uma certa dose de veneno.
           -- Pelo menos ela no esqueceu suas humildes origens americanas depois
     de passar tanto tempo se pavoneando para os franceses - respondeu Isaac Phillips
     Buck. - E pelo menos no veio vestida de marqus ou marquesa, como todos os
     outros - acrescentou ele com desdm.
           Penelope deu de ombros. H muitos anos ela percebera que Elizabeth
     Holland, que agora estava rodopiando por seu gigantesco salo com o horrvel
     Percival Goddington, seria sua principal rival na sociedade, e por isso mesmo
     tornara-se a melhor amiga dela. Se Isaac fazia questo de elogi-la, Penelope no
     se importaria. Estava se sentindo bem melhor agora, depois de ver o quanto todos
     haviam ficado impressionados com a nova manso de sua famlia e com sua
     maneira elegante de receber as pessoas. E,  claro, com ela prpria.
           Penelope ficara arrasada mais cedo, quando o mensageiro lhe entregara o
     bilhete. Tinha acabado de voltar da casa dos Holland, onde fora para dar as boas-
     vindas a Elizabeth e para ralhar com ela por quase ter perdido a festa. Seu
     corao ficara apertado quando ela lera a descuidada missiva e Penelope tivera
     um acesso de raiva que fora muito injusto para com as criadas que estavam lhe
     vestindo para o baile. No tinha medo de que o rapaz que escrevera o bilhete no
     se apaixonasse por ela - afinal, ningum seria capaz de resistir por muito tempo -
     mas no queria que ele perdesse essa festa em particular. Afinal, aquela seria a
     melhor ocasio para ele concluir que Penelope era o centro do universo e que
     manter o relacionamento deles em segredo seria um desperdcio colossal.
           Mas agora que Penelope estava observando o salo de baile se sua manso
     do mezanino, vestindo uma fantasia de danarina espanhola cheia de babados
     vermelhos cujo corpete deixara sua cintura com apenas 45 centmetros, no teve
     dvidas de que ele viria. Era a noite do baile da famlia Richmond Hayes, a noite
     em que eles firmariam sua posio no mais alto crculo da sociedade nova-
     iorquina - no havia outro lugar para ir. Penelope tinha certeza absoluta de que
     ele ia aparecer em breve. Bem, quase absoluta. Ela colocou uma das mos no
     quadril, confiante, embora com a outra Mao ainda estivesse amassando o bilhete
     que tanto a enfurecera.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DK
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            -- Olha s como Elizabeth est de nariz empinado - disse Penelope,
     fazendo com que as dzias de delicadas pulseiras de ouro que trazia nos braos
     tilintassem.
            Isaac se empertigou e pousou as mos sobre a barriga redonda, aparente sob
     sua fantasia de bobo da corte.
            -- Acho que ela s est tentando fugir do mau hlito do Percival.
            Ento, os dois riram da maneira de sempre: com as bocas fechadas,
     deixando que o riso sasse apenas pelo nariz. Penelope e Elizabeth haviam se
     tornado amigas quando tiveram aulas com o mesmo tutor francs, no inicio da
     adolescncia. (Anos mais tarde, Penelope ficara sabendo que o sr. Holland fizera
     com que a filha tivesse aulas com ela para perturbar a sra. Holland e jamais lhe
     perdoara por seu esnobismo). O professor era um homenzinho adorvel.
     Elizabeth gostava de faz-lo corar, perguntando, por exemplo, a diferena entre
     dcolletage e dcollet. Para Penelope, fora cmico ver o quanto Elizabeth se
     esforava para provar que era bem-comportada, pois ela nunca se preocupava
     demais com nada e pouco se importava com sua imagem de senhorita de classe.
            O que era muito bom, pois Penelope no era considerada uma senhorita de
     classe, ao menos pelos membros das velhas famlias holandesas de Manhattan,
     como a me de Elizabeth, que mesmo assim estava ali se deleitando com os luxos
     da festa dos Hayes. Penelope no pde deixar de pensar que o salo deles era
     muito maior e mais suntuoso que o dos Holland. Eles viviam numa velha manso
     no muito bonita em Gramercy Park, com uma fachada marrom sem graa e
     cmodos dispostos em fileiras perfeitas. E aquela parte da cidade nem estava
     mais na moda.
            Penelope poderia ter se sentido mal por Liz e pelo fato de que ela ainda
     vivia numa parte medocre da cidade enquanto a famlia Hayes se mudara para a
     Quinta Avenida, onde estavam todas as novas manses mais elegantes. Mas ela
     sabia muito bem que a sra. Holland estava sempre se referindo aos Hayes como
     novos-ricos. O que era uma grande injustia. Era verdade que a fortuna da
     famlia comeara a crescer quando o av de Penelope, Ogden Hazmat Jr., deixara
     de ser alfaiate e passara a vender cobertores de algodo para o exercito da Unio
     pelo preo da l. Mas, desde que ele fora prea Nova York, mudara de nome e
     comprara uma casa na Washington Square de uns membros falidos da famlia
     Rhinelander, o cl dos Hayes se entrincheirara na alta sociedade.
            E agora haviam deixado a Washington Square para trs para sempre e ido
     viver na nica residncia particular de Nova York que tinha trs elevadores e
     uma piscina abaixo do nvel da rua. Os Hayes haviam chegado e, para provar
     isso, ali estava aquela manso. Ou o palazzo, como sempre dizia a me de
     Penelope, deixando-a profundamente irritada.
            -- Voc fez um bom trabalho hoje, Isaac - elogiou ela, dando um largo
     sorriso de orgulho.
            As mulheres muitas vezes desdenhavam da beleza de Penelope, dizendo
     que a nica coisa bonita em seu rosto era a boca. Mas as fofoqueiras estavam
     erradas: seus lbios no eram mais impressionantes que seus imensos olhos
     azuis, capazes de demonstrar inocncia ou desprezo em igual medida.
            -- Foi tudo para voc - respondeu Isaac.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DL
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           Ele falou com um sotaque britnico que adquirira h pouco tempo, pois
     andava sofrendo de anglomania. Como o parentesco de Isaac no era
     completamente reconhecido pela famlia Buck, ele precisava trabalhar para viver
     e se tornara um profissional indispensvel para anfitris como a sra. Hayes. Sabia
     onde conseguir as flores mais frescas da cidade e onde encontrar belos rapazes
     que gostavam de danar e sabiam agradar as senhoritas, embora no fossem
     exatamente os meninos com quem elas deveriam pensar em se casar. Sabia como
     gritar com os cozinheiros para que eles deixassem a carne no ponto exato. Os
     gritos de Isaac no eram agradveis, mas as festas que ele dava eram
     maravilhosas.
           -- Preciso confessar que todos esto muito bonitos hoje - continuou Isaac,
     com ar entediado. - Meu esforo no foi todo em vo. S para ver as jias j teria
     valido a pena. Seria possvel comprar a ilha de Manhattan com essas jias.
           -- Tem razo - concordou Penelope. - Mas eu sempre me espanto em ver
     como pessoas to feias conseguem se cobrir com tantas coisinhas brilhantes.
           -- Voc deve estar se referindo a Agnes, e ela no tem muitas coisinhas
     brilhantes. Acho que ela esta fantasiada de cowgirl e, se voc perguntasse a seu
     costureiro, ele diria que a roupa  feita de camura.
           -- Muito engraado, voc sabe muito bem que Agnes no tem um
     costureiro, Isaac - disse Penelope, sorrindo. - E Amos Vreewold de toureiro?
     Pelo amor de Deus - concluiu ela, virando-se para o amigo com uma sobrancelha
     levantada.
           -- Seja bondosa. No  todo homem que fica elegante de cala justa.
           -- Veja, ali est Teddy Cutting! - exclamou Penelope, interrompendo a
     crtica s fantasias.
           Teddy, que tinha cabelo loiro, olhos azuis brilhantes e uma fortuna feita no
     ramo da navegao que herdara do pai, era exatamente o tipo de rapaz com quem
     Penelope vinha flertando desde que fora apresentada para a sociedade, h dois
     anos. Teddy gostava de Elizabeth Holland, e esse era o verdadeiro motivo pelo
     qual Penelope sempre fazia questo de danar com ele. Ela observou as mulheres
     com suas enormes saias engomadas e mangas bufantes rodeando Teddy, que fez
     uma galante mesura e comeou a beijar as mos enluvadas que lhe eram
     oferecidas.
           -- Teddy est uma delcia - disse Isaac, colocando uma das mos no
     queixo. - ele est vestido de nobre francs como todo mundo, mas sua fantasia
     est entre as melhores.
           -- No est mal.
           Penelope disse isso com indiferena, pois estava interessada em outra coisa:
     onde quer que Teddy fosse, sempre havia uma certa pessoa ainda melhor logo
     atrs dele. Ela estalou os dedos para um dos garons que passavam por ali,
     amassando o bilhete que estava segurando e jogando-o dentro de sua taa vazia
     de champanhe. Ento colocou a taa na bandeja sem olhar para o empregado e
     pegou outras duas, cheias at a borda.
           Foi neste momento que Henry Schoonmaker surgiu na entrada do salo de
     baile e todo o resto do mundo pareceu desaparecer. Penelope permaneceu imvel
     e ereta, embora seu corao estivesse batendo forte e seu rosto formigasse de
     impacincia. Henry Schoonmaker se destacava mesmo entre as pessoas mais


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  EC
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     ricas e elegantes da cidade, pois era muito belo e muito imoral ao mesmo tempo.
     Ele foi para o lado de seu amigo Teddy e tambm comeou a beijar o turbilho
     de mos estendidas  sua volta, fazendo Penelope revirar os olhos.
           Henry sempre parecia gozar de bom humor e de boa sade, o que acorria
     em parte devido a seu gosto por esportes e em parte devido ao drinque que
     sempre segurava. Mesmo para Penelope, que estava no extremo oposto do maior
     salo de baile privado de Nova York, era evidente que no havia qualquer
     imperfeio em sua pele bronzeada. Ele tinha ombros largos de um general e as
     maas do rosto de um aristocrata, e sua boca em geral mostrava um sorrisinho
     zombeteiro. Assim como Elizabeth Holland, Henry fazia parte de uma das mais
     antigas famlia da cidade, mas ele se preocupava muito menos em se comportar
     bem.
           -- Eu teria vergonha de ser uma daquelas meninas - disse Penelope,
     referindo-se a suas primas e amigas que rodeavam os rapazes.
           Ela passou os dedos por seus cabelos negros, que estavam partidos no meio
     e desciam at sua nuca, fazendo uma moldura para seu rosto oval. Enfeites de
     prata cheios de filigranas se abriam em leques atrs de sua cabea.
           -- Creio que vou resgatar nosso amigo das garras delas - completou, como
     se aquilo houvesse acabado de lhe ocorrer.
           Ento ela apanhou os metros e mais metros de crepe da China vermelho que
     cobriam suas pernas e comeou a descer vagarosamente a escadaria de mrmore.
           -- Isaac - disse ela aps ter descido alguns degraus, voltando-se para
     encar-lo com um olhar muito intenso -, esse  o homem com quem eu vou me
     casar.
           Isaac levantou a taa de champanhe e Penelope deu um sorriso, radiante
     com sua declarao. Como ela podia falhar, se tinha toda a astcia de Isaac
     Phillips Buck a seu servio? Penelope voltou a descer a escada e em poucos
     segundos estava no salo. Um silncio reverente se fez  sua volta, conforme os
     rostos da multido se voltaram para observ-la. Por entre todos os vestidos de
     cetim branco e as perucas francesas, sua fantasia vermelha lhe dava ainda mais
     destaque que o normal. Ela atravessou o grupo de meninas que criticara do
     mezanino e viu-se de frente para Henry Schoonmaker.
           -- Quem deixou voc entrar? - perguntou ela, sem sorrir e colocando as
     mos nos quadris. - No est fantasiado. O convite dizia claramente que essa 
     uma festa  fantasia.
           Henry virou-se para ela com um sorriso casual, sem nem se incomodar em
     fingir que estava examinando seu fraque negro.
           -- Eu errei, Srta. Penelope? No tenho mais tempo de ler minha
     correspondncia, mas um passarinho me contou que a senhorita ia dar um baile
     hoje  noite.
           As mulheres de Nova York diziam que Henry sempre dava um dinheiro
     adiantado para os msicos da cidade, pois muitas vezes eles comeavam a tocar
     uma valsa exatamente quando ele precisava terminar uma conversa. Foi o que a
     banda fez nesse momento, e Henry abaixou a cabea na direo de Penelope. Ela
     no conseguiu impedir que os cantos de sua boca se erguessem num quase
     sorriso. Henry manteve os olhos pregados nela enquanto a levava pro meio do
     salo, at que eles comearam a danar.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  ED
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           Por alguns segundos todos em volta apenas observaram, hipnotizados pela
     leveza do casal que cruzava o salo. Mas Penelope sabia muito bem como fazer
     suas primas e amigas morrerem de cimes, e ela no tinham capacidade de
     permanecer imveis quando estavam to incomodadas. Logo, casais menos
     exuberantes comearam a valsar tambm, ate que o mrmore xadrez do cho
     quase desapareceu sob as amplas saias das damas e os ps negros e geis de seus
     parceiros.
           Muita gente ainda estava olhando para a danarina espanhola e para o
     elegante cavalheiro com quem ela danava. Penelope sentiu todos os olhares
     sobre eles dois e por isso falou baixinho:
           -- Por que voc me mandou aquele bilhete? - perguntou ela, virando a
     cabea um pouco para o lado conforme Henry a rodopiava pelo salo.
           -- Gosto de provocar voc - respondeu ele - Assim, sabia que ia ficar ainda
     mais feliz de me ver.
           Penelope pesou essas palavras por um momento, mas algo nos olhos
     castanhos-escuros de Henry lhe dizia que ele estava contando uma meia-verdade.
           -- Voc estava em outro lugar antes de vir para c, no estava?
           -- Por que voc pensaria isso? - replicou Henry, sem demonstrar qualquer
     preocupao. - Passei o dia inteiro esperando por esse exato momento.
           -- Voc mente muito bem. Mas sabia que no ia conseguir deixar de vir.
           Henry encarou-a, divertido, mas no respondeu. Apenas pressionou a Mao
     contra sua saia, um pouco abaixo de onde ficava sua lombar e continuou a valsar
     com ela por entre a multido. Naquele instante, Penelope sentiu que todos sabiam
     que havia um romance entre eles dois e que todas as meninas menos importantes
     estavam enxugando os olhos com seus lenos ao pensar que Henry Schoonmaker
     logo iria se casar. A musica lhe pareceu triunfal, como se estivesse sendo tocada
     apenas para ela. Penelope podia ter passado o resto da vida ali, danando com
     ele. Mas a figura corpulenta do pai de Henry surgiu no salo, impedindo-o de
     continuar.
           -- Perdoe-me, Srta. Penelope - disse o sr. Schoonmaker firmemente, sem
     parecer estar se desculpando de fato.
           Os outros danarinos continuaram, mas Penelope viu-se horrivelmente
     paralisada no centro de tudo, com sua grande performance cortada ao meio por
     essa gigantesca e odiosa presena paterna. Ela sentiu um de seus acessos de fria
     chegando, mas conseguiu control-lo. Os outros pares estavam fingindo no
     perceber o que se desenrolava diante de seus olhos, mas sem muito sucesso.
     Penlope se perguntou se Elizabeth estava vendo tudo. Ela queria revelar seu
     namoro secreto para a amiga com o mximo de drama, mas aquela cena no
     estava ajudando em nada.
           -- Vou precisar ir embora com Henry.  um assunto urgente e eu lamento
     muito, mas vamos ter que partir agora mesmo.
           O instinto fez com que Penelope sorrisse, apesar de estar arrasada, e ela
     inclinou um pouco a cabea.
           --  claro.
           Penelope nada mais pde fazer alm de ficar parada no meio daquele salo
     de propores picas, vendo seu futuro marido desaparecer por entre aqueles



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  EE
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     outros seres ordinrios. E, embora todos ainda danassem, Penelope soube que,
     para ela, a festa acabara.




                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                              cz|t  EF
                     http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057



                                    dt
                      ESSE DOCUMENTO ATESTA QUE EU, WLLLIAM SACKHOUSE
                      SCHOONMAKER, DEIXO TODOS OS MEUS BENS, CONFORME
                        LISTADOS ABAIXO, INCLUINDO NEGCIOS, IMVEIS E
                                  PROPRIEDADES PESSOAIS PARA
                                 ______________________.




          [                 enry Schoonmaker fingiu examinar o pedao de papel por
                            mais alguns segundos e ento fez o que sempre fazia
                            quando achava algo srio ou enfadonho demais para tentar
     compreender. Ele abriu seus lbios finos, revelou seus dentes brancos e perfeitos
     e deu uma gargalhada.
           -- Que coisa mais mrbida, pai. Ns samos de uma festa por causa disso?
           O pai de Henry encarou-o gravemente. William Schoonmaker, que no
     momento vestia um terno preto, era um homem grandalho, de costeletas, olhos
     pequenos acostumados a intimidar quem encaravam e cabelos negros pintados.
     Como tinha acessos de raiva freqentes, sua pele era repleta de placas vermelhas,
     e seu bigode fazia duas curvas por sobre seu queixo rosado. Mas tambm era
     possvel discernir nele as feies belas e aristocrticas que passara para o filho.
           -- Tudo  uma festa para voc - disse ele. Henry soube que a parte mais
     desagradvel da personalidade de seu pai ia emergir agora: era a parte que ele
     reservava para quando estava em sua prpria casa ou escritrio. Henry fora
     criado por uma governanta e, por isso, seu pai sempre fora uma figura distante e
     formidvel para ele, marchando pela casa com um exrcito de criados em volta,
     fazendo gestos obsequosos em tentativas vs de agrad-lo.
           Henry empurrou o pedao de papel para o outro lado da mesa de nogueira,
     na direo de seu pai e de sua madrasta Isabelle, e desejou que no lhe
     incomodassem mais com aquilo pelo resto da noite. Isabelle sorriu como se
     pedisse desculpa e revirou os olhos discretamente. Ela tinha vinte e cinco anos -
     apenas cinco a mais do que Henry. Os dois haviam danado muitas vezes em
     festas antes de Isabelle se casar com o mais rico e poderoso dos Schoonmaker.
     Era um pouco estranho para Henry v-la em sua casa. Ela ainda se parecia com a
     Isabelle De Ford que ele conhecera e com quem sempre podia contar para um
     flertezinho e algumas boas risadas. Isabelle provavelmente se casara com
     William Schoonmaker apenas pelo dinheiro, mas Henry ainda sentia um orgulho
     secreto do pai por ele ter conseguido conquist-la.
           -- Voc no devia ser to severo com Henry - disse Isabelle com sua
     vozinha aguda e infantil, tirando um cacho de cabelo louro que havia cado sobre
     seu rosto.



                        Zwuxx
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           -- Cale a boca -- respondeu o sr. Schoonmaker rispidamente, sem mesmo
     se virar e olhar para ela.
           Isabelle fez uma expresso triste e continuou a brincar com seu cabelo.
           -- Vocs dois, parem de fazer essas caras de imbecis. Henry, pegue um
     drinque para voc.
           Henry no gostava de obedecer a nenhuma ordem do pai e, de qualquer
     maneira, eles dois se evitavam tanto que as oportunidades para faz-lo eram
     escassas. Mas William Schoonmaker tinha o ar distante de todos os homens
     muito poderosos e parte de Henry ansiava por receber a ateno e a aprovao
     dele. Alm disso, nesse momento em particular, Henry escolheu fazer o que ele
     mandara simplesmente porque o que mais queria no mundo era um drinque.
     Atravessou o cmodo, pegou uma das garrafas de vidro lapidado que havia no
     aparador e colocou usque num copo.
           A sala estava tomada pela fumaa de charuto que sempre rodeava o sr.
     Schoonmaker. As paredes e o teto eram de madeira trabalhada e, embora fossem
     cheias de detalhes, j eram to familiares para Henry que ele mal as via. Era em
     lugares como aquele que se faziam grandes negcios, pensou Henry com certo
     espanto. Sua vida era to repleta de alegria que aquela atmosfera sria lhe parecia
     inteiramente estranha. Aquela noite ele jantara no Delmonicos, na rua 44, fora
     para um daqueles bares no centro da cidade onde se podia ouvir boa msica e
     danar com meninas da classe trabalhadora, e finalmente se dirigira para a festa
     grandiosa de Penelope. Agora, sentiu um prazer perverso por estar ligeiramente
     bbado no meio da decorao sisuda do escritrio de seu pai.
           O sr. Schoonmaker se remexeu em sua poltrona, e sua jovem esposa soltou
     um bocejo.
           -- Fale-me de Penelope - disse abruptamente o pai de Henry.
           Henry cheirou seu drinque e examinou seu reflexo no espelho de uma das
     paredes. Ele tinha a barba benfeita e o rosto fino de um homem que se dedicava a
     no fazer nada, e seus cabelos negros, repletos de brihantina, estavam partidos
     para a direita.
           -- Est falando da Penelope? -- perguntou Henry, surpreso.
           Embora no estivesse nem um pouco inclinado a discutir seus romances
     com o pai, aquele era um assunto um pouco mais agradvel do que testamentos.
           -- Sim - insistiu o sr. Schoonmaker.
           -- Todo mundo acha que ela  uma das mulheres mais bonitas de sua
     gerao.
           Henry pensou em Penelope, com seus olhos gigantescos e seu vestido
     vermelho dramtico, cujo objetivo parecia ser no apenas seduzir a todos, mas
     tambm amedront-los. Ele sabia que Penelope, no fundo, no era nada
     assustadora e sabia muito bem como se divertir com ela. Henry desejou estar de
     volta ao baile, girando o corpo perfeito de Penelope pelo salo.
           -- E quanto a voc? O que voc pensa dela? - perguntou o sr.
     Schoonmaker.
           -- Gosto muito de sua companhia.
           Henry bebericou o usque e sentiu com prazer o calor e o formigamento em
     seus lbios.
           -- Ento quer... se casar com ela?


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           Henry no pde deixar de soltar uma risada. Ele viu que Isabelle estava
     encarando-o e soube que agora ela no estava pensando como sua madrasta, mas
     como todas as outras jovens de Nova York, que se perguntavam quando e com
     quem Henry Schoonmaker se casaria. Henry acendeu um cigarro e balanou a
     cabea.
           -- Ainda no conheci nenhuma mulher em quem poderia pensar com tanta
     seriedade, senhor. O senhor muitas vezes j disse que eu no penso seriamente
     sobre nada.
           -- Portanto, Penelope no  uma mulher que voc v como sua futura
     esposa - confirmou o sr. Schoonmaker, fixando seus olhos ferozes em Henry.
           Henry deu de ombros, lembrando-se do ms de abril, quando Penelope
     estivera hospedada com a famlia num hotel na Quinta Avenida. Os Hayes
     haviam deixado sua velha casa na Washington Square e a nova manso ainda no
     estava pronta. Embora Henry mal a conhecesse na poca, Penelope o convidara a
     subir na sute que ocupava sozinha e o recebera usando apenas uma meia-cala e
     um chemise.
           -- No, pai. Acho que no.
           -- Mas a maneira como vocs estavam danando... - comeou o sr.
     Schoonmaker antes de se interromper. - Deixe para l. J que no quer se casar
     com ela, muito bem. timo.
           Ele bateu uma das mos na outra, ficou de p e rodeou a mesa, postando sua
     imensa figura diante de Henry.
           -- E quem voc acha que daria uma boa esposa?
           -- Para mim? -- perguntou Henry, esforando-se para no rir.
           -- , seu vagabundo imprestvel! - exclamou o sr. Schoonmaker, sem
     qualquer vestgio de seu momentneo bom humor.
           A famosa raiva dos Schoonmaker fora um trao que Henry tivera na
     infncia, quando se comportava mal e quebrava seus brinquedos com a mesma
     fria do pai. William Schoonmaker sentou-se pesadamente na poltrona de couro
     macia que ficava ao lado da de Henry.
           -- Voc no acha que estou perguntando sobre seus casinhos por mera
     curiosidade, acha?
           -- No, senhor -- respondeu Henry, piscando os olhos repetidas vezes.
           -- Ento  mais inteligente do que eu imaginava.
           -- Obrigado, senhor - disse Henry seriamente, desejando que sua voz no
     ficasse to fraca em momentos como aquele.
           -- Henry, eu creio que a maneira imoral como voc leva sua vida 
     ofensiva -- disse o sr. Schoonmaker, arrastando a poltrona pelo cho de madeira,
     ficando de p mais uma vez e indo de novo para o outro lado da mesa. - E no
     sou o nico.
           -- Lamento muito, pai. Mas a vida  minha, no sua. Nem de mais
     ningum.
           A voz de Henry recobrara seu vigor, e ele estava se forando a manter os
     olhos fixos no pai.
           -- Isso no  verdade. Pois  graas ao meu dinheiro, que eu herdei, 
     verdade, mas que multipliquei com o fruto do meu trabalho, que voc leva a vida
     que leva.


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           -- Est ameaando me deixar pobre?
           Henry olhou para o testamento que estava sobre a mesa enquanto acendia
     um novo cigarro no que acabara de fumar. Tentou parecer indiferente ao dar uma
     baforada, mas s de dizer "pobre" tivera uma sensao desagradvel no
     estmago. Ele sempre achara a palavra repulsiva. Durante seu primeiro semestre
     em Harvard, Henry cupara a mesma sute que um bolsista chamado Timothy
     Marfield. Mais tarde, descobrira que fora seu pai quem havia escolhido seu
     colega de quarto, achando que, ao conhecer algum menos favorecido, Henry se
     tornaria uma pessoa mais responsvel. O pai de Timothy trabalhava doze horas
     por dia num banco de Boston para pagar a mensalidade do filho. Henry gostara
     de Tim, que conhecia todos os melhores bares de Boston. Mas aquela tinha sido a
     primeira vez que Henry se dera conta de que muita gente no fazia outra coisa
     alm de trabalhar, e a idia ainda o assombrava.
           -- No exatamente. A pobreza no combina com os Schoonmaker. Gostaria
     de sugerir uma alternativa. Algo que, creio, voc vai considerar mais palatvel do
     que uma conta zerada no banco - disse o sr. Schoonmaker, abaixando a cabea e
     olhando nos olhos do filho. - Um casamento.
           -- O senhor quer que eu me case?
           Henry sentiu vontade de cair na gargalhada. Ele era a pessoa menos
     indicada para casar que havia em Nova York, e at aquelas colunistas sociais
     bajuladoras sabiam disso. Tentou imaginar uma menina com quem de fato
     quisesse desfilar pelos jardins da cidade de Newport, onde toda a alta sociedade
     de Nova York passava o vero, ou pelos deques dos navios luxuosos at o fim da
     vida, mas no conseguiu.
           -- Voc no est falando srio - disse ele, finalmente.
           --  claro que estou.
           -- Ah - Henry balanou a cabea vagarosamente, tentando fingir que estava
     pensando na proposta de seu pai. - Seria preciso procurar bastante,  claro, at
     encontrar uma menina digna de entrar para nossa famlia...
           -- Cale a boca, Henry.
           O sr. Schoonmaker se aproximou de sua jovem esposa e colocou suas
     imensas mos nos ombros dela. Isabelle deu um sorriso desconfortvel.
           -- Eu j tenho uma garota em mente.
           -- O qu? - exclamou Henry, sentindo toda sua calma evaporar.
           -- Uma menina que tem classe, sofisticao e que vem de uma boa famlia.
     A imprensa a adora e vai gostar de ver vocs dois casados. Ela certamente 
     digna de entrar para a famlia, Henry. Algum que ser visto como um modelo de
     boa-educao. Estou falando de...
           -- Por que voc est se preocupando com isso? - perguntou Henry.
           Ele ficara de p, e estava furioso. Isabelle soltou um rudo de medo ao ver
     os dois homens se encarando daquela maneira.
           -- Por qu? - rugiu o sr. Schoonmaker, rodeando a mesa. - Por qu? Porque
     tenho ambies, Henry, ao contrrio de voc. Voc no parece compreender que
     cada gesto que faz  relatado nas colunas sociais. E as pessoas com quem eu me
     importo lem essas coisas idiotas e falam sobre o que leram. Voc nos cobre de
     ridculo. Largou a faculdade e agora anda pela cidade fazendo... cada vez que
     voc abre a boca, mancha o nome da nossa famlia.


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           -- Isso no responde  minha pergunta.
           Parecia-lhe que seu pai, com seu temperamento explosivo e famoso amor
     pelo dinheiro, j realizara muitas das suas ambies. Ela fundara uma companhia
     ferroviria e a transformara num negcio extremamente lucrativo, usara os
     prdios residenciais cronstrudos nas terras herdadas da sua famlia da forma que
     quisera, casara-se com duas beldades da sociedade e sobrevivera a uma delas.
           -- Ainda no entendi, pai - continuou Henry. - O que voc quer?
           Isabelle colocou seus pequenos cotovelos em cima da mesa e disse
     animadamente:
           -- William quer um cargo pblico!
           -- O qu? - disse Henry, incapaz de esconder sua incredulidade. - Qual
     cargo?
           Seu pai parecia estar levemente constrangido com a revelao e aquilo
     aliviou um pouco a tenso da sala.
           -- Eu estive conversando com o governador, e ele me garantiu que...
           O sr. Schoonmaker se interrompeu e deu de ombros. Henry sabia que seu
     pai era amigo e rival do governador Theodore Rooseveit h muitos anos e
     assentiu com a cabea, indicando que ele podia continuar.
           -- Admiro um homem que decide servir  comunidade - enunciou o sr.
     Schoonmaker com uma voz profunda e imponente - Quem disse que a classe
     nobre no deve se envolver com poltica?  nossa obrigao. Um homem no 
     nada se no puder governar o mundo em que vive e deix-lo melhor do que o
     encontrou...
           -- No precisa fazer o discurso para mim - interrompeu Henry, revirando os
     olhos, furioso com sua falta de sorte. - Qual cargo?
           -- Primeiro o de prefeito e depois...
           -- depois qualquer coisa pode acontecer! - disse Isabelle. - Se ele virar
     presidente, eu vou ser a primeira-dama!
           -- Parabns, senhor - disse Henry, sentando-se desanimado.
           -- Por isso voc no pode mais me constranger dessa maneira. No quero
     mais ver os jornais chamando voc de selvagem. Chega dessa vergonha pblica.
     Por isso  que voc precisa se casar com uma menina de famlia. No com uma
     Penelope. Com uma menina de moral, de quem os eleitores vo gostar. Uma
     menina que vai faz-lo parecer respeitvel. Uma menina...
           Henry viu seu pai apoiar o quadril na mesa e fingir que acabara de ter uma
     idia.
           -- Uma menina como Elizabeth Holland, por exemplo.
           -- O qu? -- perguntou Henry, perdendo de vez a pacincia.
           Ele conhecia a mais velha das irms Holland,  claro, mas a ltima vez que
     conversara com ela fora antes de ir para Harvard, quando Elizabeth era muito
     jovem e ainda um pouco desajeitada. Ela possua uma beleza impecvel, era
     verdade, com aquele cabelo louro-acinzentado e sua boquinha redonda, mas
     obviamente era um deles. Seguia todas as regras, jamais deixava de comparecer
     ao ch da tarde, mandava carteznhos elegantes em todas as ocasies.
           -- Elizabeth Holland  comportada demais.
           -- Exatamente - disse o sr. Schoonmaker, batendo com o punho na mesa e
     fazendo ondas no usque de Henry.


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           Henry no disse nada, mas sabia que seu rosto estava distorcido por uma
     expresso que misturava fria e espanto. Seu pai no poderia ter sugerido uma
     pessoa pior para ser sua esposa. Seria a mesma coisa que mandar o prprio filho
     para a priso. Ele imaginou a vida cheia de luxo e silncio que levaria e j a viu
     estendida  sua frente como os gramados sempre bem cuidados sobre os quais as
     matronas de alta classe davam festas narcolpticas, em lugares como Tuxedo
     Park ou Newport e tantos outros.
           -- Henry, sei muito bem no que est pensando, e quero que pare agora -
     disse o sr. Schoonmaker, pegando o testamento que estava sobre a mesa e
     sacudindo-o no ar. - Quero que se case e se torne um homem respeitvel. Vai ter
     de se livrar dessa Penelope. Estou lhe dando uma oportunidade aqui, Henry. Mas,
     se voc me contrariar, cada alfinete que eu tenho vai ser passado para Isabelle.
     Vou lhe deserdar de forma rpida e muito pblica.
           Pensar em usar roupas velhas, rodear-se de mveis marrons e ver seus
     dentes apodrecerem fez com que Henry se sentisse subitamente, horrivelmente
     sbrio, e seu olhar pousou sobre as garrafas do aparador. Por um segundo,
     desejou poder voltar a Harvard. Todas aquelas aulas tinham lhe parecido uma
     bobagem quando estudara l, mas agora via que a faculdade poderia ter lhe dado
     meios de vencer sozinho e no precisar mais temer as ameaas do pai.
     Infelizmente, j era tarde demais.
           Como Henry se comportara muito mal e tirara notas pssimas quando
     estivera na faculdade, jamais poderia voltar para l sem a ajuda do pai. Ele olhou
     para as garrafas cheias de lquido mbar e soube que a nica rota para a
     independncia que lhe restara era uma vida de tdio mortal ao lado de Elizabeth
     Holland.




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                                     V|v
                     A criada ideal para uma mulher de classe se
                     levanta antes de sua senhora, trazendo-lhe gua
                     morna para que ela lave o rosto, e no vai se
                     deitar at t-la preparado para ir para a cama.
                     Talvez seja necessrio que a criada durma um
                     pouco durante o dia, quando seus servios no
                     forem requisitados.

     GUIA VAN KAMP DE ADMINISTRAO DA CASA PARA DAMAS DE ALTA SOCIEDADE,
     EDIO DE 1899




          _             ina Broud tirou os cotovelos do parapeito da janela e colocou-
                        os sobre ele de novo, observando a escurido tranqila que
                        rodeava o Gramercy Park. Ela estava sentada h muitas horas
     naquela posio, no quarto onde, mais cedo, vestira a primognita das Holland
     com camadas e mais camadas de seda, popelina, barbatanas de baleia e ao. Ela
     agora era a Srta. Elizabeth - no mais Lizzie, como fora chamada por Lina
     durante a infncia das duas, ou Liz, corno ainda era chamada por Diana - mas a
     srta. Elizabeth, segunda mulher mais importante da casa. Lina no estava ansiosa
     por sua volta. Elizabeth passara tantos meses fora que sua criada pessoal quase se
     esquecera de como era servir algum. Contudo, desde o primeiro segundo em que
     entrara em casa naquela manh, ela deixara claro para Lina exatamente o que era
     esperado dela.
           Lina tensionou os ombros e deixou-os pender. Ela no era como Claire, sua
     irm mais velha, uma pessoa muito mais afvel que se contentava em ler a ltima
     edio da revista de fofocas Cit Chatter no minsculo quarto que elas duas
     dividiam no sto da casa, observando desenhos de vestidos lindos de Charles
     Worth que jamais usaria. Claire tinha vinte e um anos, quatro a mais do que Lina,
     mas agia como se fosse me dela. E, como a me das duas estava morta h
     tempos, de certa forma era mesmo. Mas Claire tambm tinha algo de infantil,
     pois ficava imensamente grata por qualquer bugiganga que os Holland lhe
     dessem. Lina no conseguia se sentir assim.
           Lina estava, como sempre, usando um vestido preto simples de linho,
     decote canoa e cintura baixa e deselegante. Ela se virou para observar o luxo do
     quarto de Elizabeth: papel de parede azul-claro, uma enorme cama de mogno,
     uma banheira prateada que recebia gua quente encanada e penias em vasos de
     porcelana cujo perfume tomava conta da atmosfera. Desde que Elizabeth fora
     apresentada formalmente  sociedade, ela passara a se considerar uma
     especialista em decorao de interiores e, se algum lhe perguntasse,
     provavelmente diria que os cmodos da casa dos Holland eram muito modestos.


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     E talvez fossem mesmo, se comparados com as ridculas manses dos
     milionrios que moravam na Quinta Avenida. Lina olhou para um quadro
     holands de moldura dourada que mostrava uma adorvel cena domstica e
     pensou que Elizabeth no fazia idia dos privilgios extraordinrios que tinha.
           Mas Lina no odiava Elizabeth. No conseguia odi-la, por mais que suas
     roupas chiques e sua maneira pomposa de agir houvessem distanciado as duas.
     Elizabeth sempre fora um modelo para Lina, um lampejo de esperana de que sua
     vida no fosse sempre to sem graa. E tinha sido Elizabeth quem convencera
     Lina, certa noite, h dez anos, de que elas precisavam descer at o galpo onde
     ficavam as carruagens para descobrir quem estava chorando no meio da noite.
     Lina sentira medo, mas Elizabeth insistira. E fora assim que Lina se apaixonara
     por Will Keller, que j era lindo naquela poca.
           Will ficara rfo aos oito anos de idade quando o prdio em que morava
     fora consumido por um daqueles incndios que aconteciam de vez em quando,
     levando as vidas de adultos e crianas. Ele fora morar na casa dos patres de seu
     pai, pagando o abrigo com trabalho apesar de ser to pequeno, e chorava quando
     sonhava com incndios. Mas isso deixou de ser importante naquela noite, pois
     Will parou de ter aqueles pesadelos quando ficou amigo de Lina e de Elizabeth.
            claro que eles j eram tratados de forma diferente, mesmo naquela poca.
     Mas ainda eram todos crianas, todos banidos das festas e jantares dos adultos.
     Durante o dia, ficavam sob os cuidados da me de Lina, Marie Broud, que fora a
     bab de Elizabeth e Diana e os considerava todos iguais. Ela sempre brigava com
     Will e com Elizabeth usando o mesmo tom de voz para ambos, pois os dois
     estavam o tempo todo fazendo alguma travessura. Claire era tmida demais para
     participar das brincadeiras e Diana ainda era muito pequena. Mas Lina sempre
     correra atrs de Will e de Elizabeth, desesperada para ser includa. A noite, eles
     se esgueiravam pela casa, rindo dos retratos imponentes dos antepassados de
     Elizabeth, roubando acar da cozinha e botes de prata da sala de costura. Eles
     roubavam o baralho do sr. Holland, aquele que tinha desenhos de mulheres s de
     roupa de baixo, e faziam caretas para elas. Eram amigos de verdade naquela
     poca, antes de o esnobismo de Elizabeth crescer e ela parar de ter tempo para
     seus velhos companheiros.
           Lina no sabia bem quando tudo tinha mudado. Talvez na poca em que sua
     me morrera, quando Elizabeth comeara a ter aulas de boas maneiras com a sra.
     Bertrand. Lina estava com quase onze anos quando isso acontecera, e tinha o
     corpo desajeitado e uma vontade enorme de detestar tudo o que via. No gostava
     de lembrar daquela poca. Elizabeth, que era pouco menos de um ano mais velha
     do que ela, subitamente fora absorta por suas aulas, nas quais aprendia qual era o
     jeito correto de segurar uma xcara de ch e quando era o momento exato de
     retornar uma visita feita por uma amiga casada. Cada gesto dela parecia
     calculado para mostrar a Lina que as duas no eram da mesma esfera, que no
     eram mais amigas. E que Elizabeth era como aquelas meninas sobre as quais
     Claire lia nas revistas de fofocas.
           Durante anos a existncia de Lina fora silenciosa e solitria, embora ela
     servisse Elizabeth o dia inteiro e a noite inteira e dividisse um quarto com sua
     irm e com as outras jovens que trabalhavam na casa dos Holland. Sua timidez a
     impedira de continuar amiga de Will sem a presena de Elizabeth. Por isso, Lina


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     observara Will de longe, enquanto ele ia ficando cada vez mais alto e mais
     bonito. Ele tambm tinha passado por pocas difceis - Lina ouvira a governanta,
     que se chamava sra. Faber, falando de suas bebedeiras e das brigas em que se
     metia, e se perguntara por que seu corao era to inquieto. Fora apenas naquele
     vero, quando Elizabeth viajara e Lina ficara gloriosamente livre de seus
     afazeres, que ela e Will haviam se reaproximado. Os dois fumavam cigarros
     juntos no final da tarde e riam escondidos da sra. Faber. Contavam um para o
     outro como achavam que suas vidas seriam se pudessem fazer o que quisessem.
     Lina costumava se perguntar para onde Will ia quando desaparecia. Agora sabia
     que ele no era um rapaz perigoso e que passava quase todos os minutos em que
     no estava trabalhando lendo livros. Livros sobre os excessos dos ricos, sobre a
     teoria da democracia, sobre poltica e literatura e principalmente sobre o oeste do
     pas e sobre como qualquer um que tivesse ambio e fora de vontade conseguia
     vencer naquela regio. Mas o vero j quase terminara e Lina ainda no tinha
     encontrado uma maneira de dizer a Will que queria ir para o oeste tambm.
     Queria ir com ele. Estava apaixonada por ele.
           Lina foi despertada de seus sonhos sobre Will quando o viu em pessoa, l
     embaixo. Uma das carruagens das Holland parou na frente da casa e Will pulou
     de seu assento para abrir a porta. Ela olhou para as costas dele, com ombros
     largos e torso longo, e para o X que seus suspensrios formavam. Elizabeth saiu
     primeiro e estendeu a mo para Diana que, apesar de gostar de contar vantagem,
     estava parecendo bastante cansada. Ento, Will deu o brao para a sra. Holland,
     uma figura pequena vestida de negro que saltou rapidamente para o cho. As
     mulheres da famlia Holland atravessaram a noite tranqila e pararam na frente
     da porta de sua casa. Lina ouviu Claire dando as boas-vindas a elas enquanto
     Will levava os cavalos para o estbulo.
           Ela sabia que Elizabeth logo ia subir a escadaria principal da casa, e sentiu
     uma enorme onda de rebeldia lhe crescendo no peito. Quando ela chegasse ao
     quarto, Lina teria de ajud-la a tirar a fantasia e s poderia ir se deitar quando o
     dia estivesse amanhecendo. S de imaginar a tarefa que j fizera milhares de
     vezes, mas que no precisara fazer nos ltimos meses, Lina ficou cheia de rancor.
     Ela levantou do parapeito da janela e saiu depressa do quarto de Elizabeth,
     atravessando o longo corredor acarpetado. Chegou  escada dos empregados, que
     ficava nos fundos, em poucos segundos, e desceu dois degraus de cada vez.
           A caminho da cozinha, Lina ouviu Ehzabeth, Diana e a sra. Holland
     subindo a escadaria principal. Ela se perguntou se seria punida por abandonar seu
     posto na primeira noite aps a chegada da srta. Elizabeth. Mas Lina queria contar
     a Will sobre o jeito de francesa que sua patroa adquirira durante a viagem. Queria
     v-lo rindo e saber que fora ela a causa de sua alegria. E talvez... talvez
     encontrasse uma maneira de lhe contar o que sentia. Ento, ela atravessou a
     cozinha correndo e saiu pela porta da despensa, que Elizabeth mandara instalar
     no ltimo outono para facilitar as entregas do mercado.
           Os ps de Lina tocaram o cho coberto de feno do estbulo. Will j tirara os
     arreios dos cavalos, que estavam enfileirados no cho para que ele pudesse
     limp-los antes de guard-los. Ele estava suado de tanto trabalhar, e o algodo
     pudo de sua camisa de gola azul grudava em sua pele. Suas mangas estavam



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     enroladas, deixando seus cotovelos  mostra, e os fios de cabelo que ficavam
     atrs de suas orelhas estavam molhados.
           Will deu um passo  frente, encarou Lina e ento estacou, como se
     houvesse lembrado algo.
           -- Ol - disse ele, baixinho.
           Will olhou para a porta que estava atrs de Lina e ento voltou a fixar os
     olhos nela, dando um sorriso nervoso.
           -- Voc no deveria estar l em cima, ajudando as senhoritas?
           Lina ficou parada ao lado da porta, sorrindo descontroladamente. Ela
     cruzou os braos e esperou que Will a convidasse a entrar como sempre fazia.
     Mas ele desviou o olhar e falou num tom de voz bem diferente do que usara com
     ela ao longo do vero.
           -- Voc est se arriscando muito, saindo assim no meio da noite agora que
     a srta. Liz... que a srta. Elizabeth voltou. Voc no devia. No... pode.
           Lina estremeceu de susto e o tempo pareceu passar mais devagar do que o
     normal. Will estava agindo de modo to estranho. Era como se a intimidade que
     surgira entre eles naquele vero houvesse desaparecido em um segundo, ou
     houvesse existido apenas na imaginao dela. Ela piscou os olhos, desejando que
     ele voltasse a encar-la.
           E ento, finalmente, ele o fez. Suas feies estavam tensas e no havia
     qualquer carinho em seus olhos. O cavalo que estava mais prximo dos dois se
     remexeu, balanando a cabea e batendo com a pata no cho. Alguns segundos se
     passaram, at que Will estendeu a mo e acalmou o animal.
           -- Will? - chamou Lina.
           Em sua voz havia uma splica que ela no conseguiu reprimir. Queria
     desesperadamente que ele dissesse algo para encoraj-la, alguma piada que
     dissipasse o constrangimento que estava sentindo naquele momento.
           -- Por que no podemos conversar como sempre? - perguntou ela. - As
     damas da sociedade fazem isso durante o dia enquanto bebem ch mas, como ns
     somos o que somos, s podemos conversar de madrugada...
           -- Lina - disse Will, interrompendo-a.
           Lina ficou alarmada ao ouvi-lo dizendo seu nome, coisa que nunca fazia.
     Durante o vero ele sempre a chamara por seu apelido de infncia: Liney. Will
     olhou para o cho, soltou um suspiro e, sem encar-la, aproximou-se dela. Pegou
     suas duas mos com gentileza e, por um momento, Lina achou que seu corao ia
     parar de bater. Mas ento ele empurrou-a na direo da cozinha.
           -- Desculpe, Lina - disse Will baixinho, fazendo-a subir os quatro degraus
     de madeira que davam na casa. - Hoje no. No podemos conversar hoje  noite.
           -- Por que no? - perguntou ela num sussurro.
           Will olhou para Lina. Seu cenho estava franzido e seus olhos estavam muito
     srios e mais azuis do que nunca. Ele apenas balanou a cabea, como se
     quisesse dizer que ela no compreenderia o que estava pensando.
           -- Hoje no, est bem?
           Ento, Will fechou a porta na cara de Lina, que se viu na cozinha. Ela
     estendeu a mo na escurido, procurando uma parede para se apoiar. Caiu
     sentada no cho, que cheirava a cebolas e poeira, e ficou ali, imvel, durante



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     muito tempo, sentindo-se mais sozinha do que nunca. L fora, o cu comeou a
     clarear, passando do negro fechado para um roxo escuro.
           Lina ainda estava ali sentada quando a porta da escada dos empregados se
     abriu e uma menina envolta num quimono branco de seda atravessou a cozinha.
     Ela era rpida e iridescente como um fantasma e no levantou a cabea ao passar
     por Lina.
           A menina j abrira a porta do estbulo quando Lina se deu conta de que
     aquela era Elizabeth Holland.




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                     x txxwx wx twt w x } y|A
                     TRECHO DO DIRIO DE ELIZABETH HOLLAND




          X               lizabeth, enrolada no quimono de seda branca que seu pai
                          comprara numa viagem ao Japo e dera a ela em seu
                          aniversrio de dezesseis anos, atravessou a cozinha correndo e
     saiu pela porta dos fundos. Movia-se com a determinao trmula de um desejo
     que vinha crescendo dentro dela desde o incio da noite. Ela manteve a cabea
     abaixada ao subir os quatro degraus de madeira que davam no estbulo.
           Ao entrar, Elizabeth deteve-se. O ar  sua volta estava pesado com o calor
     daquele final de vero e com as partculas de p que subiam do feno. Ela ouviu o
     som dos cavalos movendo-se gentilmente em suas baias e sentiu-se
     completamente acordada pela primeira vez naquela noite. Essas coisas - os sons
     dos animais, a noite fresca e silenciosa, o cheiro doce do feno - eram tudo que ela
     tentara esquecer durante sua temporada em Paris. Elizabeth seguiu em frente,
     sentindo o cho do estbulo com suas sapatilhas de cetim e tentando impedir que
     pedaos de feno incriminadores se agarrassem a seu quimono.
           -- Voc veio - afirmou Will, mas usou o tom de quem fazia uma pergunta.
           Ele estava sentado no compartimento onde dormia, que ficava perto do teto
     do estbulo, com as pernas penduradas para baixo. Seus cabelos, que ele tinha
     mania de colocar sem parar atrs das orelhas quando estava nervoso ou chateado,
     estavam grudentos por causa da umidade e do suor. Will, ao contrrio dos
     rapazes desejados pelas amigas de Elizabeth, tinha o nariz torto por t-lo
     quebrado numa briga, e lbios grossos e expressivos. Seus olhos eram azuis e
     tristes e ele estava numa posio familiar - a posio de quem espera.
           -- J tinha quase desistido de ver voc - acrescentou Will, escolhendo as
     palavras com cuidado para mascarar o medo que sentia.




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           Ao olhar para Will, Elizabeth sentiu-se radiante e esgotada ao mesmo
     tempo, e percebeu o quo longa a noite havia sido. O baile inteiro, os risos, as
     fantasias elaboradas pareciam ter acontecido num sonho absurdo que
     desaparecera com a chegada da manh. Elizabeth danara com muitos rapazes
     solteiros, o bastante para satisfazer sua me, e alguns deles eram menos ricos e
     mais charmosos que Percival Coddington. Ela tivera tempo de conversar com
     Penelope e elas haviam passeado de mos dadas e elogiado os vestidos uma da
     outra. Esquecera-se de perguntar a Penelope sobre seu caso secreto, o que a fez
     se dar conta de que fora uma m amiga. Mas compensaria a falta de ateno
     implorando-lhe que revelasse quem era seu namorado numa outra ocasio. As
     duas haviam concordado que a terrina estava deliciosa, quando na verdade
     estavam nervosas demais para comer direito, e haviam bebido mais champanhe
     do que pretendiam. Mas ambas consideravam champanhe irresistvel. A noite
     realmente fora longa, mas agora pareceu a Elizabeth que ela no poderia ter
     terminado em outro lugar.
           -- Desculpe... mas voc sabe que no pode sempre ficar me esperando -
     respondeu Elizabeth, finalmente.
           O que ela quis dizer, no entanto, era que pensara em Will todos os dias e
     que quase no suportara ficar longe dele. Elizabeth queria contar a ele sobre
     todos os lugares exticos que visitara, como as largas avenidas de Paris faziam
     curvas e de repente se abriam em vistas panormicas impossveis em Nova York,
     cujas ruas eram todas em linha reta. Ela queria dizer muitas coisas, mas apenas
     murmurou:
           -- No quero que voc fique me aguardando, pois s vezes posso no...
           Mas Elizabeth parou de falar quando viu que Will abaixara a cabea.
           -- Por favor, Will... - disse ela, com um pouco de desespero e sentindo seu
     peito doer ao v-lo daquela forma. - Por favor...
           Era impressionante a rapidez com que Elizabeth se ajustava ao estbulo ao
     sair de seu enorme quarto no segundo andar, a rapidez com que as inmeras
     regras que governavam sua vida tornavam-se inteis e tolas. Fazia tempo que
     tentava parar de se sentir assim. Durante os meses que passara em Paris ela
     acreditara que conseguiria, que no se importava mais com Will, que se
     transformara na dama de alta classe que nascera para ser. Mas quando Elizabeth
     desembarcara do navio naquela manh e o vira lhe esperando ao lado da
     carruagem, ela tinha percebido que Will tambm tinha crescido e visto pelo porte
     dele que no era mais um menino que se metia em brigas bobas. Havia
     determinao em cada gesto seu. E agora ali estava ela, gaguejando de nervoso,
     quase pedindo de joelhos que ele a amasse de novo, comportando-se como uma
     menina apaixonada. Era isso que ela era, no final das contas: uma menina
     apaixonada.
           Mas nem tudo isso impediu que Elizabeth se lembrasse das palavras que
     sua me dissera logo antes de ela ir danar com Percival Coddington: "A nica
     coisa que no temos  tempo". Essa frase era como um mau agouro.
           -- Voc passou tanto tempo fora - disse Will baixinho, balanando a cabea
     com tristeza.
           Elizabeth encarou-o e tentou tirar a voz de sua me da cabea.



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           --E hoje eu tive de ficar l na rua, esperando o baile acabar, sem saber o
     que voc estava fazendo l dentro, quem estava lhe tocando, quem estava...
           Will olhou bem nos olhos de Elizabeth e, com isso, no precisou dizer mais
     nada. Um dos cavalos se remexeu, batendo os cascos no feno e soltando um
     relincho.
           -- Will, eu no podia deixar de ir ao baile.
           Elizabeth arregalou os olhos, sem saber o que fazer. Ela no sabia por que
     Will precisava reclamar de coisas que ela no tinha como mudar, especialmente
     na primeira noite que passava em casa depois de todos aqueles meses. Afinal,
     Elizabeth estava arriscando tudo ao se esgueirar pela casa naquela hora e daquela
     maneira. Ser que ele no podia se contentar com o tempo que eles tinham?
           -- Estou aqui agora, Will. Olhe para mim. Estou aqui - disse ela
     suavemente, dando um passo para frente. - Eu amo voc.
           Elizabeth quase riu, de to verdadeiras que eram aquelas palavras.
           -- Fiquei imaginando voc l dentro, danando com aqueles outros homens
     - disse Will, apertando com fora a beirada de madeira do compartimento. -
     Esses caras iguais ao Henry Schoonmaker que usam ternos de cem dlares e tm
     casas no campo maiores ainda do que as casas que tm na cidade...
           Elizabeth foi at a escada que dava no compartimento e subiu dois degraus.
     A superfcie spera da madeira arranhou suas mos macias e perfeitas, mas ela
     mal percebeu. Manteve os olhos fixos em Will, enquanto seu sorriso ficava cada
     vez maior.
           -- Henry Schoonmaker? Aquele canalha? Voc deve estar brincando.
           Ela soltou sua bela risada, no conseguindo mais deixar de achar graa na
     situao.
           Elizabeth no sabia de onde vinha aquela vontade de abraar e confortar
     Will, mas, para ela, o sentimento era inescapvel como o destino. Ela nem sabia
     quando a amizade da infncia se transformara em amor, mas seja l o que fosse
     que a atraia em Will, era algo que sempre estivera presente. Elizabeth jamais
     conhecera algum to verdadeiro, to absurdamente bom. s vezes, ele chegava
     a ser rigoroso demais com o mundo, mas ela sabia como faz-lo se acalmar. Ela
     olhou para Will, inundada de amor, e viu que ele estava pronto para fazer as
     pazes. Will baixou os olhos e colocou o cabelo atrs da orelha mais uma vez.
     Ento ele levantou um pouco a cabea e encarou Elizabeth.
           -- Voc est rindo de mim, Lizzie?
           -- Eu nunca faria isso - disse ela seriamente, subindo mais um degrau da
     escada de madeira.
           Ento Will passou as pernas para cima e ficou de p, fazendo o
     compartimento tremer com suas velhas botas de couro. Ao chegar na escada ele
     se inclinou, tomou Elizabeth nos braos e trouxe-a para cima. Ele cheirava a
     cavalos, suor e sabo ordinrio - era um cheiro que Elizabeth conhecia muito
     bem, e que adorava.
           -- Estou to feliz por voc estar de volta - disse ele, sussurrando as palavras
     com a boca quase tocando o pescoo dela.
           Elizabeth fechou os olhos e no disse nada. Era to raro e to maravilhoso
     ser tocada. Ela no sabia o quanto sentira falta disso at agora.



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           -- E como foi a festa? - perguntou ele, falando no ouvido dela e fazendo-a
     se sentar nas tbuas de madeira do cho do compartimento. - Elegante ou
     animada?
           Elizabeth encostou a cabea no peito dele e tentou se lembrar de como fora
     o baile, mas s conseguiu pensar nas palavras terrveis de sua me e nos olhares
     estranhos que ela lhe lanara a noite toda. Ela pensou antes de responder e
     finalmente disse:
           -- Chata.
           Elizabeth olhou para o rosto grande e lindo de Will e desejou poder
     esquecer o baile, esquecer quem era e quais eram suas obrigaes. Ela fora at o
     estbulo porque a nica coisa que desejava era ficar perto de Will por algumas
     horas, embora isso fosse proibido pela educao que recebera.
           -- Pensei em voc a festa toda - disse ela. - Agora, ser que podemos
     mudar de assunto e nunca mais conversar sobre bailes a fantasia?
           Will sorriu e gentilmente deitou-a no colcho de molas que havia num
     canto do compartimento, abaixo das vigas de madeira onde ele pendurava suas
     roupas para secar. Elizabeth abriu seu quimono de seda. Ele debruou-se sobre
     ela, segurando seu rosto com suas mos grandes e beijando-a repetidas vezes.
     Elizabeth deu um enorme sorriso.
           -- Acho que a senhorita me ama mesmo, srta. Elizabeth - sussurrou ele.


                                           ***
           O sol j estava alto quando a luz da manha entrou por uma pequena janela.
     Uma agitao percorreu o corpo de Elizabeth, lembrando-lhe que ela no devia
     estar se sentindo to confortvel assim. Era sua segunda manh em Nova York
     aps a viagem, mas ela ainda no dormira em sua prpria cama.
           -- No que voc est pensando? - sussurrou Will, usando os cotovelos para
     se erguer.
           -- Odeio essa pergunta - disse Elizabeth, porque ela estava pensando nas
     palavras de sua me mais uma vez e sabia que acordar com Will era o oposto do
     que devia estar fazendo.
           Ela se sentou e olhou pela janelinha do estbulo, vendo a horta que havia
     nos fundos da casa.
           -- Preciso ir - afirmou, sem nenhuma convico.
           -- Por qu?
           Will colocou a mo dentro do quimono dela, pousando-a sobre seu corao.
     O toque fez com que Elizabeth se desse conta do quanto ele estava batendo
     depressa, e de que cada segundo que ela passava l a deixava mais nervosa. Lina,
     que estranhamente desaparecera na noite anterior, logo chegaria em seu quarto
     com uma xcara de chocolate quente e um copo de gua gelada e encontraria uma
     cama vazia. Elizabeth forou-se a dar um beijo rpido nos lbios macios de Will
     e a arrancar-se de seu abrao.
           -- Voc sabe por qu.




                        Zwuxx
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           Ela ficou de p, fechando seu quimono. Olhou para os cavalos que se
     remexiam nas baias l embaixo, e tentou assumir a aparncia de quem achava
     que estava tomando a deciso certa.
           -- Se minha me descobrisse que eu venho aqui... se qualquer pessoa
     descobrisse... seria o fim.
           -- Mas se a gente fosse para Montana... ou para a Califrnia... ningum ia
     se importar com o que fizssemos. Poderamos passar o dia todo na cama - disse
     Will, ficando cada vez mais entusiasmado. - E quando levantssemos,
     poderamos ir passear de cavalo, ou fazer o que quisssemos, e...
           Elizabeth j ouvira tudo aquilo antes, mas percebeu que Will pensara muito
     mais no assunto durante sua viagem. Ela gostava quando ele falava daquele jeito.
     Will era o nico menino que conhecia que olhava para o futuro e tentava
     imaginar que poderia ser melhor do que o presente. Era a pessoa mais
     assustadora, linda e complicada que ela j conhecera. Ir para longe de Nova
     York, onde eles poderiam agir como um menino e uma menina qualquer, era a
     idia mais maravilhosa que ela podia conceber. No haveria mais nenhum mal-
     entendido para mago-lo, pois ela no precisaria mais se esgueirar pela casa para
     visit-lo s quando sabia que seus outros habitantes estavam exaustos demais
     para notar.
           Elizabeth se virou, morrendo de vontade de se deixar levar por aquela
     fantasia, mas a cena que viu fez com que se calasse: ela viu Will, usando apenas
     sua cala preta puda, com o peito forte nu, apoiado apenas em um dos joelhos,
     como um homem prestes a fazer um pedido de casamento. Elizabeth j o vira
     naquela posio antes. Ela sabia o que aquilo significava.
           -- Talvez voc devesse pensar em levar uma nova vida - disse ele
     suavemente.
           Will pegou a mo dela. Elizabeth afastou-se instintivamente dele, enquanto
     seu corao voltava a bater forte. Ela olhou para as mos e desejou que seu senso
     de decoro no lhe obrigasse a fazer aquelas coisas.
           -- Volto quando puder, est bem?
           Elizabeth se forou a no olhar para o rosto de Will que, ela sabia, devia
     estar confuso e magoado. Se olhasse para ele, perceberia o quanto tinha medo de
     perd-lo. Poderia negligenciar todas as obrigaes que uma menina comportada
     como ela possua.
           Elizabeth subiu a escadinha que dava na cozinha, preparando-se para tomar
     a escada dos empregados e ir at seu quarto, onde poderia fazer o que todas as
     outras meninas de alta classe estavam fazendo: dormindo para descansar do
     primeiro baile da temporada, satisfeitas por saberem que podiam passar o dia
     todo sonhando com os vestidos que iam usar e os meninos com quem iam danar
     nos prximos meses.
           -- Bom dia, srta. Elizabeth.
           Elizabeth virou-se e viu Lina sentada na mesa pesada da cozinha onde a
     cozinheira passava seus intervalos, usando seu indefectvel vestido preto.
     Durante o tempo que Elizabeth passara em Paris, sua criada se tornara mais alta e
     magricela, enquanto as sardas espalhadas por seu nariz haviam se multiplicado.
     V-la to feia e emburrada logo no incio do dia fez com que Elizabeth tomasse
     um susto. Ela sentiu suas costas se cobrirem de suor e fechou mais o quimono


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  FL
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     para disfarar o rubor que comeava a se espalhar por suas faces. Certamente
     estava comeando a entrar em pnico e, por isso, ficou chocada com a
     tranqilidade de sua voz:
          -- Procurei voc pela casa toda. Quero meu chocolate quente. E gua
     tambm. Passei a noite toda sem ter gua para beber.
          Ento, se virou para comear a subir a escada e perguntou, conforme saa da
     cozinha:
          -- Onde voc estava na noite passada?
          Elizabeth tentou se convencer de que conseguira disfarar. Lina era mal-
     humorada demais para prestar ateno nas coisas que ela fazia. Alm do mais, ela
     no devia estar na cozinha h muito tempo.




                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  GC
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                                            fxx
                     No baile da famlia Richmond Hayes, na noite de dezesseis de
                     setembro, a jovem dona da casa foi vista danando amorosamente com
                     um certo rapaz que chamaremos de HS. Eles estavam to obviamente
                     satisfeitos com a companhia um do outro que a alta sociedade est
                     afirmando que um noivado ser anunciado em breve, embora isso no
                     tenha ocorrido at o fechamento desta edio...

     NOTA DA COLUNA SOCIAL DO JORNAL NEW YORK NEWS OF THE WORLD
     GAZETTE, SBADO, 17 DE SETEMBRO DE 1899




          @b                s jornais estavam simplesmente fantsticos - disse Isaac
                            Phillips Buck, estendendo seu dedo mindinho ao pegar
                            uma xcara de porcelana para tomar um gole de ch. - No
     me divertia tanto desde que Remington Astor foi pego beijando um dos ajudantes
     de cozinha. Esse foi um bom escndalo.
           -- Os jornais estavam ridculos.
           Penelope passou seus dedos longos e cheios de anis sobre a cabea de
     Robber, seu cozinho da raa Boston terrier, e sorriu languidamente. Estava
     usando um vestido de seda negro com um decote quadrado, cintura bem marcada
     e saia em camadas e parecia mais magra do que nunca perto de Isaac, que suava
     devido ao calor daquele final de vero. Eles eram as duas nicas pessoas na
     imensa sala de estar da casa de Penelope, que tinha um p-direito de oito metros
     e muitos mveis franceses com estofados listrados de seda azul e branca.
           -- Nem sei por que voc traz essas porcarias para mim - continuou
     Penelope com um bocejo.
           Ela passara o dia todo descansando e seu corpo ainda estava deliciosamente
     relaxado, como se houvesse acabado de despertar.
           -- Como  aquele velho ditado... morrer de inveja  a melhor maneira de
     elogiar algum? Voc devia aprender a encarar os jornais como eu.
           -- Eu tento, querido. Mas eles s falam de Deus isso, Deus aquilo, Deus
     detesta sua nova manso...
           Penelope tentou parecer mais indiferente do que divertida, mas no
     conseguiu evitar uma risadinha. Os jornalistas eram to pretensiosos.
           -- Sinceramente, esses colunistas deviam empregar melhor seu tempo.
           -- Mas eles tm toda a eternidade pela frente - disse Isaac, rindo e fazendo
     com que Penelope revirasse os olhos. - Bem, pelo menos os jornais parecem
     concordar com voc sobre um certo Henry. Esto prevendo que vocs dois vo
     estar noivos antes do fim da temporada. At falaram com um astrlogo para
     confirmar tudo.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                         cz|t  GD
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           Os olhos de Isaac ficaram esbugalhados de excitao quando ele revelou
     essa notcia bombstica. Penelope sentiu uma enorme onda de autoconfiana,
     mas controlou-se para no dar pulinhos de alegria.
           -- Mas nem precisavam do astrlogo, s tinham de perguntar para as
     Wetmore - disse Isaac. - Elas ficaram indignadas ao ver voc danando com ele
     ontem  noite. Souberam instantaneamente que os rumores eram verdadeiros.
     Pareciam que tinham levado um tapa na cara.
           -- Adelaide Wetmore precisa mesmo levar um tapa na cara - disse
     Penelope.
           Ela tentou no demonstrar que estava se sentindo embriagada de felicidade,
     mas saber que os jornais estavam especulando sobre ela e Henry era maravilhoso.
     Ele sempre fizera muita questo de manter o namoro dos dois em segredo, mas
     agora toda a cidade de Nova York ia ficar querendo saber se estavam juntos ou
     no. Logo, at Elizabeth teria de admitir que o nico homem perfeito de Nova
     York era de Penelope. Ela forou-se a parar de sorrir.
           -- Mesmo assim.  tudo to bobo, toda essa tinta gasta por causa de uma
     festinha. Da prxima vez, voc devia barrar os jornalistas.
           Mas Penelope no tinha nada do que reclamar. Alguns colunistas haviam
     reclamado dos ombros expostos das moas, mas a grande maioria se limitara a
     descrever de maneira longa e fiel o quanto o baile fora luxuoso. E Isaac tinha
     razo: no havia nada melhor do que ser invejada pelas multides. Para no falar
     da ajuda dos jornais em levar seu namoro adiante. Agora, fora confirmado pela
     imprensa e pelas estrelas: Henry ia pertencer a ela, de verdade.
           L fora, os sinos da igreja de St. Patrick bateram trs vezes. J estava na
     hora.
           -- Isaac, voc precisa ir embora - disse Penelope, ficando de p.
     Isaac deu um suspiro.
           -- Mas, Penny, ainda nem falamos das roupas de todo mundo.
           -- Eu sei, Isaac, mas ainda temos a semana toda.
           Penelope usou um tom firme, andando at a cadeira onde Isaac estava. Ela
     estendeu o brao e ele pegou-o, embora com uma certa tristeza. A nica hora em
     que Isaac a irritava era quando ele agia como um menininho emburrado.
           Bernardine, a governanta dos Hayes, estava parada na porta com o chapu
     de Isaac nas mos. Ele agradeceu a ela e ela ento abriu a porta da frente,
     revelando a viso maravilhosa que era Henry Schoonmaker, parado, sozinho, na
     escada da frente. Penelope ficou maravilhada ao ver que ele chegara bem na
     hora, pela primeira vez. Henry estava usando o casaco negro que sempre vestia e
     seu rosto estava belo como sempre, mas havia algo de diferente em sua
     expresso. Penelope estava acostumada a um Henry sereno e despreocupado,
     mas agora ele parecia um pouco... confuso.
           -- Ol, Schoonmaker - disse Isaac, estendo a mo para apertar a de Henry. -
     O que voc est fazendo aqui?
           -- Ol, Buck - disse Henry, apertando resignadamente a mo gorducha de
     Isaac.
           Penelope tentou decifrar a expresso estranha dele, em vo. Ele estava com
     uma cara de quem fora pego no flagra fazendo algo errado.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  GE
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           -- Estou fazendo umas visitas aqui e ali. Quis deixar isso com a srta.
     Penelope - continuou Henry, pegando um envelope selado do bolso do casaco.
           O corao de Penelope se contraiu de raiva. Henry ia deixar um bilhete com
     a governanta, s isso? E quanto ao encontro dominical deles? Ele no podia dizer
     a ela o quanto ela estivera deslumbrante no baile por meio de um bilhete. Talvez
     fossem boas notcias, Penelope disse a si mesma. Mas Henry nunca perdia tempo
     escrevendo cartas formais, e no era de maneira alguma um rapaz tmido, do tipo
     que preferia escrever algo do que diz-lo em voz alta.
           -- O senhor no gostaria de entrar e me explicar do que se trata? - disse
     Penelope, devagar, pegando o odioso envelope das mos dele e lanando-lhe um
     olhar cheio de determinao.
           -- Pode ir, eu j estava indo embora - disse Isaac, voltando-se para dar um
     beijo em cada bochecha de Penelope. - Comporte-se - disse ele ao beijar a direita.
     - Mas no muito - sussurrou Isaac no ouvido esquerdo dela.
           Henry cobriu a boca com uma de suas mos envolta em luvas de couro,
     tossiu e acenou para Isaac. Ele foi com Penelope para o grande vestbulo; ela
     conseguira faz-lo entrar em sua casa. O vestbulo dos Hayes no era como o das
     velhas casas, mas cheio de luz, com um cho feito de mrmore preto e branco e
     tetos espelhados. s vezes, Penelope se sentia pequena como um gro de poeira
     naquela imensa manso, mas gostava do fato de poder ver seu reflexo em
     praticamente todas as superfcies.
           -- Bernardine, pode voltar para sua costura - disse Penelope para a
     governanta.
           A mulher assentiu, formando diversos queixos ao faz-lo.
           -- A sra. Hayes me pediu para dizer  senhorita que o reverendo
     Needlehouse ir jantar aqui hoje  noite, e que ela insiste que esteja pronta para
     receb-lo s cinco em ponto.
           Penelope revirou os olhos, enquanto Bernardine desaparecia por uma porta
     disfarada pela rica ornamentao da parede. Estava quase perdendo a calma.
     Havia diversos motivos para irritao: ento Henry achava que ia escapulir
     daquela maneira? E sua me queria encurtar a tarde dela? O que mais ia
     acontecer? Quando a criada se foi, Penelope respirou fundo para se tranqilizar.
     Ento, sem se virar para encarar Henry, ela disse:
           -- Acho que voc estava tentando deixar um bilhete para mim e ir embora.
     Voc sabe muito bem que domingo  o dia que passamos juntos.
           Aps alguns segundos ele respondeu friamente:
           -- Voc ainda nem leu o bilhete, ento como pode saber o que contm?
           Penelope no tentou adivinhar no que Henry estava pensando. Em vez
     disso, virou a cabea e deixou que ele observasse seu lindo perfil e sua minscula
     cintura. Ela ouviu-o respirando de leve e esperou. Henry se remexeu e pegou seu
     relgio de bolso.
           -- J que estou aqui - disse ele, finalmente -, no custa nada tomar um ch
     gelado, ou um usque, ou o que quer que voc esteja servindo.
           -- Temos o que o senhor desejar, sr. Schoonmaker.
           Penelope ainda no se virara para encar-lo, pois sabia muito bem o que
     Henry achava de seu corpo. Queria que ele ficasse olhando-a e se perguntando se
     estava zangada ou no.


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  GF
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           -- Mas eu acabei de mandar minha governanta para seus aposentos, e por
     isso terei de preparar seu drinque eu mesma.
           -- Tudo bem. Mas ande logo. No posso ficar muito tempo - respondeu
     Henry.
           Penelope sorriu para ele e piscou o olho de forma lenta e sugestiva. Ela
     atravessou os corredores cintilantes de sua manso com os saltos de seus sapatos
     batendo no mrmore do cho, ouvindo os passos de Henry atrs de si.
           A cozinha estava escura mas limpa, com suas fileiras de panelas de ferro
     penduradas no teto. Havia um fogo aceso na lareira do canto, mas nem sinal dos
     cozinheiros ou dos outros empregados. Penelope olhou para o bilhete de Henry e
     depois para ele.
           -- O que ser que est escrito aqui? - perguntou ela, erguendo uma
     sobrancelha.
           Henry franziu os lbios. Quando ele se aproximou, Penelope percebeu que
     havia uma camada de suor em seu rosto perfeito e moreno e que seus olhos
     castanhos estavam brilhando.
           -- Voc gosta de mim, no gosta? - indagou ele, ignorando a pergunta dela.
           Havia uma certa ironia em seu tom de voz, mas Penelope jamais o vira to
     srio. Ela assentiu.
           -- Creio que sim - respondeu ela, prendendo a respirao enquanto
     esperava para ver aonde ele queria chegar.
           -- Por qu?
           Os olhos de Henry estavam fixos nos dela com uma expresso de
     gravidade. Por um breve momento, Penelope se perguntou se ele estava prestes a
     lhe pedir em casamento.
           -- Por qu? - repetiu ela, soltando uma risada estridente e melanclica. -
     Por que no amor, assim como em todas as coisas, eu escolho apenas o melhor
     para mim mesma. Eu sou a melhor das meninas da minha classe social, Henry, e
     voc  o melhor dos homens. Somos os mais ricos, os mais fascinantes e os mais
     divertidos. Quero que todos nos olhem e morram de inveja ao ver que duas
     pessoas to superiores s outras em tudo se encontraram. Por isso.
           Henry ergueu as sobrancelhas e olhou para seus sapatos engraxados.
           -- Os mais ricos, os mais fascinantes, os mais divertidos... parece que voc
     acertou - disse ele, fazendo um movimento de cabea para seus sapatos antes de
     levantar a cabea e dar a Penelope um de seus enormes sorrisos. - De qualquer
     maneira, como eu estava dizendo, estou surpreso por uma casa to enorme e to
     elegante, a melhor de todas as casas, como voc mesma disse, no ter
     empregados na cozinha no meio do dia.
           -- Numa casa to enorme e to nova, naturalmente h mais de uma
     cozinha. E eu disse aos empregados que eles no iam precisar desta hoje.
           Penelope pegou o envelope e passou-o debaixo de seu nariz, como se
     cheir-lo pudesse ajud-la a adivinhar qual era seu contedo. Fingiu hesitar por
     um segundo antes de jog-lo na lareira, onde o viu sendo destrudo pelas chamas
     com um sorriso de satisfao. Ento, ela se virou e avaliou as diversas superfcies
     que havia naquele enorme aposento. Escolheu uma mesa alta e estreita e sentou-
     se sobre ela, recostando-se numa parede e deixando suas pernas dependuradas.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  GG
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           -- Acho que voc vai ter de me dizer em pessoa o que havia no seu bilhete
     - disse Penelope de forma provocante.
           Ela passou as mos sobre o corpete de seu vestido para alis-lo, criando
     discretamente um decote mais profundo do que teria mostrado ao pblico, e
     depois pegou um pequeno cigarro num bolso da saia. Penelope sorriu para
     Henry, acendeu o cigarro e exalou a fumaa. Tinha conscincia de que naquele
     momento parecia uma mulher barata, apesar de ser uma das meninas mais ricas
     de Nova York. Ela j conhecia Henry h algum tempo, e sabia muito bem que ele
     gostava desse tipo de contradio.
           Henry deu um sorriso com o canto direito da boca e Penelope soube que
     havia conseguido chamar sua ateno.
           -- O senhor se divertiu ontem  noite, sr. Schoonmaker? - perguntou ela. -
     Lembro-me de que nossa conversa foi interrompida.
           -- De fato, eu me diverti bastante, srta. Penelope - disse Henry, observando
     toda a cozinha com seus olhos castanhos e desabotoando o casaco, que colocou
     sobre o bloco em cima do qual era cortada a madeira usada no fogo. - No posso
     imaginar como um baile poderia ser mais agradvel.
           -- Ns certamente fizemos de tudo para agradar nossos convidados -
     replicou Penelope. - Especialmente o senhor, sr. Schoonmaker. Se houve
     qualquer coisa de errado, espero que me diga agora.
           Henry fez uma pausa e ento, como se houvesse acabado de ter uma idia,
     deu um passo na direo de Penelope. Ela sentiu todo o peso daquele gesto.
           -- Agora que estou pensando nisso, parece-me que no fiquei tempo o
     suficiente na companhia da senhorita - disse ele.
           -- Na minha companhia? - perguntou Penelope.
           -- No - disse Henry, deixando a boca um pouco entreaberta, como quem
     ainda no disse tudo. - No fiquei.
           Penelope sorriu e puxou seu corpete para baixo, aumentando o decote a
     ponto de quase se exibir por inteiro.
           -- Est melhor assim? - perguntou ela.
           -- Muito melhor.
           Henry aproximou-se de sua anfitri e colocou ambos os braos em volta da
     cintura dela.
           -- O senhor danou divinamente na noite passada - disse Penelope,
     enquanto Henry lhe beijava o pescoo.
           Ele no parou para responder, o que a deixou radiante.
           -- Na verdade, acho que ns dois danamos divinamente juntos.
           Penelope fez uma pausa quando Henry tocou a pequena depresso de sua
     garganta com os lbios e ento prosseguiu para o outro lado de seu pescoo.
           -- E, como o senhor sabe que eu sou muito modesta, precisarei acrescentar
     que no fui a nica a ter essa opinio.
           -- No?
           Henry afastou-se do pescoo dela e encarou-a. Penelope viu que havia uma
     vaga expresso de zombaria nos olhos dele.
           -- No. Na verdade, Isaac me disse que a opinio geral no baile foi a de
     que ns danamos to bem juntos que deveramos jurar faz-lo pelo resto de
     nossas vidas.


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  GH
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           Penelope soltou uma exclamao de espanto sem querer pois, sem que ela
     se desse conta, Henry colocara as mos debaixo de sua saia, na parte posterior de
     seus joelhos. O toque dele a fez sentir um arrepio nas pernas. Mas Penelope no
     ia permitir que sua insinuao passasse em branco; ela lanou um olhar
     penetrante a Henry, deu um meio sorriso e disse:
           -- Diga-me, sr. Schoonmaker, o que o senhor acha disso?
           Mas Henry, que se considerava um verdadeiro cavalheiro e, por isso, jamais
     fazia promessas que no podia cumprir, e cujas mos agora estavam nas coxas
     dela, interrompeu a pergunta de Penelope com um beijo na boca.
           -- Henry - sussurrou ela, lnguida de prazer aps o beijo -, o que o bilhete
     dizia?
           -- Nada, Penelope - respondeu Henry, colocando os lbios na orelha dela. -
     No dizia nada.
           -- Conte para mim.
           Henry se afastou o suficiente para encar-la. Foi nesse momento que
     Penelope viu algo novo e profundo nos olhos dele. Algo que, se ela no estivesse
     enganada, parecia ser o primeiro sinal de um amor que nascia.
           -- Voc vai descobrir em breve - disse ele afinal, antes de beijar de leve os
     lbios rosados e perfeitos dela.
           O beijo encheu Penelope de confiana, e ela ento se entregou inteiramente
     ao prazer de ter Henry Schoonmaker s para si numa tarde de domingo. Ela
     estava impaciente para oficializar o noivado deles mas, como ele acabara de
     dizer, iria descobrir em breve quando esse dia chegaria. Uma doce satisfao
     tomou conta do corpo de Penelope quando ela se perguntou se teria de esperar
     muito.




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                           Uma jovem em particular chamou mais ateno do que todas as
                     outras: a senhorita Elizabeth Holland, filha do falecido Edward
                     Holland, brilhou como um diamante entre vulgares rubis, cheia de
                     elegncia e beleza sutil numa fantasia de pastora feita exclusivamente
                     para ela por uma famosa costureira de Paris. Acreditamos que seu
                     impacto na sociedade ser profundo e benfico.

     NOTA DA COLUNA "GAMESOME GALLANT", DO JORNAL NEW YORK IMPERIAL,
     DOMINGO, 17 DE SETEMBRO DE 1899




          X             lizabeth Holland adorava domingos, e esse era um dos motivos
                        que faziam Diana Holland ter horror quele dia. Ela odiava
                        domingos porque em geral eles comeavam com uma ida 
     igreja e terminavam com o que era chamado de visitas informais, embora
     "informal" fosse uma maneira completamente incorreta de descrev-las, pois
     tudo era feito de acordo com as regras e vigiado triplamente por sua me, pela tia
     Edith e por todos os empregados da casa. De qualquer maneira, elas no tinham
     ido  igreja naquela manh, porque, como explicara a sra. Holland quando
     estavam chegando  sala de estar, precisariam ter uma conversa muito sria.
           E ali estavam as trs, sentadas naquela priso - era isso que a sala de estar
     era para Diana, pelo menos quando ela era forada a ficar ali parada por horas a
     fio, comportando-se como uma senhorita de classe - e cercada por tanto luxo que
     chegava a ser vergonhoso. No cho havia inmeros tapetes persas e, nas paredes,
     pinturas a leo em molduras douradas de todos os tamanhos que mostravam,
     entre outras coisas, os rostos sombrios de seus antepassados. Acima dos lambris,
     as paredes eram cobertas por um couro verde-oliva trabalhado, que terminava
     apenas ao chegar ao teto de mogno. A lareira de cornija de mrmore era to
     grande que dava para se esconder dentro dela. Diana e Elizabeth haviam feito
     isso muitas vezes quando eram crianas, e Diana ainda imaginava estar fazendo-
     o, especialmente durante as enfadonhas visitas de domingo. Para onde quer que
     olhasse, havia um objeto delicado, raro ou sedoso que ela estava sempre se
     arriscando a quebrar ou manchar.
           Havia muitos lugares onde se sentar na sala de estar, sofs e cadeiras de
     diversos estilos, mas o cmodo no era confortvel desde a morte do pai dela.
     Ele sempre dissera que havia humor em tudo e compensara a maneira formal que
     a sra. HoJland tinha de receber as visitas distribuindo comentrios sarcsticos.
     Diana no tinha certeza se as tardes de domingo algum dia haviam sido
     divertidas, mas, naquela poca, eram ao menos suportveis. Desde que Elizabeth
     fora formalmente apresentada  sociedade, ela assumira seu papel de jovem dama
     com extrema seriedade, enquanto Diana desenvolvera o hbito de ir se sentar no


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     cantinho turco da sala, onde dzias de almofadas listradas estavam amontoadas
     no cho. Ela estava ali agora, enroscada com os enormes gatos persas dos
     Holland, que se chamavam Lillie Langtry e Desdmona. Diana sempre soubera
     que seu temperamento era parecido com o do pai. Eles eram romnticos,
     enquanto sua me e Elizabeth eram frias e prticas.
           -- O que voc queria nos dizer, mame? - perguntou Elizabeth.
           Ela se sentou no mesmo lugar de sempre, abaixo do enorme quadro que
     mostrava o pai usando uma cartola e seu melhor terno preto, com as sobrancelhas
     um pouco despenteadas e um ar de quem est constantemente se ofendendo com
     a estupidez humana. Diana desejou que ele ainda estivesse ali em pessoa para
     cuidar delas trs. Ele lanaria um de seus olhares para Elizabeth e ela se sentiria
     uma tola por se comportar com tanta arrogncia durante as visitas de domingo.
           Elizabeth pousou as mos sobre seu colo da maneira mais correta e
     educada. Diana pensou ter visto uma sombra de medo passar pelo rosto de sua
     irm mais velha, mas logo ela se recomps. A sra. Holland ficou de p e foi at a
     lareira, parecendo mais severa do que nunca em seu vestido preto de gola alta.
     Seus cabelos estavam presos num coque apertado abaixo de sua touca de viva.
     Ela ficou parada, olhando para a lareira, onde alguns pedaos de madeira
     esperavam pelo fogo, que ainda no fora aceso. Tia Edith fez um gesto,
     mandando que Claire, que estava servindo ch, sasse da sala.
           -- Em primeiro lugar, quero dizer que fiquei muito satisfeita ao ver os
     magnficos comentrios sobre vocs na imprensa. Todos falaram de sua beleza,
     Elizabeth, e isso ser muito...
           A sra. Holland fez uma pausa assustadora enquanto Claire desaparecia por
     uma das portas de correr da sala.
           --... til para ns nesses tempos difceis.
           -- Como assim? - quis saber Elizabeth, e seu sorriso vacilou um pouco.
           A sra. Holland se voltou para encar-las, e seu olhar era penetrante mesmo
     quando lanado de um ponto do outro lado do cmodo.
           --  absolutamente essencial que o que vou revelar para vocs agora no
     seja repetido a ningum.
           -- Tudo acaba sendo repetido alguma hora - comentou Diana com
     atrevimento. Achou aquele teatro feito por sua me um pouco ridculo, embora
     no pudesse negar que estava ficando curiosa. Por que ela estava sendo to
     grave?
           -- No segredos de famlias como a nossa - retrucou a tia Edith, que estava
     sentada numa cadeira em frente  mesa de jogo com tampo de malaquita.
           Diana passara o vero inteiro em Saratoga com ela e Edith comentara
     diversas vezes que elas eram parecidas tanto na aparncia quanto nos desejos. O
     casamento de tia Edith fora curto e difcil, e era verdade que a extenso da
     depravao do duque Guillermo de Garza jamais ficara conhecida do grande
     pblico. Mas parecia a Diana que sua tia conseguira essa discrio vivendo mais
     de uma dcada num completo tdio.
           -- O que foi, mame? Tempos difceis foram aqueles logo aps a morte de
     papai.
           Diana suspirou e desviou o olhar de sua irm, que usara o tom de voz suave
     com que moas educadas demonstravam tristeza ao dizer essa ltima frase. Ela


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     sentia saudades do pai todos os dias, mas ele jamais desejaria que sua famlia
     ficasse paralisada pela dor. Edward Holland no gostaria de v-las afundadas
     numa melancolia comportada.
            -- Mas agora eu e Diana voltamos, e estamos determinadas a nos divertir
     essa temporada - continuou Elizabeth, usando desta vez sua voz normal, que era
     mais alegre. - Estamos preparadas para seguir em frente.
            -- Esse  o problema - disse a sra. Holland, indo se sentar numa cadeira
     com encosto em forma de leque e braos de ouropel. - Nem todas as
     conseqncias da morte do pai de vocs ficaram imediatamente bvias. Parece
     que seguir em frente ser muito mais difcil do que voc pensa. Teremos de
     manter o menor nmero possvel de empregados e precisaremos demitir o
     tutor. Elizabeth, voc cuidar da educao de sua irm. O que ocorre, meninas...
            A sra. Holland fez uma pausa e tocou de leve o centro de sua testa. Diana
     agora prestava toda a ateno. Ela sentiu que algo deliciosamente dramtico
     estava prestes a ser anunciado e empertigou-se para poder ouvi-lo melhor. As
     mos de Elizabeth ainda estavam na mesma posio e ela manteve seu rosto
     abaixado, para que ningum pudesse ver sua expresso.
            -- Eu prpria mal compreendo - disse a me delas, com algo na voz que
     beirava a impacincia -, embora Brennan tenha me explicado tantas vezes. Parece
     que, quando o pai de vocs faleceu, ele nos deixou com muitas dvidas e com
     uma exiguidade de... de dinheiro. Mas ns ainda pertencemos  famlia Holland,
      claro... e isso ainda significa alguma coisa.
            A sra. Hoiland revirou os olhos para o teto e emitiu um som curioso, como
     se estivesse tentando no chorar.
            -- Mas no somos ricas - concluiu ela, finalmente. - No mais.
            Elizabeth levou a mo  boca. E, embora Diana pudesse ver que sua me
     estava muito perturbada e que sua irm estava reagindo de maneira apropriada
     quela notcia, no conseguiu se controlar e bateu uma palma de excitao.
            -- Ns estamos pobres! - disse ela, animada, e trs pares de olhos
     horrorizados se voltaram em sua direo.
            -- Diana, por favor! - exclamou a sra. Holland com uma expresso de
     pavor.
            -- Ah, eu sei, eu sei - disse Diana, alegre.
            Ela mal podia acreditar que algo to romntico estivesse lhe acontecendo.
     Sentiu que estava na beira de um enorme precipcio e que, no importava o que
     fizesse em seguida, viver agora seria como flutuar no ar. Sentiu-se inteiramente
     livre.
            -- Sei que no vamos mais poder comprar jias, nem chapus franceses... -
     continuou ela. - Mas eu vou me sentir orgulhosa da minha nova condio! Vai
     ser to divertido! Vamos ser como as princesas maculadas de um livro de Balzac,
     como...
            -- Diana! - interrompeu a sra. Holland.
            -- Mas ns podemos ser qualquer coisa agora! Mendigos, ladres de trem...
     ou podemos ir a Cuba, ou para a Frana, ou...
            Diana finalmente parou de falar quando percebeu que a boca de sua irm
     estava se movendo, mas nenhum som saa. A sra. Holland olhou friamente para
     Diana e ento se voltou para sua filha mais velha.


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           -- Agora, Elizabeth, voc est vendo por que tudo, absolutamente tudo
     depende de voc. De voc e do que conseguir at o final da temporada. Eu estava
     esperando que...
           A sra. Holland foi interrompida por Claire, que estava abrindo as pesadas
     portas de correr da sala de estar. Ela ficou imvel com as mos cruzadas  sua
     frente e os olhos fixos no cho.
           -- Perdoe-me, sra. Holland - disse Claire timidamente. - Chegou uma
     visita. O senhor Teddy Cutting deixou seu carto e gostaria de saber se a senhora
     est em casa.
           A sra. Holland respirou fundo, forou-se a dar um sorriso quase assustador
     e mandou que Claire deixasse o rapaz entrar. A afobao tomou conta do
     cmodo, enquanto as mulheres da famlia Holland tentavam aparentar
     normalidade. Ento, elas receberam a primeira visita de domingo com mais zelo
     do que o estritamente necessrio.
           Diana no era o tipo de menina que usava p ou ruge. Ela gostava que suas
     emoes fossem mostradas em sua prpria pele e agora no conseguiu esconder
     o quanto achava toda aquela situao ridcula, apesar de estar encolhida no canto
     da sala. Sempre morrera de vontade de encontrar algo interessante para fazer da
     vida e, agora que fora abenoada com o sagrado manto da pobreza, talvez isso
     fosse possvel. O resto da famlia estava teimosamente agindo como se nada
     houvesse mudado, como se elas ainda fossem to ricas quanto seus visitantes,
     mas a mente de Diana j estava repleta de possibilidades.
           -- Srta. Holland, mal tenho palavras para expressar minha satisfao com
     seu retorno. Jamais vi algo mais adorvel que a senhorita em sua fantasia de
     pastora no baile da famlia Richmond Hayes - disse Teddy Cutting, que agora
     estava sentado no sof furta-cor ao lado de Elizabeth.
           Elizabeth sorriu modestamente e levantou uma das mozinhas para abanar o
     ar, como se quisesse espantar o elogio dali, antes de coloc-la de novo no colo,
     na mesma posio.
           -- A senhorita fica muito bem de marfim, embora tambm fique de azul-
     claro - continuou Teddy.
           Elizabeth estava usando um vestido de gola alta que na verdade era branco
     e azul-cobalto, facilmente confundvel com azul-claro por um olhar masculino.
     Diana achou que sua irm parecia uma boneca sem vida.
           -- Teddy, voc precisa me contar se va velejar esta semana - disse
     Elizabeth.
           Ela estava se comportando da maneira correta e guiando a conversa de
     modo a faz-la girar em torno da visita. Conseguiu no demonstrar quase
     nenhum sinal de que havia algo errado, mas o peso da conversa recente estava
     evidente em seu tom de voz. Diana olhou para Elizabeth e Teddy do canto onde
     estava sentada e se deu conta do absurdo que era aquele dilogo.
           -- Oh, Teddy, voc precisa me contar se vai velejar esta semana! - repetiu
     ela, atirando as mos para o alto num falso xtase.
           Diana balanou a cabea e soltou uma risada bem alta para deixar claro o
     que pensava. As outras podiam fingir o quanto quisessem. As regras de decoro
     que regiam a vida e a morte dos ricos no se aplicavam mais a ela.  claro que



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     sabia que ainda no tinha compreendido inteiramente a revelao de sua me,
     mas sentia que sua vida s ia comear de verdade agora.
            Teddy e Liz se voltaram para Diana como se houvessem acabado de se
     lembrar da existncia dela.
            -- Mame? - chamou Elzabeth com uma certa irritao. - Diana no tem
     um outro compromisso?
            A sra. Holland, que estivera jogando gin rummy com tia Edith, deixou suas
     cartas carem sobre a mesa de tampo de malaquita.
            -- Diana, voc est agindo de forma estranha desde que acordou. Talvez
     esteja se sentindo mal e deva ir l para cima.
            -- Eu nunca fico doente, como todo mundo sabe - disse Diana, virando a
     pgina do livro que segurava com certa violncia. - Falar sobre velejar j era um
     tdio antes. E agora no faz nenhum sentido, pois no podemos nos dar a esse
     luxo.
            Durante alguns segundos ningum disse nada, pois todos estavam em
     choque. Diana pensou ter visto Teddy se remexendo na cadeira de forma
     constrangida. Elizabeth abaixou a cabea e a sra. Holland estreitou os olhos de
     fria.
            -- Diana! Voc no deve falar assim. Nosso convidado pode no
     compreender - disse ela, voltando-se para Teddy. - O que ela quis dizer,  claro, 
     que no podemos mais nos dar ao luxo de velejar por ser muito difcil para ns.
     O senhor Holland adorava o esporte e ele nos traz lembranas dolorosas.
            Diana revirou os olhos ao ouvir a mais nova das mentiras. Ela se recostou
     nas almofadas enquanto sua me, sua tia e sua irm assumiam expresses de
     pesar. Mas o pai dela jamais se interessara por veleiros.
            --  claro. Bem, eu devo sim ir velejar esta semana - disse Teddy, fazendo
     um educado esforo para deixar o momento embaraoso para trs. - Eu e Henry
     podemos ir sempre...
            -- Como est Henry? - perguntou a sra. Holland.
            Ela pegara novamente suas cartas e manteve os olhos fixos nelas enquanto
     falava.
            -- Ah, Henry  Henry.  por isso que todos querem sempre falar com ele,
     mas ningum consegue - disse Teddy.
            Ele riu e ningum mais tocou naquele assunto. Teddy ficou na casa da
     famlia Holland por mais quinze minutos, fazendo com que sua visita tivesse a
     durao socialmente aceitvel de meia hora. Ele ento cumprimentou a sra.
     Holland por ter filhas to adorveis e servir um ch gelado to refrescante e foi-
     se embora.
            Diana no lamentou v-lo partir. Aquela era uma das regras mais irritantes:
     eram os cavalheiros que visitavam as damas e por isso as damas tinham de ficar
     em casa. Isso significava que uma senhorita de alta classe, ou o que quer que
     Diana fosse agora, no podia controlar quem lhe visitava, nem quando. E embora
     Teddy Cutting fosse bastante agradvel, ele sempre parecera um pouco sem
     graa para ela.
            -- Diana! Como voc pde fazer isso?!
            A jovem, que estava perdida em seus pensamentos, olhou para cima e viu
     sua me, de p com os punhos cerrados e o rosto distorcido de raiva.


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           -- Como pde expor sua famlia dessa maneira? - gritou a sra. Holland. -
     Ser que no entende o que pode acontecer? Hein?
           -- No adianta de nada fingir! - respondeu Diana acaloradamente. - Todo
     mundo vai descobrir quando voc parar de pagar a costureira e a florista e
     quando as contas comearem a acumular...
           -- Silncio!
           Diana olhou em volta, mas viu que ningum estava do seu lado. Sua tia
     colocou a mo sobre a boca. Claire, que estava parada na porta, no conseguiu
     encar-la.
           -- Voc  uma menina atrevida e desprezvel, Diana. V para o seu quarto
     imediatamente. Leia a sua bblia. Lembre-se de que nasceu para obedecer a seu
     pai e sua me - disse a sra. Holland, olhando para baixo e deixando rolar uma
     lgrima. - E agora, apenas sua me.
           Diana no pde acreditar na teimosia da me e sentiu-se enojada.
           -- Se voc quer me punir por contar a verdade, tudo bem, mas...
           Dessa vez a sra. Holland a impediu de continuar a falar com um olhar mais
     severo do que qualquer palavra. Claire se adiantou para acompanhar Diana para
     fora da sala. As sobrancelhas ruivas dela se juntaram no meio de sua testa e ela
     lanou um olhar a Diana, implorando-lhe que viesse. Diana suspirou fundo,
     jogou seu livro no cho de mogno e saiu batendo o p, com Claire logo atrs.
           -- Elizabeth, graas a Deus eu posso depender de voc. A salvao dessa
     famlia est sobre seus ombros.
           Diana ouviu essas palavras ao chegar na porta da sala e, pela primeira vez,
     compreendeu o que sua me estava exigindo de Elizabeth. No se casem por
     dinheiro, dissera a sra. Holland muitas vezes em tempos mais felizes, mas casem
     com algum que tenha dinheiro.
           Ela dissera aquelas palavras despreocupadamente, mas Diana sabia que
     suas intenes eram diferentes agora.
           Ela olhou para trs ao entrar no corredor e viu sua irm silenciosa e imvel
     como uma esttua. Diana sentiu um aperto na garganta de raiva ao ver Elizabeth,
     to passiva e aparentemente feita de pedra. Era difcil acreditar que elas fossem
     irms.




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                                   X [? DKLJ


          X             lizabeth tentou parar de brincar com o bracelete de ouro branco
                        entalhado que seu pai lhe dera h dois anos. Ela se deu conta de
                        que ia precisar ser forte e comear a agir da forma habitual.
     Estava inquieta e distrada, e no conseguia parar de pensar em seu pai, em sua
     me e em Will. Nada lhe parecia real. Nem ela mesma. O mais irreal de tudo era
     a figura de Henry Schoonmaker se preparando para entrar na sala de estar dos
     Holland, que ela reconheceu vagamente ao levantar os olhos e observar as portas
     de correr.
           -- Ol, sra. Holland - cumprimentou Henry, fazendo um movimento com a
     cabea na direo da mesa de jogo.
           -- Ol, sr. Schoonmaker - responderam a me e a tia de Elizabeth.
           A sra. Holland deu um sorriso radiante. Elizabeth subitamente percebeu
     que, embora falassem tanto nele e embora suas famlias fossem ligadas pela
     histria e pela classe social, ela no falava com Henry havia anos. Ele era um
     solteiro muito cobiado, todo mundo dizia, mas isso era uma mera abstrao. H
     muito Elizabeth no pensava em Henry como um ser humano de verdade e s o
     fez quando ele surgiu diante dela.
           -- Ol, srta. Elizabeth - disse ele.
           Elizabeth conseguiu se levantar e sorrir primeiro para sua me e depois para
     Henry Schoonmaker, que estava segurando seu chapu de forma muito educada.
     Ela no imaginara que algum como Henry seguraria seu chapu daquela
     maneira e talvez por esse motivo ficou olhando-o sem reao, at que ele
     comeou a parecer constrangido. Eizabeth acabara de ver que Henry era o tipo
     de homem que mandava bordar suas iniciais, HWS, em letras douradas na fita
     azul-clara que passava na parte interna da aba de seu chapu, quando Claire
     pegou o objeto das mos dele e anunciou que o colocaria no closet.
           Os olhos de Henry observaram toda a sala de estar e ento pousaram sobre
     Elizabeth. Ela sentiu-se envergonhada apenas com aquele olhar e tentou dizer a si
     mesma que o famoso Henry Schoonmaker, por quem Agnes era apaixonada, com
     quem Penelope danara e cujo pai era dono de grande parte de Manhattan, no
     conhecia seu segredo. Seus segredos, na verdade, pois eram mais de um: os
     Holland estavam pobres, ela estava apaixonada por um criado e ainda por cima



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     era uma menina egosta, que provavelmente arruinaria sua famlia mais do que
     ela j estava arruinada.
           -- Esse vestido  muito bonito - disse Henry.
           -- Muito obrigada, sr. Schoonmaker - respondeu Elizabeth, encarando-o e
     ento desviando rapidamente o olhar.
           Ali estava o rapaz que todas as moas de Nova York desejavam e ela
     achava que deveria ter ficado maravilhada com sua visita. Henry era de fato
     bonito e bem vestido, o que era tudo que ela deveria desejar num homem.
     Elizabeth ficou surpresa ao perceber o quo pouco aquilo lhe atraa. Tudo o que
     conseguiu pensar foi que, se ela e sua famlia fossem mandadas para a priso por
     no conseguir pagar suas dvidas, ele provavelmente riria. Henry parecia ser do
     tipo que achava a desgraa dos outros uma comdia.
           -- No gostaria de se sentar, sr. Schoonmaker? - ofereceu Edith com uma
     expresso divertida.
           Henry sentou-se no mesmo lugar que seu amigo Teddy escolhera. A luz do
     sol entrou pelas compridas janelas da sala de estar e iluminou aquele cmodo
     luxuoso, do qual Eizabeth subitamente, e surpreendentemente, sentiu-se
     orgulhosa. Era como a marca registrada de sua famlia. Aqueles belos mveis
     arrumados de maneira to perfeita para receber visitas. O couro verde-oliva
     trabalhado acima dos lambris de mogno, que seu pai escolhera pessoalmente
     aps herdar a casa dos prprios pais. As curvas exuberantes dos candelabros
     antigos. A parede coberta de quadros. Tudo to suave, perfeitamente antiquado e
     rico. Ela olhou para a mesa de cartas e notou que sua tia Edith estava fazendo um
     movimento de cabea para sua me.
           -- Que casalzinho mais taciturno - sussurrou ela.
           Elizabeth entendeu o que sua tia quis dizer e sentiu uma onda de vergonha
     ao perceber que Henry podia ouvi-la tambm. Ela virou-se para ele com o
     corao batendo forte de constrangimento, mas ele no parecia ter prestado
     ateno no comentrio. Henry estava examinando suas abotoaduras, que tambm
     eram de ouro e tambm tinham suas iniciais gravadas. Elizabeth poderia ter
     refletido sobre o fato de que isso no demonstrava nada de positivo sobre o
     carter dele, mas estava ocupada demais em olhar para sua tia e tentar adivinhar
     se ela iria dizer mais alguma coisa humilhante. Ela decidiu no se arriscar e ficou
     de p.
           -- Sr. Schoonmaker, o dia parece estar lindo e eu confesso que ainda no
     sa de casa hoje. Gostaria de passear pelo parque?
           Elizabeth viu Claire corar com o canto dos olhos e lembrou-se de que
     deveria ter esperado por um convite. Sua confuso era tal que ela estava
     esquecendo suas boas maneiras, mas obviamente no poderia explicar isso a
     Henry.
           -- Quero dizer, se o senhor... - disse ela.
           Mas Henry j ficara de p e estendera o brao para ela tomar.
           -- Ser um prazer.
           L fora, o dia estava lindo e mais frio do que ela imaginara. Uma brisa
     soprava do rio East e limpava o ar. Elizabeth relaxou um pouco ao sentir o cheiro
     das folhas do parque e ver o azul brilhante do cu. O Gramercy Park era um
     refgio maravilhoso que ficava perto da barulhenta Broadway e era protegido h


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     muitas geraes pela famlia Holland e outras to antigas e to ricas quanto ela.
     Elizabeth tentou se convencer de que aquela poca no se fora para sempre, de
     que no se transformara numa era de exageros  qual ela no pertencia. Dentro
     do parque, babs corriam atrs de crianas que ainda usavam os chapus de
     couro e os laarotes com os quais tinham ido  igreja. Carruagens circulavam o
     parque e os cascos dos cavalos batiam contra o pavimento. Os avs de Elizabeth
     tinham comprado um dos lotes em torno do parque quando ainda no havia
     nenhuma construo no lado norte de Manhattan, e seu pai fora criado na casa de
     nmero 17. Aquele era um canto do mundo que pertencia aos Holland; era
     insuportvel pensar que aquilo poderia mudar em breve.
           Mas aquilo era mais egosmo. Elizabeth olhou para o elegante ferro
     trabalhado dos portes do parque, para as casas imponentes que o rodeavam, para
     a sombra das rvores, e seu corao se comprimiu quando ela pensou em sua me
     na pobreza. Elizabeth imaginou um futuro em que sua famlia viveria num lugar
     pequeno e sujo e em que as risadas de escrnio dos outros ressoariam em seus
     ouvidos. O legado dos Holland seria destrudo e ali estava ela, incapaz de
     impedir qualquer coisa de acontecer, mantendo as costas eretas e conversando
     sobre trivialidades com um rapaz de famlia que sem dvida preferiria estar
     correndo atrs de moas europias, que eram mais dadas do que as americanas.
           Mesmo assim Elizabeth continuou a caminhar ao lado de Henry, falando
     uma ou duas coisas sobre a qualidade do sol e do ar naquele dia especfico. Ela
     contou mais uma vez como fora sua viagem de volta, mas ele no pareceu
     interessado. Eles se moviam de forma lenta e indiferente pelo parque e foram
     para o lado oeste, passando pela casa nmero 4, que fora construda por James
     Harper, o conhecido editor de livros. Ele mais tarde se tornara prefeito de Nova
     York, e dois postes de ferro, as chamadas "lmpadas do prefeito", haviam sido
     instalados na frente da sua casa para indicar isso, como ocorria com todos que
     ocupavam o cargo. Henry e Elizabeth viraram-se na direo norte do parque e
     ento Henry estacou, voltando-se para Elizabeth:
           -- Meu pai est organizando um jantar.
           --  mesmo? Que maravilha - replicou Elizabeth.
           Henry voltou a andar de brao dado com a jovem dama. Ela percebeu que
     estava com o brao tenso, de modo a quase no tocar no dele.
           -- Sim, tenho certeza de que a sra. Schoonmaker far de tudo para que seja
     mesmo uma maravilha.
           -- Disseram-me que a sra. Schoonmaker sempre d jantares adorveis -
     comentou Elizabeth, embora soubesse que a sra. Schoonmaker fosse poucos anos
     mais velha do que ela e tivesse apenas metade de seu talento para cuidados
     domsticos. - Eles so sempre descritos de forma to linda nos jornais. Gostaria
     de poder ir, mas creio que vocs precisam limitar o nmero de convidados.
           Henry soltou uma risadinha melanclica e bateu na cerca de ferro com o
     punho. Elizabeth esperou que ele dissesse mais alguma coisa e, quando isso no
     aconteceu, sentiu uma certa raiva. Se Henry viera visit-la, porque estava to
     horrivelmente calado?  claro que ele no tinha como saber que sua famlia
     estava passando por uma crise, mas ela estava. E ser que Henry no imaginava
     que havia coisas melhores para ela fazer do que caminhar em silncio com um
     rapaz que claramente desejava estar em outro lugar? Ela se lembrou de uma vaga


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     impresso que tivera de Henry na infncia, quando ele estava sempre rindo e no
     parecia se importar com nada.
           -- Creio que voc sabe o motivo do jantar - disse Henry, olhando Elizabeth
     com frieza.
           Ela balanou a cabea com petulncia. Ocorreu-lhe que talvez Henry
     estivesse bbado. Elizabeth olhou em volta, como se procurasse um rosto
     familiar que lhe confirmasse que tudo aquilo era muito estranho e muito mal-
     educado. Mas havia apenas crianas e babs brincando. Todos que conhecia
     estavam escondidos em suas casas e ela teria de lidar com aquela situao
     sozinha.
           -- No, no sei o motivo do jantar.
           -- O jantar - disse ele, enunciando as palavras com desprezo e revirando os
     olhos para o cu -  para comemorar nosso noivado.
           -- Voc quer dizer... nosso noivado... meu e seu?
           -- Isso - respondeu Henry. - O louvvel noivado da srta. Elizabeth Holland
     com o sr. Henry Schoonmaker.
           Elizabeth sentiu que o cho sob seus ps estava se abrindo. Ela sentiu o
     enjo e a tontura que acometem uma pessoa que olha para baixo quando est
     num lugar muito alto. Ao tentar manter-se de p, sem querer lembrou-se de Will
     ajoelhando, to apaixonado e cheio de esperanas, naquela luz simples e
     brilhante da manh. Quo distinto ele era do indiferente Henry, que a observava
     agora com seu rosto belo e frio.
           -- Oh - disse Elizabeth lenta e estupidamente - Eu... no tinha idia de que
     o motivo do jantar era esse.
           -- Mas . Por isso, creio que devo lhe dizer que me sentiria honrado se a
     senhorita concordasse em ser minha esposa - disse Henry, hesitando antes de
     dizer a palavra "esposa", como se no soubesse bem como pronunci-la.
           -- Oh.
           Elizabeth tentou recuperar o flego, perguntando-se por um segundo se
     algum dia seria capaz de falar novamente. Ela teve uma viso de como seria sua
     vida: um ambiente de hostilidade crescente. Eles se casariam na igreja. Elizabeth
     teria de jurar diante de Deus que amaria aquele homem at morrer. Ela dormiria
     na mesma cama que Henry Schoonmaker e acordaria ao lado dele. E, um dia,
     embora aquilo fosse difcil de imaginar, eles teriam filhos que seriam metade ela,
     metade Henry.
           Naquela manh mesmo Elizabeth fantasiara sobre se casar com Will. Will,
     a quem ela conhecia e amava. Ela tentou pensar na reao de Will, mas a imagem
     que lhe veio  cabea foi a expresso de sua me quando contasse que no ia
     conseguir se casar com um dos rapazes mais ricos de Manhattan, pois estava
     apaixonada pelo cocheiro.
           Elizabeth fechou os olhos por um segundo, imaginando as conseqncias de
     aceitar o pedido de Henry - se  que aquilo podia ser chamado de pedido. Ela
     ficou chocada com o que viu. Sua vida como sra. Schoonmaker seria to...
     suntuosa. Ela visualizou o rosto de sua me, que h tempos mostrava
     preocupao e falta de sono, com um enorme sorriso de orgulho. E as bochechas
     de Diana, coradas como sempre. Elizabeth viu-se fazendo aquilo que era fcil e
     natural para ela: sendo graciosa, bem-vestida e admirada por todos. Nesse futuro,


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     sua famlia estava usando roupas das quais ningum jamais poderia rir. Ela olhou
     para baixo, surpresa com o sentimento que surgira na base de seu estmago e
     agora se espalhava pelo seu peito. No era felicidade, mas era algo que lembrava
     alvio.
           -- Isso  to... - Elizabeth gaguejou, sem saber o que estava dizendo at que
     as palavras lhe sassem da boca - to gentil de sua parte, sr. Schoonmaker.
           Ela se forou a dar um sorriso para Henry. O esforo foi se tornando mais
     fcil a cada segundo, pois Elizabeth estava sentindo inmeras emoes, mas a
     gratido parecia ser a mais forte de todas.
           -- Muito obrigada - disse ela, finalmente.
           Ento, Henry, acreditando que aquela resposta significava que Elizabeth
     havia aceitado seu pedido, tomou o brao dela e levou-a de volta at sua casa.
     Por um segundo Elizabeth pensou ter visto Will passando na frente da casa e
     quase entrou em pnico. Ela se lembrou de que afirmara que Henry Schoonmaker
     era um canalha na noite passada e sentiu vergonha de estar de braos dados com
     ele agora, no momento em que o relacionamento deles dois dera um salto to
     enorme. Foi a que Elizabeth percebeu que o rapaz na frente da casa era apenas
     um dos cocheiros dos Parker Fish e, pela primeira vez na vida, sentiu-se
     agradecida por no estar vendo o homem que amava. Ela teria de contar para ele,
      claro, mas no agora. Ainda no.
           -- Sr. Schoonmaker - disse ela quando eles cruzaram a rua vinte -, o senhor
     acha que seria possvel mantermos o noivado em segredo, pelo menos at o
     jantar? Dessa forma ainda teramos alguns dias de tranqilidade.
           Henry assentiu, indicando que no se opunha  idia e eles subiram a
     escada frontal da casa de Elizabeth. Ela tentou toc-lo o menos possvel e jurou
     que ia contar a Will em breve. Amanh.
           -- Voc pode me chamar de Henry - disse ele friamente quando pararam
     diante da porta. - Afinal, ns estamos noivos.
           Elizabeth no conseguiu sorrir dessa vez. Estava preocupada demais em se
     perguntar se Will ainda a amaria quando se tornasse a sra. Schoonmaker.




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                                        Wx
                     Todos sabem que um homem, quando est
                     cortejando uma jovem que pretende desposar,
                     deve primeiro conquistar as mulheres mais
                     prximas a ela - suas amigas,  claro, e tambm
                     sua irm, se ela tiver uma.

     TRECHO DO LIVRO O AMOR E OUTRAS TOLICES DAS FAMLIAS RICAS DA VELHA
     NOVA YORK, DE MAEVE DE JONG




          T                 casa estava em silncio. No parecia haver nada
                           acontecendo - nem mesmo na cozinha, onde o jantar deveria
                           estar sendo preparado. Diana percorreu os cmodos pisando
     leve e cantarolando um ragtime, tentando encontrar algum sinal de vida. De
     repente, ela imaginou que talvez a sra. Faber houvesse descoberto que a situao
     financeira das Holland era desastrosa, reunido todos os criados e partido - para
     trabalhar no circo, talvez, ou para abrir um bordel em So Francisco. Parecia-lhe
     inconcebvel que, aps ser libertada daquela maneira, a governanta ainda fosse
     desejar a companhia do velho sr. Faber, seu marido. Diana se esgueirou pelo
     corredor dos fundos, que era usado pelos empregados, sem ver ningum, e ento
     entrou no closet dos casacos, que ficava no final do enorme vestbulo. Ela sentia
     que estava vendo tudo com novos olhos. Era uma menina pobre; no tinha nada
     e, portanto, no tinha nada a perder.
           Diana olhou para os casacos de pele e de veludo enfileirados ao longo das
     paredes do closet e se deu conta de que eles teriam de ser vendidos. Olhou atrs
     da porta, procurando seu casaco militar francs - esse, ela no venderia de jeito
     nenhum - mas o que encontrou foi um chapu que no conhecia. Diana pegou-o e
     colocou-o na cabea. Era grande demais para ela, mas os cachos de seu cabelo
     faziam tanto volume que o chapu ficou quase perfeito. Diana virou-se para se
     olhar no espelho e decidiu que ficaria com um ar bomio usando aquele chapu,
     se o combinasse com os acessrios corretos. Ento, ela espiou o corredor do lado
     de fora e viu um homem de casaco negro que estava de costas.
           Diana saiu silenciosamente do closet e andou na direo do homem.
     Quando estava a cerca de um metro dele ela deve ter feito um rudo qualquer,
     pois o homem se virou. Ele parecia exasperado. Diana demorou alguns segundos
     para lembrar-se daquele rosto e do nome do homem, embora ela conhecesse
     ambos muito bem. As feies dele eram aristocrticas, seu maxilar era
     pronunciado e seus olhos castanhos pareciam j ter visto de tudo.
           -- Ah... eu conheo voc - disse Diana.




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           Ela sorriu, pois ficara surpresa ao se pegar pensando que aquele rapaz
     realmente tinha a aparncia deliciosa. Era estranho, pois todas as outras meninas
     achavam o mesmo e, em geral, Diana gostava de ter opinies originais.
           -- Voc  Henry Schoonmaker.
           -- Sou - disse o rapaz, olhando para a cabea de Diana e depois encarando-
     a.
           -- Gostou do meu chapu? - perguntou ela, tocando a aba e observando a
     reao dele.
           Diana ouvira falar muito do jovem Schoonmaker quando estava em
     Saratoga. At a tia Edith contara fofocas sobre ele. Ao que parecia, ele
     participava de corridas de carruagem, dirigia carros motorizados e nunca ficava
     muito tempo no mesmo lugar, e nem com a mesma garota. Para Diana, ele levava
     a vida que ela levaria, se o mundo permitisse.
           -- Gosto muito do chapu, mas preciso questionar o uso da palavra "meu" -
     disse Henry sarcasticamente.
           Ento, ele piscou o olho para ela, o que fez com que Diana se desse conta
     de que seu corao estava batendo bem depressa.
           -- E o que voc vai fazer? - perguntou ela, colocando uma das mos na
     cintura e levantando o queixo orgulhosamente. - Chamar a polcia e mandar me
     prender porque eu coloquei seu chapu?
           Henry abriu a boca, pronto para responder, mas foi interrompido pelo som
     de passos dentro da sala de estar. Com isso, Diana se lembrou de que, apesar do
     silncio, ainda havia gente na casa toda, ouvindo conversas e vivendo de acordo
     com as regras. E ela no estava seguindo as regras.
           Diana estava prestes a ir embora dali quando olhou para Henry e decidiu
     que ainda no queria deix-lo ir embora. Ela agarrou a mo dele e puxou-o para
     dentro da sala de estar que havia no lado leste da casa. Sua me a chamava de
     "segunda sala de estar", pois era o cmodo onde a famlia mantinha os quadros e
     esculturas menos valiosos. Ali costumava ser o salo de baile, mas, desde que o
     sr. Holland morrera, a famlia parara de dar festas e a sala recebera seu novo
     nome. Todos os objetos mais bonitos haviam sido colocados na sala de estar
     principal, onde os Holland recebiam seus visitantes, e essa sala ficara um pouco
     desarrumada. Diana reparou bem na maneira como as almofadas estavam pudas,
     para poder descrev-las corretamente quando escrevesse em seu dirio naquela
     noite. Quando ela e Henry estavam do outro lado da porta de carvalho, Diana
     soltou a mo dele com relutncia. Ela olhou para os enormes quadros pendurados
     na parede, que mostravam um mar negro e cheio de ondas. Eles pareceram a
     Diana uma boa metfora do que ela estava sentindo.
           -- O que voc est fazendo na minha casa, Henry Schoonmaker? -
     sussurrou ela.
           Diana ouviu Elizabeth falando no corredor. Ela estava usando seu tom de
     voz mais esnobe e autoritrio e perguntando a Claire como ela podia ter perdido
     o chapu do sr. Schoonmaker.
           -- Creio que no  da sua conta - disse Henry.
           Diana franziu o cenho ao ouvir essa resposta. Era possvel, embora no
     fosse provvel, que Henry estivesse ali para visitar Elizabeth. Talvez ele
     houvesse sido conquistado pela descrio da beleza dela que sara no jornal. Ou


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     talvez, pensou Diana, ele houvesse visto a mais nova das irms Holland durante o
     vero, e sua curiosidade estivesse aumentando desde ento. Isso, sim, teria sido
     maravilhoso. E, ocorreu a Diana, que talvez Henry estivesse ali com aquela cara
     sria porque os Holland deviam dinheiro aos Schoonmaker. Era uma idia
     melanclica, mas - ela devia admitir - mais realista do que a primeira. Olhando
     novamente para as almofadas, Diana se deu conta de que agora estava numa
     posio bastante vulnervel diante de uma pessoa to rica quanto o herdeiro da
     fortuna dos Schoonmaker. Mas ento ela se deu conta de outra coisa: Henry
     estava olhando-a com admirao.
           -- O famoso Henry Schoonmaker - disse ela, corajosamente sustentando o
     olhar dele. - Aquele que no consegue ficar parado e vive partindo coraes. E o
     que dizem, no ?
           -- Por que as meninas adoram tanto fofocar? - perguntou Henry.
           Diana estava to prxima dele que podia sentir seu cheiro. Ele cheirava a
     brilhantina, a cigarros e a perfume de mulher, ou ao menos foi o que lhe pareceu.
     Ela encarou Henry, que estava com uma expresso divertida no rosto, e ele
     sussurrou:
           -- Voc acha que tudo o que dizem sobre mim  verdade?
           -- Se for, ento voc  uma pessoa muito interessante.
           Diana sorriu, mordendo o lbio inferior.
           -- Bem, eu nego tudo categoricamente - afirmou Henry, dando de ombros.
     - Exceto o fato de que eu realmente gosto de meninas bonitas, o que  mais ou
     menos verdade. Quantos anos voc tem? No pode ter sido apresentada 
     sociedade h muito tempo. Nunca nem deve ter sido beijada...
           -- Fui, sim! - interrompeu Diana como uma criancinha.
           Ela sentiu que estava corando, mas estava excitada demais para se importar,
     principalmente porque no estava mentindo.
           -- Aposto que no muito bem - respondeu Henry, levantando uma das
     sobrancelhas.
           No corredor, Claire estava dizendo a Elizabeth que o chapu do sr.
     Schoonmaker de fato desaparecera, enquanto esta lamentava a m qualidade do
     servio da casa.
           Diana observou as cabeas de cervo empalhadas penduradas na parede e os
     mveis antigos e pesades. Havia um grande vaso de metal cheio de rosas que
     estavam murchando devido ao descuido, com algumas ptalas amareladas j
     espalhadas pelo cho. As cortinas estavam fechadas, o que por algum motivo lhe
     pareceu apropriado. Ela voltou a encarar Henry Schoonmaker e teve certeza de
     que sua presena ali no era um sonho. Foi quando Diana sentiu uma dor
     adorvel no peito. Havia tantas coisas que de que ele sabia e ela no. Pela
     maneira como ele se portava, Diana pde adivinhar que era mais velho do que
     ela, e que j fizera coisas que ela jamais faria. Ela sentiu vontade de lev-lo at
     seu quarto, trancar a porta e obrig-lo a lhe contar tudo.
           -- Ser que voc j foi beijada de verdade?
           Henry abaixou sua sobrancelha, mas pareceu ainda mais ctico do que
     antes. Ele se inclinou para pegar o chapu e Diana sentiu a respirao quente dele
     em sua orelha. Por um segundo, tudo ficou imvel. O corpo de Henry estava to
     prximo do de Diana que ela se sentiu como se eles j houvessem se tocado.


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     Ento, no momento em que Henry retirou gentilmente o chapu de cima dos
     cachos dela, ele virou o rosto s um pouco e seus lbios pousaram de forma
     muito suave sobre os de Diana. Ela respirou fundo. O toque de sua boca causara
     uma corrente eltrica no corpo dela.
           Henry olhou intensamente nos olhos de Diana, resistindo  tentao de dar
     um enorme sorriso, e se inclinou de novo, beijando-a de verdade. Era isso,
     pensou Diana. Era o que ela queria ter, uma sensao que ia at os dedos dos ps
     e os fazia danar.
           Henry se afastou e piscou para ela com olhos vividos e sbios. Ento ele
     colocou o chapu na cabea e foi para o corredor sem dizer mais nada.
           -- Caras senhoritas, aparentemente eu me perdi ao sair do closet - disse ele.
     - Boa tarde.
           Diana ouviu o tom de zombaria na voz de Henry e soube que, embora ele
     estivesse falando com Claire e Elizabeth, na realidade estava contando uma piada
     s para ela.
           -- Boa tarde - respondeu Elizabeth.
           Diana achou que sua irm parecia estar um pouco ofendida. Ela ouviu o
     som da porta se abrindo e imaginou que Henry j devia estar na rua. "Eu beijei
     Henry Schoonmaker", pensou Diana, mal conseguindo acreditar. "Eu beijei
     Henry Schoonmaker."


                                              ***
           Foi s mais tarde, aps Diana ter conseguido entrar em seu quarto sem ser
     vista por ningum, que o misterioso pacote chegou. Claire exigira saber o que ele
     continha ao entreg-lo, e Diana de fato se sentira tentada a abri-lo imediatamente.
     Ela e sua criada conversavam muito sobre meninos e fantasiavam sobre viagens
     para lugares distantes e romances com prncipes europeus. Mas aquilo era real
     demais para ser compartilhado. Por isso, Diana pediu desculpas a Claire,
     abraou-a e pediu-lhe que a deixasse sozinha.
           Ela ouviu Claire se afastando da porta de seu quarto e s ento tirou a
     tampa ornada da caixa redonda que recebera. O interior da caixa era de veludo
     cor de carvo e, l dentro, estava um chapu muito familiar e um bilhete que
     dizia:

                     cwx y|vt v xxA Y|v  ux x v x
                                          @
                     tzt   @ t |{t vtuxtAAA
                     t| v   xt  vx 
                                           v{xv@
                     t xx| u|ztw t v{xv@t x{A
                                                          [f
          Diana leu o bilhete duzentas vezes, tentando compreender seu sentido. "O
     contexto no qual serei obrigado a conhec-la melhor?" O que isso queria dizer?



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     Depois, ela colocou o chapu na cabea e sentiu-se perigosamente apaixonada
     por algum que mal conhecia.




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     TRECHO DO DIRIO DE DIANA HOLLAND, 17 DE SETEMBRO DE 1899



           Diana s tirou o chapu muitas horas mais tarde, quando ouviu algumas
     leves batidas em sua porta. Ela se levantou da cama, onde estivera sentada
     escrevendo em seu dirio, tirou o chapu da cabea e escondeu o bilhete dentro
     dele, enfiando rapidamente os dois embaixo da cama. O toc-toc-toc soou mais
     uma vez e Diana escondeu seu dirio, cujas pginas registravam o encontro
     secreto que estava inspirando todas aquelas cores, debaixo do travesseiro.
           -- Quem ? - gritou ela, sem tentar disfarar a irritao em sua voz.
           O rosto de Elizabeth surgiu no vo da porta. Os olhos dela estavam
     arregalados e sem expresso, exatamente como quando Diana a vira mais cedo na
     sala de estar. As duas no haviam conversado desde ento, mas aquilo no era
     uma surpresa. H anos elas no conversavam sobre nada de importante.
           -- Posso entrar? - perguntou Elizabeth gentilmente.
           -- Tudo bem.
           Diana deitou-se de novo na posio em que estivera antes de se
     interrompida; de barriga para baixo, olhando para seu travesseiro. Fora nele que
     ela apoiara seu precioso dirio para poder escrever e embaixo dele que o
     escondera. Diana sentiu necessidade de mant-lo longe da vista de sua irm, pois
     h tempos Elizabeth era como uma estranha para ela.
           Nos ltimos dois anos, Diana fora trada por Elizabeth inmeras vezes. Sua
     irm mais velha ficara cada vez mais bem-educada e distante e as duas, que j
     haviam sido muito prximas, agora se ressentiam. A interrupo do momento
     sagrado que passava com seu dirio todos os dias foi para Diana apenas uma
     pequena afronta a ser computada junto com outras bem mais graves.
           -- Tenho algo muito importante para lhe contar - disse Elizabeth
     timidamente.
           Ela se sentou na outra ponta da cama de Diana, sobre a colcha de l branca.
           --  mesmo?
           Diana revirou os olhos, pois aquilo que era importante para sua irm quase
     sempre era irrelevante para ela. De qualquer maneira, ela j estava pensando de
     novo em Henry, perguntando-se se ele tivera muitas namoradas e como seria a
     sensao de encostar a cabea em seu peito. Para Diana, era auspicioso que sua
     famlia houvesse escolhido aquele momento para se tornar pobre. Talvez aquilo a


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     tornasse diferente de todas as outras meninas aos olhos de Henry, fazendo-a
     brilhar com uma luz singular. Diana parara de escutar Elizabeth, mas ento achou
     que sua irm mais velha tinha mencionado o nome de Henry.
           -- O qu? - perguntou Diana, apoiando-se nos cotovelos e encarando
     Elizabeth.
           -- Henry Schoonmaker. Ele veio aqui esta tarde para me pedir em
     casamento e ns estamos noivos. Eu vou me casar, Di... Nossa famlia vai ficar
     bem.
           Diana apertou os olhos e fez um esforo para no cair na gargalhada. Ela ia
     pedir que Elizabeth repetisse o que dissera, pois certamente ouvira mal,
     misturando o homem em quem estava pensando com essa histria boba de
     noivado. Mas ento Elizabeth pegou sua mo.
           -- Sei que  muito sbito. Mas quase ningum tem mais dinheiro do que
     eles, e Henry  o filho mais velho... alis, o nico filho -- explicou Elizabeth,
     como quem tentava convencer a si prpria tambm.
           -- Ele... pediu voc em casamento?
           A boca de Diana se abriu e seus olhos se arregalaram de espanto. Ela
     instintivamente puxou sua mo de volta para o peito. Elizabeth olhou para baixo,
     enquanto Diana absorvia aquela informao. A deliciosa lembrana de Henry
     Schoonmaker provocando-a naquela sala deserta, escura e poeirenta fora
     arrancada de Diana. Ela a queria de volta.
           -- Mas voc nem gosta dele! - exclamou Diana.
           -- Talvez com o tempo... - disse Elizabeth, olhando para as mos e
     mexendo em suas cutculas. - Ele  muito bonito e  considerado o solteiro mais
     cobiado da cidade.
           Diana soltou uma exclamao de indignao e revirou os olhos mais uma
     vez. Era injustia demais! Ela mal podia acreditar que sua aventura ia terminar
     daquela maneira. Sua raiva estava aumentando e Diana estava preparada para
     atacar o homem que, aparentemente, era agora o noivo de sua irm.
           -- Diana, por que voc est to malcriada? Essa  uma boa notcia.
           -- Porque voc no ama Henry Schoonmaker - respondeu Diana
     amargamente.
           E ele no ama voc, acrescentou ela em pensamento. Diana poderia ter dito
     que o homem com quem Elizabeth estava planejando se casar era um patife e que
     ele beijara a irm mais nova de sua noiva minutos depois de pedi-la em
     casamento, mas no o fez. Ela j lera muitos romances e j devia ter aprendido
     que os bandidos da histria muitas vezes tm o rosto bonito. Cometera um erro
     clssico ao acreditar que aquele momento maravilhoso em que os lbios de
     Henry haviam tocado os seus marcara o surgimento do amor. Mas no ia contar a
     ningum o que fizera; era algo que pertencia s a ela. Diana fechou os olhos e
     disse:
           -- Bem... ento, meus parabns.
           Elizabeth sorriu sem qualquer alegria e uniu as mos. Diana sempre
     considerara aquele um gesto estpido e, naquele momento, ele o irritou mais do
     que nunca.
           -- Os Schoonmaker tm uma tima reputao. Alm disso, Henry  muito
     educado e...


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           Elizabeth parou de falar, como se no conseguisse pensar em nem mais uma
     coisa boa para dizer sobre seu noivo. Ento, ela mordeu o lbio e Diana pensou
     ter visto uma lgrima brilhar em seus olhos. Elizabeth cobriu o rosto com as
     mos.
           Diana achou pattico que sua irm ficasse emocionada a ponto de chorar de
     alegria devido ao surgimento de um noivo rico, principalmente porque no
     parecia ach-lo grande coisa. Ela soltou um som gutural e olhou de novo para seu
     travesseiro.
           -- Bem - disse Elizabeth, controlando-se e limpando as lgrimas. - Vai ser
     bom para mame, bom para todos ns, que haja um casamento. Flores, vestidos
     novos e tudo o mais. Tudo vai ser novo, feito especialmente para a cerimnia.
           Diana olhou para a irm e viu que ela erguera as sobrancelhas louras ao
     enumerar todos os objetos lindos que ia comprar para o casamento, coisas
     imaculadas e feitas de marfim. Era como se ela houvesse passado a tarde num
     esgoto e houvesse acabado de emergir, desesperada para encontrar qualquer sinal
     de pureza. Mas Elizabeth, na verdade, passara a tarde na suntuosa sala de estar
     dos Holland e, ao descobrir que sua famlia estava mal financeiramente, ficara
     noiva do primeiro homem rico que encontrara. Diana concluiu que sua irm era
     uma idiota por pensar em se casar com um homem obsceno como Henry
     Schoonmaker, que, aparentemente, entrara na casa delas aquela tarde com a
     inteno de arrumar no apenas uma esposa, mas tambm uma amante. Quo
     conveniente para ele. Diana se perguntou se Henry tambm no viera levar
     alguns dos mveis dos Holland, como pagamento por suas dvidas.
           -- Di? - chamou Eizabeth, que continuou a falar sem esperar que ela
     respondesse. - Eu e Penelope fizemos uma promessa quando tnhamos treze anos,
     de que seramos as madrinhas uma da outra. Espero que voc entenda. Mas
     gostaria muito que fosse uma das minhas damas de honra.
           Diana deu um sorriso sardnico. Ela no podia deixar de apreciar a ironia
     de ser chamada para participar de um casamento que desprezava com todo o seu
     ser.
           -- Tudo bem - respondeu Diana, resignada.
           Quando Elizabeth fosse embora, ela poderia voltar a escrever no seu dirio,
     mas dessa vez com raiva em vez de encantamento. Sua irm emitiu um
     barulhinho de prazer e abraou Diana.
           -- Diana, no conte isso a ningum por enquanto - pediu Elizabeth. - Por
     favor, prometa.
           -- Prometo.
           Diana deu de ombros. Aquela no era uma notcia interessante o suficiente
     para querer passar adiante e, de qualquer maneira, ela no tinha ningum para
     quem cont-la.
           -- timo.  que eu no quero que essa confuso toda comece rpido
     demais... -- explicou Elizabeth, abaixando os olhos.
           Nem o guloso do Henry Schoonmaker, pensou Diana. Assim, ele usaria os
     meses que faltavam para o casamento para beijar todas as primas de Elizabeth e
     talvez algumas das criadas dos Holland.
           -- No se preocupe - respondeu Diana, finalmente. - Seu caso secreto no
     ser revelado.


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           Diana quisera magoar um pouco a irm ao dizer isso, mas ficou surpresa ao
     ver a expresso de choque de Elizabeth. Era s uma piada. Por que Elizabeth no
     conseguia suportar nem uma piadinha?




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                     Se a srta. Peoelope Hayes no for pedida em casamento por Henry
                     Schoonmaker em breve, ela no ser a nica a ficar surpresa. Dizem
                     que a srta. Hayes estava jogando todo o seu charme para o jovem
                     Schoonmaker e seu pai no baile de sua famlia ontem  noite e isso s
                     pode significar uma coisa: um noivado  vista...

     NOTA DA COLUNA SOCIAL DO JORNAL NEW YORKNEWS OF THE WORLD GAZETTE,
     DOMINGO, 17 DE SETEMBRO DE 1899



           A casa da famlia Holland parecia estranhamente melanclica, mas Lina
     no estava dando muita importncia para isso. Elizabeth estava sentada de frente
     para o espelho da penteadeira de mogno que havia em seu quarto, ereta e
     impassvel, olhando para seu reflexo sem jamais deixar que seus olhos
     encontrassem os de sua amiga de infncia. Ela retornara h apenas dois dias e
     Lina j voltara a ser tratada como apenas uma criada.
           Ainda era difcil acreditar que Elizabeth - a menina perfeita, to celebrada
     por sua pureza, to bela e desamparada - logo iria at o estbulo para fazer coisas
     proibidas com um homem que era "um deles". Um de ns, pensou Lina,
     enquanto passava o pente de prata pelos fios louros de Elizabeth e lamentava o
     fato de que a menina cujos cabelos ela penteava era sua rival no amor.
           -- J est bom - disse Elizabeth, impaciente. - Pode tran-lo agora.
           Lina olhou para o reflexo de Elizabeth no espelho e ficou furiosa. Alguns
     segundos se passaram e, antes que ela soubesse como reagir, algum bateu na
     porta. Elizabeth continuou imvel, apenas levantando o queixo alguns
     centmetros.
           -- Sim? - disse ela.
           A porta se abriu e Lina viu sua irm entrando. Ela estava usando um vestido
     preto como o seu e seus cabelos vermelhos estavam presos num coque. Havia um
     cesto cheio de roupa limpa apoiado em seu quadril.
           -- Voc ainda no terminou? -- perguntou Claire, olhando primeiro para
     Lina e depois pata Elizabeth.
           -- Ah, Claire, que bom que est aqui. Pode tranar meu cabelo, por favor?
     -- pediu Elizabeth, deixando os olhos fixos em seu reflexo no espelho oval.
           Lina afastou as mos do cabelo de Elizabeth e saiu dali, dando passagem
     para sua irm. Claire se inclinou com ar cansado para deixar o cesto de roupa no
     cho e ento atravessou o cmodo de Elizabeth, que era coberto por um tapete
     luxuoso, lanando um olhar de repreenso para Lina.
           Lina detestava Elizabeth por faz-la se sentir daquela maneira e ficou
     observando com raiva enquanto Claire separava seus cabelos e o arrumava numa
     trana perfeita com dedos rpidos e geis. Ao terminar, ela se afastou e disse:


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           -- Mais alguma coisa?
           -- No - respondeu Elizabeth. - Mas deixe sua irm praticar um pouco com
     seus cabelos. Ela parece ter esquecido algumas coisas durante a minha ausncia.
           Lina no disse nada. Ela se lembrou dos momentos dolorosos do incio de
     sua adolescncia, quando Elizabeth comeara a se transformar na perfeccionista
     que era agora. Lina s se tornara sua criada pessoal quando ela fizera 16 anos,
     mas fora observar a metamorfose de sua amiga de infncia em uma menina da
     alta sociedade enquanto ela continuava a ser a velha Lina de sempre que a
     magoara.
           --  claro - disse Claire.
           Ela assentiu, foi at a cama de mogno, onde Lina colocara o vestido que
     Elizabeth estivera usando, apanhou-o com cuidado, colocou-o no cesto e ento
     pegou a mo da irm. Lina quis arrancar sua mo dali e mandar que Claire no
     fosse condescendente com ela, mas era covarde demais para dizer qualquer coisa.
           -- Boa noite, srta. Elizabeth - disse Claire, levando a irm dali.
           -- Boa noite - respondeu Elizabeth.
           Ao ver que Lina no ia dizer nada, Claire arregalou os olhos para ela
     ameaadoramente.
             -- Boa noite, senhorita -- murmurou Lina com m vontade.
           Claire fechou a porta e largou a mo de Lina. Ela atravessou o corredor que,
     assim como o resto da casa, era decorado com quadros escuros mostrando uma
     Manhattan composta apenas por fazendas e montanhas e seus primeiros
     colonizadores. Os quartos das duas irms Holland ficavam na ala oeste da casa,
     no segundo andar, bem distantes do quarto principal, o que as permitiria subir e
     descer pela escada dos empregados sem jamais serem notadas se quisessem -
     Lina acabara de perceber. O quarto de Diana dava para o sul e o de Elizabeth
     para o norte, com vista para a rua. Claire e Lina subiram a escada de madeira
     estreita, passando pelo terceiro andar e chegando ao quarto. O teto da escada era
     to baixo que elas precisavam tomar cuidado com suas cabeas.
           O sto que as irms Broud dividiam com as outras jovens mulheres que
     serviam os Holland estava envolto numa escurido impenetrvel. Elas ainda
     usavam velas para iluminar o cmodo e, por isso, depois que o sol se punha ele
     parecia no acabar nunca - quilmetros e mais quilmetros de negror. Lina ouviu
     os passos de Claire no cho sem tapete e os sons da irm procurando por uma
     vela. Ela sabia que Claire ia lhe dar uma bronca e desejou estar bem longe dali.
     Aps alguns segundos, uma luz fraca iluminou o cmodo.
           -- Queria muito que voc no desagradasse  srta. Elizabeth - disse Claire,
     acendendo mais duas velas e indo se deitar na cama de metal que elas duas
     dividiam. - Diga alguma coisa, Lina. No fique muda como sempre.
           Lina foi at a cmoda simples, em cima da qual Claire colocara as velas, e
     pegou alguns grampos enferrujados que haviam sido dados a elas pelas irms
     Holland. Ela prendeu vrios fios soltos com eles e se olhou no espelho, virando o
     rosto para o lado para examinar seu perfil. Ela no sabia como explicar a Claire
     que sentia que o mundo todo era injusto e que sua vida precisava mudar
     drasticamente.
           -- Desculpe por no ter ajudado voc a lavar a roupa hoje - disse Lina,
     simplesmente.


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           Claire suspirou, olhando para o cesto que colocara ao lado da cama.
           -- No  disso que estou falando. Voc vai me dizer por que anda to
     chateada?
           Lina no contara a Claire o que vira na noite anterior, mas sua irm mais
     velha h muito sabia reconhecer seus humores e estava acostumada a fazer suas
     tarefas quando ela no trabalhava direito. Isso sempre causava em Lina uma vaga
     e incmoda sensao de culpa. Mas o que era a culpa comparada com a mistura
     borbulhante de humilhao e desejos no correspondidos que ela vinha sentindo
     desde a noite anterior?
           --  um bom emprego, Liney, com uma boa famlia - disse Claire quando
     Lina no respondeu, balanando a cabea com decepo e fazendo seu coque cor
     de cobre se mexer de um lado para o outro. - No sei por que voc est sempre
     arrumando confuso.
           Lina olhou para seu reflexo no espelho. Ela tinha ps enormes, um cabelo
     sem graa e nenhuma roupa ou acessrio bonitos e, por tudo isso, sentia-se como
     o ltimo dos seres humanos. Mas aquela era uma poca de revolues, disse Lina
     a si mesma. Todo dia saa algo no jornal sobre isso. Fortunas eram feitas da noite
     para o dia, e a diligncia e a inventividade transformavam a aparncia de uma
     garota. Lina sempre acreditara que havia uma menina bonita por trs de sua
     camada externa de feira.
           --  que eu no estou mais acostumada a servir a srta. Elizabeth - disse ela,
     finalmente.
           S de dizer aquele nome, Lina sentia um embrulho no estmago. Fazia com
     que ela se lembrasse dos gestos orgulhosos de Elizabeth e de sua voz de
     boazinha. Cada vez que Elizabeth dizia alguma coisa, Lina se dava conta de que
     no tinha nenhuma chance contra ela.
           -- Era muito mais fcil dar conta de tudo quando ela estava fora -
     acrescentou ela, tentando se explicar.
           -- Voc sabe muito bem que no h muitos empregos disponveis para
     meninas como ns.
           Claire balanou a cabea com mais vigor dessa vez. Lina percebeu que sua
     irm continuava trabalhando, pois estava dobrando as fronhas nas quais as
     Holland pousavam suas belas cabeas.
           -- Se ns perdermos esse emprego... - comeou Claire - bom, a nenhuma
     outra famlia de Nova York vai nos contratar. Voc costumava ser to amiga da
     srta. Elizabeth.  claro que nem tudo pode continuar a ser como era... mas se
     voc...
           Lina no quis responder e, por isso, foi para o lado de sua irm e pegou
     impacientemente a fronha que ela estava dobrando. Claire virou seu rosto
     cansado e cheio de sardas claras para Lina com um olhar interrogativo.
           -- V se sentar - disse Lina, fazendo um gesto para o lado com a cabea. -
     Voc passou o dia todo de p. Deixe que eu dobro isso aqui um pouco.
           Claire riu e foi para o outro lado da cama, encostando a cabela na cabeceira
     e cruzando as pernas. Ela ficou observando Lina durante alguns segundos com
     um olhar que era quase ctico.
           -- Cuidado com os bordados - disse Claire quando Lina pegou uma camisa
     toda trabalhada.


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  IL
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           -- Pode deixar! - retrucou Lina, passando a mo por sobre o bordado
     delicado. - Ser que d para voc relaxar um pouco? Que tal ler suas colunas de
     fofocas para mim?
           Lina sempre implicava com Claire por causa do passatempo preferido dela,
     que era ler sobre as vidas dos ricos, mas agora sorriu para a irm, assegurando-
     lhe que no reclamaria ou diria que aquela era uma maneira idiota de se divertir.
     Claire foi entusiasmada pegar a edio dobrada do News of the World Gazette e
     comeou a ler as notcias de Newport, que contavam o que as damas nova-
     iorquinas que estavam em frias andavam fazendo.
           Lina continuou a dobrar enquanto Claire lia as colunas sociais com uma voz
     exageradamente pomposa. Ela assentiu como se estivesse ouvindo com ateno,
     mas na verdade no podia esquecer de seu infortnio. Tudo o que conseguia
     fazer era tentar pensar numa maneira de mostrar a Will que ele no tinha que se
     misturar com a metida da Elizabeth Holland. Lina ainda no conseguira ter
     nenhuma idia quando sua irm exclamou:
           -- Henry Schoonmaker! Esse  o rapaz que veio visitar a srta. Elizabeth
     hoje.
           -- O qu? - Lina levantou a cabea e tentou parecer um pouco interessada
     naquele tal de Henry Schoonmaker.
           -- Est dizendo aqui que a amiga da srta. Elizabeth, aquela Penelope
     Hayes, est de namoro com Henry Schoonmaker. Ele  o jovem que veio esta
     tarde. Ai, Lina, voc viu? - comentou Claire, com os olhos cheios de espanto ao
     ver o quo prximas elas duas estavam de tanta felicidade. - Ele  to bonito que
     chega a ser injustia. E Penelope Hayes vai se casar com ele!
           Lina ficou atnita ao ver como Claire conseguia ficar feliz por uma menina
     que era sempre grosseira com elas, mas achou melhor no dizer nada.
           -- Mas ento - disse Claire com curiosidade -, por que ele veio ver a srta.
     Elizabeth nesta tarde?
             -- De repente ele queria saber como deveria fazer o pedido -- sugeriu
     Lina, dobrando uma angua de algodo que pertencia a Diana.
           -- Talvez...
           Claire deu de ombros e continuou a ler as ltimas notcias sobre os
     habitantes mais fascinantes de Nova York. Lina sorriu para a irm, que estava
     absorta demais nas fofocas que lia para notar qualquer coisa. Ela continuou a
     dobrar as roupas de baixo das Holland e a ouvir o som reconfortante da voz de
     Claire.
           Lina se lembrou de Penelope Hayes, com sua pele translcida, seus belos
     vestidos, suas mos cheias de jias e seu jeito frio. "Voc sempre reconhece os
     ricos pela pele", costumava dizer sua me. Ela pensou no rosto de porcelana de
     Elizabeth, que no tinha nenhuma mancha ou sarda, e sentiu-se mais uma vez
     excluda de tudo que havia de maravilhoso no mundo.
           Lina no pde deixar de pensar que, se ela fosse uma dama como a srta.
     Hayes ou como a srta. Elizabeth, Will jamais teria expulsado-a do estbulo
     naquela noite. Ou em qualquer noite.




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  JC
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                                      gxx
                     fxx tvxw|x| x  |tx tux
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                     x x|txx ytw t TM|t
                     xt|wtwxA

             TRECHO DO DIRIO DE EDWARD HOLLAND, DEZEMBRO DE 1898.


           J passara das duas da madrugada e todos os recantos da casa dos Holland
     estavam imersos na escurido. Elizabeth desceu os degraus da escada dos
     empregados um a um, tomando cuidado para no faz-los ranger. Naquela
     manha, sua me ordenara que ela tomasse mais cuidado do que nunca com as
     aparncias e ela tentou obedecer, embora estivesse se dirigindo para o estbulo.
     Ela segurava uma vela num castial de metal para poder ver melhor.
           Ao chegar, Elizabeth esperou alguns segundos para que seus olhos se
     ajustassem  atmosfera do estbulo, que estava iluminado porque a janela de Will
     ficava bem l no alto e deixava entrar um pouco da luz das estrelas. Ela foi at a
     escada de madeira e tentou no se esquecer do motivo de estar ali. J era o dia
     seguinte, o dia em que se prometera que ia contar tudo a Will.
           Ela subiu devagar a escada que dava no compartimento onde Will dormia e
     parou para admir-lo  luz bruxuleante de sua vela. Era uma cena feita de tons de
     marrom, bege e negro. Will devia ter chutado para longe sua colcha vermelha
     enquanto dormia, pois estava enrascado como um beb sem nada para proteg-lo.
           Elizabeth atravessou o compartimento, ainda tomando cuidado para no
     fazer o cho de madeira ranger. Colocou a vela em cima do engradado de leite
     que havia do lado do colcho de Will e parou para olhar os ombros fortes e as
     plpebras dele, que escondiam seus olhos enormes e lindos. A idia de mago-lo
     era to terrvel que Elizabeth mal podia pensar nela. Ela se deitou ao lado dele,
     encostando-se no seu corpo. Will estava dormindo profundamente e seu peito
     subia e descia com a respirao. Elizabeth olhou bem para o rosto dele, temendo
     jamais voltar a v-lo de forma to ntima.
           Will se remexeu e puxou-a mais para perto de si. Elizabeth quase deu um
     grito de susto, mas um sorriso lhe surgiu no rosto e ela acabou dando uma risada


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  JD
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     baixinha. A mo de Will buscou sua nuca e ele acariciou-lhe os cabelos. O
     mundo l fora desapareceu e Elizabeth mergulhou naquilo que estava bem  sua
     frente.
           -- No acredito que voc j veio me ver de novo - sussurrou ele.
           -- No conseguia dormir - explicou Eizabeth, sem deixar de olhar para ele.
           Os olhos de Will se moveram de um lado para o outro, como se tentando
     decifr-la.
           -- Sorte minha - disse ele, finalmente.
           Ela quis beij-lo, mas no quis tirar os olhos dele. Will moveu sua mo
     pelas costas dela, deixando-a pousada bem acima de seu quadril. Ele estava
     olhando para Elizabeth de uma maneira que a fazia se sentir lnguida como se
     houvesse passado a tarde no sol. Pela primeira vez naquele dia, os pulmes da
     jovem se encheram de ar e seu corao foi tomado pela felicidade. Ela tentou
     lembrar que seu caso com Will era impossvel. Mas, ao olhar para o azul puro
     dos olhos dele, Elizabeth confirmou o que soubera por mais da metade de sua
     vida: ela podia confiar em Will, sempre.
           -- Voc deve ter sentido muita saudade de mim - disse ele.
           -- Voc  quem mesmo?
           Mas Elizabeth s conseguiu ficar sria por um segundo aps fazer a
     pergunta e logo deu uma sonora gargalhada.
           Will riu tambm, pegando-a pela cintura e rolando-a no colcho de forma a
     ficar com seu corpo em cima do dela. Ele abriu um enorme sorriso. Ela tentou se
     levantar, mas Will segurou seus pulsos e a impediu. Elizabeth riu mais e mais,
     at que Will a calou com um beijo.
           Aquilo era maravilhoso, mas Elizabeth estava se sentindo uma mentirosa, e
     Will era a ltima pessoa no mundo para quem desejava mentir. Ela se afastou
     gentilmente dele e lanou-lhe um olhar srio. Seria cruel esperar mais, pensou
     ela. Isso s faria com que Will ficasse ainda mais arrasado quando soubesse.
           -- O que foi? - ele perguntou.
           Elizabeth fechou a boca, abriu-a de novo e respirou fundo, tomando
     coragem.
           -- Henry... - disse ela.
           -- Henry Schoonmaker? - disse Will, rindo. - Voc no vai me provocar de
     novo, vai? Eu o vi saindo daqui esta tarde, mas no precisa se preocupar. No
     vou mais lhe incomodar com meus cimes.
           Will beijou-a mais uma vez. Elizabeth sentiu a garganta apertada e desejou
     que aquele momento durasse para sempre. Ele estava sorrindo quando se afastou
     e seus olhos estavam cheios de luz.
           -- Acho que vai ficar tudo bem - sussurrou ele aps um longo silncio.
           Elizabeth deu uma espcie de sorriso e perguntou-se se Will ia perceber o
     quanto ela estava triste.
           -- Vai ficar tudo bem - repetiu ela, num tom de voz que quase a convenceu.
           Amanha, amanh ela contaria. Tudo o que queria era s mais uma noite
     antes que eles ficassem furiosos um com o outro ou arrasados com aquela
     situao. Amanh, repetiu ela para si mesma. Certamente no haveria problema
     em esperar s mais um dia para dar aquela notcia terrvel.



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  JE
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           Will comeou a tirar a camisola de Elizabeth e ela tentou no pensar na
     situao precria de sua famlia e em como eles estavam vulnerveis. Tentou no
     pensar em suas responsabilidades. Ou em como seria impossvel contar a verdade
     a Will. Ela tentou se concentrar apenas na maneira como Will estava beijando a
     parte de seu pescoo que ficava logo abaixo de seu queixo, para poder se lembrar
     para sempre de como as coisas costumavam ser.




                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  JF
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                                    Vtx
                     Um jovem de sobrenome Schoonmaker que  muito querido das
                     meninas casadouras da cidade foi visto ontem  tarde na joalheria
                     Tiffany. Tenho fontes no departamento de anis de noivado que me
                     disseram que ele saiu da loja com um solitrio de diamante
                     extraordinariamente grande e belo, valendo mais de mil dlares...

     NOTA DA REVISTA CIT CHATTER, SEXTA-FEIRA, 22 DE SETEMBRO DE 1899




          c                 enelope Hayes sorriu friamente para a criada que estava
                            esperando no vestbulo de sua casa para ajud-la a botar
                            sua estola de marta preta. A pea era nova, assim como seu
     vestido, que era de cetim cor de marfim rebordado de veludo negro, formando
     um desenho art nouveau - modernssimo. Penelope nunca vira aquela menina
     antes, com seus olhos pequenos e ansiosos e seu cabelo mal arrumado, e concluiu
     que ela devia ser uma das criadas contratadas recentemente. A casa era to
     grande que o nmero de empregados tivera que ser muito aumentado, o que fazia
     Penelope temer pela inviolabilidade de sua correspondncia. Ela tentou expressae
     esse sentimento na forma irritada como removeu o carto cor de creme da
     bandeja de prata que a menina lhe estendeu.
           -- O senhor Isaac Philips Buck chegou para acompanhar a senhorita - disse
     a criada com exagerada formalidade.
           Penelope e Isaac eram amigos to ntimos que ele no precisaria mais
     deixar seu carto com a criada antes de entrar, mas Isaac no resistia a esses
     pequenos floreios.
           -- Obrigado - disse Penelope, descendo apressadamente os degraus de
     mrmore branco de sua casa.
           Ela olhou para trs e percebeu que cometera um erro. A criadinha estava
     quase desmaiando de felicidade por ter recebido um agradecimento to gentil.
     Penelope tentou esquecer sua irritao - no fazia bem para a pele ficar irritada e
     ela estava indo a um jantar na casa de Henry, onde sempre gostava de estar com a
     melhor aparncia possvel. Virou-se e viu que Isaac estava esperando de frente
     para a Avenida, com a fumaa do cigarro suspensa no ar sobre sua cartola.
           -- O que voc estava olhando? - quis saber Penelope.
           Isaac voltou-se para ela e pegou sua mo. Penelope se inclinou para dar-lhe
     um beijo em cada bochecha.
           - As pessoas interessantes.
           Isacc deu uma pequena fungada e comeou a descer a escada frontal da casa
     de sua socialite preferida de braos dados com ela. A noite estava quente e um




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                        cz|t  JG
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     pouco enevoada e as melhores carruagens da cidade passavam pela Quinta
     Avenida vagarodamente, como se desejassem ser observadas.
           -- Mas nenhuma delas est to bem vestida quanto voc - concluiu ele.
           O cocheiro dos Hayes estava esperando numa das quatro carruagens de
     madeira negra polida pertencentes a famlia que estavam abertas. Isaac ajudou
     Penelope a subir, entrando tambm e acenando com a cabea para o homem.
     Uma menina mais preocupada com o decoro jamais teria ido de carruagem aberta
     para um jantar formal, mas, naquele momento, Penelope estava absolutamente
     deliciada consigo e no admitiria crticas. Ela se ajeitou no banco de veludo
     vermelho e tirou sua estola, deixando-a cair  suas costas. Queria sentir o ar da
     noite, embora os mais moralistas sem dvida fossem critic-Ia por expor seu
     ombros nus daquela forma.
           Os cavalos comearam a andar devagar para o lado sul da cidade e Isaac
     entregou a Penelope um recorte de jornal que tirara do bolso do casaco.
           -- Achei que voc pudesse achar isso interessante - disse ele num tom
     casual, mas sem impedir que seus lbios midos se abrissem num sorriso de
     satisfao.
           Os olhos dela percorreram rapidamente a nota, arregalando-se ao ler as
     palavras "joalheria", "diamante" e "mil dlares". Penelope piscou os clios muito
     maquiados e deu de ombros modestamente, embora a modstia jamais houvesse
     sido uma caracterstica admirada ou cultivada por ela. Virou o rosto para o lado
     leste, para que as carruagens que estavam passando na direo contrria a vissem
     em seu melhor ngulo, e aproveitou o curto passeio pela larga Avenida. Henry
     dissera que ela descobriria em breve quando eles iam ficar noivos e de fato usara
     a expresso de forma correta, embora esse no fosse um hbito seu. At mesmo
     uma menina impaciente como Penelope podia considerar que o evento no
     demorara para acontecer.
           A manso dos Schoonmaker surgiu no horizonte. Ela tomava meio
     quarteiro na esquina da Quinta Avenida com a rua trinta e oito e, embora fosse
     mais nova do que Henry, j estava comeando a ter a aparncia datada, com seu
     telhado com mansardas e escadaria ngreme. Ela e Henry ganhariam uma nova
     manso,  claro. Talvez papai construa uma para ns de presente de casamento,
     pensou Penelope. A carruagem parou na frente da casa e Isaac saltou para a rua
     de forma quase delicada para um homem do seu tamanho, estendendo a mo para
     ajudar Penelope a descer. Ela viu carruagens de diversos outros convidados
     paradas por ali e, dentro de cada uma delas, um cocheiro, a maioria fumando.
     Eles tinham uma longa espera pela frente. O cocheiro dos Holland estava ali
     tambm, encostado na carruagem da famlia lendo um jornal. Ele tinha ombros
     largos e brutos e Penelope no conseguiu lembrar seu nome. Elizabeth um dia
     mencionara que eles haviam sido amigos quando crianas e Penelope no pde
     deixar de sorrir da maneira estranha como as coisas eram feitas na rea do
     Gramercy Park, com todas aquelas velhas tradies e aquela mania de dar
     ateno demais para os criados. As damas e os cavalheiros subiam a escada de
     calcrio da manso dos Schoonmaker em pares, indo na direo da porta
     iluminada sem prestar a menor ateno aos cocheiros.
           -- Acho que vou demorar, Thom - disse Penelope.



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  JH
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           Ela nem olhou para seu empregado. Estava ocupada demais alisando suas
     luvas brancas, que iam at a metade de seus braos, para tirar qualquer dobra que
     houvesse restado. Mas sua aparncia j estava perfeita e ela sabia disso muito
     bem.
           -- Estarei aqui quando a senhorita sair - respondeu o cocheiro.
           Penelope deu o brao a Isaac enquanto eles subiam a escada. Um dos
     mordomos dos Schoonmaker pegou sua estola e levou-os at a fila de convidados
     que entravam. Isabelle Schoonmaker estava recebendo cada casal que entrava e
     suas bochechas j estavam coradas devido ao esforo de cumprimentar tanta
     gente. Ela ava um vestido azul-turquesa de Charles Worth que se abria em leque
     na cauda e lhe apertava muito a cintura, fazendo-a se inclinar para a frente como
     uma sereia de proa de navio.
           -- Ah, Penelope! - exclamou Isabelle, dando-lhe dois beijinhos. - Lamento
     tanto que seus pais e seu irmo no tenham podido vir.
           -- Isabelle, querida - cumprimentou Penelope, beijando-a tambm.
           Os pais dela estavam jantando com os Astor, um convite impossvel de
     recusar, e Grayson, seu irmo mais velho, estava em Londres cuidando de alguns
     negcios de famlia.
           -- No se preocupe comigo. Fico muito bem s com Isaac - garantiu
     Penelope.
           -- Eu sei.
           Isabelle apertou de leve a mo dela e, nesse momento, Richard Amory e sua
     esposa, que estavam casados h trs anos e haviam ficado ainda mais enfadonhos
     juntos do que costumavam ser quando eram solteiros, chegaram.
           -- Vamos ter de deixar para nos divertir mais tarde - sussurrou Isabelle para
     Penelope.
           Um dos criados dos Schoonmaker, que trazia o braso da famlia em seu
     libr de veludo, surgiu e guiou-os pelos corredores at um salo de recepo com
     papel de parede vermelho vivo, onde inmeros garons circulavam levando taas
     de champanhe nas bandejas.
           -- Vou ver se est tudo bem na cozinha. V fazer o que voce faz melhor -
     disse Isaac, dando uma piscadela rpida para Penelope.
           Ela parou ao chegar na porta da sala para que sua entrada causasse uma
     impresso ainda maior, deixando que os metros de cauda de seu belssimo
     vestido negro e marfim se espalhassem pelo cho de carvalho. Como sempre,
     Penelope sentiu uma onda muda de aprovao e inveja das pessoas  sua volta,
     mas tentou se mostrar indiferente. Ela no estava interessada em ver ningum
     alm de Henry, mas, em vez de sentir a mo grande e quente dele em sua cintura,
     Penelope sentiu um aperto fraco e gelado em seu brao. Ela se virou e viu
     Elizabeth, que estava usando um vestido de cor plida mais uma vez e parecendo
     mais inspida do que nunca.
           -- Penelope - sussurrou Elizabeth, dando seu sorriso recatado.
           A franja loura dela formava mechas perfeitas em sua testa e no pescoo ela
     usava apenas uma cruz de ouro simples.
           -- Passei a semana toda querendo lhe fazer uma visita - explicou Elizabeth.
     - Sinto muito por no termos conversado direito no seu baile, mas tenho estado
     muito ocupada e...


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           -- No se preocupe comigo - disse Penelope pela segunda vez naquela
     noite, pegando o brao de Elizabeth.
           Elizabeth pousou a mo sobre a de Penelope e deu-lhe um sorriso afetuoso.
     Elas atravessaram devagar o cmodo cheio de esttuas fantasmagricas e
     enormes samambaias cujas folhas tocavam o cho, permitindo que os outros as
     admirassem. Conforme se moviam, Penelope observou as sancas do teto e a
     madeira trabalhada dos lambris com olhos de futura proprietria.
           -- Tenho tido tanta coisa para fazer tambm que mal percebi. Mas estou
     realmente feliz de v-la agora - disse Penelope, olhando para Elizabeth e
     erguendo uma de suas sobrancelhas pintadas. - Tenho notcias.
           -- Sobre seu namorado - adivinhou Elizabeth animadamente, arregalando
     os olhos. - Passei a semana toda pensando em voc e seu namorado.
           -- Sempre pensando nos outros - disse Penelope, com um pouco mais de
     cinismo do que pretendia. - Mas antes que eu lhe conte tudo, precisamos brindar
     a ocasio.
           Penelope percebeu que Elizabeth teve um sobressalto ao ouvir isso, mas
     prosseguiu:
           -- Parece que voc ficou anos e anos fora. Minha novidade e sua volta
     certamente merecem um brinde - continuou ela. sentindo-se generosa o suficiente
     para incluir o retorno da amiga em sua celebrao.
           -- Tem razo.
           Elizabeth fez um gesto sutil para um dos criados dos Schoonmaker e logo
     as duas estavam segurando taas de boca larga e bordas douradas cheias de
     champanhe. Elas fizeram o brinde e beberam. Penelope sentiu o lquido
     borbulhante esquentando-lhe o corpo e uma enorme satisfao, pois sabia que em
     poucos segundos ia deixar Elizabeth bastante impressionada. A mais velha das
     irms Holland podia ser certinha demais s vezes, mas Penelope sabia que ela
     tambm era divertida. E,  claro, seu gosto para amizades era impecvel.
           -- Bem - disse Penelope, enlaando a cintura pequenina de Elizabeth com o
     brao. Mas antes que pudesse comear a contar sua histria, ela notou um
     homem bonito usando uma roupa esporte branca que no parecia nem um pouco
     com nenhum rapaz que jamais conhecera. Ele tinha olhos em formato de
     amndoa e a pele da cor de caf com creme.
           -- Quem  esse? - perguntou Penelope a Elizabeth.
           -- Ah! - exclamou Elizabeth, excitada, inclinando-se para poder cochichar
     ao ouvido da amiga. - Esse  o prncipe Ranjitsinhji, da ndia. Disseram-me que
     ele  o capito de um time de crquete e que est aqui para jogar com os rapazes
     do Clube Union.
           -- Ele  um prncipe de verdade?
           -- Ningum sabe com certeza - sussurrou Isabelle Schoonmaker com sua
     vozinha infantil ao surgir inesperadamente ao lado de Penelope. - O pai dele
     governava Nawanagar e dizem que ele foi um pouco extravagante no que diz
     respeito ao matrimnio...
           Penelope e Elizabeth colocaram as mos enluvadas sobre a boca e riram,
     enquanto Isabelle piscava alegremente para elas. Penelope estava prestes a fazer
     mais perguntas sobre o prncipe quando notou a figura curiosa que era Diana
     Holland, usando um vestido cor de pssego debruado de renda belga com mangas


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     tufadas. Ela claramente fora obrigada a vestir aquilo, pela me ou pela irm.
     Diana estava parada num canto, sozinha. Tinha o ar ressentido e parecia ter
     escapado de um hospcio. Penelope se aproximou do ouvido de Elizabeth e disse:
           -- O que sua irm est fazendo?
           Elizabeth estremeceu, mas resolveu ignorar o comentrio.
           -- Isabelle - disse ela, nervosa -, est tudo to lindo! Que seleo
     maravilhosa de convidados. Mas espero que no estejamos ocupando demais seu
     tempo e fazendo-a ser uma anfitri descuida.
           Penelope assentiu gravemente como se aquilo fosse a pior coisa do mundo
     para ela.
           -- No, de jeito nenhum... Mas preciso mesmo me comportar melhor e
     conversar com os outros. J volto - disse Isabelle, j percorrendo o salo com os
     olhos. - Obrigada, meus amores, por serem to compreensivas.
           Isabelle foi falar com o prncipe indiano e imediatamente soltou uma
     risadinha estridente. Penelope se virou para Elizabeth e ergueu uma sobrancelha.
           -- E ento? Sua irm est com alguma espcie de problema nervoso?
           -- No, no, no. Voc conhece Diana. Ela gosta de parecer excntrica.
     Mas o mais importante...
           Dessa vez foi Elizabeth quem levou Penelope a atravessar o salo cheio de
     convidados e ir com ela at a galeria de quadros adjacente, onde havia apenas
     duas pessoas: um homem e uma mulher mais velhos, completamente absortos
     por um retrato de Mamie Stuyvesant Fish em seu camarote de teatro. Elizabeth se
     virou para que elas pudessem se afastar do casal.
           -- Pare de se esquivar e me conte logo a novidade. Esperei semana toda
     para saber quem  esse namorado misterioso!
           -- Bem, ele  muito alto e muito bonito.
           --  claro.
           --  scio de todos os clubes e vai a todas as festas.
           -- Sim?
           Elizabeth sorriu para ela e lanou-lhe um olhar inquisidor. As meninas
     pararam de andar pela galeria e observaram a arcada que a separava do salo de
     recepo, onde os cerca de trinta convidados estavam se comportando como se
     houvessem bebido um pouco demais antes do jantar.
           -- Ele vem me observando h algum tempo - disse Penelope, tentando no
     demonstrar orgulho, em vo. - E na nossa festinha. da semana passada ns
     danamos juntos e esta manh havia uma nota sobre ele num dos jornais. Ah,
     Elizabeth! Ele foi visto comprando um anel!
           Uma risada foi ouvida no salo e Penelope viu Henry do outro lado com um
     drinque dourado na mo e um sorriso sardnico nos lbios. Ele vestia um fraque
     e nenhum fio de seu cabelo estava fora do lugar. Estava contando uma piada para
     um grupo de rapazes que eram todos bonitos e ricos, mas no tanto quanto ele.
           -- Sim? - insistiu Elizabeth, excitada.
           Sem tirar os olhos dele, Penelope anunciou, deliciada:
           -- Henry Schoonmaker.
           Elizabeth deixou seu brao pender e Penelope se perguntou se ela estaria
     literalmente morrendo de inveja. timo. Aquele era o objetivo. No salo, algum
     bateu uma faca contra um copo de cristal, chamando a ateno dos convidados


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     para um brinde. Atravs da arcada, Penelope viu que era o pai de Henry quem o
     fizera.
           -- Penelope, eu preciso... - sussurrou Elizabeth.
           -- Psiu! Pode deixar que eu conto tudo mais tarde - interrompeu Penelope,
     pegando o brao da amiga mais uma vez e levando-a mais para perto do salo.
           Ela percebeu que Elizabeth estava muito tensa e ficou um pouco surpresa
     ao v-la to incapaz de esconder melhor seu lado competitivo. Isabelle, que
     estava quase gargalhando de alegria, atravessou a pequena multido de
     convidados e se postou ao lado do marido. Ela parecia pequena ao lado dele,
     especialmente agora, que seu peito estava estufado a ponto de quase arrebentar.
           -- Fui informado de que o jantar est pronto para ser servido - disse
     William Schoonmaker com sua voz potente. - Mas, antes de entrarmos, tenho
     uma notcia que gostaria muito de compartilhar com vocs.
           Os convidados soltaram um murmrio e se aproximaram um pouco daquele
     grande homem. Penelope olhou para Henry, mas ele no a encarou e continuou a
     olhar fixamente para seu drinque.
           -- Como vocs todos sabem, h tempos eu me dedico a transformar essa
     cidade num lugar melhor, um paraso terrestre para as mais importantes figuras
     de nossa poca. Venho fazendo isso com trabalho duro e um esprito
     empreendedor, transformando essa cidade no mais importante centro desta nao.
     Mas no estou mais satisfeito com aquilo que posso fazer dentro da esfera
     privada. Decidi me unir aos homens que doaram seus nomes, seu tempo e suas
     vidas inteiras ao povo. Decidi me candidatar  prefeitura de Nova York.
           Todos os convidados deram vivas. Penelope deu um bocejo; olhou para
     Elizabeth, esperando que ela confirmasse que esta e fato no era uma novidade
     que merecia tanto entusiasmo. Mas o rosto de sua amiga estava imvel e seus
     olhos estavam fixos naquele fanfarro que seria seu futuro sogro. Penelope
     decidiu que seria melhor fingir estar escutando atentamente tambm.
           -- Obrigado, obrigado - disse William Schoonmaker. - Teremos que
     esperar mais um ano, mas eu contarei com o apoie de vocs em 1900.
           Penelope observou as convidadas dos Schoonmaker, com suas saias
     enormes e vestidos debruados de arminho, bebendo champanhe e tentando no
     demonstrar tdio diante daquele discurso. Ela acabara de fixar os olhos no
     umbral dourado sob o qual se encontrava quando o pai de Henry comeou a falar
     de algo muito interessante.
           -- E tenho outra novidade, de natureza mais pessoal, porm no menos
     jubilosa. Henry... meu filho, meu nico filho, que est rapidamente se tornando
     um homem capaz de me substituir h pouco me deu a notcia pela qual todo pai
     espera. Ele me disse: "Papai, estou apaixonado."
           O peito de Penelope se encheu de alegria. De fato fora rpido - quase rpido
     demais. Aps tantos meses de encontros secretos, Henry confessara seu amor por
     ela ao pai, o que era incrvel e grandioso. Era inevitvel que fosse acontecer mais
     cedo ou mais tarde, mas ver seus desejos se realizarem de maneira to pblica era
     extraordinrio, embora um pouco presunoso da parte do rapaz. Mas ela no se
     importava. Adorava essa autoconfiana espontnea que Henry tinha. Penelope
     deu um enorme sorriso de orgulho e apertou o brao de Elizabeth com mais
     fora.


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            -- Ele disse, "papai, quero que o senhor seja o primeiro a saber que eu pedi
     a srta. Elizabeth Holland em casamento, e ela aceitou".
            Os convidados soltaram exclamaes de prazer, mas Penelope no estava
     conseguindo nem respirar e muito menos dizer qualquer coisa. Todos olharam
     para onde ela e Elizabeth estavam. O sorriso de Penelope desapareceu de seu
     rosto e seus lbios vermelhos e carnudos se abriram de espanto. Sua boca estava
     seca. Ela sentiu-se como se houvesse levado uma patada de cavalo na cabea e
     tudo em sua mente se embaralhou. Seu mundo cara e ela estava ficando furiosa
     com uma rapidez impressionante.
            Penelope largou o brao de Elizabeth como se o toque dela pudesse
     envenen-la e viu sua amiga entrar no salo para receber o cumprimentos de
     todos. Elizabeth se voltou e lanou um olhar de desculpa para Penelope. Ela se
     virou para frente de novo no momento em que um homem de bigodinho e com
     um jeito oficioso que Penelope achou conhecer de algum lugar se aproximou
     aps um segundo, Penelope se deu conta de que o homem lhe parecia familiar
     porque ele j a atendera inmeras vezes em suas idas  Tiffany. E ali estava ele
     agora, levando a encomenda preciosa para sua dona. Ela observou com
     curiosidade mrbida quando o homem tirou a caixinha de veludo do bolso. Ele
     abriu-a e a viso daquele diamante gigantesco brilhando fez o corpo de Penelope
     ser tomado pela revolta. Ela entrou na galeria e tentou se agarrar em alguma
     coisa, pois sua vista estava escura. Sentiu madeira, um jarro de prata e as folhas
     suaves de uma samambaia. Derrubou a planta. Suas estranhas estavam se
     revirando e Penelope no pde mais se controlar. Ela vomitou no jarro de prata.
            No era um grande consolo, mas pelo menos a maioria dos outros
     convidados estava no salo e no viu nada. Mas eles certamente tinham ouvido.
     Em poucos segundos Isaac estava ali ao lado de Penelope, sussurrando que ia
     tir-la dali antes que o estrago fosse maior. Penelope ouviu uma comoo e
     discerniu a voz de Isabelle Schoonmaker. Ela estava dizendo a Elizabeth que
     Henry estava pronto para lev-la at o salo de jantar e que ela devia ir agora
     mesmo, antes que todos comeassem a reparar.
            Penelope espiou o salo por detrs do enorme escudo que era a barriga de
     Isaac e percebeu que no poderia nem lanar um olhar furioso para sua ex-
     melhor amiga. A anfitri j estava tirando-a s pressas do salo onde todos os
     planos de Penelope haviam cado por terra.




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                                    d|x
                     Os noivos sempre encontraro uma maneira de
                     flertar, mas  muito importante para o bem-estar
                     da sociedade que eles no sejam encoraja-dos a
                     faz-lo em pblico. No devem ser vistos
                     passeando sozinhos pela cidade, especialmente
                     se forem ao teatro e, durante jantares formais,
                     no devem se sentar um ao lado do outro. Se
                     isso ocorrer, eles passaro todo o evento rindo e
                     brincando juntos e isso no deve ser suportado.

     TRECHO DE AS LEIS DO CONVVIO NA ALTA SOCIEDADE, DE LA.M. BRECKINRIDGE




          b            nico consolo de Henry era que as regras de etiqueta eram
                      muito claras ao declarar que noivos jamais deviam sentar lado a
                      lado e, por isso, ele no foi forado a conversar com sua futura
     esposa durante o jantar de seis pratos que havia sido organizado para celebrar a
     ocasio. Ele olhou uma ou duas vezes para o outro lado da mesa, onde estava
     Elizabeth Holland, linda e radiante porm horrivelmente virginal, e cuja mao
     esquerda agora exibia o maior diamante disponvel na Tiffany. Henry observou a
     pedra, to grande que chegava a oprimir o dedo dela, at saber que estava sendo
     impertinente. Ele soube disso porque Elizabeth tossiu delicadamente. Aquela joia
     no tinha nada a ver com ele. Ele agarrou a cauda do fraque de um garom que
     passava e pediu mais um drinque.
           Mas seu pai parecia estar contente, distrado pelos inmeros bajuladores
     que o rodeavam. O sr. Schoonmaker no se dera conta de que Henry s estava se
     comportando relativamente bem por estar completamente bbado. Ele estava na
     cabeceira da mesa, fazendo afirmaes grandiloquentes com uma voz to
     poderosa que podia ser ouvida por metade dos comensais.  sua direita estava
     Isabelle. Henry fora colocado entre ela e sua irm mais nova, Prudie, que se
     considerava uma intelectual, e por isso s usava vestidos de musselina negra e se
     recusava a conversar com os outros. Do outro lado da mesa de tampo de nix,
     logo  esquerda do sr. Schoonmaker, estava a sra. Holland e, do outro bdo dela,
     um homem de sobrenome Brennan. Ao lado deste - e imediatamente  frente de
     Henry - estava Elizabeth, remexendo com o garfo a salada que havia em seu
     prato.
           Duas cadeiras mais  esquerda estava Diana Holland, que lhe parecia
     fascinante justamente por ser inatingvel. Ela no ficava parada na cadeira como
     deveria, como sua irm fazia. Diana gesticulava largamente e ria alto, fazendo
     com que o vestido que fora obrigada a usar e a sala de jantar  sua volta se
     tornassem ridculos e sufocantes. A luz de seus olhos, que s vezes ficavam


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     repletos de raiva e, outras vezes, de alegria, fazia com que as bandejas de ouro
     sobre a mesa parecessem ser feitas de lata. O buqu de crisntemos atrs dela
     pareceu a Henry enfadonho demais para lhe servir de pano de fundo. Ele se
     lembrou de Diana usando sua cartola e sorriu. Conseguira beij-Ia poucos
     minutos depois de ficar noivo de sua irm mas, pela lgica, jamais conseguiria
     toc-la novamente. Henry tentou chamar sua ateno, mas Diana estava se
     mostrando uma mestra em olhar para todas as direes exceto a dele.
           -- O senhor j leu O despertar? - perguntou ela ao jogador de crquete de
     Punjab, ou sei l onde, que estava sentado a seu lado.
           O suposto prncipe balanou a cabea sem tirar os olhos de Diana.
           -- Dizem que  escandaloso demais para ser reeditado, mas 
     absolutamente genial.
           -- Estou muito impressionado com o fato de a senhorita ler tantos livros -
     disse o prncipe, inclinando-se na direo dela com uma intimidade que fez
     Henry querer dar-lhe uma bofetada. - Quando eu morei na Inglaterra, pareceu-me
     que nenhuma das mulheres gostava de ler.
           -- Bem, creio que no sou convencional em nada - respondeu Diana com o
     mesmo brilho nos olhos que Henry vira no domingo passado.
           Henry olhou para frente e viu com alegria que um copo cheio de usque
     surgira ali como num passe de mgica. Aps ter testemunhado a inevitvel
     humilhao de Penelope, ficado noivo de sua melhor amiga e se sentido atrado
     pela irm mais nova desta, ele decidira que a nica coisa sensata a fazer era
     beber. Virou-se para a direita, debruou-se sobre Prudie e falou com seu amigo
     Teddy, levantando o copo:
           -- Tim-tim. Graas a Deus voc est aqui para me ajudar a passar por isso.
           Teddy desviou o olhar da menina que estava sentada do outro lado - ela era
     uma prima de Elizabeth ou qualquer coisa assim, e no era feia.
           -- Tim-tim - respondeu ele, levantando o copo tambm. - Ao meu amigo
     mais sortudo. Voc no a merece.
           -- O que voc quer dizer com isso? - disse Henry um pouco mais alto.
           -- Nada, deixe para l - disse Teddy, rindo. - Beba seu usque e melhore
     essa cara.
           Henry revirou os olhos e voltou a se concentrar no drinque. Ele achava que
     tinha razo em se sentir como se estivesse sufocando. Parte de Henry desejava
     que Elizabeth simplesmente evaporasse ou, melhor ainda, que ele evaporasse. Ele
     estava tentando com todo seu afinco no pensar em como as pessoas que no
     momento se encontravam em partes menos elegantes da cidade deviam estar se
     divertindo. Por isso, tentou voltar sua ateno para as uvas vermelhas e
     insuportavelmente lustrosas que ocupavam o centro da mesa.
           -- Srta. Diana - chamou Isabelle -, voc e a srta. Elizabeth j discutiram as
     cores que vo usar no casamento? Tenho visto muitos vestidos de madrinha cor
     de malva. No meu casamento...
           -- Eu detesto cor de malva - respondeu Diana, irritada, e alguns cachos
     castanhos rolaram por sobre seu pescoo, como para sublinhar sua desaprovao.
           -- Ah, no - disse Elizabeth. - Cor de malva  lindo. Mas - continuou ela
     mais timidamente, como se houvesse acabado de notar um pedao de comida
     preso ao queixo de algum - ela j est sendo muito usada.


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           -- Ah, eu concordo com voc, querida. Mas quando vir sete de suas
     melhores amigas nesse tom divino...
           Henry ergueu os olhos e encarou Diana. Os olhos dela estavam bastante
     maquiados e eram escuros e muito vvidos. Ao redor da mesa havia muito
     movimento - os criados passavam de um lado para o outro nas sombras, os
     jovens riam e os velhos pediam mais sopa de tartaruga - mas Henry no desviou
     o olhar. Ele viu que Diana achava toda aquela conversa de casamento
     insuportvel, assim como ele, e subitamente no se importou mais com as festas
     que estavam acontecendo sem sua presena. Tudo o que quis foi que ela
     compreendesse que os dois tinham pelo menos aquilo em comum.
           O olhar de Diana passou pelo teto e pelos pratos  sua frente, mas Henry
     conseguiu venc-la e ela finalmente encarou-o. Henry no desviou seus olhos por
     alguns segundos, at que Diana soltou uma leve exclamao, como se algum
     houvess dito algo grosseiro. Ela se levantou da mesa e saiu rapidamente da sala
     de jantar.
           -- Posso tirar seu prato, senhor?
           Henry olhou para cima, assustado, e encontrou um do garons.
           -- Claro, claro - disse ele, vendo o prato dourado com metade do salmo
     com creme desaparecer.
           Henry viu que seu pai ainda estava ocupado com uma discusso sobre o
     preo do ao. Isabelle e Elizabeth estavam falando dos mritos de azul-piscina e
     cor de lavanda. A sra. Holland estava olhando alegremente para a aliana de
     noivado da filha e Prudie estava murmurando alguma coisa para sua taa de
     vinho. Um violoncelista tocava uma melodia delicada. Henry pegou seu drinque
     e levantou da mesa, sem permitir que sua cadeira fizesse qualquer rudo.
           Ele foi para o corredor e seguiu na direo dos passos distantes que ouviu.
     Uma menina num vestido cor de pssego estava se afastando dele. Ela virou uma
     esquina e desapareceu, mas Henty no conseguiu resistir e foi atrs no que
     esperava ser uma boa velocidade, tentando no derramar nem uma gota de
     usque.
           Diana virou outra esquina no enorme corredor e Henry seguiu-a, sem
     pensar no que estava fazendo. Subitamente, ele se viu diante de uma pequena
     escada, que desceu aos tropeos, derramando um pouco de seu drinque. Eles
     estavam na estufa. A cinco metros de Henry, a menina por quem ele estava
     ficando cada vez mais interessado parou. Uma de suas enormes mangas bufantes
     havia escorregado, revelando um ombro nu, e ela virou a cabea, com sua pilha
     de cachos precariamente penteados, para cima absorvendo a imponncia
     silenciosa daquele lugar: o teto de vidro em abbada, o cheiro de terra do ar, a
     profuso de plantas. Henry observou Diana enquanto ela inspirou profundamente
     trs vezes e se inclinou para enterrar seu nariz numa hortnsia.
           -- Lindas, no so?  por isso que minha famlia nunca precisa comprar
     flores no florista - afirmou Henry, encostado na porta e tomando um gole de seu
     usque. - Mas hortnsias no tm cheiro.
           Diana virou o rosto, mas no o corpo.
           -- Ah...  voc - disse ela, olhando de novo para a flor e dando de ombros. -
     Sei muito bem que elas no tm cheiro. Voc quer seu chapu de volta?
           -- No,  seu. Ele fica muito melhor em voc do que...


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           -- Voc j disse isso - interrompeu Diana, com raiva. - Que gracinha.
           -- Por que a senhorita est com raiva de mim? - perguntou Henry, sorrindo
     e usando o tom de provocao que lhe era habitual. - No queria que eu a
     seguisse? Ento por que saiu correndo daquele jeito?
           -- Sa correndo porque no aguentava mais voc me olhando tanto!
           Os olhos castanhos de Diana se encheram de fria. Ela largou a hortnsia e
     olhou em torno.
           -- Voc s tem uma coisa boa, sr. Schoonmaker - disse ela, mais calma. - A
     sua estufa. Preciso ir embora agora.
           Diana se dirigiu para a porta e Henry, que no estava acostumado a ver
     mulheres tentando evit-lo, bloqueou-lhe a passagem. Ela ficou com raiva mais
     uma vez ao ver que ele no ia permitir-lhe seguir, mas a emoo s conseguiu
     deix-la ainda mais bonita.
           -- A senhorita gostaria de ser a futura proprietria dessa estufa, no lugar de
     sua irm Elizabeth? - perguntou Henry, divertido.
           -- Ah, faa-me o favor.
           Diana empurrou-o e Henry, que no tinha realmente a inteno de prend-la
     ali, afastou-se sem protestar. Mas, quando ela passou ao seu lado, ele sentiu o
     calor de seu corpo e algumas das batidas rpidas de seu corao.
           -- Sinto nojo s de escutar isso. - disse Diana. - No sou um brinquedinho
     qualquer, Hen...
           Mas antes que pudesse completar a frase ou mesmo passar pela porta, Diana
     tropeou na perna de Henry e tombou para frente. Ela conseguiu se agarrar na
     parede antes de cair e voltou-se para ele, furiosa. Sua saia volumosa ondulou ao
     seu redor.
           -- Tudo bem, srta. Di? - quis saber Henry, sem conseguir deixar de rir.
           Diana cerrou os punhos, ignorando a ltima pergunta.
           -- Eu nunca senti cimes de minha irm, que s se comporta do jeito que
     todo mundo espera, nem nunca vou sentir. Sinto desprezo por tudo que ela deseja
     e pelo que consideram ser suas qualidades. E sinto desprezo pelo senhor tambm!
           Ela atravessou o corredor com passos fortes, quase masculinos - uma
     maneira de andar que Henry jamais vira em outra moa de famlia de Nova York.
     Antes que ele conseguisse decidir se queria ir atrs de Diana, ela desapareceu.
           Henry tomou um gole de usque, suspirou e riu um pouco de si mesmo por
     ter se colocado em outra situao ridcula. Aps esperar alguns segundos, para
     no dar margens a rumores, ele voltou para a sala de jantar, onde a sobremesa j
     estava sendo servida. Henry sentiu-se aliviado por ningum ter notado sua
     ausncia, mas o alvio logo se tranformou em decepo. A cena que viu - aqueles
     rostos maquiados entupindo-se de comida, aquelas risadas estridentes, aquelas
     mesmas velhas piadas - era horrivelmente entediante. Havia apenas um par de
     olhos brilhantes na mesa e eles estavam evitando os dele mais uma vez.
           Henry voltou a se sentar, acenando educadamente para Elizabeth e sua me,
     e no conseguia deixar de pensar que era mesmo, como Diana declarara, um ser
     desprezvel.




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                                    Wxxx|
                     Num jantar ntimo oferecido pelo Sr. William S. Schoonmaker na
                     ltima sexta-feira, foi anunciado o noivado do seu filho Henry e da bela
                     Elizabeth Holland, que recebeu do rapaz um anel de valor superior a
                     mil dlares. Embora muitos da alta sociedade tenham ficado surpresos
                     com a notcia, eu a considero tima: os dois so membros de boa
                     famlia e certamente traro a elegncia, o estilo de sua classe para a
                     unio. A data do casamento logo ser definida...

     NOTA DA COLUNA "GAMESOME GALLANT" DO JORNAL NEW YORK IMPERIAL,
     DOMINGO, 24 DE SETEMBRO DE 1899.




          @b                 que voc est fazendo?
                                  Lina, que estava sentada no batente da janela do
                            quarto de Edith Holland, que ficava no terceiro andar,
     virou-se e olhou inocentemente para a irm.
           -- Ah, estava s trocando os lenis..E est uma manh to bonita que eu
     acho que me distrai olhando pela janela.
           Na verdade, Lina escolhera trocar os lenis naquela hora porque sabia que
     Will havia sado para fazer algo para sra. Holland e ela queria v-lo voltar. A
     idia de conseguir vislumbrar Will era to maravilhosa que Lina no se afastou
     da janela nem aps ver Claire, na esperana que isso ainda fosse acontecer.
     Claire veio para a janela e enlaou a cintura de Lina.
           -- Voc anda me ajudando tanto nos ltimos dias - disse ela. - Quero que
     saiba que eu fico muito agradecida.
           Lina deu de ombros, como se no fosse nada demais. Desde o inverno ela
     no trabalhava tanto quanto naquela semana, mas s fizera isso porque quando
     estava ocupada no precisava pensar no fato de que Will era apaixonado por
     Elizabeth. Em vez disso, pensava em como seus braos e sua cabea doam e em
     como eram estpidas suas tarefas braais. Assim, podia sentir raiva e no
     tristeza.
           -- Sei que  difcil para voc - disse Claire em sua voz gentil e maternal. -
      muito mais inquieta do que eu. Mas espero que esteja comeando a entender
     que, se nos comportarmos bem, vamos acabar tendo a vida que merecemos.
           Lina encostou a cabea no ombro da irm. Ela achava aquilo uma iluso,
     mas no queria falar isso para Claire. Isso s a magoaria, algo que Lina jamais
     quisera fazer.
           -- E vamos encontrar um amor, tambm - disse Claire suavemente. - Assim
     como a srta. Liz.
           -- O qu? - disse Lina, olhando para a irm.



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           Ela sentiu uma nova pontada de dor no corao, mas ento percebeu que
     Claire no estava falando de Will.Os olhos dela estavam brilhando, e Lina sabia
     que, para sua irm, um namoro entre a srta. Elizabeth e o cocheiro no seria
     romntico, mas trgico.
           -- Do que voc est falando? - sussurrou ela.
           -- Da srta. Elizabeth e de Henry Schoonmaker,  claro.Acabei de ler no
     jornal. - disse Claire, fazendo uma cara maliciosa e indo se sentar na cadeira
     brocada que ficava perto da janela. - Acho que no era por Penlope Hayes que
     ele estava apaixonado. Quer ouvir a noticia?
           -- Quero. - disse Lina, tentando no parecer ansiosa demais. - Leia para
     mim.
           Claire sorriu e se remexeu na poltrona. Ela pegou uma folha de jornal toda
     dobrada do bolso do avental e passou o dedo por ela, procurando a nota.
           -- Achei! "Num jantar ntimo oferecido pelo sr. William S. Schoonmaker
     na ltima sexta-feira..."
           Lina ouviu tudo com ateno. Quando Claire repetiu o ridculo e
     inimaginvel custo da aliana de noivado, Lina ouviu o som da porta do estbulo
     sendo fechada.
           -- J volto - disse ela, subitamente.
           Claire ficou atnita.
           -- Aonde voc vai?
           -- Eu...as fronhas bordadas..eu as deixei de molho e, se no tirara agora,
     elas vo ficar destrudas... - respondeu Lina, j na porta.
           Ela se virou e arrancou a folha de jornal das mos da irm.
           -- Posso levar isso? Pode deixar que eu devolvo.
           Lina desceu as escadas correndo. A frustao que ela sentira a semana toda
     fora substituda por uma certeza de que conseguiria virar o jogo a seu favor. Ela
     contaria a Will que Elizabeth estava noiva e ento estaria na posio perfeita para
     se oferecer para ser sua nova namorada. Logo Lina estava na cozinha, que
     cheirava a tripas cozidas. Era um cheiro que ela sentira muito na infncia, no
     apartamento onde tinha morado com seu pai e sua me, mas jamais vira os
     Holland comendo algo to vagabundo. A cozinheira no estava ali e uma das
     suas ajudantes descascava uma pilha de batatas. Lina poderia ter dado uma
     desculpa para esplicar porque estava indo para o estbulo aquela hora, mas a
     menina - que se chamava Colleen - mal olhou para ela.
           Assim que viu Will sentado numa cadeira de madeira dobrvel e
     completamente absorto num livro, ela comeou a falar.
           -- Voc leu o Imperial? - disse Lina, ofegante. - Elizabeth est mentindo
     para voc!
           Will olhou para ela, nervoso. Ele parecia esta pensando no que dizer.
           -- Eu... est falando da sta. Elizabeth?
           -- ... da srta. Elizabeth! - respondeu Lina com asco. - E eu a vi saindo
     daqui de manh cedinho, ento no pense que no sei o que est acontecendo.
           Will se remexeu, encolheu os ombros largos, constrangido, e olhou para o
     cho.
           -- No sei do que voc est falando Liney, mas posso lhe dizer com
     absoluta sinceridade que no h nada entre mim e a srta. Elizabeth.  muito


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     perigoso dizer coisas como essa e gostaria de saber como lhe impedir de fazer
     isso.
           -- Will, olhe para mim. Eu sou sua amiga!
           Lina sabia que devia estar feia, pois estava tensa e com os olhos
     arregalados. Mas no podia evitar. Precisava fazer Will compreender.
           -- Pode dizer o que quiser para mim, eu no me importo. Pode mentir. Mas
     acho que voc precisa saber que sua querida srta. Elizabeth est noiva!
           Will se recostou na cadeira, pasmo. Ele continuou se recusando a encarar
     Lina, mas, aps gaguejar por alguns segundos, conseguiu dizer:
           -- Como voc sabe?
           -- Li no jornal, assim como todo mundo. E antes que voc diga que  s
     um boato, saiba que ela est noiva daquele homem que veio aqui outra tarde.
     Voc viu, era um tal de Henry Schoonmaker - explicou ela, estendendo a folha
     que segurava para Will. - Pode ler voc mesmo, se quiser.
           Will ficou de p num pulo e sua cadeira caiu no cho coberto de feno. Ele
     andou vrios metros e parou, apoiando umas das mos numa viga de madeira.
     Lina no estava vendo seu rosto, mas percebeu que Will estava muito angustiado
     e perguntou-se se no subestimara o que ele sentia por Elizabeth. L dentro, no
     estbulo, os cavalos dormiam tranqilos em suas baias. Will balanou a cabea e
     colocou o cabelo para trs da orelha. Lina quase lamentou ter sido a pessoa quem
     dera a noticia a ele. Quase.
           -- O que diz o jornal? - perguntou ele com a voz entrecortada.
     Lina olhou para folha e leu a nota em voz alta. Ao terminar, ela disse docemente:
           -- No me parece ser mentira, Will.
           Will deu soco na viga de madeira com toda fora. Como toda madeira do
     estbulo aquela se desfazia facilmente em farpas. Ele atingiu a viga diversas
     vezes, com tanta fria que Lina ficou com medo. Pedaos de viga voaram. Will
     socou-a uma ltima vez, e quando se virou para Lina, ela viu que havia sangue
     saindo dos ns de seus dedos e pedaos da madeira presos neles. Finalmente,
     Will encarou-a.
           Havia tanta magoa em seu rosto que Lina foi institivamente, para perto
     dele, pegando a cadeira do cho e forando-o a se sentar.
           -- Fique sentado um pouco - pediu ela.
           Lina procurou algo com o qual pudesse limpar o ferimento de Will e
     encontrou a bacia de gua que ele usava para limpar os cavalos. Aps passar a
     gua na mo dele, ela tirou as farpas, com dedos longos e geis de tanto costurar.
     Ento Lina rasgou sua angua de algodo branco e envolveu o ferimento de Will
     com ela para parar o sangramento. Era um curativo meio mal-feito, mas pelo
     menos parecia estar funcionando.
           Lina colocou a folha de jornal no cho, prximas dos ps de Will. Sem
     olh-lo, ela subiu a escada de madeira que dava em seu compartimento, onde ele
     guardava o usque. A luz de inicio de tarde entrava pela janelinha que havia
     acima da cmoda velha, onde ficavam os livros e roupas dele. Lina encontrou
     uma garrafa meio vazia em uma das gavetas da cmoda e levou-a l para baixo.
           Ela ofereceu a garrafa a Will, mas ele balanou a cabea. Seus lbios
     estavam tremendo devido a emoo que lhe dominava no momento e o jornal
     estava sobre seus joelhos. Ele devia ter lido a nota de novo.


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           -- Sinto muito. - foi tudo que Lina conseguiu dizer.
           Ela estava atnita com a reao dele. Certamente subestimara o que Will
     sentia por Elizabeth, e embora houvesse achado que aquele seria o momento
     ideal para confessar que o amava, a expresso grave dele o impediu.
           Will olhou para Lina com os olhos midos e fez um esgar. Ela ofereceu a
     garrafa para ele mais uma vez e Will tomou um grande gole de usque.
           -- No sinta.  bom que voc tenha me contado. - disse ele devolvendo a
     garrafa para ela.
           Lina tomou um gole e sentiu o liquido lhe queimando os lbios e lhe
     aquecendo a barriga. Will balanou de novo a cabea, como se no pudesse
     acreditar no que lera. Aps alguns segundos, ele voltou a olhar para ela.
           -- Obrigado por me contar, Liney. - disse ele - Fique aqui comigo mais um
     pouquinho.
           Lina sorriu para ele, tonta de felicidade. Nada era melhor do que ver Will
     precisando dela. Ela tinha certeza de que, se eles passassem algumas horas
     juntos, no ia precisar lhe confessar nada. Ele descobriria sozinho.
           --  claro que fico - disse Lina, pegando a mo boa dele e apertando-a. -
     Fico o tempo que voc precisar.




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                                              j|


          X              lizabeth conseguira permanecer em seu quarto a manh toda e
                         estava comeando a preferir a solido. Ela se lembrava bem,
                         de quo perto estivera de perder o conforto de ter um quarto
     s para si, de que fora ameaada com a necessidade de dividir um cmodo com a
     irm e talvez com a me tambm. Mas, toda vez que pensava em Will, sentia-se
     arrasada por ainda no ter revelado-lhe que estava noiva. Elizabeth no suportava
     mentir para ele mas tambm no suportaria contar a verdade; por isso estava
     simplesmente evitando-o. Ela tentara adiar o inevitvel mandando-lhe um bilhete
     em seu papel de carta pessoal, dizendo que estava sendo muito difcil ir visit-lo
     e que queria v-lo assim que pudesse. Deixara o bilhete numa das gavetas de
     Will a trs dias, num momento em que sabia que ele estaria na rua, mas ainda
     no recebera uma resposta.
           Mas a famlia Holland sempre recebia visita aos domingos e Elizabeth sabia
     que tinha que sair de seu refugio mais cedo ou mais tarde. Sua criada andava
     silenciosa e estranha, mas ela no dissera nada para sua me porque fora amiga
     de Lina quando era criana e ainda sentia sua falta de vez em quando. Por isso,
     Elizabeth penteou o prprio cabelo, fez um coque e vestiu-se sozinha, com uma
     camisa de botes e uma saia engomada azul. No quis colocar nenhuma jia - o
     diamante que havia em seu dedo anelar esquerdo e que ela vinha virando para a
     palma da mo desde sexta-feira, evitando olhar para ele, j fazia peso o
     suficiente.
           Elizabeth estava muito tensa. Cada msculo do seu corpo se enrijecia
     quando ela pensava e Henry Schoonmaker e no fato de que casar com ele era
     inescapvel. Como Henry era negligente! Ao v-lo bbado em seu jantar de
     noivado, ela soubera que sua vida juntos seria terrvel, repleta de contendas
     silenciosas e de noites sozinha. Elizabeth nem conseguia pensar em Will - estava
     se forando em no faz-lo. Se pensasse nele, mesmo que por um segundo, talvez
     comeasse a derreter e desaparecesse. E ento, o que seria de sua famlia?
           Quando estava pronta para encarar o mundo l fora, Elizabeth abriu a porta
     do quarto e parou ao ver uma folha de jornal caindo no cho. Ela estava muito
     bem dobrada e fora colocada na maaneta de sua porta. Soube imediatamente que
     aquela era a resposta de Will e por isso foi com grande ansiedade que se inclinou
     para pegar a coluna social que anunciava seu noivado. Escrita na parte inferior da



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     folha, com a letra de Will, estava uma acusao disfarada em pergunta: "Tem
     certeza que no  por isso que voc est me evitando?"
           A pele macia das bochechas de Elizabeth se tingiu de vermelho quando ela
     leu aquilo. Seu estomago ficou embrulhado e seu corao comeou a bater
     descontroladamente. Ela colocou o pedao de papel no bolso e tentou esconder
     tambm a emoo que sentira ao v-lo. Mas no podia controlar o tremor de seu
     queixo e a aspereza em sua garganta, que conhecia to bem. Elizabeth olhou em
     volta, esperando ver Will ali, no corredor, e ento desceu correndo a escada dos
     empregados para procurar por ele.
           Quando estava na metade do caminho a porta da cozinha se abriu e Claire
     subiu alguns degraus. Ela parou ao ver Elizabeth.
           -- Srta. Elizabeth! O que esta fazendo aqui?
           -- Oh.
           Elizabeth permaneceu imvel. Ela levou alguns segundos, para pensar
     numa desculpa.
           -- Estava indo ver se o jantar estava sendo preparado antes de me juntar ao
     resto da minha famlia para receber os visitantes.
           Claire se afastou para permitir que Elizabeth passasse.
           -- No precisa fazer isso - disse ela, tocando o brao da patroa. - Pode
     deixar que eu fao. A senhorita deve ir receber suas visitas, principalmente agora
     que...
           Claire parou de falar e deu de ombros. Elizabeth viu que Claire corara e
     soube que ela estava prestes a comentar algo sobre seu noivado, mas lembrou-se
     de que no deveria. A criada levou-a at o corredor e abriu a porta da sala de
     estar para ela.
           Quando Elizabeth atravessou o umbral da porta, ela viu sua irm na posio
     habitual: encolhida no cantinho turco com um livro de poemas. Claire conseguira
     deixa-la quase respeitvel num vestido rosa-ch listrado cuja enorme saia se
     espalhava por sobre as almofadas, fazendo com que Diana chamasse ateno
     apesar de todos os objetos preciosos que havia na sala.
           -- Ah, Elizabeth - disse a sra. Holland.
           Elizabeth se voltou e viu a sua me, que tinha uma aparncia quase
     assustadora em seu vestido negro de mantas compridas. Ela estava sentada numa
     caldeira de espaldar alto perto da lareira, que no estava acesa.
           -- O sr. Schoonmaker...Henry, eu deveria dizer... acabou de deixar seu
     carto na porta. Eu insisti para que ele viesse tomar ch conosco mas,
     aparentemente, o que ele mais quer  lev-la para passear no Central Park. No 
     isso, Claire?
           Elizabeth se virou devagar para olhar para Claire, que ainda estava ali no
     corredor.
           -- Sim senhora, foi exatamente isso que ele disse - afirmou a criada
     animadamente.
           Elizabeth viu que Diana olhou rapidamente para cima, mas ela logo voltou
     a se esconder atrs de seu livro.
           -- Ele est esperando l fora - disse Claire com mais confiana, assumindo
     seu papel - E parece estar muito impaciente. No quer nem entrar.
           -- Muito bem - disse a sra. Holland.


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           Elizabeth ficou parada na porta, sem saber se devia entrar ou sair. Sua me
     se impertigou, ficando mais imponente em questo de segundos. Elizabeth
     desejou receber algum encorajamento, mas fora treinada na infncia para no se
     agarrar a saia de ningum ou implorar por ateno e, por isso, no se moveu.
           -- Como eu preciso estar aqui para receber os visitantes - disse sua me - e
     como sua tia no esta se sentindo muito bem...pobrezinha, creio que ainda esta se
     recuperando da comida pesada servida por Isabelle de Ford...quero dizer, Isabelle
     Schoonmaker... Will ter de acompanhar vocs. Ele j foi preparar os cavalos...
           -- No!
           Elizabeth cobriu o rosto com as mos, perturbadissimo ao pensar em Will e
     Henry cara a cara. Um rudo estridente surgiu em seus ouvidos e cada centmetro
     de sua pele se cobriu de suor frio.
           -- O que h de errado com voc? - perguntou a sra. Holland, irritada.
           Ela levantou o queixo e colocou as mos firmemente nos braos da cadeira.
           -- Eu..
           Elizabeth tentou mas no conseguiu pensar num motivo para no querer
     passear de carruagem num dia lindo de Setembro. Ela tocou o bilhete de Will no
     bolso da saia e achou que ia desmaiar.
           --  que.. - continuou ela.
           --  que o qu? Elizabeth voc est sendo malcriada. Seu noivo esta lhe
     esperando. No fique a parada. Seja digna dele.
           -- Mas eu... - gaguejou Elizabeth.
           Ela viu a maneira como sua me estava lhe olhando e soube que no teria
     outra escolha alm de ir. Por isso, agarrou-se a nica coisa que poderia lhe dar
     foras naquele momento.
           -- O que quero dizer ... - disse Elizabeth. - Como temos de tomar tanto
     cuidado com as aparncias, ser que a Diana no pode vir comigo?
           -- No! - exclamou Diana do seu cantinho.
           -- Por favor, Diana? - pediu Elizabeth, resistindo a vontade de bater o p de
     impacincia.
           Diana se recostou nas almofadas e suspirou, exasperada.
           -- No vou dar um passeio longo e chato s porque voc tem medo do seu
     noivo.
           -- Diana, voc est sendo ridcula - disse a sra. Holland friamente. - V
     com sua irm, ou vou lhe considerar uma perfeita intil.
           -- No  que eu tenha medo dele - disse Elizabeth, baixinho.
           Ela olhou para Diana e viu que ela j estava se levantando. Sua irm parecia
     magoada e Elizabeth se deu conta de que ela concordara em acompanh-la
     apenas por causa das palavras duras de sua me.
           -- Ento voc vem?
           -- Vou - disse Diana contrariada, esticando o vestido que havia ficado
     amassado quando ela se deitara sobre as almofadas. - Mas no pense que vou
     abrir minha boca.
           -- Meninas, vocs devem parar de agir de forma to estranha - disse a sra.
     Holland. -  feio. E no se esqueam de seus chapus. Vou realmente perder a
     cabea se vocs ficarem com sardas logo agora.



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           Diana deu um sorriso muito falso para me e atravessou a sala de estar com
     passos rpidos. Elizabeth foi atrs, e ao chegar ao corredor, viu pelo vidro da
     porta que Henry estava esperando na frente da casa. Ele usava um terno preto e
     uma cartola. Estava olhando para frente, para o Gramercy Park. Elizabeth virou-
     se para Diana que parecia furiosa. Mesmo assim, ela ficou feliz por saber que no
     teria que lidar com Will e Henry sozinha. Tentou sorrir para demonstrar o quanto
     estava grata a irm, mas descobriu que, naquele momento, sorrir era difcil
     demais.
           Claire surgiu de dentro do closed com dois enormes chapus de palha. Ela
     colocou o de Diana primeiro, amarrando o lao de gorgoro branco abaixo do
     queixo dela, e depois ajudou Elizabeth a botar o dela.
           -- Obrigada Claire - disse Elizabeth, com a voz tremendo um pouco. -
     Voc poderia acender a lareira na sala de estar antes de voltarmos? Pareceu-me
     estranhamente frio l dentro.
           Do lado de fora, elas foram recebidas pela luminosidade de um belo dia de
     setembro, pelo cheiro dos jantares sendo preparados nas casas em volta e por um
     cu azul que parecia no ter fim, pontilhado de pequenas nuvens fofas e
     interrompido apenas pelo topo dos poucos prdios de mais de seis andares
     existentes na cidade. Elizabeth se sentiu um pouco animada pela perfeio do
     tempo, mas isso foi antes que visse Henry voltando-se em sua direo e ouvisse o
     som dos quatro cavalos negros da famlia sendo trazidos para frente da manso.
     Ela ficou feliz de estar de chapu, pois ele escondia um pouco seus olhos. A
     nica coisa que impediu Elizabeth de desmaiar ali mesmo foi no poder ver a
     maneira que Will estava olhando para ela.
           -- Srta. Elizabeth - disse Henry friamente.
           Elizabeth estendeu a mo e Henry inclinou-se para beij-la.
           -- Srta. Diana, a senhorita vai conosco?
           Diana no respondeu por alguns segundos e Elizabeth ousou olhar para
     direita para tentar ver o que ela estava aprontando.
           -- Bem, eu no queria - respondeu Diana rudemente. - mas ficaria chateada
     de deixar de passear pelo Central Park num dia como hoje. s vezes, o ar fresco
     e a natureza so a nica coisa que fazem a vida valer a pena.
           -- Sorte minha. Duas pelo preo de uma.
           Elizabeth detectou um trao de ironia na voz de Henry e ficou insatisfeita.
     Ela pegou o brao de Diana e foi at a carruagem.
           -- Posso ajud-la, srta. Elizabeth? - ofereceu Will com falsa formalidade.
           -- Pode deixar - disse Henry para Will.
           Elizabeth desejou poder dizer a Will que no queria a ajuda de Henry e que
     no queria Henry, mas ento sentiu a mo do noivo na cintura, empurrando-a
     para dentro da carruagem. Ela sentou-se no banco de couro tentando se acalmar.
           Henry sentou-se ao lado de Elizabeth e Diana na frente dos dois. Elizabeth
     ouviu Will estalando o chicote e fazendo os cavalos partirem. Eles estavam sendo
     instigados a correr a toda. Elizabeth segurou o brao de ferro com uma das mos
     e seu chapu com a outra. Ela manteve a cabea abaixada, examinando a palha
     que protegia seus olhos e o azul de sua saia, que se espalhava ao seu redor. Ouviu
     os sons do transito - os bondes, as pessoas gritando - quando eles entraram na
     Avenida Lexington e tentou no imaginar o que Will estaria pensando.


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           -- Porque voc no pega a Quinta Avenida? - gritou Henry para Will. - As
     mulheres sempre gostam desse caminho.  l que elas conseguem mostrar os
     vestidos para mais gente.
           Diana riu, mas o cocheiro continuou em silencio.
           -- Cocheiro? - disse Henry - Pode pegar a Quinta Avenida?
           -- Voc no l jornal? - respondeu Will, sem levantar muito a voz, mas
     obviamente irritado.
           -- s vezes - disse Henry, rindo - mas tento no prestar muita ateno.
           -- Bom, se tivesse prestado ateno no jornal essa manh, saberia que a
     Quinta Avenida est toda engarrafada por causa dos preparativos para a parada
     que vo fazer neste fim de semana, para o almirante que vai voltar das Filipinas.
     O nome dele  almirante Dewey. Ele ganhou a batalha na baa de Manila,
     lembra? - disse Will dando uma risada sarcstica. - Aposto que nem sabia que
     estvamos em guerra.
           Elizabeth tentou esconder seu sorriso debaixo do chapu ao escutar a
     resposta constrangida de Henry:
           -- Eu sabia que estvamos em guerra, sim. Est bem, pode pegar a
     Lexington.
           Foi s depois que eles j haviam entrado no Central Park que ela teve
     coragem de olhar para cima. Elizabeth chegou o chapu um pouco para trs e
     observou Diana, que estava olhando para o nada com um ar de petulncia. Ela
     no soube dizer o que estava esperando ate ento - talvez que Will comeasse a
     gritar assim que ela levantasse os olhos - mas tudo que viu foram as costas dele,
     que mesmo assim pareciam estar lhe repreendendo em silncio. Will usava a
     mesma camisa azul de sempre, com as mangas enroladas, e estava bastante
     impertigado. Elizabeth olhou rapidamente para Henry, cujo rosto arrogante
     estava virado para as rvores do parque. Ela ento voltou a olhar Will e desejou
     saber o que ele estava sentindo no momento.
           A carruagem tremeu muito ao subir e descer as pequenas colinas numa
     velocidade que fez com que diversas das senhoras que passeavam entre os elmos
     carregando sombrinhas olhassem para trs. Elizabeth desejou que Henry e Diana
     desaparecessem por por alguns segundos. Ela tocaria o brao de Will e ele
     saberia que podia relaxar e ir mais devagar. Saberia que ela o amava. Elizabeth
     estava to absorta nesses pensamentos que no ouviu o que Henry dizia.
           -- Srta Diana, a senhorita ser a madrinha de casamento de sua irm?
           A pergunta fez com que o corpo de Elizabeth fosse tomado pelo
     desconforto. Ouvir a meno da cerimnia foi horrvel para ela. Deve ter sido
     para Will tambm, porque ele estalou o chicote de novo, fazendo os cavalos
     atravessarem uma pequena ponte em disparada.
           -- No. Aparentemente, ela e Penlope Hayes prometeram ser madrinhas
     uma da outra quando tinham apenas treze anos - disse Diana, impaciente. - Mas
     eu no ligo para essas coisas.
           Os cavalos ganharam ainda mais velocidade ao sair da ponte, o que obrigou
     Diana a agarrar com fora o banco para no cair para fora da carruagem. Ela deu
     um grito, tirando a outra mo do chapu e usando-a para se segurar tambm.
     Henry olhou para Will com raiva.



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           -- O que seu cocheiro esta fazendo? - sussurrou ele para Elizabeth. - Essa
     no  uma velocidade adequada para mulheres.
           Will certamente ouviu o comentrio, pois deu um puxo nas rdeas, tirou os
     cavalos da estradinha que cortava o parque e levou-os para o gramado onde, aps
     alguns segundos, eles finalmente pararam. A carruagem deu um salto antes de
     estacar, e Diana s conseguiu permanecer dentro dela segurando o brao esticado
     de Henry.
           -- Que diabos voc fez, homem? Ela podia ter morrido! - disse Henry,
     levantando do banco e ajudando Diana a ficar em p.
           -- Eu realmente estou bem. - afirmou Diana, secamente.
           Mas o passo acelerado fez com que o lao de seu chapu se soltasse e
     naquele momento uma brisa soprou, levando-o pelos ares. O vento tambm
     bagunou os cabelos dela e seus cachos lhe caram sobre os ombros.
     -- Meu chapu! - exclamou Diana, tirando os cabelos da frente do rosto.
     Elizabeth ficou em p e viu o chapu da irm rolando por sobre a grama. Henry,
     que segundo antes parecera prestes a entrar numa briga com Will, pulou da
     carruagem e foi correndo atrs do objeto.
           -- Espere, vou peg-lo - gritou ele, tirando a cartola e saindo a toda.
           -- No vai, no! - disse Diana.
           Antes que Elizabeth pudesse impedi-la, ela pulou para o gramado, segurou
     o vestido nas mos e correu atrs de Henry pela grama. O parque estava cheio de
     homens de chapu de palha fazendo piqueniques com suas namoradas de
     cinturinha de vespa e todas acharam engraado verem Schoonmaker e uma
     Holland tentando agarrar um chapu. Mas Elizabeth no teve tempo de se sentir
     constrangida pela cena. Will pulara do banco do cocheiro e estava levando os
     cavalos de volta para estradinha.
           Ela desceu tambm, tomando cuidado para no prender a saia nas rodas da
     carruagem, e parou logo atrs de Will um segundo aps ele chegar na estrada.
     Quando ele se virou para olh-la, ela ficou surpresa que seu rosto no mostrava a
     mais profunda raiva, mas uma expresso tranqila e determinada. Ento,
     Elizabeth notou o enorme curativo em sua mo.
           -- O que aconteceu? - perguntou ela, esticando o brao para toc-lo, sem
     pensar nas conseqncias.
           Will balanou a cabea e afastou a mo dela. Ele piscou ao sentir os raios
     do sol em seus olhos azuis. A luz fazia surgir tons de vermelho em seus cabelos
     negros. Ele parecia j saber o que iria dizer.
           -- No  isso que voc quer - afirmou ele com uma voz baixa e controlada.
           Elizabeth olhou para trs. As pessoas que estavam no parque no pareciam
     estar prestando ateno, mas ela jamais falara com Will daquela maneira em
     publico, e estava morrendo de medo.
           -- Sinto muito, Will - disse ela, quase desesperada. - Lamento tanto que...
           -- No lamente - disse ele, aproximando seu rosto do dela.
           -- Mas voc precisa entender!  minha famlia, ns...
           -- No quero saber de sua famlia. Vou embora, Elizabeth. Tenho certeza
     que voc tem seus motivos, mas se ficar aqui e se casar com aquele homem, vai
     se arrepender. Ainda quero casar com voc Lizie, mas isso  impossvel em Nova
     York. Poderia acontecer no oeste do pas.  para l que eu vou.


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           Will olhou para baixo, mas continuou com as mos nas rdeas para guiar os
     cavalos. Aps alguns segundos, ele respirou fundo e encarou-a.
           -- E quero que voc venha comigo.
           Elizabeth cobriu o rosto com as mos. Ela no suportou olhar para Will,
     cujos olhos azuis estavam arregalados e cheios de vontade de convenc-la. Uma
     tristeza abjeta estava lhe fechando a garganta e fazendo seus olhos arderem e, por
     isso ela os manteve escondidos. Elizabeth no sabia bem o que ia lhe acontecer
     se ela olhasse para Will, mas a sensao de estar perdida e arrasada j tomara
     conta dela. Ela ficou imvel e cega no meio do Central Park, com as palmas
     pressionadas contra os olhos.




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                                   Wx|
                           Meninos no escuro no v procurar
                        Diro coisas belas para depois lhe magoar
                          Meninos no parque se deve encontrar
                          Pois l esto os mais galantes que h

                               VERSINHO POPULAR, 1889




          @X                   spere! - gritou Diana, correndo por sobre as toalhas de
                               xadrez branco e vermelho que haviam sido espalhadas na
                               grama e desviando de uma criana que no fora gil o
     suficiente para sair da frente.
           Os ps dela estavam se movendo mais rpido do que seus pensamentos,
     mas Diana foi tomada pela subita convico de que nada era mais importante do
     que no permitir que Henry tocasse em seu chapu.
           -- No preciso de sua ajuda! - gritou ela para ele, que j estava bem mais 
     frente.
           Henry diminuiu urn pouco de velocidade ao ouvir o som da voz dela. Diana
     ainda estava irritada pela maneira como ele falara com seu cocheiro - Will
     trabalhava para eles h anos e Diana gostava dele por saber que era um pouco
     rebelde. Ela estava finalmente se aproximando de Henry quando ouviu a voz
     anasalada de uma mulher ali perto dizendo:
           -- Ento  assim que os Holland criam essas meninas hoje em dia.
           Diana olhou para trs com desprezo e continuou com a perseguio. Estava
     ofegante quando alcanou Henry, e o vento desarrumara seu vestido. Ela colocou
     os braos em volta de si para se esquentar e disse o mais friamente possvel:
           -- Muito obrigada, mas no preciso de sua ajuda.
           Henry deu-lhe um sorriso lindo, mas Diana estava certa de que ele no tinha
     mais qualquer efeito sobre ela.
           -- Se a senhorita insiste, ento no vou ajudar.
           Ela olhou na direo da carruagem, que estava parada ao lado da ponte de
     pedra, mas no viu sua irm ou Will. Diana ento se virou para olhar para seu
     chapu, que aterrissara nas guas azul-esverdeadas de um pequeno lago. O lao
     de fita branco com o qual ela o prendera na cabea estava flutuando para longe.
     Diana suspirou com impacincia, agarrou sua enorme saia com as mos e deu um
     passo hesitante na direo da borda lamacenta do laguinho.
           -- Cuidado, Diana...
           Ela olhou para Henry. Ele no estava rindo ou caoando dela, mas apenas
     olhando para a barra de seu vestido, j sujo com a lama do lago.
           -- No quero me impor a voc mas, se preferir, posso ir pegar seu chapu.



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           Diana observou um grupo de crianas que havia se juntado pouco atrs
     deles. Quando se virou para a frente, viu que seu chapu estava flutuando para
     mais longe. Ela se sentiu muito exposta ali no meio daquele gramado, sem saber
     bem o que fazer. Olhou mais uma vez para Henry, que ergueu as sobrancelhas,
     rindo gentilmente.
           -- Quer que eu pegue?
           -- Bom - respondeu Diana, irritada. - Creio que...
           Henry sorriu e colocou ambas as mos em seus quadris. O toque dele
     acalmou-a e ela se perguntou por que lhe parecera to importante que ele no
     tocasse em seu chapu. Henry tirou rapidamente os sapatos e as meias e ento se
     enfiou no lago at os joelhos, deixando suas calas negras ensopadas.
           -- A-r! - exclamou Henry, alcanando o chapu com um gesto.
           Naquele exato momento, um bando de patos veio examin-lo e um deles
     saiu voando com o lao de fita branco no bico.
           -- O lao, no entanto... lamento, mas ele tem um novo dono - disse ele,
     apontando para o pato marrom que nadava para longe.
           -- Mas como vou amarrar o chapu sem o lao de fita? - perguntou Diana,
     cruzando os braos e fazendo uma careta. - Se eu ficar com sardas, minha me
     vai matar voc!
           Henry olhou para o pato. Diana percebeu que ele estava mesmo
     considerando a possibilidade de lutar com o bicho para reaver seu lao de fita e
     deu uma risadinha, escondendo a boca com a mo. Ele olhou para ela ao ouvi-la
     rindo.
           -- Eu estava brincando!
           Henry deu uma ltima olhada para o lao e saiu do laguinho. As crianas
     comearam a gargalhar ao v-lo to ensopado e Diana bateu palmas para ele. Ela
     estava achando cada vez mais difcil se sentir ofendida por um homem descalo
     cujas calas haviam sido arruinadas pela lama.
           -- Aqui est o chapu da senhorita - disse Henry, com um certo excesso de
     formalidade. - Mas ele est encharcado e eu ficaria feliz em continuar segurando-
     o. Se a senhorita no se incomodar,  claro.
           -- Muito obrigada - disse Diana, assentindo com a cabea.
           Eles ficaram parados prximos ao lago enquanto o vento brincava com o
     vestido rosa-ch de Diana. Henry encarou-a e ela sorriu para ele, um sorriso fraco
     a princpio, mas que foi ficando cada vez mais radiante. O momento durou
     alguns segundos a mais do que deveria e Henry disse:
           -- Precisamos voltar.
           -- , acho que sim.
           Diana o observou colocar os sapatos de volta e quis pensar em algo mais
     para dizer que indicasse que no estava mais zangada. Entao Henry deu-lhe uma
     piscada de olho quase imperceptvel e ela soube que no seria necessrio.




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                               Wxxx
                     Toda famlia com filhas em idade de casar deve
                     se preocupar com os custos de uma cerimnia de
                     casamento que, de acordo com a tradio,
                     precisam ser arcados exclusivamente pelos pais
                     da noiva. Quando uma menina da alta sociedade
                     se casa, os custos podem ser astronmicos e
                     muitos pais abastados sentiram-se quase
                     arruinados por esses felizes eventos.


     TRECHO DO LIVRO COLETNEA DE COLUNAS SOBRE A CRIAO DE JOVENS DE
     CARTER, DA SRA. HAMILTON W. BREEDFELT, EDIO DE 1899




          X              lizabeth ouviu a risada de sua irm mais nova e abriu os olhos.
                         Ela retirou as mos de cima das plpebras e viu o pelo
                         brilhante e negro de um cavalo. Diana estava voltando com a
     saia presa nas mos e Henry estava alguns passos atrs dela, carregando o
     enorme chapu de palha amarela. O vento fazia as rvores se inclinarem para o
     sul e o mundo todo parecia brilhante.
           -- Eles esto voltando - sussurrou ela.
           Will balanou a cabea devagar e fixou os olhos azuis nela.
           -- Vou embora na sexta-feira, no ltimo trem. Vou ver como  o porto do
     outro lado. Voc pode vir comigo ou pode ficar aqui para sempre...
           Elizabeth quis abraar Will e tocar-lhe a boca com a sua. Quis encontrar as
     palavras necessrias para convenc-lo a ficar e diz-las claramente, com
     convico. Mas no conseguiu. Toda a cidade de Nova York estava  sua volta.
     Por isso, ela cumpriu seu dever, saindo de detrs da carruagem e acenando com
     os braos.
           -- Vocs conseguiram! - exclamou ela, como se o fato de o chapu ter sido
     recuperado fosse um triunfo pessoal seu.
           O humor de Diana parecia ter mudado completamente. Ela olhou para
     Henry e riu.
           -- O pobre Henry praticamente teve de mergulhar no lago para pegar! -
     gritou ela, de longe. - Mas perdemos o lao! Ele vai fazer um ninho de pato em
     algum lugar.
           Elizabeth sentiu que Will estava olhando-a, mas continuou a se comportar
     como uma dama. Ela foi encontrar Henry e Diana, sentindo suas botas de couro
     afundando na terra fofa e o vento frio em suas orelhas. Quando chegou perto do
     noivo, ele pegou seu brao e ajudou-a a subir na carruagem. Elizabeth permitiu
     que ele a ajudasse e escondeu os olhos sob o chapu mais uma vez. Os cavalos


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     comearam a se mover. Foi s ento que ela deixou que algumas lgrimas
     silenciosas rolassem sobre seu rosto, guarnecidas pela sombra de seu chapu.


                                                ***
           Elizabeth tirou o chapu ao atravessar a porta da manso de sua famlia.
     Alguns fios louros se prenderam na palha, mas ela apenas arrumou o cabelo de
     qualquer jeito com as mos ao entregar o chapu para Claire, que esperava
     pacientemente no vestbulo escuro.
           -- Onde est minha me?
           Elizabeth abriu a porta da sala de estar e olhou l para dentro. Estava se
     movimentando de forma frentica, como se suas chances de consertar tudo
     fossem desaparecer se ela relaxasse um pouco. Mas no havia ningum na sala
     de estar. Aparentemente, sua me e sua tia haviam desistido de esperar pelas
     visitas.
           -- Claire, onde est a sra. Holland?
           Elizabeth se virou e viu que Diana havia enlaado Claire e pousado a
     cabea em seu peito. A mais velha das irms Broud sempre tivera aquele ar
     maternal, mesmo quando criana. Claire pareceu um pouco constrangida e deu
     um sorriso amarelo para Elizabeth.
           -- Eu no a vi - respondeu ela, baixinho.
           -- O que foi? - perguntou Elizabeth a Diana. - Desculpe se insisti para que
     voc viesse, se ainda estiver chateada com isso.
           Diana encarou-a, virando a cabea devagar. Ela estava com uma expresso
     melanclica que Elizabeth no teve tempo de interpretar.
           -- No, estou feliz por ter ido - disse Diana.
           Ela falou aquelas palavras em tom baixo e solene, mas Elizabeth no
     conseguiu entender por qu. E tambm no quis tentar. O que queria era que
     Diana desaparecesse como sempre fazia, para que ela pudesse encontrar sua me.
           -- Talvez voc devesse ir se deitar um pouco - sugeriu Elizabeth, tentando
     manter a calma.
           -- Talvez.
           Diana largou Claire e subiu a escada, balanando os braos como se mal
     tivesse energia para carreg-los. Quando ela sumiu, Elizabeth voltou-se para
     Claire. Ela passou o dedo pela sobrancelha direita, respirou fundo e preparou-se
     para fazer a pergunta pela terceira vez.
           -- Eu no sei - disse Claire antes que Elizabeth conseguisse dizer uma
     palavra. - No a vi. Vou procurar no terceiro andar.
           -- Obrigada.
           Desde que Elizabeth conversara com Will no Central Park, sua ansiedade
     vinha crescendo. Tudo o que ela conseguia pensar era que sua relao mentirosa
     com Henry era insustentvel e que precisava dizer isso a sua me imediatamente.
     Se conseguisse parar de fingir que era uma menina perfeita, ela seria capaz de
     mostrar  me que no podia ir adiante com aquilo. Talvez o estado das finanas
     na famlia no estivesse to ruim e ela no precisa-se casar imediatamente.
     Talvez houvesse outra maneira de sua famlia recuperar a fortuna - afinal, eram
     tempos modernos. Talvez ela pudesse ficar com Will.


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           Claire subiu a escada quase correndo e Elizabeth foi olhar novamente na
     sala de estar. Foi ento que ela viu que, no cho do vestbulo, havia uma pintura
     de moldura dourada, que estava virada para a parede. Elizabeth se voltou para
     perguntar a Claire o que era aquilo, mas a empregada j desaparecera. Ela afastou
     o quadro da parede para poder ver qual era e reconheceu-o imediatamente: era o
     Vermeer que ficara em seu quarto pelos ltimos dez anos.
           A pintura era uma das preferidas de seu pai - ele a comprara de um
     vendedor de quadros parisiense quando a sra. Holland estava grvida pela
     primeira vez. Diversos colecionadores de arte, do tipo que havia decidido parar
     de ganhar milhes vendendo ao para se dedicar a gast-los comprando as obras
     dos velhos mestres, expressaram interesse pelo quadro, mas El1zabeth implorara
     a seu pai para no vend-lo. Ele mostrava duas menivas, uma loura e uma de
     cabelos negros, lendo um livro numa mesa de madeira ao lado de uma janela. A
     loura estava na esquerda, mais prxima da janela, e seu cabelo cintilava como
     fios de ouro. As duas estavam virando as pginas do livro e a luz iluminava sua
     pele, plida e perfeita.
           Elizabeth passou o dedo pela moldura dourada, onde havia um pedao de
     papel afixado. O nome escrito nele - sr. Broussard - no lhe era familiar. Embora
     aquele quadro fosse dela, ela sentiu como se estivesse mexendo nas coisas de um
     estranho.
           Elizabeth subiu rapidamente a escada estreita dos empregados e abriu a
     porta do quarto da me. No havia sinal dela.
           -- Srta. Liz...
           Elizabeth fechou a porta do quarto da sra. Holland e viu que Claire estava
     logo atrs dela.
           -- O que foi?
           Ela no entendia bem por que estava se sentindo constrangida por andar em
     sua prpria casa.
           -- A sra. Holland est l embaixo.
           -- Obrigada, Claire.
           Elizabeth se virou e desceu pela escada principal, coberta por um opulento
     carpete persa. J estava quase na metade do caminho, pensando em como ia dizer
     para sua me que no ia conseguir casar com Henry Schoonmaker, quando viu o
     homem no vestbulo. Ele estava agachado na frente do Vermeer, observando o
     canto superior direito com uma lupa toda ornamentada. Era ali que estava a
     assinatura do pintor, acima da jarra de vinho. Elizabeth quis gritar com o homem
     e mand-lo parar de mexer em suas coisas, mas algo, talvez seu hbito de ser
     sempre to comportada, a fez continuar calada.
           -- No temos quadros falsos nesta casa, sr. Broussard - disse a sra. Holland
     friamente, aproximando-se dele.
           O homem, que estava vestido de negro e cujos longos cabelos estavam
     enfiados abaixo da gola, virou sua cabea como se para avaliar a senhora que
     acabara de lhe falar. Ele encarou-a durante diversos segundos, o que era muito
     grosseiro, e voltou a olhar para as pinceladas de Johannes Vermeer. Quando
     estava satisfeito, o sr. Broussard tirou um pedao de pano de uma bolsa e
     embrulhou o quadro. Ele ficou de p, colocou a mo no bolso do casaco e tirou
     um envelope.


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           -- Aqui est - disse o sr. Broussard bruscamente.
           Elizabeth observou sua me abrir o envelope e examinar o contedo. Ver
     seu quadro nas mos de um estranho lhe fez sentir uma tristeza pesada, que
     estava se transformando em raiva.
           -- Est tudo a dentro - disse o homem, impaciente.
           -- Tenho certeza que sim - respondeu a sra. Holland. - Mas detestaria pedir
     que o senhor voltasse caso houvesse algum problema.
           O sr. Broussard esperou at que a sra. Holland assentisse e ento apertou a
     mo dela e foi embora. Quando a porta bateu, o estrondo pareceu fazer a casa
     toda estremecer. Elizabeth ficou parada na escada, hesitante, enquanto sua me
     observava o homem sair, iluminada pela luz que entrava pelo vidro da porta da
     frente. A sra. Holland suspirou, virou-se e deu alguns passos, at que viu
     Elizabeth ali e parou.
           -- O que voc est fazendo a?
           Aps ver sua me vendendo um dos objetos mais queridos da famlia,
     Elizabeth no sabia se ia ser capaz de encar-la da mesma maneira. Aquela
     mulher no parecia mais ser uma pessoa assustadora que ditava as regras da
     sociedade. Parecia pequena, frgil, insignificante. E velha.
           -- Estava procurando voc ... Queria lhe perguntar algo.
           -- O qu?
           Elizabeth sentiu que seu corao congelara. Todas as suas emoes, seu
     egosmo, sua necessidade de mostrar lealdade a Will e obrig-lo a continuar em
     Nova York haviam desaparecido. Sua famlia no estava apenas pobre; estava
     desesperada. Ela s tinha uma escolha: casar-se com Henry. No haveria outra
     oportunidade como aquela.
           -- S queria lhe perguntar se vai querer tomar vinho no jantar.
           Houve um longo momento de silncio enquanto a sra. Holland observou
     sua filha. Ela piscou os olhos e disse:
           -- No, querida. Precisamos guardar o vinho para o caso de os
     Schoonmaker virem jantar aqui.
           Elizabeth assentiu. No havia mais nada a dizer e, por isso, ela se virou e
     foi procurar a governanta da manso, com o ps pesados e o corao doendo. Ia
     dizer a ela que no devia servir mais vinho nas refeies at que ela se tornasse a
     sra. Schoonmaker.




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                                      i|x
                      MENSAGEM TRANSATLNTICA
                 COMPANHIA TELEGRFICA WESTERN UNION
                                 PARA:    Penelope Hayes
                           CHEGOU A: Nova York, NY
                                tera-
                         13:25, tera-feira, 26 de setembro de 1899

                     Querida Penelope.
                     A histria do escndalo que voc deu naquele
                                               Londres.
                     jantar chegou at aqui em Londres. V ou lhe
                                                           lembre
                     mandar uma carta em breve. At l, lembre--
                               temos
                     se de que temos o mesmo sangue. Seja forte
                     irmzinha, ou o mundo vai lhe esmigalhar.
                                            pblico.
                     No vomite mais em pblico.

                                                Grayson L. Hayes


          c                 enelope agarrou Robber, seu Boston Terrier, ao ler o
                            telegrama. Ela olhou para sua me, que estava sentada ao
                            lado de Webster Youngham, o arquiteto, no outro lado da
     enorme sala de estar, com seus mveis da poca de Lus XV forrados de seda
     azul e branca e seu cho de nogueira polida. A sra. Hayes queria que todos
     ficassem sabendo que o sr. Youngham fora contratado novamente pela famlia,
     para construir uma manso de veraneio em Newport, do tipo que tinha cinquenta
     e seis cmodos e cho de mrmore em todos eles. Esse no era o tipo de
     novidade que devia ser mantida em segredo. Por isso, a sra. Hayes queria que o
     sr. Youngham construsse a casa em tempo recorde, para que fosse forado a se
     hospedar ali e fosse visto por todos que os visitassem.
           Penelope examinou sua me, Evelyn Archer Hayes. Ela usava um vestido
     lils que ficava ridculo numa mulher de sua idade e que apertava sua cintura
     larga de forma desagradvel. Penelope jurou para si mesma que jamais se
     permitiria engordar tanto. Ento, ela se levantou, fazendo Robber cair e deslizar



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DCE
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     pelo cho, e andou at um dos enormes espelhos incrustados com ouropel que
     preenchiam os espaos existentes entre os quadros, para olhar para algo mais
     atraente.
           -- Penelope, no quero que esse animal destrua meu cho - disse sua me
     do sof onde estava.
           Penelope revirou os olhos para sua imagem no espelho e ento juntou os
     lbios como quem vai dar um beijo.
           -- As unhas dele esto cortadas, voc sabe muito bem - respondeu ela.
           Sua me sempre lhe irritara mas, desde que Penelope descobrira o noivado
     de seu Futuro Marido com sua Ex-Melhor amiga, cada palavra que ela dizia
     parecia-lhe uma afronta pessoal. Ela viu que a rotunda sra. Hayes voltara a
     tagarelar com o sr. Youngham e ento amassou o telegrama de seu irmo mais
     velho e colocou-o num jarro de prata cheio de rosas amarelas. Penelope queria
     que Grayson estivesse em Nova York para defend-la e aquele telegrama s a
     fizera sentir atacada, em vez de protegida.
           Os cabelos escuros de Penelope estavam presos num coque, formando um
     pompadour acima de sua testa. A moda para as meninas da sua idade era usar
     cachinhos, mas Penelope sabia muito bem o que combinava com suas feies
     dramticas. Ela examinou suas sobrancelhas, esfregou a pele frgil abaixo dos
     olhos para dar-lhe um pouco de cor e estava olhando com prazer para os metros
     de cauda azul-piscina de seu vestido quando as portas da sala foram abertas por
     uma das empregadas.
           A sra. Hayes fez um gesto, como se tivesse certeza de que o visitante era
     para ela, mas a criada acenou educadamente com acabea e foi na direo de
     Penelope.  claro.
           -- A srta. Elizabeth Holland apresentou seu carto - disse a criada.
           Penelope suspirou fundo ao ouvir o nome que tanto detestava e voltou a se
     olhar no espelho. Ela amassou o carto de Elizabeth e parou para pensar. O que
     adoraria fazer seria trat-la com perfeita indiferena, mas isso seria uma vingana
     vulgar e insatisfatria. Seja forte, Penelope lembrou-se do conselho do irmo.
           -- A srta. Elizabeth Holland pode entrar, se assim o deseja.
           -- Sim, senhorita - disse a criada, saindo pela porta de umbral de mogno.
           Penelope observou sua sala de estar e ficou muito feliz por ela ser bem
     melhor do que a sala onde os Holland recebiam visitas, e tambm pelo fato de
     sua me estar ali, porm distrada pela presena do arquiteto. Isso ao menos a
     impediria de esbofetear a imbecil da Elizabeth. Ela lembrou que estava com um
     vestido que a deixava particularmente bela, com um corpete elaborado, uma gola
     chinesa, uma pequena fenda na altura do peito e um bordado feito com fios de
     ouro de verdade. Foi at o local onde Robber estava enroscado, uma caminha
     dourada forrada de veludo berinjela, pegou-o e atravessou o cmodo com seu co
     encostado no peito.
           A governanta anunciou formalmente a visitante, enunciando aquele nome
     to desagradvel: "Srta. Elizabeth Holland". Ao ouvi-lo, os delicados fios de
     cabelo da nuca de Penelope se eriaram. Ela enterrou o rosto no pelo de Robber e
     ouviu os passos tmidos de Elizabeth no cho polido de sua manso. Quando j
     estava ouvindo a respirao nervosa dela, Penelope olhou para cima e encarou-a.
           -- Penelope...


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           Elizabeth franziu o cenho e seu lbio inferior tremeu. Penelope avaliou a
     ex-amiga, que estava usando um vestido de seda marrom clara, por diversos
     segundos antes de abrir a boca.
           -- O que foi? Veio at aqui sem pensar numa coisa para me dizer?
           -- No, eu... eu tenho tantas coisas a lhe dizer! Lamento tanto o que
     aconteceu naquela noite...
           --  pattico ver que voc precisa competir comIgo ate nisso - interrompeu
     Penelope.
           Ela olhou para o outro lado da sala e viu que sua me estava radiante,
     recebendo Ava Astor, neta da famosa sra, Astor, e que, aparentemente, era sua
     nova melhor amiga. Elizabeth arregalou seus olhos castanhos.
           -- No, no! No foi isso, de jeito nenhum! Eu no tinha ideia de que voc
     estava to apaixonada por Henry Schoonmaker. Voc no tinha me dito.
     Penelope , voc precisa acreditar em mim. Eu sinto tanto!
           Penelope deu uma risadinha sarcstica. Ela fingiu estar evitando olhar para
     Elizaheth, mas no conseguiu deixar de ver o enorme diamante em sua mo
     esquerda.
           -- Voc no conhece Henry como eu. Sua vida no vai ser um mar de
     rosas.
           -- Penelope - implorou Elizabeth, tentando agarrar a mo da amiga que se
     esquivou. - No posso explicar agora, mas voce precisa acreditar quando eu digo
     que no fui eu quem fui atrs de Henry, e quando ele me pediu em casamento...
     juro que um dia vou explicar tudo... mas eu tinha de aceitar.
           Penelope examinou o rosto ansioso de Elizaheth, viu que seus olhos
     estavam se enchendo de lgrimas e se deu, conta de que ela nem mesmo queria
     se casar com Henry Schoonmaker. AquIlo no fazia nenhum sentido para
     Penelope, pois ela estava doente h cinco dias s de pensar em perd-lo. Mas
     ficara claro que Elizabeth no estava ali para contar vantagem. Na verdad ela
     parecia infeliz. E definitivamente estava abatida. Isso era algum consolo.
           Penelope olhou com menos animosidade para Elizabeth e comeou a andar
     vagarosamente perto da parede, obrigando-a ir atrs.
           -- Voc me humilhou - disse ela, magoada.
           -- Eu sei, Penny. Mas foi sem querer.
           -- Todos estavam rindo de mim, sabia? Eu levei um choque horrvel!
           Penelope fungou, como se estivesse sentindo mais tristeza do
     que raiva.
           -- Eu sei. Mal posso explicar o quanto sinto...
           -- E voc no disse nada! Ficou ali, parada. Voc ouviu minha histria e
     podia ter me avisado, mas no disse coisa alguma.
           Elizabeth comeou a remexer na borda de seu bolero que tambm era
     marrom-claro.
           -- Eu fiquei sem palavras, Penelope, juro. Ou eu teria...
           Ela no conseguiu continuar, o que deixou Penelope satisfeita, pois sua voz
     ficara to aguda que parecia a de uma criana manhosa.
           -- Pode imaginar como eu me senti por causa do seu silncio? - insistiu
     Penelope.
           Elizabeth olhou para o cho e mordeu o lbio.


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           -- No, no posso.
           Ela subitamente percebeu que estava quase estragando seu bolero de tanto
     mexer com ele. Assim, juntou as mos e continuou a falar, fingindo alegria:
           -- Mas, pense bem. Voc vai poder conhecer e flertar com tantos homens
     diferentes, enquanto eu vou me casar muito cedo e ficarei casada para sempre.
     Voc ainda vai poder se apaixonar muitas, muitas vezes!
           -- Isso  verdade - disse Penelope com cautela.
           Ela levantou o cotovelo, indicando que Elizabeth deveria pegar seu brao.
     Elas passaram devagar pelos enormes quadros da sala de estar e entraram numa
     saleta menor, com papel de parede azul-escuro e branco. Ali, ficariam longe dos
     olhos da sra. Hayes, tio sr. Youngham e de Ava Astor. Penelope respirou fundo e
     tentou ser um pouco simptica.
           -- Bem, Liz, no consigo ficar zangada com voc por muito tempo. Fico
     feliz de Henry se casar com voc e no com uma menina qualquer.
           Elizabeth pareceu momentaneamente chocada com a mesquinharia de
     Penelope, mas logo se recuperou.
           -- Obrigada por ser to compreensiva. Muito, muito obrigada.
           Penelope tentou receber a gratido de Elizabeth com um sorriso que
     pudesse ser chamado de amvel. Ela j no estava to plida e parecia realmente
     muito aliviada. Mas ainda sentia culpa. Penelope viu isso e preparou-se para tirar
     toda a vantagem que pudesse da situao. Elas se sentaram num pequeno sof de
     veludo cereja, com Robber espremido entre as duas.
           -- Eu estava to arrasada por ter magoado voc. Seria terrvel se, agora que
     uma de ns est noiva, no pudssemos cumprir nossa promessa de ser a
     madrinha uma da outra.
           Elizabeth sorriu, esperanosa, olhando nos olhos azuis de Penelope. Ela
     sorriu tambm, forando-se a pegar a mo de Elizabeth, observando mais uma
     vez o diamante, e apertando-a. No ia haver casamento,  claro... no se Penelope
     pudesse impedir. E ela estava comeando a ver que seria bem mais fcil estragar
     tudo se mantendo bem prxima de Elizabeth.
           -- Voc quer mesmo que eu seja sua madrinha? - perguntou ela num quase
     sussurro.
           --  claro, quem mais eu...
           -- E Diana? Ela  sua irm. No vai ficar magoada?
           Elizabeth pareceu angustiada ao ouvir o nome da irm e Penelope percebeu,
     radiante, que ela havia lhe dado preferncia na hora de escolher as madrinhas.
     Ela pensou em algo que lhe fez sorrir, e no pde deixar de dar a sugesto:
           -- E quanto a Agnes Jones?
           Elizabeth ficou surpresa, mas logo seu rosto se desanuviou e ela tambm
     comeou a rir daquela ideia hilria.
           -- Seria um desastre completo - disse ela, limpando uma lgrima de alegria.
           -- Ou Prudie? Quero dizer...
           -- Penelope, no posso contar com ningum alm de voc.
           -- Tudo bem. Como voc quiser. - Penelope piscou um olho e completou: -
     Ser feito.
           -- E h um evento na sexta-feira... aquele para o almirante Dewey no
     Waldorf-Astoria. Ser a primeira vez que eu e Henry apareceremos em pblico


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     como um casal. Voc poderia estar ao meu lado, como minha madrinha de
     casamento?
           --  claro.
           Penelope tentou no parecer feliz demais. Ela j estava sendo colocada na
     posio onde poderia fazer o maior nmero de estragos.
           -- Preciso de um vestido novo para a ocasio,  claro, e vou fazer a ltima
     prova na quinta, na Lord & Taylor - disse Elizabeth, claramente aliviada por
     poder fazer planos como aquele. - Venha comigo e poderemos comprar algo para
     voc tambm.
           -- Tudo bem. Mas no  nesse vestido que deveria estar pensando. Vai usar
     branco no casamento,  claro. Mas quem vai fazer a roupa? Ela precisar ter uma
     cauda enorme e...
           -- Ah, sim - interrompeu Elizabeth...
           E antes que Penelope pudesse dizer qualquer outra coisa, Elizabeth estava
     falando das vantagens do marfim sobre o amarelo-claro, das variedades de flores
     rosas que haveria na cerimnia e de quem ia convidar para dama de honra, alm
     de perguntar a ela o que achava realmente da aliana que ganhara.
           A irm mais nova de Grayson Hayes no vomitou em pblico de novo,
     embora tenha sentido vontade. Ver os olhos de Elizabeth Holland brilhando
     conforme ela imaginava os detalhes de seu suntuoso casamento fez com que a
     fria de Penelope ressurgisse. Mas, apesar de sentir uma amargura que teria
     arruinado a pele de uma menina com menos fora de vontade, Penelope Hayes
     continuou sorrindo. Uma amiga que sorria era uma amiga verdadeira e era isso
     que ela queria parecer - pelo menos por enquanto.




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                           i|x x h
                     Com a chegada da frota do almirante Dewcy no porto de Nova York
                     ontem e as preparaes frenticas para as duas paradas - uma no mar
                     na sexta-feira e outra em terra no sbado - parece que a cidade
                     finalmente ter outro assunto para discutir alm do noivado do sr.
                     Henry Schoonmaker com a srta. Elizabeth Holland.

        EDITORIAL DO NEW YORK TIMES, QUARTA-FEIRA, 27 DE SETEMBRO DE 1899



           -- Vamos Ringmaster! - gritou Teddy Cutting, sacudindo o punho.
           -- Ande logo seu pangar - acrescentou Henry, um pouco menos generoso.
           Ele estava sentado com o amigo numa instvel arquibancada de madeira do
     Morris Park, bebendo cerveja Pabst, aquela que tem uma fita azul em volta do
     gargalo, comendo amendoins salgados e agindo como quem pertence a uma
     classe bem, inferior  sua. A pista de corrida, que ficava no bairro do Bronx, era
     muito mais bonita quando vista do camarote de sua famlia, mas Henry estava
     tentando evitar o pai. Alm disso, o camarote dos Schoonmaker era de uma
     opulncia absurda, decorado de forma a mostrar aos convidados o tamanho da
     fortuna de seu dono. Tudo o que Henry queria naquele momento era beber
     cerveja o suficiente para ficar feliz e se esquecer da vida.
           -- Mexa-se! - gritou ele na direo do cavalo puro-sangue em que apostara.
           Teddy chegou seu chapu-coco mais para trs na cabea, fazendo vrios
     fios de cabelo louro surgirem na frente, e bateu palmas ao ver o cavalo se
     aproximando da linha de chegada. O Ringmaster e seu pequeno jquei de
     uniforme vermelho e branco estavam em segundo, mas foram ultrapassados no
     finalzinho da corrida. Teddy soltou um muxoxo de frustrao ao ver que o cavalo
     chegara em quarto lugar.
           -- Bom, l se vo mais vinte dlares - disse ele, atirando o papel da aposta
     embaixo da arquibancada.
           -- Ah, deixe disso - respondeu Henry, colocando seu chapu de palha num
     ngulo mais atraente e recostando-se no assento de trs. - Dinheiro no  tudo.
           -- Isso  o que voc pensa - disse Teddy, rindo. - Em quem apostamos
     nessa prxima? La Infanta?
           -- Por que no apostamos em todos os cavalos? Assim, no vamos ter de
     nos preocupar em perder. Estou feliz s de estar fora da cidade e longe de toda
     aquela loucura.
           Teddy ergueu suas sobrancelhas louras e tomou um grande gole de cerveja.
     Henry ignorou o olhar do amigo e virou a gola de seu palet de tweed para cima.
     Morris Park, onde aconteciam as corridas de cavalo Belmont Stakes, ficava num
     recanto do Bronx, um bairro que ainda no parecia fazer parte de Nova York. Ele



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     fora anexado  cidade no dia 1 de janeiro daquele ano, assim como o Brooklyn e
     o Queens, mas ainda tinha a aparncia rural e ficava muito, muito longe da
     frentica Manhattan, que no momento estava sendo invadida por folies e
     patriotas. A cidade estava preparando fogos de artifcio e quilos de confete para
     receber os marinheiros vitoriosos.
           -- Eu estou falando das paradas - disse Henry, tentando se esquivar do
     olhar acusatrio de Teddy com uma expresso sria. - Nosso barco vai participar
     da aqutica,  claro.
           -- Ah, sim.
           Teddy no pareceu ter se convencido, mas tambm no demonstrou estar
     perturbado pela mentira de Henry . Ele olhou para dentro da garrafa de cerveja
     que segurava.
           -- O heri do Pacfico Sul - disse ele.
           -- No, das Filipinas - respondeu Henry, que passara a ler os jornais
     cuidadosamente desde que o cocheiro dos Holland o acusara de ser ignorante. --
     Quanto trabalho por um pas que  to longe. J a guerra de Cuba, essa sim.
     Nessa eu poderia ate ter lutado.
           -- Sim, todos ns teramos nos alistado se tivssemos tido tempo.
           -- Est caoando de mim?
           Teddy deu de ombros.
           -- Se no quer admitir que na verdade est fugindo de outra coisa, no sou
     eu que vou for-lo.
           Henry suspirou e cruzou os braos. Teddy acendeu um cigarro, o que fez
     com que o ar  volta deles ficasse repleto de uma fumaa com cheiro adocicado.
           -- Adoro dias como esse - disse Henry, olhando para os cavalos sendo
     levados para a pista.
           -- Realmente  horrvel quando temos de colocar um fraque, ficar cercados
     de garotas, beber champanhe aos baldes e comer em pratos de ouro. Voc detesta
     isso.
           -- No foi isso que eu quis dizer.
           -- Ento, qual  o problema?
           Henry olhou com cautela para o amigo, demorando alguns segundos para
     encontrar as palavras certas.
           --  que no sei bem se deveria ter ficado noivo. Estou ficando um pouco
     nervoso agora que j comeamos a discutir os detalhes da cerimnia. A coisa
     toda est ficando mais real . Quer dizer, Imagine ter de receber convidados para o
     almoo com a sra. Schoonmaker num dia como hoje, em vez de vir apostar nos
     cavalos com voc. Ou de fazer qualquer coisa que eu queira.
           -- Mas ser que voc vai pensar assim quando tiver uma esposa to bonita?
           Henry tentou no franzir a testa, mas no conseguiu. Ele tentou pensar em
     sua noiva como uma mulher que o atraa, mas s conseguiu se lembrar daquela
     menina fria que estremecera a cada palavra sua durante o passeio pelo Central
     Park. Ela mal olhara para ele e parecera uma esttua de gelo, especialmente ao
     lado de sua exuberante irm, com suas bochechas rosadas e seu atrevimento.
           -- Todo mundo diz que ela  multo bonita - concordou Henry
     amargamente.



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           -- Eu digo que ela  muito bonita. Na verdade acho que esse adjetivo nem
     faz jus a ela.
           -- Ento por que voc no se casa com ela?
           Teddy riu.
           -- Eu casaria, mas receio que a moa j esteja noiva de outro. Gostaria de
     apostar a mo dela na prxima corrida?
           -- Que escndalo no seria. "Rapazes da alta sociedade apostam noivas nos
     cavalos." Voc sabe que os jornais publicam uma matria toda vez que eu assoo
     o nariz.
           -- Eu estava brincando, Henry.
           Teddy colocou a mo no ombro do amigo e sacudiu-o de leve.
           -- Eu sei.
           Henry olhou para seus dedos longos e perfeitos. Aquelas eram as mos de
     um homem que jamais trabalhara na vida.
           -- Mas no sei se ela  a pessoa certa para mim - disse ele. - Elizabeth 
     muito tmida e recatada e voc sabe muito bem que eu no sou nem uma coisa,
     nem outra.
           -- Bem - disse Teddy, terminando a cerveja e jogando a garrafa debaixo da
     arquibancada -, ela no  uma verso feminina de voc, se for isso que o
     preocupa.
           -- No, no .
           -- Mas tem bom gosto e boas maneiras.
           Henry revirou os olhos.
           -- E vai ser impecvel em tudo que uma esposa precisa fazer - continuou
     Teddy. - Vai dar boas festas, manter a casa de vocs perfeita, ter filhos bonitos e
     no reclamar de nada disso. Enquanto voc no vai precisar fazer coisa alguma, e
     ningum vai falar nada demais se continuar a ter uma vida privada paralela, com
     as mesmas meninas de sempre e mais algumas novas. Voc nunca fica
     apaixonado por muito tempo. Por isso, Elizabeth  uma escolha to boa quanto
     outra qualquer. Provavelmente at melhor.
           Teddy pensou ter posto um fim naquela discusso e gesticulou para um
     menino que passava com uma caixa de madeira cheia de gelo e garrafas de Pabst.
     Ele pagou pelas duas cervejas, entregou uma a Henry e bateu sua garrafa
     levemente na dele.
           -- Tim-tim, meu amigo. Acho que voc escolheu muito bem.
           Henry bebeu, mas continuou a olhar tristemente para a corrida. Uma frase
     lhe ocorrera durante o discurso de Teddy e ele decidiu diz-la em voz alta:
           -- Acho que no quero me casar com ningum.
           Teddy deu um sorriso melanclico e observou os cavalos, que estavam
     fazendo a ltima curva da corrida a toda velocidade.
           Os homens sentados nas arquibancadas estavam de p, gritando e pulando,
     acreditando que poderiam mudar suas vidas em um segundo.
           -- E o que voc quer, afinal? - perguntou Teddy com uma certa
     impacincia.
           Os cavalos cruzaram a linha de chegada e Henry lembrou que aquela seria a
     ltima corrida do dia. A maioria dos homens  sua volta estava rasgando os
     papis que marcavam suas apostas ou indo embora desanimados, olhando para o


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     cho e preparando-se para voltar para suas vidinhas miserveis. Mas um rapaz
     muito corado estava pulando e socando o ar.
           -- Ganhei! - gritava ele. - Ganhei!
           Henry desviou o olhar daquela exibio vulgar. Teddy estava observando-o,
     perguntando-se se ele o ouvira. Mas Henry ouvira, sim, e a aquela pergunta - o
     que, afinal, ele queria? - estava ressoando em sua mente.
           Quando ele fechou os olhos, tudo o que viu foi Diana Holland correndo
     pela grama, segurando o vestido, deixando a mostra seus adorveis tornozelos
     brancos e gritando com ele. Houvera alegria na voz dela quando ela mandara
     Henry ir pegar o lao que prendia seu chapu, ou sua me o mataria por deix-la
     com sardas.
           Henry sabia exatamente o que queria; mas no tinha a menor idia de como
     conseguir.




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                          i|x x W|
                     Toda a cidade est esperando ansiosa para ver a srta. Elizabeth
                     Holland e seu noivo, o sr. Henry Schoonmaker em pblico pela
                     primeira vez. Eles estaro amanh no hotel Waldorf-Astoria. onde uma
                     festa ser dada em homenagem ao almirante Dewey. Tenho certeza de
                     que no sou a nica pessoa j imaginando a viso romntica do
                     solteiro mais querido de Nova York acompanhando sua escolhida.

     NOTA DA COLUNA "GAMESOME GALLANT", DO JORNAL NEW YORK IMPERIAL,
     QUINTA-FEIRA, 28 DE SETEMBRO DE 1899.



          Diana estava quase adormecendo devido ao calor da sala particular da loja
     Lord & Taylor, onde sua irm estava provando o vestido que usaria em sua
     primeira apario pblica com o noivo, quando ouviu o nome mgico cuja
     meno ela passara a tarde toda esperando.
          -- Mas me conte Henry est sendo romntico com voc?
          Fora Penelope quem falara, tentando fingir indiferena. Ela usava uma
     blusa preta de chiffon com mangas bufantes e saia castanho-amarelada debruada
     com seda preta. A pergunta fora dirigida a Elizabeth, que estava parada em cima
     de um bloco de madeira no meio da sala, mas fora o corao de Diana que batera
     mais rpido ao ouvir aquele nome. Elizabeth que estava rodeada no apenas pelo
     costureiro, o sr. Carrol1 e pela atenciosa Penelope, mas tambm por um pequeno
     exrcito de atendentes, nem sequer pareceu interessada em responder. Ela olhou
     para o nada e deu de ombros.
          -- No ... - disse Elizabeth, devagar. - Mas amanh vai ser a primeira vez
     que vamos a um evento como um casal, ento talvez ele esteja esperando at l.
          -- Isso, ele provavelmente est um pouco tmido, pois ainda no conhece
     voc muito bem - replicou Penelope.
          Diana percebeu que ela parecia ter se recuperado do escndalo que dera na
     semana anterior. Mas as meninas da alta sociedade eram como mariposas em
     volta de uma lmpada quando se falava de um casamento, o que estava sendo
     demonstrado pela presena constante de Penelope ao lado do costureiro.
          O sr. Carroll no era um homem alto e usava fitas mtricas em volta do
     pescoo. Embora tivesse pouco mais de trinta anos, ele j estava quase careca,
     mas movia-se com graa e elegncia. Elizabeth estava imvel, embora o sr.
     Carroll estivesse aperfeioando seu vestido h quase uma hora, marcando
     diversos locais que teriam de ser modificados. Era um vestido recatado em teoria,
     que cobria a clavcula e os pulsos de Elizabeth com renda, mas cada alterao o
     deixava mais justo. Era feito de seda rosa muito clara e sua saia tinha inmeras
     camadas que cascateavam at o cho. O decote era adornado com centenas de
     pequeninas prolas de gua doce em suportes de ouro. Diana ouvira sua me


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     falando daquelas prolas de manh - elas haviam sido um presente da sra.
     Schoonmaker, aparentemente.
           Diana observou Penelope mostrando um problema no corte do vestido para
     o costureiro. Ela estava sentada em um dos sofs de veludo cor de ameixa que
     havia na sala. Toda a loja de departamentos cheirava a almscar, um odor que
     vinha dos andares mais baixos do prdio, onde eram vendidos broches, luvas e
     chapus. A Lord &Taylor ficava na Broadway, no meio de um longo trecho
     cheio de lojas de luxo, considerado um dos locais mais chiques do mundo. Todas
     as paredes l dentro eram cobertas de espelhos, de forma que uma jovem pudesse
     observar seu reflexo de todos os ngulos imaginveis. Diana em geral gostava de
     visitar a loja, especialmente porque a maioria dos vendedores eram rapazes
     bonitos. Mas hoje ela estava cansada da imagem de sua irm refletida inmeras
     vezes e iluminada por um candelabro. S via um pequeno pedao de si mesma no
     espelho - uma figurante no enorme quadro que era a prova do vestido de
     Elizabeth.
           Ao lado de Diana estava a acompanhante das duas, a tia Edith, que
     dormitava. Ela usava um vestido vermelho-escuro e seu pescoo estava coberto
     por um leno creme, que ela afirmava proteg-la de resfriados. A cada dez
     minutos uma vendedora surgia com algum novo tesouro para mostrar a elas --
     chapus pena, luvas de couro, braceletes de madreprola, todos embrulhados em
     papel-seda rosa. De vez em quando elas tambm traziam taas de champanhe,
     que eram oferecidas aos melhore clientes da loja.
           -- E voc j escolheu a data do casamento? - perguntou Penelope,
     arregalando os olhos azuis com uma curiosidade peculiar.
           -- No ... talvez marque no inverno ou na primavera.
           Diana pegou uma das taas de champanhe da vendedora e tomou um gole.
     Era estranho que Elizabeth estivesse sendo to vaga, mas ela decidiu no dar
     muita importncia ao fato. Ou tambm seria obrigada a notar que Penelope, que
     em geral no se interessava pelos outros, estava fazendo perguntas demais. Diana
     j observara que o tpico favorito de Penelope era ela mesma.
           -- Muito cedo -- disse Penelope. - Talvez voc devesse pedir ajuda a Isaac
     para planejar o casamento. Ele  muito bom no que faz.
           -- Acha mesmo? - disse Elizabeth, olhando sem muito entusiasmo para seu
     reflexo no espelho.
           -- Tudo bem. Mas voc pode falar com Isaac? Voc o conhece to melhor
     do que eu.
           Diana se recostou no papel de parede azul-marinho e esperou sua vez de
     experimentar um vestido. Alguma coisa estava acontecendo entre Penelope e
     Elizabeth, mas ela no sabia bem o que era. Talvez Penelope estivesse com
     inveja porque a amiga ia casar primeiro. Normalmente ela no se incomodaria
     com aquilo, mas hoje estava fazendo questo de ouvir a conversa das duas,
     tentando escutar qualquer meno do nome de Henry. Henry, em qualquer
     contexto, era-lhe interessante.
           Mais cedo, quando elas quatro haviam almoado no Palm Garden, o
     restaurante do Waldorf-Astoria, Elizabeth falara sem parar sobre como era
     importante para ela que Penelope houvesse aceitado ser sua madrinha, como o
     casamento seria lindo e tudo mais. No momento em que Penelope fora fumar um


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     cigarro no banheiro feminino, longe dos olhos da tia Edith, Elizabeth tinha
     sussurrado para Diana que lamentava no poder ter duas madrinhas.
           -- Eu precisava convidar Penelope. Voc me perdoa, no perdoa? Ns
     tnhamos prometido uma para a outra.
           -- Eu j disse que no ligo - respondera Diana, sem se incomodar em falar
     baixo. - Penelope  uma candidata melhor para segurar o buqu de uma noiva
     que no ama o futuro marido.
           Elizabeth se afastara rapidamente dela ao ouvir o comentrio, mas Diana
     no tivera a inteno de ser cruel. Estava apenas apontando um fato. Mas, desde
     ento, Elizabeth se mostrara sisuda e at mal-humorada, algo que ela jamais fazia
     em pblico.
           -- Mas voc tem visto Henry? - insistiu Penelope.
           Ela estava muito prxima de Elizabeth, de forma quase impudente,
     verificando a renda em torno de seu pescoo.
           -- Ah, sim. Ns demos um passeio no parque, no ... quando foi, Di?
           -- No domingo - respondeu Diana. - Ele foi muito galante - acrescentou ela
     sem pensar.
           -- Foi? - perguntou Penelope, colocando os dedos sobre as perolas que
     estavam no peito de Elizabeth, mas voltando os olhos para Diana.
           -- Ele foi bastante simptico - disse Elizabeth. - Resgatou o chapu de
     Diana, que tinha voado.
           -- Ah - disse Penelope, voltando a examinar o vestido.
           Diana j se lembrara daquela tarde no Central Park incontveis vezes e
     comeou a faz-lo de novo. O borro verde, vermelho e branco que era o
     gramado e as toalhas de piquenique enquanto eles corriam, Henry em seu papel
     de heri cmico ao entrar na gua lamacenta do lago. A sutileza de seu sorriso e
     a maneira como ele olhara para ela.
           -- Voc j pegou um trem para oeste saindo daqui de Nova York?
           Diana olhou para cima e encarou Elizabeth, que ainda parecia estar com a
     cabea em outro lugar e acabara de fazer uma pergunta completamente sem
     sentido. Ela voltou a se concentrar na sala de papel de parede azul-marinho e
     tapete opulento, espantando-se com a estranha indagao de sua irm.
           -- No, a no ser que voc conte Newport. Mas isso fica para o norte, acho
     - respondeu Penelope.
           Diana observou-a pelo espelho enquanto ela se abaixava para examinar as
     camadas da saia de Elizabeth. Esta ltima levantou o queixo, sendo imitada pelos
     sete reflexos que a rodeavam.
           -- Quantos trens voc acha que saem por dia daqui para Califrnia?
           -- Por que voc quer saber isso, pelo amor de Deus? - quis saber Penelope,
     sem olhar para cima.
           Os olhos de Elizabeth se voltaram para os metros e mais metros de cetim
     rosa claro  sua volta.
           -- S estava pensando em como o mundo  grande hoje em dia.Voc no
     pensa nisso s vezes?
           -- No - foi a resposta imediata de Penelope, que ficou de p, os braos e
     encostou-se num dos espelhos para encarar Elizabeth. - Alm de Nova York e
     Newport, ningum precisa de mais nada. Alis, o ltimo vero que passei em


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     Newport foi to divertido! Foi o melhor vero da minha vida. Henry estava l -
     disse Penelope, cheia de segundas intenes.
           -- No estava, no - afirmou Diana. - Pelo menos, no o vero todo. Ele
     passou parte da temporada em Saratoga ... lembro-me de ouvir as outras meninas
     falando nele.
           As duas olharam perplexas para Diana, que continuou, falando mais baixo:
           -- No foi, tia Edith? No se lembra de todo mundo comentando que o
     filho de William Schoonmaker estava na cidade?
           Tia Edith, que estava com a cabea recostada e os olhos fechados, soltou
     um ronco e acordou por um segundo.
           -- O qu? Ningum mais usa ancas ... - disse ela, voltando a dormitar. - Na
     minha juventude era uma mania, mas agora no  mais...
           Todas as mulheres da sala riram baixinho e ento o sr. Carroll as fez voltar
     a prestar ateno na prova do vestido.
           -- Muito bem, minha linda, j acabei - disse ele com sua voz musical.
           Elizabeth deu-lhe o sorriso radiante de sempre e permitiu que ele a ajudasse
     a descer do bloco de madeira. As irms Holland adoravam o sr. Carroll e sempre
     o visitavam em sua loja prpria, alm de v-lo na Lord & Taylor, onde ele
     tambm mantinha um ateli, para que suas principais clientes pudessem escolher
     os melhores tecidos antes de todas as outras.
           -- Penelope, querida,  sua vez.
           Elizabeth deu o brao a Penelope e as duas foram na direo do provador,
     onde a primeira poderia tirar seu vestido novo e a segunda colocar a roupa que
     mandara fazer. Diana ficou chateada de v-Ias partir, mesmo que apenas por
     alguns minutos, pois sabia que iam falar de Henry longe dela, e qualquer
     conversa sobre Henry - no importava o quo banal fosse - fazia seu corao se
     acelerar.
           -- Com licena, senhorita - disse uma vendedora que usava uma saia
     branca e uma blusa negra simples e estava carregando uma caixa comprida e
     estreita. - Tenho aqui um pacote da parte do sr. Henry Schoonmaker...
           -- Oh! - disse Elizaberh, adiantando-se e corando levemente.
           --... para a srta. Diana Holland - completou a vendedora.
           -- Oh! -- exclamou Penelope, olhando rapidamente para Diana.
           A vendedora aproximou-se de Diana, entregou-lhe a caixa e ficou
     esperando.
           -- Por que Henry mandaria um presente para voc? - perguntou Penelope
     bruscamente, abrindo seus belos lbios com espanto.
           Diana olhou para a caixa branca. Ela mal podia acreditar que estava
     segurando algo que tinha sido enviado por Henry, principalmente porque estava
     na frente de outras pessoas. Ficou com medo do contedo, como se seus
     pensamentos secretos sobre Henry estivessem ali dentro, prontos para serem
     revelados quando ela retirasse a tampa. Mas Diana lembrou que no se
     amedrontava facilmente.
           -- Abra - disse Elizabeth.
           Ela se empertigara da mesma forma que a sra. Holland fazia e estava
     observando Diana com irritao.



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           Diana soltou o ar que prendera e levantou a tampa. L dentro havia uma fita
     de seda azul-clara bordada com pequenos navios azuis-marinhos e amarelos. Era
     uma fita bonita, mas bastante ordinria. Diana tentou no demonstrar decepo
     ao mostr-la para Elizabeth e Penelope.
           -- Ah, uma fita - disse Elizabeth com indiferena. - Para substituir a que
     voc perdeu.
           -- Um presente de menininha para nossa pequena Di - disse Penelope,
     sorrindo com complacncia. - Que adorvel. Est vendo, Elizabeth? Henry est
     sendo romntico com voc, mas est fazendo isso mandando bugigangas para sua
     irm mais nova.
           Diana pensou em vrias boas respostas para dar a Penelope, mas ela e
     Elizabeth j haviam se virado e estavam indo na direo do provador. A menina
     que entregara a caixa estava voltando para o trabalho, desapontada com a cena
     que testemunhara na sala privada das Holland.
           Diana examinou a fita e no conseguiu deixar de se sentir um pouco tola.
     Penelope estava certa - isso era o pior. Era o tipo de presente que se d a uma
     criana para faz-Ia se calar. Talvez fosse isso que Henry estava tentando fazer.
     Diana puxou a fita com raiva e um pequeno pedao de papel muito bem dobrado
     caiu no cho.
           Diana olhou em volta para ver o que as outras pessoas estavam fazendo. Tia
     Edith roncava baixinho e o sr. Carroll se movia de um lado para o outro, falando
     sozinho sem prestar ateno nela. Diana esticou o brao e apanhou o papel do
     cho.

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          Ela quase desmaiou ao ler isso e um calafrio percorreu seu corpo todo. Era
     quase to bom quanto um beijo roubado.




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                            i|x x gܣ
                     A criada pessoal de uma dama da sociedade em geral ganha em um
                     ms o que uma vendedora de loja ganha em uma semana. Alm disso,
                     espera-se que ela receba com imensa alegria os vestidos velhos e
                     objetos de segunda mo que sua patroa no quer mais.  um absurdo
                     que, s vsperas do sculo XX, esses contrastes, ainda existam.

     EDlTORlAL NO NEW YORK IMPERIAL, SEXTA-FEIRA, 29 DE SETEMBRO DE 1899




          _               ina Broud ficou parada no vestbulo da manso dos Holland,
                          esperando algo acontecer. Talvez Will surgisse por detrs dela
                          e sussurrasse em seu ouvido que ficara encantado com o
     curativo que ela fizera. Mas se Lina parasse de sonhar por um momento, ela seria
     obrigada a admitir que Will no vinha prestando muita ateno a ela nos ltimos
     dias. Desde a tarde de domingo, quando ela colocara uma bandagem na mo
     dele, ele estava completamente absorto por seus prprios pensamentos. Lina
     sabia que Will ainda gostava de Elizabeth e estava comeando a achar que
     deveria ter lhe dito o que sentia aquele dia no galpo, quando tivera a chance.
           L fora, a cidade toda estava envolvida com os preparativos da parada. 
     claro que Lina estava presa atrs da porta de carvalho de suas patroas, olhando o
     mundo atravs de um vidro. Ela gostaria de estar no meio da multido, comendo
     pipoca fresquinha ao lado de Will. Ou, melhor ainda, num daqueles barcos
     enormes nos quais os ricos viajavam pelo mundo todo. Como seria maravilhoso
     sentir o ar marinho no rosto, poder ir para qualquer lugar e fazer qualquer coisa.
           Supostamente havia soldados por toda cidade. Lina lera na revista Harper's
     Weekly que no dia seguinte trinta mil deles iam marchar por Nova York. Ela
     tentou vislumbrar parte dessa horda de homens de uniforme pelo vidro da porta,
     mas tudo o que viu foi Claire chegando apressada. Ela estava com um dos
     meninos da Lord & Taylor - a loja s contratava vendedores bonitos, para atrair
     mais compradoras - e cada um carregava uma enorme caixa.
           Lina abriu a porta e decidiu que o vendedor, embora nao fosse nada mau,
     no se comparava com Will.
           -- Quer ajuda? - perguntou ela.
           Sua irm estava corada de exausto, mas o menino da Lord & Taylor sorriu
     despreocupadamente. Ele devia ser s um pouco mais velho do que Claire e
     estava com a barba loura por fazer.
           -- No, j estamos quase - disse Claire, subindo a escada frontal e
     chegando ao prtico de ferro filigranado.




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           Os dois conseguiram entrar com as caixas retangulares e colocaram-nas em
     cima da mesa de carvalho que ficava perto da entrada. Claire suspirou e sorriu
     para o rapaz que havia lhe ajudado.
           -- Obrigada...
           O rapaz deu de ombros com indiferena e avaliou a empregada ruiva, cheio
     de autoconfiana. Seus olhos eram castanho-claros e ele tinha um ar
     impertinente. Ficou claro que pensava que sua profisso o colocava numa classe
     superior  das irms Broud. Lina viu que Claire estava ruborizada e sentiu
     vergonha por ela. Era bvio que o vendedor no estava ali por estar interessadso
     em uma das duas. Quando o constrangimento estava se tornando quase
     insuportvel, ele disse:
           -- O pagamento...
           -- Oh! - exclamou Claire, ficando com uma cor berinjela horrorosa e
     olhando para Lina em desespero. - Bem, ns no... mas creio que...
           Ele assentiu, colocou a mo no bolso e tirou uma fatura.
           -- D isso para a sra. Holland, ento. E o sr. Carroll me pediu para lembr-
     la de que j existem diversas contas a pagar na loja.
           -- Entendo - disse Claire baixinho, pegando o papel. - Vou dizer a ela.
           -- Por favor, diga - replicou o rapaz com certa ironia.
           Ele tocou a aba do chapu, desceu as escadas e pegou a Broadway. Logo
     antes de entrar, Lina o viu se virar e lhe dar um enorme sorriso.
           -- Ele  to bonito! - disse Claire animadamente.
           Elas levantaram as enormes caixas e as carregaram pela escada dos fundos.
     Lina tentou fazer um gesto afirmativo, mas teve pena da irm por ela se sentir
     atrada por rapazes como aquele. Eles eram contratados devido a sua habilidade
     de flertar com as meninas ricas que estavam fazendo compras e no com suas
     criadas. Mas Claire vivia num mundo de fantasia e Lina achava melhor no
     perturb-la.
           -- Mal posso esperar para ver os vestidos - disse Claire quando elas
     entraram no quarto de Elizabeth.
           Elas colocaram as caixas na cama e Claire retirou a tampa de uma delas,
     abrindo o papel-seda e tirando de dentro o vestido rosa-claro. A luz do vestido
     pareceu refletir no rosto dela, iluminando-o.
           -- No  lindo? - sussurrou Claire, pouco se importando se Lina estava
     ouvindo-a.
           --  - admitiu a outra.
           O vestido era lindo e, embora Lina ficasse furiosa em se interessar por
     essas coisas, ela no conseguiu deixar de se imaginar usando-o, s por um
     segundo.
           -- Ela vai us-lo hoje, quando sair com o sr. Schoonmaker pela primeira
     vez. Vai ficar perfeito nela, voc no acha?
           Lina fez um muxoxo. Pensar na aparncia perfeita de Elizabeth no lhe
     dava prazer algum. Na verdade, lhe causava uma dor intensa pensar que ela
     jamais teria joias e vestidos de seda e que todos os truques que Elizabeth usava
     para chamar a ateno de Will estavam fora de seu alcance.




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            -- Voc viu a aliana da srta. Elizabeth, Lina? - perguntou Claire, esticando
     o vestido sobre a cama e examinando as pequenas prolas. Que coisa mais
     incrvel.
            -- Vi.  enorme...
            Lina desviou o olhar do vestido e se perguntou o que Will iria pensar se a
     visse com ele. Ela sempre achara que seda rosa lhe cairia muito bem, mas jamais
     tivera a chance de descobrir.
            -- O jornal disse que custou mil dlares. Pode imaginar. Mil dlares.
            Lina balanou a cabea com desgosto.
            -- No, no posso.  imoral, isso sim. Pense s em quanto tempo amos
     levar para ganhar esse dinheiro todo.
            -- Bom, cada uma ganha doze dlares por ms, entao...
            Claire comeou a calcular, olhando para o teto. Finalmente ela perdeu a
     conta e deu de ombros.
            -- No sei. Mas ia ser muito tempo, com certeza.
            -- Iramos demorar uma dcada, sua pateta. Pense no que a gente poderia
     fazer com esse dinheiro, aonde poderamos ir. Para qualquer lugar. Iramos ser
     donas dos nossos narizes e poderamos largar esses empregos idiotas.
            Lina estava falando no plural, mas na verdade estava pensando em Will e
     no em Claire como acompanhante. Ela sorriu com a possibilidade.
            -- Se pegssemos aquele anel e vendssemos... - continuou ela.
            -- No fale assim! - ordenou Claire, amedrontada. -  errado fofocar desse
     jeito.
            Lina no pde deixar de rir.
            -- Mas voc ama fofocar!
            -- No sobre os Holland - disse Claire, encerrando o assunto.
            Ela passou a mo sobre o vestido para alis-lo, pendurou-o no biombo preto
     e dourado atrs do qual Elizabeth se vestia e ficou olhando-o com carinho. Lina
     esperou alguns segundos e disse:
            -- Foi estranho o que aconteceu l embaixo, no foi?
            -- O qu? - perguntou Claire inocentemente.
            -- Aquela histria de haver contas a pagar na loja.
            Claire olhou para a porta do quarto, nervosa, e ento de volta para a irm.
            -- Posso lhe contar uma coisa?
            -- Claro - disse Lina, baixinho.
            -- Acho que elas esto tendo problemas... financeiros.
            -- Quem? - perguntou Lina, dando um passo e aproximando-se de Claire.
            -- As Holland!  que eu vi aquele homem, o sr. Broussard... aquele que
     vendeu alguns dos quadros do sr. Holland quando ele morreu? Ele esteve aqui, eu
     o vi diversas vezes e ele levou ... algumas coisas. E no foram s as coisas que
     esto fora de moda disse Claire, mordendo o lbio.
            -- Mas as Holland no podem estar...
            Lina parou de falar e considerou a possibilidade de a famlia Holland, que
     possua tantos objetos lindos, seguia tantas regras rdiculas e agia da maneira
     mais esnobe do mundo, estar sem dinheiro. Embora nos ltimos dias ela viesse
     pensando coisas horrveis de Elizabeth, a ideia de que ela podia no ser mais rica
     lhe chocava. Virava seu mundo de cabea para baixo. Aquilo significava que a


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     maneira como Lina empregava seu tempo e a forma subserviente como sua irm
     se comportava eram absurdas.
           -- E acho que ouvi algo outro dia - continuou Claire. - Foi quando o sr.
     Cutting estava aqui. A srta. Diana disse...
           As duas tomaram um susto quando a porta se abriu e Elizabeth surgiu no
     quarto.
           -- Oh! - exclamou ela, claramente surpresa ao ver suas duas empregadas ali
     dentro.
           -- Srta. Elizabeth! - disse Claire, afastando-se de Lina e tentando dar um
     enorme sorriso. - Acabei de trazer os vestidos da loja e ns estvamos s vendo
     se estava tudo certo.
           -- Obrigada - disse Elizabeth.
           Ela olhou para uma e depois para a outra, desconfiada. Talvez esteja se
     perguntando por que ns duas estamos aqui s para isso, pensou Lina, enquanto
     se movia diante do olhar de suspeita de Elizabeth. Durante alguns segundos, ela
     sentiu uma certa pena da jovem dama. Era provvel que ela estivesse pobre e
     seria muito difcil para ela se acostumar com uma vida sem vestidos novos.
     Ento, Lina se lembrou de tudo que Elizabeth lhe roubara e empertigou-se
     sutilmente.
           -- O vestido da senhorita  deslumbrante - disse Claire, com uma voz
     aguda e tola que fez sua irm mais nova estremecer. - A senhorita ficar
     realmente maravilhosa com ele.
           Aquilo pareceu satisfazer Elizabeth.
           -- Obrigada, Claire.  muito gentil de sua parte.
           Ela ento olhou para Lina e as duas se encararam por diversos segundos.
     Lina tentou sorrir, mas Elizabeth continuou sria. Antigamente Lina a admirara,
     mas essa poca agora parecia muito distante. Parecia que, a cada dia, ela
     descobria um segredo novo sobre sua ex-amiga. A imagem de perfeio que ela
     tentava manter com tanto afinco estava toda rachada.
           Lina parou de sorrir, mas no saiu do lugar onde estava, no meio do quarto.
     Ela sabia o que as meninas da sociedade faziam com os segredos que
     descobriam. Elas os usavam para conseguir o que queriam. Lina tambm tinha
     ambies e sabia muito bem jogar aquele jogo. Acabara de descobrir que ficar
     lamentando as injustias da vida no levaria a lugar algum.
           Lina entraria no jogo de Elizabeth e, em breve, Will veria o quo falsa a
     menina perfeita era. Ento ele veria Lina com novos olhos: no como uma
     empregada, mas como uma dama, uma mulher que merecia seu amor.




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                                                    Tut?
                                                    [A fv{t~x


          @X                nto hoje  a grande noite?
                                 Elizabeth olhou para seu reflexo no espelho oval
                            que ficava acima de sua penteadeira e ponderou sobre a
     pergunta. Seu rosto estava branco de p de arroz, com exceo de suas
     bochechas, que haviam sido coloridas com ruge, e sua boca, que estava muito
     vermelha. Seus cabelos foram penteados em cachos elaborados e ornados com
     pequenas prolas de gua doce. Essas eram praticamente as primeiras palavras
     que Lina dissera para ela naquele dia, ou at mesmo naquela semana. Elizabeth
     fez um biquinho e pensou no que responder.
          -- Como assim? - disse ela, finalmente.
          -- Com o jovem cr. Schoonmaker,  claro - explicou Lina, com uma
     familiaridade que pareceu estranha a Elizabeth, pois fazia tempo que sua
     empregada no falava com ela daquela maneira. -  a primeira apario pblica
     de vocs dois como um casal.
          Lina deu um puxo no espartilho de Elizabeth que fez as costelas da dama
     doerem.
          -- Henry? - perguntou ela.
          Sua criada deu mais um puxo, deixando sua cintura alguns centmetros
     mais fina. Era quase uma surpresa ouvir falar em Henry, pois h dias ela s
     conseguia pensar em Will e no fato de que ele ia partir. Para Elizabeth, aquela
     no era a noite em que ela ia sair com Henry pela primeira vez. Era a noite em
     que Will ia embora.
          -- Que horas so, Lina? - perguntou ela, pensando mais uma vez nos trens
     que saam de Nova York e se perguntando se Willestava dentro de um deles.



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           -- Oito da noite, srta. Holland - respondeu Lina, baixinho.
           Elizabeth sentiu um frio no estmago. Will lhe dissera claramente o que ia
     fazer e agora ele se fora. No havia dvidas. Eram oito horas e certamente o
     ltimo trem j havia partido.
           Lina deu outro puxo e Elizabeth tentou respirar.
           -- O sr. Schoonmaker vai levar a senhorita at a festa? - indagou Lina
     amarrando os cordes do espartilho.
           -- Vamos nos encontrar no hotel, pois Henry ficou preso no Elysian -
     respondeu Elizabeth automaticamente.
           O bilhete, escrito com bvia negligncia, fora entregue h cerca de uma
     hora por um criado que tivera de remar at a terra firme num bote, atravessando o
     caos que era o rio East no momento. Elizabeth vira a expresso de sua me ao l-
     lo e soubera que devia estar chateada, mas na verdade no sentira nada.
           -- Esse  o nome do barco dos Schoonmaker - acrescentou ela. - Ele
     participou da parada aqutica pelo almirante Dewey.
           -- Ah.
           Lina deu um ltimo puxo, causando uma dor aguda no torso de Elizabeth.
     Ela se levantou e ficou parada diante do espelho, esperando que a criada lhe
     vestisse. Um clamor ressoou na rua. A celebrao podia ser ouvida mesmo
     naquela parte tranquila da cidade. Havia os sons dos fogos de artifcio e de gritos
     vindos da Broadway, o barulho dos cascos dos cavalos e os passos de soldados
     marchando em grandes grupos. Para Elizabeth todos os rudos pareciam com o de
     um trem saindo de uma estao.
           -- So s os soldados - disse Lina, voltando com o vestido.
           Ela estava sendo gentil demais e um pouco bisbilhoteira, o que irritou
     Elizabeth.
           -- Quando voc ficou to tagarela? - murmurou ela.
           -- Perdo, eu s...
           -- Desculpe-me, Lina - disse Elizabeth rapidamente.
           Ela tentou dar um pequeno sorriso para sua criada e lembrou que Lina
     tambm j fora prxima de Will. Ela ainda devia sentir uma certa afeio por ele.
     Lina fora fascinada por Will quando eles eram amigos, um trio inseparvel, antes
     de tudo ficar to complicado, antes que ela se desse conta do quanto o amava.
     Subitamente, ocorreu-lhe que talvez Lina j soubesse da partida de Will; talvez
     ela tambm estivesse triste com a ausncia dele.
           -- Fui cruel com voc, mas sem querer. Acho que estou um pouco nervosa
     por sair com Henry.
           Lina fez uma pequena mesura e ento ficou em silncio e emburrada como
     sempre. Ela ajudou Elizabeth a colocar o vestido, que ficou perfeito, com o
     decote ornado de prolas acentuando sua pequena cintura. Elizabeth pensou que,
     se houvesse tido mais coragem e feito o que Will lhe pedira, jamais teria usado
     vestidos como aquele de novo. Por um minuto ela sentiu dio da seda, das
     prolas, do ouro e at dela mesma, por permitir que lhe comprassem por to
     pouco.  claro que os motivos para aceitar o pedido de Henry tinham sido
     muitos, mas naquele momento pareceu-lhe que ela havia sido vendida pelo preo
     de um vestido de luxo. Elizabeth quis cair em prantos, mas no podia faz-lo na
     frente de Lina, que estava calando seus sapatos de salto alto.


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            -- J est pronta? - perguntou Diana, surgindo no umbral de mogno.
            Ela estava usando um vestido mais simples que o de Elizabeth, com mangas
     curtas, decote corao e uma enorme saia lils que se abria num leque atrs dela.
     Havia uma faixa negra em sua cintura, deixando-a com a aparncia muito mais
     arrumada do que o normal. Elizabeth sabia que aquele vestido na verdade era um
     antigo alterado, pois a famlia Holland mal tinha dinheiro para um vestido novo,
     quanto mais dois, mas Diana estava linda, o que a deixou um pouco mais alegre.
     Talvez uma delas seja feliz na vida.
            -- Quase.
            Elizabeth conseguiu ficar de p, embora seu corpo estivesse pesado devido
      tristeza que ela sentia. Verificou se seus cabelos estavam em ordem e pegou o
     brao da irm mais nova, indo com ela at o primeiro andar da manso. Elizabeth
     normalmente teria agradecido a Lina ou pelo menos olhado para ela, mas estava
     to concentrada em pensar em Will que no encontrou as palavras certas.
            Quando as irms chegaram ao vestbulo, viram a sra. Holland esperando por
     elas. Ela usava um vestido negro como sempre, e pareceu aliviada ao ver como
     suas duas filhas estavam bem. At mesmo Diana parecia ansiosa para ir  festa e
     Elizabeth se perguntou como podia estar to arrasada em fazer algo que ia trazer
     tanta tranquilidade para sua famlia. Ela conseguiu assentir para a me, tentando
     se comportar normalmente, e ento a sra. Faber surgiu para ajud-las a colocar
     suas estolas.
            Quando as trs mulheres estavam vestidas de maneira apropriada, elas
     saram vagarosamente pela enorme porta de carvalho. Elizabeth sentiu um aperto
     na garganta. Ela olhou para a rua, onde havia tanta comoo, e sentiu-se perdida.
     Ento virou-se para frente, onde estava a carruagem dos Holland e seu cocheiro.
     Teve de piscar duas vezes para se certificar.
            Ali estava Will, diante dela. Ele no parecia feliz - como poderia? - mas
     tambm no parecia triste ou ansioso. Parecia calmo e seus olhos azuis se
     fixaram em Elizabeth de maneira to casual que ela corou e achou que ia sair
     flutuando de alegria.
            Por um segundo, Elizabeth se esqueceu do que precisava fazer naquela
     noite e estacou. A sra. Holland e Diana no perceberam nada. Elas seguiram
     adiante, descendo a escada de sete degraus na direo da carruagem. Elizabeth
     finalmente deu um passo  frente, desejando poder tocar Will para ter certeza de
     que ele estava mesmo ali.
            Will estava usando uma jaqueta curta de l com a gola virada para cima,
     calas pretas, as botas de couro pudas de sempre e um chapu-coco, algo que ele
     s fazia  noite. Ele no olhou para ela ao ajud-la a entrar na carruagem, mas
     Elizabeth sentiu as mos dele em sua cintura e ficou confortada com o toque
     familiar. Logo ela estava sentada na carruagem e os cavalos estavam trotando na
     direo do Waldorf-Astoria.
            -- Finalmente, um sorriso - disse sua me.
            -- Oh - disse Elizabeth, cobrindo instintivamente o rosto com as mos. - 
     que estou aliviada. Aliviada por estarmos a caminho.
            -- Sim. Mas  mesmo uma pena que Henry v encontrar voc l e no na
     nossa casa.



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DEE
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           Elizabeth no conseguiu parar de sorrir como uma tola, sem nem ouvir
     direito o que sua me estava dizendo. Ela sentiu-se leve como o ar, sobrevoando
     a cidade e ouvindo toda aquela confuso pelas janelas da carruagem.
           -- Mas creio que no haver problema - continuou a sra. Holland. - O
     importante  que vocs entrem juntos no salo de baile.
           -- Isso mesmo - concordou Elizabeth alegremente.
           Ela teria concordado alegremente com praticamente qualquel coisa naquele
     momento. Will no a abandonara. Ele um dia iria compreender que ela estava
     fazendo aquilo por sua famlia. Eles jamais poderiam ficar juntos, mas tampouco
     ficariam separados. Elizabeth iria v-lo sempre que pudesse e talvez Will
     pudesse aprender a am-la mesmo aps ela se tornar a sra. Schoonmaker.
           Apesar de haver muitas carruagens na rua naquela noite, eles logo
     chegaram na esquina da Quinta Avenida com a rua Trinta e quatro. Elizabeth
     continuou a sorrir, esperando que Will viesse abrir a porta. L fora, todos os
     nova-iorquinos pareciam ter sado s ruas, bradando na direo do Waldorf-
     Astoria. O altssimo hotel de quinze andares parecia estar sorrindo de volta com
     suas torres e inmeras janelas. Havia carruagens paradas ao longo de todo o
     quarteiro.
           Depois de a sra. Holland e Diana terem sado, Elizabeth deixou que Will a
     ajudasse a descer. Quando seus ps tocaram o cho ela preparou-se para soltar a
     mo dele, mas ele manteve a sua firme. Elizabeth se voltou e o viu inclinar-se e
     beijar sua mo. O calor dos lbios dele se espalhou por todo seu corpo. Will
     levantou os olhos. Elizabeth fitou-os - aqueles lindos olhos azuis - e olhou para o
     nariz adoravelmente torto e ento para a boca que j beijara tantas vezes. Ela se
     deu conta de que Will estava movimentando os lbios, embora sem emitir
     nenhum som: ali, na frente do Waldorf-Astoria e do mundo inteiro, ele estava
     dizendo silenciosamente que a amava.
           -- Will! - chamou a sra. Holland.
           Elizabeth, apavorada, retirou sua mo, mas logo percebeu que sua me
     estava apenas dando as instrues de sempre ao cocheiro: Will deveria levar os
     cavalos para casa agora, pois os Schoonmaker as levariam de volta. O gesto
     perigoso dele passara despercebido. Ela tomou coragem e deu-lhe um sorriso
     tmido, para explicar, de seu jeito sutil, o quanto estava feliz por ele no ter
     partido. Ento entrou no hotel com sua famlia.
           -- O tempo no est perfeito?
           Elizabeth se virou e viu que quem falara fora uma mulher corpulenta que
     usava um vestido de brocado dourado. Ela no a reconheceu e imaginou que
     devia ser um dos novos-ricos do oeste que faziam fortuna na minerao e
     chegavam a Nova York aos milhares todos os dias.
           -- Est sob medida para o almirante - completou a mulher com um sorriso
     radiante.
           -- A noite est muito bonita.
           S depois de falar isso Elizabeth percebeu que a temperatura estava mesmo
     agradvel: nem muito quente, nem muito fria. Pela primeira vez desde que a
     semana comeara, ela achou que fosse ficar tudo bem.
           -- Boa noite! - disse ela para a mulher, enquanto Diana pegava-lhe pela
     mo e a levava para o suntuoso lobby do Waldorf-Astoria.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DEF
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           Elas atravessaram rapidamente um longo corredor, que tinha paredes de
     mrmore amarelado cobertas de espelhos e um cho de mosaicos. Havia sofs de
     veludo dos dois lados, onde pessoas riam, conversavam e observavam quem
     passava. O lugar estava cheio de movimento e Elizabeth entendeu por que os
     jornais chamavam aquele corredor de Viela dos Paves.
           -- Ele no est aqui! - anunciou a sra. Holland, furiosa.
           -- Quem? - perguntou Elizabeth.
           Ela percebeu que sua me estava zangada, mas mesmo assim no conseguiu
     parar de sorrir. Ainda estava mergulhada na felicidade que Will lhe
     proporcionara.
           -- Henry,  claro! Esto dizendo que ele ainda est no barco.
           A sra. Holland cruzou os braos. Elizabeth viu que ela estava tendo de se
     controlar muito para no ter um acesso de fria, to grande era sua frustrao por
     no poder exibir publicamente o noivado da filha. Penelope surgiu por detrs
     dela, linda em seu vestido vermelho-alaranjado com decote cavado e continhas
     furta-cor. O vestido era de cauda plissada e bem justo no quadril, e a pele dela
     brilhava de uma maneira muito peculiar.
           --  mesmo, alguns dos convidados que estavam no Elysian j chegaram,
     mas parece que Henry ainda no pde deixar o barco - relatou Penelope.
           -- Que pena - disse Elizabeth com alegria. - Ele deve chegar em breve. Isso
     no  motivo para no aproveitar a festa.
           Ela pegou a mo de Penelope e deu-lhe um beijo em cada lado do rosto. Era
     bom ter Penelope de volta: ela jamais se deixaria abater enquanto houvesse uma
     festa  vista.
           A sra. Holland se virou, ainda visivelmente contrariada, e seguiu na direo
     do enorme salo de baile do Waldorf-Astoria. Elizabeth olhou para os rostos
     sorridentes de sua amiga e de sua irm e deu de ombros.
           -- Algum deveria explicar a mame que no  ela quem vai se casar com
     Henry Schoonmaker - disse.
           Penelope e Diana riram. As trs meninas deram os braos e entraram
     naquela festa maravilhosa, em melhor harmonia do que nunca.




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                        i|x x V|v
                     H tantas festas ocorrendo na cidade e tantos eventos sendo
                     planejados que ser impossvel para o homem que ocasionou tudo isso
                     comparecer a todos. Refiro-me ao heri que acabou com os espanhis
                     no Pacfico: o almirante George Dewey.

     TRECHO RETIRADO DA PRIMEIRA PGINA DO JORNAL NEW YORK IMPERIAL,
     SEXTA-FEIRA, 29 DE SETEMBRO DE 1899




          Y               icar sentada no salo de baile do hotel Waldorf-Astoria era
                          para Diana o mesmo que ser enterrada no mais ornamentado
                          mausolu jamais construdo. As paredes, o teto e at mesmo
     o cho pareciam emitir um brilho amarelado, pois os incontveis espelhos
     refletiam qualquer objeto cintilante. No teto, que ficava a mais de dez metros de
     altura, havia diversos candelabros que iluminavam os convidados com uma luz
     clida. Ali estavam as mesmas pessoas de sempre: os herdeiros das velhas
     famlias de Nova York misturando-se aos novos milionrios, todos de fraque
     negro e vestidos de tule e cetim - alm dos homens da marinha, com suas
     dragonas e espadas. A cada dia que se passava, Diana estava vendo mais do
     mundo.
           -- Voc viu a Agnes? - perguntou Penlope a Elizabeth.
           As trs meninas estavam sentadas num dos sofs que havia ao longo das
     paredes, abanando-se com leques de renda e descansando entre uma dana e
     outra. As saias de seus vestidos - lils, rosa e alaranjada - se espalhavam pelo
     cho. Cada vez que a porta do salo se abria, elas olhavam para ver se era Henry
     quem estava entrando. Nunca era, mas nenhuma parecia se incomodar muito com
     isso. Diana no conseguira pensar em nada alm dele desde que recebera seu
     bilhete na tarde passada, mas se ele chegasse, teria de v-lo danando com sua
     irm a noite toda.
           -- Agnes realmente precisa muito de um vestido novo - disse Elizabeth,
     baixinho, fazendo Diana despertar de seus pensamentos.
           -- E danando com um soldado! Acho que ela daria uma boa esposa de
     soldado.
           -- Psiu! No vamos ser ms - sussurrou Elizabeth.
           Diana percebeu que ela estava constrangida pelo comentrio de Penlope,
     mas que tambm o achara divertido. s vezes, parecia-lhe que sua irm tinha
     duas personalidades, uma boazinha e outra maliciosa, sempre brigando para ver
     quem ganhava o controle.
           -- Eu me casaria com um soldado - disse Diana. - Assim, poderia ir para
     qualquer lugar do mundo.



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           Ao proferir essas palavras, ela imediatamente imaginou Henry de uniforme,
     muito ereto, bonito e arrumado.
           -- Mas, Di, voc j pode ir a qualquer lugar do mundo - disse Penlope.
           Diana se lembrou do comentrio que ela fizera outro dia, sobre no precisar
     de mais nenhum lugar alm de Nova York e Newport, e decidiu que a ideia que
     Penlope tinha do mundo era muito diferente da sua. Mas ela no disse nada e
     recostou-se nas fofas almofadas de veludo do sof. A sua frente, casais
     deslizavam pelo cho polido, mantendo um olho em seus parceiros e outro nos
     convidados que no paravam de chegar.
           -- Voc viu seu vizinho, o Brody Fish? - continuou Penlope. - Achei que
     ele ficou mais bonito.
           -- Ficou - concordou Elizabeth. - Acho que seus ombros esto mais largos.
           -- Bem, algum dia, quando voc for uma matrona e estiver entediada com a
     vida, talvez possa ter um casinho com ele.
           Elizabeth colocou as mos enluvadas sobre as bochechas, que haviam
     ficado vermelhas. Diana no teria esperado outra reao de sua irm, que era to
     pudica e se chocava com to pouco, mas mesmo assim sentiu pena ao v-la
     corando daquela maneira. esticou o brao e apertou de leve a mo de Elizabeth.
           -- Liz, ns todos sabemos como voc se comporta bem, e no pensamos
     mal de voc s porque acha que Brody Parker Fish tem belos ombros.
           Diana olhou para todos os homens, velhos e jovens, com seus fraques feitos
     sob medida, e concluiu que nenhum tinha graa perto do rapaz que dominava
     seus pensamentos.
           -- Eu tambm acho que ele tem belos ombros - afirmou ela.
           -- Mas  que eu nunca... - comeou Elizabeth, que ento decidiu mudar de
     assunto. - Sobre o que voc acha que nossas mes esto falando?
           As trs se viraram e viram as expresses insatisfeitas da sra. Holland e da
     sra. Hayes. Elas estavam do outro lado do salo, num outro sof de veludo
     dourado, e de vez em quando sussurravam algo uma para a outra. Diana se
     lembrava de uma poca em que sua me se recusava a visitar a sra. Hayes,
     embora seu pai no se incomodasse com a companhia do pai de Penlope. Mas,
     aparentemente, esses dias haviam ficado para trs. Nem mesmo a sra. Holland
     pode ser esnobe, pensou Diana alegremente enquanto um grupo de danarinos
     valsava diante delas.
           -- Srta. Elizabeth, srta. Diana, srta. Penlope...
           Diana olhou para cima e viu Teddy Cutting fazendo uma pequena mesura.
     Seus cabelos louros haviam sido engomados e penteados para o lado e seu nariz
     estava um pouco queimado de sol.
           -- Teddy! - disse Elizabeth com carinho.
           -- Ol, sr. Cutting - disse Penlope com um sorriso indiferente.
           Teddy beijou a mo de todas. Diana mal olhou para ele, observando sua
     me, que se despedira da sra. Hayes e afastava-se com o queixo levantado. Diana
     estava tentando ver para onde ela ia quando ouviu Teddy dizer:
           -- Gostaria de danar com todas vocs,  claro. Mas hoje, se me
     permitirem, vou comear com a mais nova. Diana, voc me daria a honra?
           Diana tomou um susto. Embora Teddy fosse amigo de sua irm e, por isso,
     sempre estivesse por perto, ele geralmente parecera absorto demais por Elizabeth


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     para perceber sua existncia. Parecia-lhe estranho que ele estivesse sorrindo e
     estendendo-lhe a mo. Ela pegou a mo de Teddy e se levantou, percebendo que
     sua me estava conversando com um homem enorme que lhe parecia familiar.
           -- Henry ainda no apareceu? - perguntou Teddy.
           Diana tentou no sorrir ao ouvir aquele nome, mas ento notou que Teddy
     estava olhando para Elizabeth e Penlope, e no para ela. Subitamente, ela se
     perguntou se ele a convidara para danar por algum motivo especfico. Talvez
     Henry houvesse mencionado-a. Todo mundo sabia que os dois eram amigos de
     infncia e, se ele fosse falar dela para algum, era provvel que fosse para o
     homem que estava danando com ela agora.
           -- No - respondeu ela.
           Teddy mal estava encostando em Diana e ela no conseguiu deixar de
     pensar que talvez, para ele, ela fosse a namorada de Henry.  possvel que Teddy
     at gostasse disso, pois assim ele ainda podia ter uma chance com Elizabeth, por
     quem sempre se interessara.
           Diana tentou se concentrar nos passos que tinha de dar. No era uma
     danarina to experiente quanto sua irm, mas parecia estar seguindo bem a
     coreografia. Ela viu sua me de um ngulo melhor e se deu conta, de que o
     homem com quem estava conversando era William Schoonmaker. Ele estava
     bem prximo dela, falando algo de forma confidencial, mas seu rosto estava
     avermelhado e ele parecia estar furioso. Diana se perguntou como deveria ser
     para Henry ter um pai como aquele, e ento Teddy falou de novo:
           -- Mas Elizabeth parece bem.
           -- Oh.
           Diana tentou no olhar com pena para Teddy, embora fosse um pouco
     pattica a maneira como ele ainda continuava enamorado de sua irm. Eles
     giraram e Diana viu que Elizabeth estava rindo. Ela e Penlope estavam de mos
     dadas, cobrindo suas bocas com os leques de renda.
           --  mesmo. Ela parece perfeitamente satisfeita com a ausncia de Henry.
           Diana quis fazer uma piada ao dizer isso e Teddy riu. Mas, ao pronunciar
     essas palavras, ela percebeu que eram mesmo verdadeiras. Como era curioso que
     a menina perfeita que fisgara o noivo perfeito estivesse aliviada de no estar com
     ele.
           -- Ns estvamos juntos no barco esta tarde. Eu devia ter obrigado Henry a
     vir comigo. Quando vim embora, ele estava l com aquele tal de Isaac Buck, que
     agora vai ser um dos padrinhos - disse Teddy, balanando a cabea como se no
     acreditasse naquilo. - Isaac me garantiu que ia trazer Henry para terra firme a
     tempo para o baile. Mas, agora, estou vendo que no cumpriu a promessa.
           Diana olhou para seu parceiro, cujas belas feies ficavam ainda mais
     bonitas  luz dourada, e perguntou-se por que ele estava to preocupado com o
     amigo. Henry certamente sabia se cuidar. Eles j haviam rodopiado por todo o
     salo e ela viu mais uma vez o pai de Henry por sobre os ombros negros dos
     homens e os penteados elaborados das mulheres.
           -- Bem, estou vendo algum que no est to feliz com o atraso dele - disse
     Diana, apontando o queixo para sua me e o sr. Schoonmaker.




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           Ele ainda estava falando no ouvido dela e gesticulando e parecia estar
     demonstrando um plano de ao com os movimentos de seus enormes punhos.
     Teddy olhou para os dois e balanou a cabea tristemente.
           -- No quero falar mal de Isaac, mas ele parecia estar se esforando muito
     para deixar todos ns alegres demais - disse Teddy, olhando mais uma vez para
     Elizabeth. - E quando digo todos ns, refiro-me mais especificamente a Henry.
           Diana sorriu sem querer ao ouvir aquele nome. Teddy estava falando muito
     nele, o que parecia demonstrar que sabia do flerte dos dois. A msica parou de
     repente. Ela e Teddy estacaram e se viraram para a porta do salo, assim como o
     resto dos convidados.
           -- Bravo! - comearam a gritar todos.
           Diana ficou na ponta dos ps e tentou vislumbrar o homem que acabara de
     entrar. Ele tinha estatura mdia e um bigode grisalho e usava um belo uniforme
     azul-marinho com borlas e enormes botes dourados. Havia uma longa espada
     presa em sua cintura. Ele levantou a mo e sorriu ao ouvir os gritos de
     "Almirante!" e "Viva!".
           -- Ento esse  o heri do Pacfico? - perguntou Teddy, batendo palmas
     junto com os outros.
           Diversos convidados haviam pegado pequenas bandeiras americanas e
     estavam balanando-as no ar. Diana comeou a bater palmas tambm. Todos no
     salo haviam se levantado para saudar a entrada do almirante. William
     Schoonmaker despediu-se da sra. Holland e foi postar-se  direita dele. Ainda
     estava rubro, mas comeou a sorrir e a acenar para a multido como se fosse
     igualmente um heri.
           Diana sorriu tambm, no por estar na presena de um grande militar, mas
     por ver que o homem que entrara no salo no era Henry. Ele podia ter
     comparecido ao baile e danado a noite toda com Elizabeth, mas Diana tinha
     certeza de que, onde quer que estivesse, estava pensando nela.




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                     dx|wt c?
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          c                enelope j fizera aquilo dezenas de vezes. Ela enrolou-se
                           em sua capa de l negra, deixou que o capuz lhe casse
                           sobre os olhos, deu a volta na manso dos Schoonmaker e
     entrou por uma das portas usadas pelos criados. Atravessando os fundos da casa,
     que j conhecia bem, ela foi caminhando silenciosamente, levantando o vestido
     para que ele no se arrastasse no cho, at o cmodo onde sabia que ia encontrar
     Henry. J era quase uma da manh e Penlope passara a noite inteira danando e
     ouvindo os outros falarem dela. Mas no estava nem um pouco cansada. Estava
     determinada.
           Penlope sentiu-se viva por estar cometendo um ato to proibido. Viva,
     linda e furiosa. Elizabeth se comportara como sempre durante o baile, sorrindo
     serenamente apesar da humilhao. Henry no aparecera,  claro. Ele no
     conseguira se mover depois de beber todo o vinho que Isaac derramara em seu
     copo ao longo do dia. Tudo havia acontecido exatamente como Penlope
     planejara: Henry passara o dia bbado no barco. Ele ficara alegre e arruaceiro, e
     esquecera-se completamente de suas irritantes obrigaes para com sua noiva. A
     nica coisa que dera errado foi Elizabeth ter sido graciosa e adorvel, mesmo na
     derrota.
           Penlope adoraria arrancar os fios de cabelo louros de Elizabeth de sua bela
     cabea. Ela teria gostado de rasgar aquele vestido rosa to caro. Mas no queria
     uma satisfao rpida; queria vencer. E no podia vencer atacando a
     namoradinha da Velha Nova York. Por isso, ela se movimentou sem fazer rudo
     pelo corredor do terceiro andar, olhou para trs uma vez para certificar-se de que
     no fora vista e entrou no escritrio que ficava ao lado do quarto de Henry.
           -- Henry - sussurrou Penlope, fechando a porta de carvalho trabalhada
     atrs de si.



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DEL
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           Henry estava deitado no sof de couro marrom escuro que havia no centro
     do cmodo. Seus olhos estavam fechados e ele tinha um cigarro entre os lbios.
           -- Henry! - repetiu ela, um pouco mais alto dessa vez. Devagar, ele esticou
     o brao, tirou o cigarro da boca e virou-se na direo de Penlope.
           -- Ah - disse Henry, erguendo um pouco as sobrancelhas.
           Ele estava to bronzeado e bbado quanto um marinheiro de verdade, mas
     continuava lindo.
           -- Voc est parecendo algum da classe trabalhadora.
           Henry se observou. Sua camisa branca estava desabotoada nos punhos e
     suas calas azul-claras estavam amassadas por causa do dia passado no rio, mas
     ele ignorou o comentrio e perguntou, com ar de indiferena:
           -- Como foi a festa?
           -- Est falando da festa na qual no apareceu?
           Penlope tirou o capuz da cabea, mas o sorriso que deu foi to sutil que
     talvez Henry no tenha notado.
           -- , essa mesma - respondeu ele, colocando o cigarro de volta nos lbios.
           Penlope tirou uma de suas Longas luvas brancas e balanou-a de um lado
     para o outro.
           -- Diga-me, no era nessa festa que voc devia fazer uma apario pblica
     com Elizabeth?
           Henry exalou uma nuvem de fumaa.
           -- No vamos discutir isso, Penlope.
           -- Mas voc no acha que  significativo, Henry? Ter se esquecido de
     comparecer na noite em que ia mostrar sua noiva a todos? A me dela ficou
     furiosa.
           -- Ficou? - perguntou ele, baixinho.
           -- Sabe, teve uma poca - disse Penlope, atravessando o escritrio e indo
     se sentar no sof de couro, ao lado dos ps de Henry - em que voc teria achado
     isso engraado.
           Henry no respondeu. Apenas deu um trago no cigarro e olhou para o nada.
     Penlope pegou a cigarreira dele, que estava sobre sua barriga, e acendeu um
     cigarro para si. Ento, ela deu algumas tragadas pensativas, levantando os joelhos
     e deixando que sua saia se espalhasse pelo sof. Sua voz ficou suave, agora que
     ela estava perto dele.
           -- Por que voc no me contou, Henry? Por que teve de ser uma surpresa
     to cruel?
           -- Bem, Penny...
           Henry empurrou o topo de sua cabea contra o brao do sof e olhou para a
     pintura do teto, que mostrava um alegre piquenique num estilo moderno e um
     pouco ousado.
           -- Eu tentei contar a voc - continuou ele. - Talvez soubesse disso, se no
     tivesse o hbito de queimar minhas cartas.
           Penlope se deu conta de que Henry teria sido capaz de terminar tudo com
     ela num bilhete, o que a deixou muito infeliz. Ela sentiu-se profundamente
     humilhada ao se lembrar do que eles dois tinham feito enquanto o bilhete
     queimava na lareira de sua cozinha e temeu perder por completo o controle da
     situao.


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           -- No sabia que... eu significava to pouco para voc.
           -- No  isso - respondeu Henry, dando uma ltima tragada no cigarro e
     colocando-o no cinzeiro de vidro que pusera no cho. - No quis que a coisa
     fosse feita de uma maneira to horrvel para voc. Mas vai ter de acreditar
     quando eu digo que preciso faz-la.
           Penlope ficou de p subitamente, arrastando sua cauda vermelho-
     alaranjada pelo cho. Havia algo de repetitivo naquelas palavras que a deixava
     insatisfeita. Ela caminhou na direo da estante cheia de livros nunca lidos e
     disse:
           -- Foi exatamente a mesma coisa que Elizabeth me falou.
           -- Mesmo?
           Henry apoiou-se nos cotovelos e encarou Penlope com uma expresso de
     curiosidade.
           -- Mesmo. O que est acontecendo? Voc no a ama, eu sei muito bem. Ela
      uma certinha insuportvel. Se ainda no descobriu isso, vai descobrir em breve.
           Penlope virou-se rapidamente e atravessou o cmodo. Ela sentou-se no
     cho ao lado do sof, colocando a mo sobre a de Henry e dobrando as pernas
     para trs.
           -- Henry, voc est apaixonado por mim. No v que eu sou a nica que
     conseguir acompanhar seu ritmo? Quem mais poderia...
           Os olhos escuros de Henry perderam o foco. Penlope encarou-o de boca
     aberta, perguntando-se o que mais poderia dizer. Ela acabara de explicar tudo
     para ele da maneira mais clara possvel. A lgica era bvia.
           De repente, Henry tirou sua mo de debaixo da dela e se levantou. Seus
     cabelos, que em geral eram impecavelmente penteados, estavam bagunados de
     forma cmica. Alguns fios da parte de trs da cabea estavam para cima.
     Penlope ficou tensa.
           -- Aonde voc vai?
           -- Minha querida Penny - replicou Henry.
           Por um segundo, ele pareceu ter de se concentrar em se manter de p. Aps
     se firmar, Henry comeou a colocar a camisa para dentro das calas e a pentear
     os cabelos com os dedos. Com poucos gestos ele conseguiu voltar a ser o homem
     elegante com quem Penlope adorava danar, apesar de estar usando roupas
     diurnas  noite.
           -- Sinto muito, mas voc precisar me dar licena. Tenho algo a resolver.
           -- A essa hora da noite? - perguntou Penlope, fazendo um ar petulante. -
     Depois de eu me desdobrar tanto para conseguir v-lo?
           Henry foi at a escrivaninha, onde havia um samovar ornamentado. Ele
     colocou caf numa pequena xcara de prata e tomou um gole. Ento, voltou-se
     para Penlope, deu de ombros e ficou olhando-a por um minuto. A luz em seus
     olhos estava danando.
           -- Sabe, no estou mais me sentindo nem um pouco bbado. E olhe que eu
     estava muito mal mais cedo.
           -- Eu sei - disse Penlope amargamente, lembrando que s tomara gua
     Vichy o dia todo, para ficar bem em seu vestido, e sentindo um grande vazio
     dentro de si. - Fui eu que planejei tudo.



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           --  mesmo? - perguntou Henry, tomando um ltimo gole de caf e
     colocando a xcara de novo em cima da escrivaninha. - Isso no me surpreende
     muito. Pacincia.
           -- Pacincia? Henry, eu estou aqui. Estou bem aqui.
           Penlope ergueu as sobrancelhas e tentou olhar para ele como em todas as
     outras vezes em que eles haviam se encontrado e flertado.
           -- O que mais voc quer? - perguntou ela.
           Henry foi at o sof, ao lado do qual Penlope ainda estava, e deu-lhe um
     beijo leve em cada bochecha.
           -- Voc no ia entender.
           Os enormes olhos azuis da jovem se estreitaram de raiva. Henry deu-lhe um
     sorriso.
           -- Voc sabe como achar a porta, no sabe? Lamento no poder lev-la
     pessoalmente, mas preciso me desculpar com as Holland.
           Penlope ficou ali, no cho, rodeada por montes de seda, sem conseguir
     compreender o que estava ouvindo, enquanto Henry pegava um chapu de palha
     das costas de uma cadeira. Ele saiu do escritrio com movimentos geis, sem
     olhar para trs. Ao ver aquela figura esbelta e ligeiramente amarfanhada
     atravessar a porta, Penlope sentiu-se, pela primeira vez na vida, muito sozinha.




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                          i|x x fxx
                     Uma dama deve sempre manter a compostura.
                     Mesmo no meio de uma tempestade, deve estar
                     alegre e completamente seca. Quando ela perde
                     sua compostura, perde tambm o respeito de
                     seus iguais e de seus criados.

     GUIA VAN KAMP DE ADMINISTRAO DA CASA PARA DAMAS DE ALTA SOCIEDADE,
     EDIO DE 1899




          X             lizabeth perdera sua pacincia em meio s ruas turbulentas de
                        Manhattan. Todo o tempo que levaria para lavar o rosto e tirar
                        as camadas e mais camadas daquele vestido teria deixado-a
     maluca. Assim que soube que sua me estava na cama, pegou a escada dos
     fundos, com roupa de gala e tudo.
           Henry no fora ao baile e, por isso, Elizabeth ainda estava sentindo o toque
     dos lbios de Will em sua mo, que no fora maculada pelo beijo de seu noivo de
     araque. Elas tinham voltado para casa numa carruagem dos Schoonmaker - o pai
     de Henry, todo suado e claramente irritado com a ausncia do filho na festa,
     havia insistido - mas nem isso desviara seus pensamentos. Ela olhara a paisagem
     ao longo de todo o trajeto, observando os fogos de artifcio que explodiam no cu
     e desejando que os cavalos corressem mais rpido.
           Elizabeth passara a noite toda pensando em Will. Mesmo enquanto estava
     se movendo graciosamente pelo salo com Brody Parker Fish ou Teddy Cutting,
     ela contara as horas para voltar para casa. Eles estavam apaixonados e iam dar
     um jeito. Ela sentiu-se tonta ao pensar nas inmeras possibilidades. Estava
     praticamente falando em voz alta o discurso que repetia na cabea ao cruzar a
     cozinha vazia e correr pela escada de madeira que dava no estbulo.
           -- Will? - sussurrou Elizabeth para a escurido.
           Ela tirou os sapatos e foi andando depressa, sentindo com os ps descalos
     as velhas tbuas de madeira e o feno, que lhe fazia ccegas. Ento, subiu a escada
     que dava no compartimento dele.
           -- Will? Will, voc est a?
           Elizabeth caiu de joelhos no colcho que estava no cho. O cobertor e at os
     lenis haviam desaparecido. Ela se levantou, desceu a escada, atravessou o
     estbulo correndo e foi at as baias onde os cavalos dormiam.
           -- Will? Will, voc est a? Will?
           Elizabeth se lembrava de uma outra vez em que viera ver Will e no
     conseguira encontr-lo. Fora antes da morte de seu pai, quando nada parecia
     muito importante. Ela havia percorrido todo o estbulo na ponta dos ps, rindo e
     sussurrando o nome dele, at encontr-lo encostado num dos postes que


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     separavam as baias. Seus olhos estavam semicerrados e ele estava comeando a
     ter um de seus sonhos sobre o oeste. Estava dormindo em p, como faziam os
     cavalos. Quando Elizabeth o acordara, Will lhe contara que Jumper, sua gua
     preferida, tinha ficado doente. Ele estava ali para ficar ao lado dela. Naquela
     noite, os dois tinham ficado acordados at de manh, cuidando de Jumper.
           Hoje, no entanto, no havia sinal do cocheiro dormindo entre os cavalos.
     Elizabeth correu de um lado para o outro, sussurrando o nome dele, mas s
     encontrou os olhos negros dos cavalos observando-a de forma inexpressiva por
     cima das portas das baias e o cheiro doce do feno. Ela no conseguia entender a
     ausncia dele. Passara a noite toda desejando tanto v-lo. Era inconcebvel que
     Will no estivesse ali, sentindo exatamente a mesma coisa.
           Elizabeth respirou fundo algumas vezes e subiu de novo at o
     compartimento de Will. Tinha medo de acender a lmpada a leo, por causa de
     todo o feno que havia ali e porque jamais acendera uma antes, mas seus olhos j
     estavam se acostumando  escurido. O colcho sem lenis era uma viso
     melanclica. O engradado de madeira que Will usava como estante estava vazio
     e Elizabeth soube, mesmo sem olhar, que as roupas dele no estavam mais na
     cmoda velha que fora de seu pai na infncia. Ela foi at a borda do
     compartimento e sentou-se pesadamente no mesmo local onde Will sempre lhe
     esperara.
           Seus cabelos estavam se soltando e ela puxou os fios louros at que as
     prolas que a adornavam comeassem a rolar pelo cho de madeira. A imagem
     de Will na frente do hotel estava to vvida em sua mente que parecia ter
     acontecido h poucos segundos. Ele olhara para ela intensamente, e Elizabeth
     tinha acreditado que aquela era uma confirmao de seu amor. Will beijara sua
     mo, e ela encarara aquilo como um gesto romntico. Elizabeth relembrou as
     estpidas imagens, momento a momento, e, com o corao doendo, comeou a
     compreender o que Will havia feito. Ele estava se despedindo.
           Elizabeth tirou os cabelos de cima dos olhos e sentiu que sua garganta
     estava se fechando. As lgrimas estavam surgindo e os soluos j sacudiam seu
     corpo. Ela se inclinou para frente e encharcou o vestido com seu choro, repetindo
     o nome de Will. J estava assim h algum tempo quando ouviu a voz.
           -- Est chorando por qu?
           Elizabeth ficou congelada de pavor.
           -- Como?
           Ela estava com medo demais para olhar para frente e ver quem a flagrara
     em sua vida secreta.
           -- Seu vestido parece ter estragado um pouco. As lgrimas so por isso?
           Elizabeth levantou os olhos lentamente. L estava Lina, com os braos
     cruzados na frente do peito, parada na porta onde Elizabeth sempre estacara
     quando vinha visitar Will. Ela vestia o mesmo feio vestido preto, cuja bainha
     ficava logo acima do calcanhar, e estava batendo o p esquerdo no cho.
           -- No - respondeu Elizabeth, ficando de p e acalmando-se um pouco. -
     No  por causa do vestido.
           -- Ento  por qu? Por causa do Will? - perguntou Lina, balanando a
     cabea com nojo. - Seu Will? - acrescentou ela ironicamente.
           -- O qu?


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           Elizabeth sentiu a pele em volta de seus olhos se esticando, de tanto que
     eles estavam arregalados. Lembrou-se de Lina na infncia, quando ela chorara ao
     se sentir excluda das brincadeiras inventadas por ela e por Will. A expresso de
     mgoa de seus olhos ainda era a mesma, embora agora ela parecesse um pouco
     mais assustadora. Elizabeth passou as pernas para cima do compartimento e
     desceu a escada. A saia do vestido se prendeu na madeira spera. Ela s olhou
     para cima quando ouviu o tecido se rasgando. Viu que havia uma grande
     quantidade de seda rosa no topo da escada, mas continuou descendo. Naquele
     momento, nada lhe importava. Elizabeth chegou ao cho com um pulo
     determinado e virou-se para Lina para ouvi-la dizer:
           -- Voc nunca mereceu Will.
           Elizabeth no sabia se devia discutir com Lina ou se devia encontrar uma
     maneira de convenc-la a no contar seu segredo a ningum. As duas se
     encararam por um longo tempo. Quando seu corao comeou a bater mais
     devagar, Elizabeth notou a dor que havia no rosto de Lina. Ela estava tentando
     ser cruel, mas estava claro que tambm ficara arrasada com a partida de Will.
           -- Voc no sabe de nada - disse Elizabeth firmemente, ficando cada vez
     mais calma. - E no est onde deveria estar no momento.
           Lina deu um sorriso sardnico.
           -- E onde eu deveria estar, senhorita? No seu quarto, ajudando-a a tirar o
     vestido? Fica muito difcil fazer meu trabalho se minha patroa no est por perto.
           --  exatamente l que voc deveria estar. No se esquea de que deve me
     obedecer sempre. Voc  uma empregada da minha famlia.
           Elizabeth respirou fundo e colocou a mo nas cadeiras. Ela olhou para Lina,
     com seu nariz cheio de sardas e seus ombros grandes e ossudos, ergueu uma
     sobrancelha loura e disse com a voz mais autoritria que tinha:
           -- Voc deve ser uma enorme decepo para sua irm.  s por causa dela
     que no vou lhe demitir.
           Elizabeth deixou seu brao pender, indignada. Ela apanhou seu vestido
     rasgado com uma das mos e passou por Lina, indo na direo da porta da
     cozinha. Ento parou com um p no primeiro degrau e virou a cabea.
           --  s por causa dela que ainda no vou lhe demitir.
           Lina encarou Elizabeth com fria, mas no disse nada. Elizabeth levantou o
     queixo e deixou que o momento se estendesse. Saber que Will se fora e que
     podia estar em qualquer ponto do pas estava lhe roendo as entranhas. Mas ela
     no se permitiu chorar enquanto se afastava silenciosamente de sua criada e subia
     a velha escada dos fundos pela ltima vez.




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                     dx|wt X|tux{?
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                                                         j| ^xxx


          _             ina encontrou o bilhete na gaveta de cima da cmoda de Will,
                        escondido no bolso de um casaco azul-marinho. Ela acendeu a
                        lmpada a leo, pegando o pavio de lona e tocando-o
     gentilmente com um fsforo. O bilhete havia sido escrito num pedao de papel
     creme grosso, do tipo que Elizabeth usava para toda sua correspondncia.
           Lina passou os dedos pelas bordas douradas do papel e pensou em como
     devia ter sido difcil para Will resistir a Elizabeth. Ela deve ter-lhe parecido uma
     jia rara, a dona de objetos mgicos. Era assim que sua criada pessoal costumava
     lhe ver tambm. Mas, agora, Lina estava vislumbrando uma nova Elizabeth. Ela
     tinha de ser montada como um quebra-cabea, penteado, maquiagem, vestido.
     Ela se pavoneava sozinha no quarto, sentindo-se linda mesmo quando no havia
     ningum para v-la. Ela era uma miragem.
           A criada olhou o avesso do bilhete, ficando cada vez mais furiosa ao pensar
     nas coisas que sua ex-amiga de infncia lhe dissera. Suas palavras haviam sido
     brutais e seu orgulho, repulsivo. Ela ficou com raiva enquanto pensava em
     Elizabeth. Ento, essa memria comeou a desaparecer e a realidade da ausncia
     de Will se tornou mais presente. Lina deitou-se no colcho dele, esticando seus
     longos braos acima da cabea e quis poder faz-lo voltar s com a fora de seu
     desejo. Isso s a deixava mais triste. O nico homem que ela amara se fora. E ela
     nunca tinha ganhado nem um beijo dele.




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           Lina colocou as palmas das mos sobre os olhos para no chorar e, quando
     a vontade passou, ela se levantou. O pior de tudo era que Will partira sem nem se
     lembrar dela - mas talvez ainda no fosse tarde demais. Ela foi at a cmoda e
     removeu o casaco azul-marinho. Era o tipo de casaco que os marinheiros
     usavam, e Lina j vira Will com ele em muitos invernos, quando ele estava
     tirando a neve da frente da casa ou levando cobertores para os cavalos. Ele devia
     t-lo deixado ali para Elizabeth usar caso decidisse ir atrs dele - Will era assim
     mesmo. Mas Elizabeth no o tinha visto. Lina vestiu o casaco e colocou o bilhete
     de volta no bolso. Ela pegou as prolas que Elizabeth deixara cair no cho e foi
     at a rua.
           A noite estava quente e a Avenida Lexington ainda estava cheia de gente. A
     populao de Nova York passara o dia todo festejando o retorno de seu heri e
     ainda estava celebrando, correndo pelas ruas com bandeiras, encostando-se um
     nos outros com uma deliciosa exausto. Ningum olhou para Lina quando ela
     passou depressa, enrolando-se no casaco de Will. Lina no estava com frio, mas
     o casaco tinha o cheiro dele - feno e sabo - e, por isso, ela no o tirou.
           Ela caminhou os vinte quarteires at a estao de trem sem deixar que seus
     ps a incomodassem. As delicadas Elizabeths do mundo no compreenderiam, 
     claro - andar no meio da noite dessa maneira as deixaria amedrontadas, ou
     cansadas, ou destruiria sua reputao. Mas, para Lina, aquilo era digno e bom.
     Quando viu o enorme edifcio, com sua imponente fachada clssica, seus torrees
     e suas janelas ovais, ela comeou a correr.
           L dentro quase no havia ningum. Algumas pessoas dormiam nos bancos
     de madeira, cobertas por mantas leves. Lina no via um relgio h muito tempo
     mas, aqui, parecia ser muito mais tarde do que nas ruas cheias de gente. Ela
     atravessou rapidamente o ptio, ouvindo seus saltos baixos clicando no cho de
     mrmore, e chegou no guich. O vendedor estava dormindo e Lina teve de bater
     no vidro para acord-lo. Quando o homem finalmente a escutou, ele tirou seu
     gorro preto de cima dos olhos e se inclinou para frente. Lina sorriu, esperanosa.
     Era um rapaz jovem, no muito mais velho do que ela. Talvez ele fosse solidrio.
           -- Senhora? - disse o vendedor, ainda cheio de sono.
           -- Gostaria de saber... - comeou Lina.
           Mas ela no disse mais nada, pois lhe ocorreu que devia estar com uma
     aparncia estranha, parada ali sem nenhuma bagagem ou roupas prprias para
     viajar.
           -- O senhor poderia me dizer - disse ela, tentando parecer confiante - se viu
     um rapaz passar por aqui hoje  noite? Ele estava indo para oeste. Creio que para
     a Califrnia.
           -- Um rapaz? - repetiu o vendedor devagar, sorrindo. - Como ele era?
           -- Mais ou menos da sua idade, acho - explicou Lina, sem entender por que
     o vendedor parecia estar achando a situao engraada. - Estava viajando
     sozinho.
           -- Um rapaz viajando sozinho? E por que a senhorita quer saber para onde
     ele foi a essa hora da noite?
           -- No  da sua conta.




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           Lina fechou melhor o casaco e tentou parecer o mais orgulhosa possvel.
     Ela queria fazer o que Elizabeth faria na mesma situao e por isso levantou o
     queixo, virando a cabea um pouco para o lado.
           -- Bem, voc vai me ajudar ou vai ficar parado a?
           -- Eu gostaria de ajudar a senhorita - disse o vendedor.
           Os olhos dele brilharam para Lina. Ela no podia imaginar por qu, mas ele
     parecia estar observando-a com certo interesse.
           -- Mas eu trabalho para Nova York, New Haven e Hartford Railroad. Se o
     rapaz estava indo para a Califrnia, ento ia de New York Central.
           -- Oh - disse Lina, desanimada.
           Ela deve ter parecido um pouco confusa, pois o vendedor apontou para o
     outro lado do enorme ptio.
           -- O guich deles  no prximo ptio. E s pegar aquela porta ali.
           Lina assentiu, agradecendo, e foi correndo na direo que ele havia
     apontado.
           -- Se no encontrar esse moo, volte aqui para me visitar! - disse o
     vendedor.
           Lina olhou para trs e viu que ele estava piscando o olho para ela. Ela no
     teve certeza, porque ningum jamais flertara com ela, mas achou que o vendedor
     estava fazendo exatamente isso. Parecia um bom sinal. Lina deu um sorriso e
     voltou a cruzar o ptio com passos firmes.
           No guich da New York Central ela encontrou um homem mais velho que
     estava completamente desperto e indiferente aos seus charmes. Ele tinha
     costeletas, que no conseguiam esconder seu rosto largo e brilhante.
           -- Um rapaz alto,  isso? - respondeu o homem da New York Central.
           -- Isso. Alto, com olhos azuis claros e um rosto bonito. Ele no tinha muita
     bagagem e estava viajando sozinho.
           -- J vi muitos parecidos - disse o homem, pausando para arrumar alguns
     papis, para desespero de Lina. - Mas no tantos assim numa sexta  noite. Sei de
     quem est falando. Ele pegou o trem das onze para Chicago. Se estiver mesmo
     indo para a Califrnia, imagino que v pegar outro trem de l, para ir at
     Oakland.
           -- Que horas so agora? - quis saber Lina, arrasada, entendendo que, pela
     maneira como o homem estava falando, o trem das onze j partira h muito
     tempo.
           -- So dez para as duas.
           -- Quando sai o prximo trem para Chicago? - perguntou ela, pressionando
     seus dedos cheios de calos no balco de mrmore.
           -- S pela manh, minha jovem. O prximo trem para Chicago  s sete.
           Lina pensou em como seria ter de voltar para a manso da famlia Holland e
     ver Elizabeth mais uma vez.
           -- Gostaria de uma passagem de ida para Chicago.
           O vendedor lanou-lhe um olhar ctico.
           -- Muito bem. Quanto dinheiro voc tem?
           Lina olhou para o cho. Ela sentiu os bolsos do casaco. Talvez Will tivesse
     deixado o dinheiro da passagem ali para Elizabeth. Mas no havia nada,  claro.
     Ele jamais teria deixado dinheiro para trs, sabendo que Elizabeth tinha de sobra.


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           -- No tenho nenhum dinheiro - disse ela, pateticamente.
           -- Ora essa! - exclamou o vendedor. - Pois volte quando tiver.
           Lina se afastou do guich e atravessou de novo o ptio, que parecia uma
     igreja com todos aqueles bancos. Havia inmeros deles e ela considerou por
     alguns segundos a possibilidade de dormir em um. Talvez ela fosse recolhida e
     enviada para um abrigo para mulheres de m reputao. Seria um fim horrvel
     para uma noite horrvel, mas ainda melhor do que ter de encontrar Elizabeth.
           As locomotivas estavam adormecidas abaixo de um domo de vidro. Mais
     para alm, no leste da cidade, ficava um bairro pobre chamado Colina Holandesa,
     onde os imigrantes irlandeses viviam. Se uma menina como ela entrasse ali,
     podia nunca mais sair. Will, que era lindo e perfeito, arrumara uma maneira de
     escapar dos Holland, mas Lina s podia ir at onde seus ps a levavam. Ela saiu
     da estao depressa, sem olhar para ningum.
           Quando chegou na rua, Lina sentiu um choque ao ver tantas luzes e escutar
     tantos sons. Ainda havia fogos de artifcio no cu e, a cada exploso, a multido
     dava vivas. O universo era gigantesco e incandescente, mas Lina sentiu que ele
     caoava dela, fazendo-a lembrar que, embora ele fosse enorme e cintilante, seu
     mundinho era pequeno, odioso e inescapvel. Ela detestava seu emprego e
     detestava a si mesma. Mas, acima de tudo, detestava Elizabeth. Fora ela quem
     estragara tudo antes que Lina tivesse a chance de conquistar Will.
           Esta noite ela estivera cansada e pobre demais para conseguir ir embora
     mas, ao olhar para o cu da cidade, to grande e cheio de vida, decidiu que tinha
     de haver uma maneira.




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                        i|x x ax
                     Existem senhoras antiquadas que acreditam que
                     as janelas de suas filhas devem permanecer
                     sempre fechadas, para impedir agentes
                     corruptores de entrar. Ns temos uma viso mais
                     moderna: o ar fresco, com moderao, 
                     saudvel para as jovens, e em noites quentes
                     suas janelas podem ser deixadas abertas.

     GUIA VAN KAMP DE ADMINISTRAO DA CASA PARA DAMAS DE ALTA SOCIEDADE,
     EDIO DE 1899




          b             s fogos de artifcio ainda ecoavam nas fachadas de tijolo de
                        Nova York, mas Diana achou que os festejos finalmente
                        estavam se dirigindo para o centro da cidade. Ela olhou para
     seu reflexo no espelho e viu as pupilas redondas e negras e os longos clios de
     uma menina cuja mente estava deliciosamente tomada por pensamentos errados.
     Diana no teria se sentido mais amada nem se ele estivesse ali em seu quarto com
     ela. O fato de Henry no ter comparecido  sua primeira apario pblica com
     Elizabeth era to bom quanto um olhar sensual numa sala cheia de gente ou uma
     ousada carta de amor. E Diana j recebera os dois.
           Ela empurrou o banquinho no qual estava sentada mais para perto do
     espelho de corpo inteiro de moldura dourada, tirando da frente dos olhos alguns
     cachos que teimavam em cair ali. J passara mais de uma hora desde que Claire
     lhe ajudara a tirar seu vestido, lavara seus ps e prendera seu cabelo. Mas Diana
     no estava cansada. Estava se sentindo cheia de energia e um pouco boba.
     Gostava de sua aparncia com aquela longa camisola branca, que era folgada e
     um pouco transparente na altura dos seios. Ela fez um biquinho para o espelho e
     examinou a pele de seu pescoo.
           -- No  nada estranho - sussurrou ela para seu reflexo - que voc no
     consiga parar de pensar em mim, Henry Schoonmaker.
           -- Concordo plenamente.
           Diana quase caiu do banquinho, ficando de p num pulo e instintivamente
     cobrindo os seios com os braos. Ela ficou sem palavras de tanta vergonha.
     Voltou-se na direo de sua janela, que dava para os jardins das casas do
     quarteiro, e viu uma verso um pouco mal-ajambrada do homem em quem
     pensara a noite toda.
           -- O que voc est fazendo aqui? - sussurrou ela, dando um passo na
     direo da janela, que ela deixara um pouco aberta para refrescar o quarto.
           Henry estava do lado de fora, na estreita varanda de ferro batido, usando
     calas azuis cujas bainhas haviam sido dobradas acima dos tornozelos e uma


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     camisa social branca que estava amassada e um pouco suja. Havia alegria e mais
     alguma coisa em seu olhar; Diana teve quase certeza de que era desejo. Seu
     maxilar elegante estava virado para o lado e continha evidncias de um sorriso
     suprimido.
           -- Como foi que voc chegou aqui? - perguntou Diana, achando que Henry
     seria capaz de ficar olhando para ela para sempre sem nunca lhe responder.
           -- Entrei num beco que h na rua Dezenove, pulei a cerca da casa dos Van
     Dorans e pulei a sua. Depois, escalei sua trelia - explicou Henry, fazendo uma
     mesura. - E aqui estou eu.
           Diana mordeu o lbio, sentindo vergonha da aparncia de seu quarto pela
     primeira vez na vida. A seda rosa clara que cobria a cabeceira de sua caminha
     quadrada, as pilhas de livros na escrivaninha, o velho tapete de pele de urso que
     cobria o cho em frente  lareira - tudo parecia antiquado e infantil ao mesmo
     tempo.
           -- No consegui tirar voc da cabea a noite toda - disse ela timidamente.
           Henry estava espremido entre o vidro e a madeira da janela e o ferro da
     varanda. Diana percebeu que ele estava moreno de sol.
           -- Gostaria de poder dizer o mesmo.
           Ela abriu a boca para responder, mas ento Henry piscou o olho para deixar
     claro que no devia interpretar mal suas palavras.
           -- Passei pelo menos oito horas bbado, de duas s dez. Mas, depois que
     bebi um pouco de caf preto, posso lhe garantir que no pensei em outra coisa.
           -- Jura?
           Henry deu um enorme e sincero sorriso e ela corou de prazer.
           -- Juro, eu...
           -- Di? - disse uma voz abafada do outro lado da porta do quarto.
           Henry se abaixou instintivamente. Diana primeiro pensou em sua me e
     depois em Claire e seu corao disparou. Ela olhou para Henry, cheia de medo e
     decepo. Queria muito toc-lo. Queria arrancar um por um os botes de sua
     camisa e arrast-lo at o tapete. Henry olhou para a porta e depois para ela.
     Estava tentando perguntar algo com os olhos.
           -- Di? - disse a voz mais uma vez. - Posso entrar? Eu...
           Henry levantou as mos, perguntando o que devia fazer e Diana balanou
     os braos acima da cabea ridiculamente.
           -- Saia daqui! - sussurrou ela.
           Ele se voltou, ainda com um sorriso gentil nos lbios e se preparou para
     obedecer. Diana ouviu a trelia fazendo um barulho assustador e depois um rudo
     de madeira se partindo, mas no teve coragem de ir espiar. A porta de seu quarto
     estava sendo aberta.
           -- Di?- disse Elizabeth timidamente, colocando a cabea na abertura.
           -- Oh! - exclamou Diana ao ver a irm, cujo vestido estava rasgado e
     encharcado e cujos cabelos estavam emaranhados como se ela tivesse sido
     atingida por uma tempestade.
           -- S est vestindo isso? Vai apanhar um resfriado.  melhor fechar a
     janela.
           As duas se viraram para a janela ao ouvirem o barulho de algum caindo,
     um farfalhar e um grito abafado de dor.


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           -- O que ser isso? - perguntou Elizabeth.
           -- Deve ser o pessoal da parada - disse Diana rapidamente, indo fechar a
     janela antes que sua irm o fizesse e tentando em vo enxergar Henry l
     embaixo. - Est tudo bem com voc? Seu vestido...
           Ela apontou para a imensa saia rosa de Elizabeth, que parecia ter acabado
     de ser usada como pano de cho.
           -- Oh, eu... tropecei quando estava descendo a escada. Estava indo pegar
     um copo d'gua e meu vestido deve ter prendido em algum lugar...
           -- Voc chorou? - interrompeu Diana, vendo que os olhos de Elizabeth
     estavam vermelhos e inchados.
           -- No. Quer dizer, um pouco - disse Elizabeth, parecendo um pouco
     envergonhada. -  que...
           Ela no completou a frase, mas continuou olhando para Diana de forma
     desamparada. Diana encarou-a tambm, sem conseguir adivinhar o que Elizabeth
     estava tentando dizer. Afinal, ela parecera perfeitamente satisfeita com o
     abandono de Henry mais cedo. Era evidente que, agora, Elizabeth estava se
     sentindo humilhada. E com isso, o medo de ser flagrada na companhia de Henry
     desapareceu, assim como a irritao de Diana por ver aquele momento precioso
     interrompido. Ela quase ficou preocupada com a irm. Quase se arrependeu do
     que desejava.
           --  que... - repetiu Elizabeth.
           Ela suspirou, como se no conseguisse encontrar palavras que explicassem
     o que estava sentindo, deixando que seus ombros pendessem. Colocou as mos
     sobre o rosto, como se estivesse prestes a chorar de novo.
           -- Lembra-se daquele quadro do Vermeer que papai me deu?
           Diana revirou os olhos.
           -- Ele deu aquele Vermeer para mim.
           Ela se lembrava muito bem da histria do quadro. Seu pai o comprara de
     um vendedor de arte parisiense quando sua me estava grvida pela segunda vez,
     e sempre pretendera pendur-lo no quarto da filha mais nova. Mas ento
     Elizabeth deixara todos impressionados ao explicar de forma muito eloquente
     como era a composio da pintura e o sr. Holland decidiu que ele ficaria no
     quarto dela at que Diana fizesse 16 anos. Mas, quando ela completou 16, seu pai
     j havia falecido e ningum estava disposto a discutir a localizao dos quadros
     da casa.
           -- Mas voc insistiu para que ele o colocasse em seu quarto - acrescentou
     ela, com uma certa amargura.
           -- Oh - disse Elizabeth, com um tom que fez Diana ter certeza de que ela
     no concordava com sua afirmao.
           Diana deu de ombros. Ela no precisava ganhar discusses bobas como
     aquela aps o belo noivo de sua irm ter escalado sua janela no meio da noite.
     Elizabeth suspirou fundo.
           -- Acho que no importa mais. Mas eu s queria... Quer dizer, ser que eu
     poderia...
           Elizabeth colocou as mos sobre o rosto mais uma vez.
           -- Pode dormir aqui, se quiser.



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           Diana foi at onde ela estava, abraou-a e apertou-a contra si. Ela ajudou
     sua irm a tirar o vestido, tentando pensar nos poucos segundos maravilhosos em
     que Henry estivera em sua janela. Sabia que devia estar contente por eles no
     terem sido pegos, principalmente agora que estava vendo o quanto Elizabeth
     ficara abalada.
           Mas, mesmo aps as duas terem se deitado para dormir lado a lado pela
     primeira vez desde que eram crianas, Diana no pde deixar de desejar um outro
     encontro com o nico homem solteiro de Nova York que lhe era proibido.




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                                         g|t
                     Uma das muitas festas dadas ontem  noite para celebrar o retorno do
                     almirante Dewey ao pas - o baile no Hotel Waldorf-Astoria - tambm
                     seria a primeira apario pblica do sr. Henry Schoonmaker e da srta.
                     Elizabeth Holland como um casal. A srta. Holland compareceu,
                     belssima como sempre, mas o sr. Schoomaker no esteve presente na
                     ocasio, levando certos cnicos a se perguntarem se suas atenes j
                     se voltaram em outra direo.

     NOTA DA COLUNA "GAMESOME GALLANT", DO JORNAL NEW YORK IMPERIAL,
     SBADO, 30 DE SETEMBRO DE 1899.




          [                 enry foi acordado com uma folha de jornal atingindo seu
                            rosto. Ele esticou as mos e sentiu o torso: havia
                            adormecido fora de sua cama com a roupa em que passara
     o dia. Sua boca estava seca. Seus braos estavam doloridos como se houvessem
     sido arranhados por tigres ao longo da noite. Ele tocou seus antebraos e viu que
     estavam cobertos de cortes. Todas essas foram sensaes desagradveis para
     Henry, que estivera sonhando com a pele macia de Diana Holland.
           -- Acorde, Henry - disse seu pai, com o tom anasalado e irritado que usava
     mesmo quando estava satisfeito, o que no parecia ser o caso. - Quer um pouco
     de suco de laranja?
           Henry abriu um olho e depois o outro, vendo a imagem desagradvel de seu
     pai entrar em foco.
           -- Voc est com o suco a? -- perguntou ele fracamente.
           -- No!
           Henry estava completamente acordado agora e j se situara. O cmodo em
     que estava deitado, sob a longa sombra de seu pai, era o mesmo em que se
     deitara para descansar um pouco na noite passada, numa tentativa de se recuperar
     da festa pica do barco. Era seu escritrio, que ficava ao lado do quarto, um
     aposento escuro e timo para curar uma dor de cabea. Mas parecia que essa no
     era mais a prioridade.
           Henry olhou para seu pai, que estava observando-o com desprezo, e ento
     viu uma criada plida logo atrs dele. Ela usava um vestido negro com punhos e
     colarinho branco e segurava uma bandeja com um copo cheio de um lquido que
     parecia mesmo ser suco de laranja. Henry abriu e fechou sua boca seca e voltou a
     encarar o pai.
           -- No d o suco a ele, Hilda - disse o sr. Schoonmaker, caminhando
     alguns passos para frente e unindo as mos atrs das costas. - Henry, vejo que
     voc est num estado deplorvel e  possvel que no se lembre da noite passada



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                            cz|t  DGG
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     com perfeita clareza. Mas eu andei fazendo algumas perguntas e estou aqui para
     ajud-lo a se lembrar. Hilda e eu estamos aqui para ajud-lo a se lembrar.
           A criada j trabalhava para a famlia h alguns anos e sempre guardara seus
     segredos, mas agora estava se recusando a encarar Henry. Estava branca como
     um lenol e com os olhos fixos na bandeja. Ele olhou com grande anseio para o
     suco de laranja e depois de volta para o pai, cujo enorme corpo estava coberto
     por um terno cinza metlico. Era o tipo de roupa que impressionava os
     empregados da companhia ferroviria e as criadas da casa. Henry tentou deixar
     claro que ele, ao menos, no estava abalado com isso.
           -- Ande, Hilda - disse o sr. Schoonmaker. - Conte a Henry o que voc me
     contou.
           A menina hesitou o mximo que pde, tempo suficiente para deixar a ela e
     a Henry muito constrangidos, e ento disse:
           -- Vi uma jovem saindo daqui bem tarde da noite. Ela estava com um
     vestido vermelho de continhas e fez bastante barulho quando foi embora. O
     vestido parecia novo e muito caro.
           Henry deixou-se pender no sof, desanimado, lembrando-se da dramtica
     apario de Penelope. Ele encostou a testa no punho e ouviu seu pai mandar
     Hilda deixar o escritrio. Hilda assentiu respeitosamente e foi para o corredor,
     levando consigo o copo de suco de laranja que poderia ter molhado um pouco
     sua garganta.
           -- No achei que seria bom Hilda ouvir a prxima parte, Henry - disse o sr.
     Schoonmaker, cruzando os braos. - Lembra-se de como voltou para casa?
           --No, senhor.
           -- Uma carruagem de aluguel deixou voc aqui. Estava cheio de
     machucados no lado esquerdo do corpo e cortes que sugerem um encontro
     desagradvel com um espinheiro. Est comeando a recordar?
           Henry balanou a cabea negativamente.
           -- Eu estava bbado - disse ele, tentando soar envergonhado e firme ao
     mesmo tempo.
           Henry se lembrava muito bem de seu encontro com o espinheiro,  claro,
     mas sabia que no queria explicar ao pai que entrara pela janela do quarto da
     irm caula de sua noiva. s vezes, refletiu ele, ter fama de estar constantemente
     bbado podia ser conveniente.
           -- Henry, eu no sou um idiota. Sei muito bem que voc estava bbado.
     Agora, vai me contar a histria toda ou devo relat-la a voc?
           -- Voc parece estar ansioso para faz-lo - disse Henry amargamente.
           -- Leia voc mesmo.
           O sr. Schoonmaker jogou o jornal que segurava na direo de Henry. Ele
     farfalhou ao voar pelos ares e atingiu-o na testa. Ele apanhou-o, evitando olhar
     para o pai, que estava andando furiosamente de um lado para o outro. O Imperial
     fora dobrado na pgina da coluna de fofocas e uma das notas havia sido marcada
     com tinta vermelha.
           -- Que desagradvel - disse Henry, aps ler a nota.
           Apesar de seu tom de ironia, ele no estava brincando. Sua imagem de
     playboy bbado estava comeando a aborrec-lo. Mas sua principal preocupao



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DGH
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     no momento era arrumar algo para beber. Se pudesse jogar algum lquido em sua
     boca seca, talvez conseguisse lidar melhor com aquela situao infeliz.
           -- Concordo com voc - disse o sr. Schoonmaker, com tanto ou mais
     sarcasmo do que o filho.
           Henry observou seu pai diminuir o passo e ir at a janela que dava na
     Quinta Avenida, ainda com as mos s costas. Ele falou mais baixo, mas seu tom
     continuava ameaador.
           -- Gostaria de saber onde eu estava na noite passada, Henry?
           Henry manteve seus olhos fixos no pai e no disse nada. Ele sabia que a
     resposta quela pergunta ia ser dada mais cedo ou mais tarde. Provavelmente,
     mais cedo.
           -- Estava no Waldorf com o governador e o almirante Dewey. Sabia que
     esto dizendo que ele talvez v se candidatar  presidncia? Foi uma
     oportunidade poltica tremenda. No que eu espere que isso signifique algo para
     um vagabundo como voc.
           Henry se remexeu no sof. Ele tentou desamassar a camisa com as mos e
     se parecer menos com um vagabundo. Seu pai lanou-lhe um olhar furioso.
           -- Eu e toda a cidade estvamos esperando ver voc e sua bela noiva juntos
     no Waldorf. Pode imaginar como ficaram desapontados quando voc nem
     apareceu? Todos estavam procurando uma fofoca para contar e voc deu uma de
     bandeja. Mais uma vez, provou ser um problema.
           O sr. Schoonmaker balanou-se nos calcanhares com ar pesaroso e Henry,
     ainda sedento e extremamente desconfortvel, no conseguiu pensar em nada
     para dizer que pudesse fazer com que seu pai no o visse como uma decepo.
     Ele observou o sr. Schoonmaker controlando uma emoo qualquer antes de
     continuar a falar em seu tom irritado.
           -- Vou lhe dizer o que vamos fazer, Henry. Sua brincadeira de ontem 
     noite fez o noivado parecer arranjado. Muita gente j est pensando isso. Mas a
     notcia do noivado arranjado no vai se espalhar se ns dermos uma novidade
     mais interessante para a imprensa.
           Henry, que sempre fora perseguido pelos jornais sem jamais ter desejado
     isso, olhou para o pai em completa confuso. O sr. Schoonmaker veio andando
     em sua direo. Henry observou aquele rosto vermelho, que fazia um contraste
     desagradvel com os cabelos negros, e perguntou-se se seu pai algum dia ficaria
     feliz com ele.
           -- Uma novidade mais interessante? - repetiu ele mecanicamente.
           -- Ah, voc est escutando. Que timo. Sim, uma novidade mais
     interessante. Voc vai se desculpar com as Holland amanh. Vou mandar Isabelle
     conversar com a sra. Holland hoje  noite, como uma espcie de embaixadora. 
     uma idia perfeita. E olhe que eu s precisei do tempo entre a hora de acordar e a
     hora de tomar caf para t-la.
           Henry estava tentando parecer interessado, mas estava ficando cada vez
     mais nervoso e enjoado.
           -- Que idia  essa?
           William Schoonmaker olhou para o filho, muito animado e sorriu, fazendo
     com que seu bigode negro parecesse mais largo.



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           -- Vamos antecipar o casamento. Os jornais vo cham-lo de "O maior
     casamento do sculo XIX". As pessoas vo gostar.
           -- Est falando do meu casamento? Com... Elizabeth? - perguntou Henry,
     que estava todo gelado e com a boca aberta. - Antecipar para quando?
           O sr. Schoonmaker tirou seu relgio de ouro do bolso. Ele estava
     obviamente muito satisfeito com o golpe que ia dar, confiante em seu
     brilhantismo. E estava gostando de deixar Henry naquele estado.
           -- Se preferir ser deserdado, posso realizar seu desejo - disse o sr.
     Schoonmaker, olhando significativamente para o filho. - Prefiro no fazer isso,
     mas farei se voc no me deixar alternativa.
           -- No, senhor. No prefiro ser deserdado - respondeu Henry, abaixando os
     olhos como que para no ver a prpria covardia. - Quer dizer, gostaria que no
     fizesse isso.
           -- Ento, Henry, meu garoto, se no tiver outros planos para o prximo
     domingo, dia oito de outubro... essa ser a data.
           Henry viu a expresso de triunfo do pai e soube que seu tempo terminara.




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                         g|t x h
                     Dizem que uma certa jovem parecia estar com o corao partido aps
                     a indelicada ausncia de seu noivo numa festa celebrando a chegada
                     do almirante Dewey.

     NOTA DA COLUNA SOCIAL DO JORNAL NEW YORK NEWS OF THE WORLD
     GAZETTE, DOMINGO, 1 DE OUTUBRO DE 1899.




          W                 ois dias de festejos e paradas haviam exaurido Nova York e,
                            no domingo, uma ressaca coletiva manteve seus cidados
                            quietos dentro de casa. Elizabeth sentiu o ar de calmaria
     sem precisar olhar pela janela da sala de estar. At as pessoas virtuosas que
     apareciam para tomar ch e conversar um pouco com as Holland aos domingos
     estavam com os olhos um pouco vidrados. Elizabeth no lera os jornais, mas, se
     tivesse lido, provavelmente no teria tido coragem de negar que parecia estar
     com o corao partido. O fato de que o mundo j conhecia sua desculpa oficial
     era um alvio, embora no muito grande.
           Mas, aparentemente, sua amiga de infncia Agnes Jones ainda no se dera
     conta de que ningum queria mais conversar sobre a parada.
           -- E o show areo foi maravilhoso! - disse Agnes, com as mos dobradas
     sobre sua saia de l xadrez. - Quem imaginaria que havia um especialista em
     pipas nessa cidade, ou que eles conseguem fazer coisas to incrveis com um
     mero brinquedo?
           Elizabeth deu um sorriso desanimado para ela e desejou que sua tia Edith,
     que estava sentada ao lado da lareira lendo a Cit Chatter e fingindo desaprovar
     as fofocas, entrasse na conversa. Os olhos de Agnes brilhavam com o que ela
     prpria estava dizendo e seu cabelo castanho estava preso num coque, com
     alguns fios soltos por sobre as orelhas. O penteado acentuava o queixo dela, que
     era grande demais. Elizabeth poderia ter tentado encontrar uma maneira gentil de
     dizer isso a Agnes, mas estava se sentindo sem foras.
           -- E todos aqueles barquinhos cheios de luzes! Eu nunca tinha visto nada
     igual.
           Agnes fez uma pausa e abaixou os olhos, fingindo que estava considerando
     a possibilidade de no dizer o que estava pensando.
           -- E... voc ficou muito zangada com Henry por ele no aparecer na sexta-
     feira?
           -- Oh... - disse Elizabeth lentamente.
           Ela estava olhando para a janela mas, ao ouvir isso, voltou a encarar a
     amiga. No parava de olhar para a janela naquela tarde, esperando que uma visita
     inesperada surgisse.



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            -- No muito, obrigada por perguntar - respondeu ela.
            -- No muito  melhor do que muito - disse Agnes entusiasticamente.
            Elizabeth suspirou, tentando demonstrar que concordava, porm com
     grande desnimo. Agnes no tinha tato nenhum. Elizabeth sempre fora gentil
     com todos, mesmo que eles no fossem muito polidos. Era como um verdadeiro
     cristo devia se comportar. Alm disso, um amigo verdadeiro poderia estar
     escondido em qualquer lugar. Penelope, por exemplo. Ela no tinha muito boas
     maneiras quando Elizabeth a conhecera, mas provara ser uma amiga muito leal
     ao aceitar ser sua madrinha de casamento, apesar de saber que ela se casaria com
     um ex-namorado seu.
            Agnes fez um rudo borbulhante ao beber seu ch, o que despertou
     Elizabeth.
            -- Voc vai ter de fazer algo muito espetacular para chamar ateno se for
     se casar nesta temporada. Ouvi falar de mais trs noivados s neste fim de
     semana. Martin Westervelt pediu a mo de Jenny Thurlow...
            Elizabeth tentou se manter alerta enquanto Agnes lhe contava quem ficara
     noivo de quem. No era  toa que Diana estava em seu quarto se escondendo das
     visitas, lendo romances ridculos e falando sozinha. H duas noites Elizabeth a
     ouvira tendo uma conversa inteira no quarto, sendo que no havia mais ningum
     l dentro. Ela precisava de um tutor, ou ia acabar se tornando uma selvagem. Isso
     era um certo consolo para Elizabeth - ao menos sua inrcia ia beneficiar a
     famlia. Ao menos ela no teria de se preocupar com o fato de que Diana poderia
     ficar igual a... Agnes.
            Mas Elizabeth ainda estava arrasada e chocada com a partida de Will. Ela
     parara quase completamente de comer.
            -- E Jenny est to feliz, Lizzie, voc iria chorar se visse como ela est
     feliz...
            Elizabeth assentiu, pensando que Agnes provavelmente estava certa,
     embora saber dos noivados dos meninos e meninas da sua classe social no lhe
     desse nenhum prazer. Aquelas novidades s a faziam pensar em Will, em como
     ele era forte, em como estava sempre certo, enquanto Elizabeth se envolvia numa
     nvoa que ela prpria criara, mentindo para todos e declarando que um rapaz que
     mal conhecia era o amor da sua vida.
            -- Srta. Elizabeth?
            Elizabeth olhou para a porta da sala, onde Claire estava parada, e se deu
     conta de que a criada estava dizendo seu nome h vrios segundos. Isso sempre
     acontecia quando ela comeava a pensar em Will - quando voltava ao presente,
     via que todos em volta estavam observando-a, atnitos.
            -- Sim, Claire? - disse Elizabeth, endireitando a coluna e colocando as
     mos sobre os braos da cadeira onde estava, cuja pintura dourada estava
     descascando.
            -- O sr. Schoonmaker deixou seu carto.
            -- Oh! - exclamou Agnes, dando uma piscadela para Elizabeth. Ento, eu
     vou-me embora.
            -- Obrigada por vir me visitar - disse Elizabeth, dando um pequeno sorriso
     para sua velha amiga.
            Agnes inclinou-se para dar-lhe um beijo na bochecha e, ao levantar, disse:


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           -- Faa uma cara um pouco mais contente, pelo amor de Deus. Seu noivo
     est aqui.
           Elizabeth fez uma expresso de imensa tristeza - ela no pde evitar - e
     ficou aliviada ao ver Agnes indo embora.
           -- Pode deixar o sr. Schoonmaker entrar, Claire.
           Ao ver a criada fazendo uma mesura respeitosa, Elizabeth se lembrou de
     como Lina fora horrvel com ela na sexta-feira.
           -- Claire, no pense que tem de fazer tudo sozinha - disse ela. - Sua irm 
     perfeitamente capaz de fazer ch e pegar os casacos das visitas.
           Claire corou levemente e assentiu antes de sair da sala.
           Elizabeth verificou os pequenos botes de sua blusa vinho e fechou bem as
     pernas, que estavam envoltas por uma saia de linho cor de marfim. Ao olhar para
     cima, ela viu Henry na porta. Ele estava usando um terno cinza-escuro e
     observando-a gravemente, o que, para Elizabeth, era algo novo e perturbador.
     Suas sobrancelhas estavam unidas e as linhas de seu rosto bonito estavam mais
     marcadas, mostrando preocupao. Henry inclinou a cabea e Elizabeth fez o
     mesmo. Ento, ele atravessou a sala, pegou a mo dela e beijou-a.
           -- No quer se sentar?
           -- Obrigado.
           Henry passou os olhos pelo cmodo antes de sentar-se numa cadeira
     idntica  de Elizabeth, que ficava ao lado da dela. Ela se perguntou se ele estava
     considerando o couro verde-oliva das paredes antiquado, ou se achava que havia
     objetos demais na sala, que tinha inmeros quadros de moldura dourada
     pendurados e camadas de tapetes persas no cho.
           -- Gostaria de um pouco de ch?
           -- Adoraria, obrigado.
           Henry se comportava de maneira um pouco formal demais com ela, mas
     Elizabeth tinha de admitir que tambm estava sendo fria. Ela se perguntou se
     Henry no parava de olhar por cima do ombro por causa de tia Edith, que estava
     sentada ao lado da larga cornija de mrmore. Elizabeth poderia ter encontrado
     um jeito de sussurrar para ele que tia Edith no estava prestando ateno na
     conversa deles se achasse que Henry tinha algo de interessante a lhe dizer. Mas
     no era o caso.
           -- Srta. Elizabeth, gostaria de lhe dizer que lamento muito pelo que
     aconteceu na sexta-feira.
           -- Oh, no, no foi nada...
           -- Foi, sim.
           Henry estava falando tudo mecanicamente, mas havia algo em seu rosto que
     demonstrava remorso genuno.
           -- Foi horrvel de minha parte deixar de ir  festa e, mesmo que eu no
     tenha magoado a senhorita, estou certo de que a constrangi.
           -- Um pouco - admitiu Elizabeth, olhando para as mos.
           -- Mas no quero que pense que a idia de me casar com a senhorita me
     deixa nervoso - disse Henry lentamente, como se estivesse tendo dificuldades de
     encontrar as palavras certas.
           -- No deixa? - perguntou Elizabeth, erguendo as sobrancelhas sem querer.
           -- No, de forma alguma. Na verdade, eu... ah, obrigado.


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           Lina surgiu por cima do ombro de Henry e comeou a servir uma xcara de
     ch para ele. Ela estava muito serena e servil, mas s de v-la Elizabeth voltou a
     sentir a raiva que lhe dominara na sexta-feira.
           -- Sem creme, obrigado - disse Henry, pegando a xcara de porcelana azul
     de borda dourada das mos de Lina.
           -- Srta. Elizabeth?
           -- Sim, por favor, com acar e limo - disse Elizabeth friamente. - O que
     o senhor estava dizendo?
           -- Eu estava dizendo que... bem...
           Henry parou de falar, franziu o cenho e observou os muitos itens da sala de
     estar mais uma vez. Elizabeth inclinou-se para frente, esperando que ele
     continuasse. Finalmente, seus olhos voltaram a se focar nela e ele pareceu quase
     surpreso de encontr-la ali.
           -- No gostaria que a senhorita... achasse que eu estou mudando de idia.
     E, bem, o fato  que estou muito ansioso para... me casar com a senhorita. E,
     enfim, o que acha de anteciparmos o casamento?
           -- Antecipar? - repetiu Elizabeth, achando que no havia entendido direito.
           A idia de que ela ia se casar com Henry Schoonmaker era-lhe
     incompreensvel; pensar em faz-lo ainda mais cedo estava alm dos poderes de
     sua imaginao. Mas, ento, uma imagem surgiu em sua mente: sua me
     dormindo tranqilamente pela primeira vez em meses. Alm disso, a nica coisa
     que lhe restava era dar prazer aos outros. Ela estava tentando articular uma
     resposta quando foi distrada por Lina, que estava fazendo muitos rudos para
     servir o ch.
           -- Sim, para o prximo domingo. Creio que minha madrasta j discutiu isso
     com sua me. A parte logstica, quero dizer - explicou Henry, remexendo-se de
     forma constrangida na cadeira antes de continuar. - A vantagem  que, assim,
     todos ficariam surpresos e... cuidado!
           Henry inclinou-se na direo de Elizabeth, mas foi em vo. Ela j estava
     surpresa e confusa quando a gua fervente lhe atingiu. Elizabeth soltou um grito
     e afastou a saia encharcada das pernas para impedi-las de se queimar ainda mais.
     Ela olhou para cima devagar, vendo primeiro a xcara que pendia do dedo de
     Lina e depois o sorriso no rosto da criada.
           -- Oops! - disse Lina com ironia.
           Sem pensar no que estava fazendo, Elizabeth arrancou a xcara do dedo de
     Lina e protegeu-a com as duas mos.
           -- Sua incompetncia  insuportvel - disse ela, com a voz cheia de um
     dio que no sabia direito de onde vinha. - Saia da minha casa.
           -- Foi um acidente - explicou Lina despreocupadamente.
           Henry estava olhando para o cho e tia Edith, para Elizabeth, chocada com
     sua reao violenta. Claire surgiu na porta, com os olhos arregalados de medo.
     Mas, naquele momento, Elizabeth no se importou com a opinio de ningum.
           -- No foi, no. Voc  desajeitada e mentirosa e no quero mais v-la na
     casa da minha famlia. Sinto muito, Claire, mas eu a quero fora daqui em uma
     hora.
           Lina ficou parada no meio da sala, olhando com fria para Elizabeth.
           -- Foi um acidente - repetiu ela, sem convico.


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           -- Muito obrigada pela explicao - disse Elizabeth, falando com mais
     firmeza dessa vez e sentindo a mancha marrom do ch se espalhando pelo tecido
     claro de sua saia, mas recusando-se a olhar para ela. - Est despedida mesmo
     assim. Sr. Schoonmaker, lamento muito que tenha tido que testemunhar uma
     cena to desagradvel. Por favor, finja que isso no aconteceu. Se o senhor me
     der licena, eu vou para o meu quarto me acalmar um pouco.
           Elizabeth apanhou a saia e atravessou rapidamente a sala de estar. Ela
     estava sentindo as lgrimas lhe chegando aos olhos, mas controlou-se por mais
     alguns segundos. O fato de que Lina a vira conversando com Henry, e ainda por
     cima sobre o casamento, fazia-a sentir-se furiosa e envergonhada ao mesmo
     tempo. Ela fungou e virou para trs, vendo Henry, Lina, Claire e Edith, todos
     congelados de espanto.
           -- Muito obrigada por vir, Henry - disse ela da porta. - Mas creio que terei
     de ficar deitada por algum tempo. Talvez a srta. Diana possa fazer sala para o
     senhor durante o restante de sua visita?
           O rosto de Henry, que estava visivelmente preocupado e constrangido,
     desanuviou-se como que por encanto. Um leve rubor se espalhou por suas
     bochechas.
           --  claro. A senhorita deve descansar o quanto precisar.
           Elizabeth dera mais um passo na direo do corredor quando se lembrou de
     que no respondera  proposta de Henry. Ela continuava a no sentir nada por
     ele, mas, j que o casamento era necessrio, era melhor que fosse rpido, de
     maneira a deixar a maioria dos envolvidos satisfeitos.
           -- Sr. Schoonmaker, considero excelente a idia de fazer o casamento no
     prximo domingo.
           Sem esperar pela reao dele, Elizabeth seguiu na direo da escada
     principal. Talvez agora ela pudesse acabar com aquela agonia e comear o longo
     desespero que seria o resto de sua vida sem Will.




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                        g|t x W|
                     A madrinha de um casamento deve estar sempre
                     investigando - buscando informaes sobre a
                     amiga com o noivo, a famlia e at mesmo os
                     criados. A noiva,  claro, no quer estar sempre
                     exigindo tudo. Mas, se sua madrinha fizer as
                     perguntas certas para as pessoas certas, ela ser
                     de grande serventia para a amiga, realizando
                     todos os seus desejos conforme eles forem
                     surgindo.

     TRECHO DE AS LEIS DO CONVVIO NA ALTA SOCIEDADE, DE L.A.M. BRECKINRIDGE




          [                  muito que o ressentimento e o dio que lina sentia por
                            Elizabeth vinham crescendo, mas sua demisso da casa da
                            famlia Holland aconteceu muito rapidamente. L estava
     Claire, olhando apavorada para ela e entregando-lhe a malinha que pertencera a
     sua me e uma sacola de papel cheia de sanduches que ela prepara em poucos
     minutos. O rosto de sua irm mostrava intensa preocupao, mas Lina mal estava
     conseguindo pronunciar uma palavra. Ela acenou para Claire e saiu pela porta da
     frente. Logo, estava se afastando daquele que fora praticamente o nico lugar em
     que morara na vida.
           Lina mal podia sentir a calada abaixo de seus ps. Ela fechou o casaco de
     Will e continuou a andar, sem ter idia de que direo deveria tomar.
     Subitamente, no estava mais presa a nada. Foi ento que ouviu o som de rodas e
     de cascos de cavalos batendo no asfalto e uma voz que reconheceu.
           -- Com licena.
           Lina estacou e virou-se lentamente para ver quem falara. Ela piscou os
     olhos diversas vezes antes para se certificar de que fora Penelope Hayes, a amiga
     de Elizabeth, que lhe abordara. Ela estava numa daquelas carruagens de dois
     lugares com rodas enormes, observando Lina com bastante interesse.
           -- Est tudo bem?
           -- No - disse Lina aps alguns segundos.
           Penelope estava usando uma saia longa, uma jaqueta apertada de mangas
     largas e um pequeno chapu, todos de pied-de-poule. Isso fez Lina se sentir ainda
     mais envergonhada do vestido preto simples, das botas pudas e do enorme
     casaco de homem que vestia.
           -- Foi um dia horrvel, se voc quer mesmo saber - continuou ela.
           Penelope se inclinou para frente e apoiou o queixo numa das mos cobertas
     por luvas de camura cinza, apontando seus olhos maquiados para Lina de cima
     de sua bela carruagem.


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           -- Lamento muito ouvir isso - disse ela.
           Lina sentiu que estava sendo avaliada como um animal numa jaula. Isso era
     muito estranho, pois Penelope Hayes jamais lhe olhara antes.
           -- Obrigada, senhorita.
           Lina passou a velha malinha de uma das mos para a outra, tentando
     lembrar direito a nota que especulava sobre um noivado entre Penelope e Henry.
     O que aquela menina orgulhosa teria pensado quando Henry ficara noivo de
     Elizabeth, e no dela? Seu corao estava batendo forte e ela levou alguns
     segundos para formular a pergunta que queria fazer:
           --  verdade que a senhorita estava de namoro com Henry Schoonmaker?
           -- Quem disse isso? - perguntou Penelope, irritada.
           Ela pareceu um pouco chocada de ouvir uma criada falar daquela maneira
     ousada - mas Lina no era mais uma criada.
           -- Acho que li em algum lugar.
           Lina olhou rapidamente para a manso das Holland, mas no havia sinal de
     ningum nas janelas.
           -- Desculpe se... - comeou ela.
           -- Aonde voc vai? - interrompeu Penelope.
           Ela fez um gesto que pareceu indicar que tinha perdoado a impudncia de
     Lina.
           -- No sei.
           Lina suspirou fundo e tirou alguns fios de cabelo soltos que estavam lhe
     caindo sobre os olhos. Ela decidiu que no havia motivos para esconder o
     ocorrido.
           -- Acabei de ser demitida - explicou.
           -- Que horror! - disse Penelope.
           Ela deixou a boca aberta, formando um "O" atnito. Lina achou que
     Penelope estava se esforando muito para parecer preocupada.
           -- O que voc vai fazer?
           Lina, que ainda estava se perguntando o que Penelope sentia pelo rapaz que
     estava sentado na sala de estar da famlia Holland, deu de ombros.
           --No sei.
           -- Bem, por que no sobe aqui?
           Penelope deu um enorme sorriso e indicou o cocheiro, que no dissera uma
     palavra.
           -- Eu estava indo visitar as Holland. Voc deve saber que sou a madrinha
     de casamento de Elizabeth. Mas, se elas esto se comportando to mal, ento
     podem esperar. Podemos lev-la para qualquer lugar que queira ir.
           Lina fingiu hesitar por um segundo e ento pegou a mo estendida do
     cocheiro e permitiu que ele a puxasse para cima. Ela se sentou no assento de
     couro branco ao lado de Penelope e ouviu-a mandar o cocheiro seguir em frente.
           -- Meu nome  Lina - disse ela.
           Lina colocou a mala no piso e viu o Gramercy Park desaparecer atrs de si.
     Ela j no se sentia mais como uma moradora daquele lugar.
           -- Eu me lembro - afirmou Penelope.
           Lina teve quase certeza de que era mentira. Ela fora treinada para assentir e
     se sentir grata por qualquer favor, mas agora havia sido forada a abandonar sua


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     velha vida. A pessoa que ia se tornar ainda estava tateando, incerta de como
     deveria reagir.
           -- Por que voc est sendo to boa comigo?- perguntou ela.
           Penelope deu um sorrisinho e olhou por cima do ombro para ver onde elas
     estavam. A carruagem j deixara o adorvel paralelogramo localizado entre a
     Sexta Avenida e a Terceira, abaixo da rua Cinqenta e nove e acima da Catorze,
     onde viviam os membros da alta sociedade. Agora elas estavam no territrio dos
     trabalhadores pobres, com suas hordas de filhos e rostos envelhecidos. A avenida
     estava cheia de veculos e enegrecida pelas sombras dos trens que passavam no
     elevado. Os gritos de vendedores e entregadores eram abafados de vez em
     quando pelos sons dos vages cheios de gente passando na estrada de ferro
     acima. Ento era para l que elas estavam indo - para uma parte da cidade onde
     Penelope no teria medo de ser vista com uma empregada que fora demitida
     pelas Holland. Lina olhou em volta e sentiu uma certa repugnncia. Ela queria
     mostrar a Penelope que seu lugar no era ali.
           -- E o que foi que voc fez para as Holland? - perguntou Penelope, virando
     o rosto na direo de sua convidada.
           As duas estavam muito prximas uma da outra e Lina reparou em como a
     pele de Penelope era clara e imaculada. Era exatamente como ela havia
     imaginado.
           -- Nada... - respondeu Lina, tentando escolher sabiamente as palavras. -
     Houve um incidente com uma xcara de ch... e eu acho que elas sempre
     quiseram que eu trabalhasse sem pensar em mais nada, como faz minha irm
     Claire. No que ela no pense em nada... Mas  que eu nunca me imaginei sendo
     uma criada pelo resto da minha vida.
           Lina uniu as mos, esfregando a pele seca de uma contra a outra.
           -- S isso? - insistiu Penelope, aproximando-se ainda mais de Lina e
     sorrindo.
           -- A verdade  que... acho que posso ter sido despedida por saber demais.
           Agora era a vez de Lina sustentar o olhar de Penelope. Ela fez uma pausa,
     para que suas palavras tivessem mais efeito. Lina se lembrava de ter ouvido
     Penelope caoar de Elizabeth por ser to certinha em mais de uma ocasio e, por
     isso, respirou fundo e decidiu continuar.
           -- Era humilhante ter de servir a ela...
           Assim que a frase saiu de sua boca, Lina desejou no t-la dito. Ela abaixou
     os olhos, mas logo os ergueu novamente.
           -- Quero dizer, a elas. Estou feliz por ter sado de l. De verdade.
           -- Sabe...
           Penelope fez um biquinho. Ela tambm parecia estar pensando nas palavras
     que deveria empregar. A carruagem deu uma guinada brusca para desviar de um
     mendigo que estava no meio da rua e as duas meninas se seguraram, sem tirar os
     olhos uma da outra.
           -- Eu creio... - enunciou Penelope cuidadosamente - que ns temos
     antipatia pela mesma pessoa.
           Lina sentiu uma onda de alvio. Ela no se enganara.
           -- Est me dizendo que ns detestamos o mesmo membro da famlia
     Holland?


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           A voz de Lina estava mais enrgica agora, mas ainda falhou quando ela
     usou o verbo "detestar". Seu corpo balanou com o movimento da carruagem.
           -- Sim - disse Penelope, mexendo levemente os cantos da boca. -  isso
     mesmo que eu estou dizendo.
           Lina se recostou no banco e voltou a examinar a aspereza de suas mos. Ela
     estava impressionada com a rapidez com que encontrara uma soluo para seus
     problemas, mas no queria se precipitar e estragar tudo.
           -- Acho que entendi - respondeu ela com cautela. - E acho que o que sei lhe
     interessaria muito. Mas, como pode ver, estou completamente desamparada.
     Preciso de um... gesto de confiana. Para saber que estarei fazendo a coisa cerra
     em lhe contar.
           --  claro.
           Penelope pegou a mo bruta de Lina com suas mos enluvadas. Lina j
     tocara muitas coisas finas na manso dos Holland,  claro, mas mesmo assim
     ficou impressionada com a maciez daquela luva de camura.
           -- Mas me diga mais ou menos do que se trata primeiro - pediu Penelope.
           Lina j guardava aquele segredo h tanto tempo que no conseguiu se
     controlar e disse a verdade de uma s vez.
           -- Elizabeth no  mais virgem.
           Penelope estreitou os olhos, deu uma risadinha e balanou a cabea.
           -- Tem certeza de que est falando de Elizabeth Holland?
           -- Eu tenho provas.
           Lina colocou a mo no bolso do casaco e tirou o bilhete de Will de l de
     dentro. Ela entregou-o a Penelope, que examinou a marca d'gua at ter certeza
     de que o papei era mesmo o usado por Elizabeth e leu-o duas vezes.
           -- Quem  Will Keeler? - perguntou Penelope, atnita.
           Lina foi sacudida de um lado para o outro quando a carruagem passou por
     uma parte esburacada da rua.
           -- Ele ... ele era o cocheiro dos Holland.
           Penelope mordeu o lbio e emitiu um som do fundo da garganta, que
     indicou que estava achando graa na situao.
           -- Voc deve estar brincando.
           -- No estou - disse Lina, balanando a cabea com vigor e pensando como
     seria melhor para ela se tudo aquilo fosse mesmo uma piada. - Eu a vi entrando
     no quarto dele tarde da noite e saindo s de manh. Em muitas noites eu ia ajud-
     la a se preparar para ir para a cama e ela havia desaparecido.
           -- Desde quando?
           Penelope ainda estava usando um tom ctico, mas seus olhos comearam a
     brilhar. Era bvio que aquela novidade a deixara radiante.
           -- No sei quando foi que comeou, mas tenho certeza de que tem algum
     tempo. E ainda estava acontecendo at muito recentemente. Tenho certeza de que
     eles ainda estavam envolvidos na sexta passada, quando Will foi embora.
           Penelope se recostou no couro confortvel de sua carruagem.
           -- Lizzie ainda tem a capacidade de me impressionar - disse ela. - Ela deve
     ter querido morrer. Em geral,  ela quem gosta de bancar a difcil.
           Penelope abriu os lbios vermelhos num sorriso, revelando dentes brancos e
     perfeitos.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DHI
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           -- Apaixonada por um menino pobre! Desculpe, no quis ofender.
           -- No ofendeu.
           Lina tossiu, cobrindo a boca com a mo. Ela se perguntou se era mesmo
     verdade o que Penelope dissera sobre Elizabeth gostar de bancar a difcil, e se
     fora assim que ela conquistara Will. Afinal, ele jamais teria sido capaz de se
     casar com ela ou namor-la oficialmente. Talvez fosse aquilo que o atraa.
           -- E no  s isso que eu sei sobre as Holland - disse Lina.
           --  mesmo? O que mais voc tem para me contar? - perguntou Penelope,
     inclinando-se para frente com olhos brilhando de excitaao.
           Lina balanou a cabea.
           -- Primeiro, preciso saber quanto a informao vale para voc.
           -- Oh, posso lhe assegurar que voc ser muito bem recompensada. Vou
     lev-la para um hotelzinho que conheo da rua Vinte e seis.  limpo, e voc
     poder permanecer incgnita l dentro. Vamos pedir um quarto para voc passar
     a noite. Virei encontr-la amanh. E por esse bilhete eu lhe darei...
           Penelope fez uma pausa e se afastou um pouco, como se estivesse avaliando
     Lina.
           -- Mil dlares - disse Lina, com a voz mais firme que conseguiu.
           A soma parecia-lhe mgica. Era o preo de um solitrio de diamante da
     Tiffany, de inmeros vestidos de gala, de carruagens. Era mais do que suficiente
     para poder encontrar Will, e era o bastante para conquist-lo com grande estilo.
           Penelope ficou em silncio conforme a carruagem atravessava a Avenida
     aos trancos e barrancos. Essa era muito mais engarrafada e fedorenta do que a
     Quinta, alm de ser mais barulhenta por causa dos trens que passavam acima. Por
     um segundo, Lina achou que pedira dinheiro demais e se deu conta de que
     revelara o segredo sem nenhuma garantia de que ia receber por ele. Mas ento
     Penelope deu de ombros e sorriu.
           --  bastante dinheiro - disse ela. - O que acha de quinhentos?
           -- Obrigada, senhorita. Muito obrigada.
           Lina relaxou e sentiu um calor se espalhando por seu corpo. Mil dlares era
     uma soma inimaginvel, mas quinhentos tambm era impressionante. Ela teria a
     chance de consertar tudo.
           -- Esse foi um encontro muito feliz para todos os envolvidos.
           A nova amiga de Lina piscou um olho de forma lenta e significativa.
           -- Foi mesmo.
           Algum instinto fez Lina arrancar o pedao de papel em que Will escrevera
     seu ltimo bilhete para Elizabeth da mo de Penelope.
           -- De qualquer maneira, vou ficar com isso at amanh. E talvez ainda
     possa lhe dizer mais algumas coisas. Se combinarmos o preo antes.
           Penelope no gostou de ver o bilhete longe de suas mos, mas, apesar de
     contrariada, ela assentiu.
           -- Ento, vou vir lhe trazer o dinheiro pessoalmente. Preciso desse bilhete
     amanh.
           Lina desejou saber por que ela precisava do bilhete to rapidamente e o que
     planejava fazer com ele, mas estava mais preocupada em como ia gastar todo
     aquele dinheiro. A menina que ela costumava ser teria usado-o para ir atrs de
     Will, mesmo sabendo que ele iria continuar apaixonado pela elusiva Elizabeth


                        Zwuxx
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     Holland. Mas aquela era a chance de Lina se reinventar e ela no ia repetir
     nenhum erro. Ia se transformar em algo mais brilhante e sedutor que Elizabeth
     Holland: numa mulher que chamaria a ateno de Will, e de quem ele jamais
     conseguiria tirar os olhos.




                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                              cz|t  DHK
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                          g|t x gܣ
                     Muitos ficaro atnitos se um belo rapaz solteiro que todos na cidade
                     conhecem e adoram no desfizer seu noivado em breve, revelando
                     quem  seu novo amor.

     NOTA DA COLUNA SOCIAL DO JORNAL NEW YORK NEWS OF THE WORLD
     GAZETTE, DOMINGO, 1 DE OUTUBRO DE 1899




          W                iana observou sua tia Edith comeando a descer a escadaria
                           principal da manso, com a cauda branca de seu vestido
                           arrastando-se atrs dela. Ela ajeitou seus cachos e praticou
     respirar com a barriga encolhida e os ombros jogados para trs. Estava usando o
     mesmo vestido listrado que usara na semana passada, quando Henry viera visit-
     las. Diana no se preocupara em colocar outra roupa porque havia planejado
     passar o dia no quarto, lendo um romance de Amle Rives. Mas agora seria
     impossvel troc-lo por outro,  claro. Ela no teria como explicar para a tia que
     precisava botar um vestido mais bonito para receber o noivo da irm.
           Quando Diana entrou na sala de estar, Henry levantou-se depressa, com
     certo constrangimento.
           -- Srta. Diana - disse ele, tentando esconder um sorriso.
           Diana atravessou a sala, desejando que tia Edith desaparecesse por apenas
     um minuto - o que ela no faria com aquele minuto! - e sentou-se ao lado de
     Henry. Naquela posio, sua tia poderia ver o lado direito de seu rosto, embora
     ela no conseguisse enxerg-la. Era naquela cadeira que Elizabeth estivera
     sentada ainda h pouco; Diana se deu conta disso ao ver o brao molhado e
     manchado de ch. Ela contraiu os lbios, mas eles estavam estremecendo,
     ameaando se abrir num largo sorriso. Ento, ergueu os olhos lentamente e
     encarou Henry. Ele parecia um pouco nervoso, pois sabia que os dois estavam
     sendo observados. Diana pousou as mos sobre o colo e disse, cheia de
     compostura:
           -- O tempo tem estado muito agradvel, sr. Schoonmaker, mas temo que v
     mudar em breve.
           -- A senhorita tem toda razo - respondeu Henry, tambm com um excesso
     de boas maneiras. - Quando estava entrando aqui, senti uma brisa gelada que
     considerei um pssimo pressgio.
           -- Oh! - exclamou Diana, piscando o olho para ele.
           Henry cruzou as pernas e mexeu num dos botes de seu colete. Ele estava
     com um terno cinza-escuro que deixava seus cabelos e olhos ainda mais
     fascinantes. Diana percebeu que Henry estava precisando de toda sua fora de
     vontade para no cair na gargalhada.
           -- E o senhor gostou das festividades de sexta-feira, sr. Schoonmaker?


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                            cz|t  DHL
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           Diana viu o canto esquerdo da boca de Henry se mexer e torceu para que
     aquela frase significasse para ele o mesmo que significava para ela.
           -- Ouvi dizer que o senhor estava bastante ocupado... no Elysian.
           -- Sim... - disse Henry lentamente. - Essa foi a noite mais divertida da
     semana passada. Comeou um pouco enfadonha, mas logo se mostrou
     particularmente... reveladora.
           Diana sentiu o rubor se espalhando sobre suas faces. Ela tentou
     desesperadamente pensar numa boa resposta, mas s conseguiu lembrar-se de
     Henry vendo-a seminua em seu quarto. Diana gaguejou por um minuto e ento
     disse a primeira coisa que lhe veio  cabea:
           -- E o que traz o senhor aqui hoje?
           Henry ficou srio de repente e ela se arrependeu de sua estupidez. Depois
     de ler todos aqueles romances, certamente deveria ter sido capaz de pensar num
     comentrio inteligente para fazer. J estava quase bolando um quando ouviu sua
     tia Edith dizer:
           -- Oh, foi um motivo muito bom. Conte a ela, sr. Schoonmaker.
           Diana olhou para Henry, tirando um cacho de cabelo da testa.
           -- O que foi? - perguntou ela, usando um tom mais agudo e infantil do que
     pretendera.
           Henry observou-a por alguns segundos, trancando o maxilar.
           --Talvez seja melhor a senhora contar - disse ele a Edith, com alegria
     forada.
           Diana percebeu que havia um machucado em sua bochecha esquerda. Ento
     a queda da trelia fora feia.
           -- No, sr. Schoonmaker.  melhor que o senhor conte.
           Henry se remexeu na cadeira, constrangido. Ele passou os olhos por toda a
     sala antes de voltar a fix-los em Diana. Ela achou que a temperatura houvesse
     subitamente cado. Estava olhando para Henry de forma to intensa, esperando
     que ele dissesse o que viera fazer ali, que achou que fosse ter uma dor de cabea.
           -- Sua irm e eu... ns decidimos... Elizabeth e eu... antecipar a data do
     casamento.
           -- A data do casamento?
           Diana baixou os olhos rapidamente. Uma data marcada significava que o
     casamento de Elizabeth e Henry era mesmo real e ela se deu conta de que, at
     aquele momento, no acreditara que ele fosse acontecer de verdade. Os dois
     estavam apenas noivos, eles no se gostavam, e Diana imaginara que as coisas
     iam ficar daquele jeito para sempre.
           -- Mas por qu? - perguntou ela, mal conseguindo proferir as palavras.
           Henry deu uma espiada em tia Edith e ento ficou olhando nos olhos de
     Diana por um longo tempo, sem dizer nada. Ela compreendeu. A brincadeira
     acabara e ela teria de parar com seus sonhos ridculos.
           --  mesmo maravilhoso - disse Henry, como se j houvesse explicado
     tudo e recebido o cumprimento de Diana.
           Ele falou bem alto, ansioso para disfarar o momento. Diana achou sua
     reao um pouco exagerada. Mas ela sabia que jamais tinha sido capaz de
     esconder o que sentia e podia imaginar a cara que estava fazendo.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DIC
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           -- Na verdade, eu preciso ir - disse Henry. - H muito a resolver se o
     casamento for ser mesmo daqui a uma semana. Preciso dizer a Isabelle que
     Elizabeth concordou em realizar a cerimnia no prximo domingo. Ela cuidar
     dos preparativos.
           Henry j estava de p, com um ar adoravelmente preocupado. Ele se
     moveu, bloqueando a viso de tia Edith e se inclinou de repente, tocando o
     pescoo de Diana com os lbios. Ento, ele se endireitou mais uma vez e disse,
     muito formalmente:
           -- Desejo-lhe uma boa tarde, srta. Diana.
           O breve toque de sua boca na pele dela causara uma srie de deliciosos
     tremores que agora irradiavam por seu corpo. Diana ficou imvel enquanto
     Henry se despedia de tia Edith. Ele foi embora rapidamente e ela ficou sozinha
     na sala onde todos os grandes momentos da famlia - alegres, tristes ou
     desesperadores - deveriam ocorrer.
           Diana se afundou na cadeira o olhou para o assento vazio onde Henry
     estivera. Foi ento que viu o livrinho de Walt Whitman que devia ter cado de
     seu bolso durante a visita. Ela pegou-o depressa e comeou a procurar seu poema
     preferido, pois gostou da idia de encontr-lo no livro de Henry. Mas no chegou
     a ach-lo, pois o marcador dele caiu no cho e l, escrita na j familiar caligrafia
     de Henry Schoonmaker, estava uma mensagem s para ela.

                      ix{ xxw t t v  }tv| wt
                                                        @
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                                         xA
           Diana olhou para a tia Edith, para ver se ela estava prestando ateno, e
     ento observou a sala de estar de sua casa. As inmeras antigidades, heranas de
     famlia e objetos de arte pareciam pequenos e plidos na luz do fim de tarde. Mas
     o forte pulsar de seu sangue, as batidas rpidas de seu corao e o local onde a
     boca de Henry lhe tocara - eles todos rebrilhavam. Diana achou que estava
     comeando a entender por que, em todos aqueles romances que j lera, as
     paixes mais inebriantes eram as proibidas.




                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                cz|t  DID
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          c                 enelope colocou uma roupa vermelha, como sempre fazia
                            em dias importantes. Esse vestido em particular era
                            vermelho vivo e o bordado das mangas de seu bolero era do
     mesmo tom. Ela encomendara o vestido de Paris para poder us-lo no outono e
     estava muito feliz com sua escolha. Graas a ele, Penelope se destacava no
     departamento de tecidos da Lord & Taylor, em meio a pilhas de musselina, seda
     e renda branca. Elizabeth estava usando um vestido azul-claro e por isso quase se
     misturava com os panos  sua volta, a no ser pelo fato de que sua roupa era de
     um algodo bordado simples.
           -- No h nada, na verdade - disse Elizabeth, suspirando e franzindo seu
     pequeno nariz para Penlope. - Gostaria que tivssemos tempo de ir a Paris.
           -- Vamos encontrar alguma coisa perfeita.
           Penelope viu Elizabeth se inclinando para examinar uma pea de renda de
     Alenon e lanou-lhe seu olhar mais furioso quando viu que ningum estava
     observando-as. Era inacreditvel que essa menina franzina e enjoada tivesse uma
     paixo secreta, e ainda por cima por um menino que morava num estbulo.
     Penelope ainda achava espantoso e um pouco fascinante que Elizabeth Holland, a
     garota que nunca dizia uma palavra errada, tambm tivesse desejos. Se as
     circunstncias fossem outras, ela teria querido ouvir todos os detalhes srdidos
     da histria. Mas era tarde demais para isso agora.
           -- Voc s est nervosa - disse Penelope, esforando-se mais para parecer
     solidria. - Por isso est achando tudo feio.



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DIE
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           -- Acho que voc tem razo - disse Elizabeth distraidamente, passando os
     dedos por sobre um corte de musselina de seda cor de marfim. - Vai ser o
     casamento mais horroroso de todos os tempos.
           -- Psiu! Vai ficar tudo divino, mais lindo at do que voc imagina. Mas,
     Liz, como voc est fazendo sem empregada numa semana to insana como
     essa?
           Penelope se aproximou de Elizabeth e tambm tocou o tecido incrivelmente
     bem trabalhado.
           -- Eu comentei isso com voc? - perguntou Elizabeth.
           Penelope temeu que, de to ansiosa por parecer simptica, tivesse revelado
     o jogo cedo demais. Mas Elizabeth estava obviamente com coisas demais na
     cabea para se preocupar com tais sutilezas.
           -- Poderia ter sido um desastre, mas a sra. Schoonmaker me emprestou
     duas criadas por essa semana - explicou ela. - E a menina que estava comigo, a
     Lina, era terrivelmente incompetente. Eu devia t-la demitido h muito tempo.
           Penelope se aproximou um pouco mais, deixando que seu ombro tocasse no
     de Elizabeth. Lina provara ser muito esperta ao pedir uma soma to espetacular
     por sua informao. Mas Penelope teria gastado at o dobro por aquele segredo
     escandaloso. Ela conseguira os quinhentos dlares facilmente, afirmando para o
     pai que queria doar o dinheiro para uma organizao que estava construindo um
     orfanato. E ento, para colocar Lina de volta em seu lugar, Penelope a deixara
     hospedada num hotelzinho que ficava numa rua cheia de bordis.
           -- Esse  muito bonito - disse ela.
           --  mesmo. Sr. Carroll!
           O costureiro estava andando freneticamente de um lado para o outro no
     departamento de tecidos, pegando tudo que Elizabeth pudesse considerar
     interessante. A ideia de preparar todas as roupas do casamento em uma semana o
     deixara quase enlouquecido, e Penelope no sabia se era Elizabeth ou o sr.
     Carroll quem estava mais nervoso. Ele veio correndo.
           -- Sim, senhorita? - disse ele, segurando com firmeza a fita mtrica que
     tinha em volta do pescoo e inclinando-se ansiosamente.
           -- O que acha deste aqui? - perguntou Elizabeth, passando a mo sobre
     uma seda branca brilhante. - Talvez com aquela renda belga que o senhor me
     mostrou mais cedo?
           -- Acho que ficaria des-lum-bran-te - replicou ele, fazendo um gesto
     elaborado com as mos pequenas.
           -- Pode separ-lo por enquanto? Vou olhar mais um pouco.
           --  claro, senhorita.
           O sr. Carroll pegou o corte e saiu, enquanto Elizabeth partia para a fileira
     seguinte. L fora, uma nuvem saiu da frente do sol e um raio de luz entrou pelas
     janelas em arco, atravessando o enorme cmodo que parecia ser o ptio de uma
     fbrica, com o cho feito de tacos simples de madeira e pilhas e mais pilhas de
     tecido enfileiradas. Penelope pigarreou.
           -- Liz, posso lhe fazer uma pergunta?
           Elizabeth deu um sorriso gentil.
           --  claro.
           -- Voc est... nervosa?


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DIF
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           -- Com que parte?
           Penlope fez questo de olhar em torno e fazer um ar envergonhado.
           -- Voc sabe... com a parte da noite de npcias.
           Elizabeth cobriu o rosto delicadamente com a mo, mas Penlope viu que
     ela no estava corando. Ela quase sentia mais afeio por Elizabeth agora que
     sabia que esta no era to terrivelmente perfeita.
           -- No muito - respondeu Elizabeth.
           -- Voc no acha que pode doer?
           -- No - disse Elizabeth, dando de ombros.
           Ela ento pareceu se dar conta de algo e acrescentou rapidamente:
           -- No sei por que, mas no estou com medo dessa parte. Talvez seja
     estranho...
           -- No to estranho - disse Penelope, encarando Elizabeth e deixando de
     lado o personagem que assumira ao longo da tarde. - Nem um pouco estranho, na
     verdade.
           Elizabeth corou violentamente. Suas pupilas se dilataram e por um longo
     momento as duas meninas no fizeram nada alm de se observar com ateno,
     piscando seus belos olhos.
           --  que eu no estava pensando nessa parte - explicou Elizabeth, na
     defensiva.
           -- No. E por que deveria? - perguntou Penelope num sussurro glido. -
     Afinal, j andou pondo esta parte em prtica com um de seus empregados, no
     foi?
           Elizabeth abriu a boca de espanto.
           -- No sei do que voc est falando - disse ela baixinho.
           O sol se escondeu mais uma vez atrs de uma nuvem e todo o imenso
     cmodo foi mergulhado na penumbra. Penelope revirou os olhos.
           -- Se quiser passar uma hora negando a verdade, tudo bem. Mas eu sei que
     voc j passou diversas noites com um cocheiro chamado William Keeler. E
     tenho provas.
           Penelope no conseguiu deixar de sorrir. Era divertido amedrontar
     Elizabeth daquele jeito.
           -- Que provas? - perguntou Elizabeth, completamente pasma.
           -- Um bilhete que ele escreveu para voc. Foi na noite em que deixou a
     cidade. Que adorvel - disse Penelope, fazendo um gesto indiferente. - Ele pede
     que voc v tambm, mas voc obviamente preferiu no atend-lo.
           -- Will deixou um bilhete para mim? - disse Elizabeth, franzindo o cenho.
           -- Ah, sim. Perdoe-me.  Will, no ?
           Elizabeth estava tremendo e seus olhos haviam se enchido de lgrimas. Ela
     uniu as mos.
           -- Penny, voc no pode contar isso para ningum.
           -- Jura? - disse Penlope, fazendo uma expresso falsa de amuo. - Por que
     no mesmo?
           -- Voc ainda est chateada por causa de Henry...
           -- Oh,  muito mais do que isso. Mas  verdade, minha querida amiga Liz.
     Eu ainda estou chateada. Henry era meu. Ns formvamos um casal magnfico. E
     ento, uma perversidade do destino destruiu tudo. No sei bem como foi que


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DIG
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     aconteceu. Mas agora sei que posso consertar o estrago. Vou arruinar sua
     reputao, Liz - afirmou Penlope, dando um sorrisinho malicioso. - Mas foi
     voc que fez tudo, meu bem. Eu s vou espalhar a notcia.
           O olhar de Elizabeth pousou sobre o cho de madeira um pouco gasta e ela
     continuou com as mos postas. A luz natural do cmodo fazia seu cabelo louro
     cintilar, dando-lhe um ar angelical que no abrandou a fria de Penelope. Ela
     mordeu o lbio inferior com seus dentes brancos e ergueu a cabea.
           -- Penny, ningum gosta de um escndalo.
           -- Eu gosto.
           -- Eu sei - disse Elizabeth baixinho, enunciando cada palavra. -  por isso
     que voc  voc... e eu sou eu. Mas ningum vai gostar mais de voc se fizer de
     tudo para me arruinar. Vai acabar com sua imagem.
           -- Ningum precisa saber que eu...
           -- E quando voc surgir um segundo depois tentando se casar com meu
     noivo? No seja tola, Penny.
           Elizabeth deu um passo para frente com firmeza e, por um segundo,
     Penelope vislumbrou a mulher de sangue quente que se escondia por detrs de
     uma mscara de perfeio.
           -- Penny? - disse Elizabeth.
           Ela ainda soava confiante, embora aquilo que queria e a extenso de seu
     desejo estivessem estampados em seu rosto.
           -- Posso ver o bilhete?
           Penelope atirou a cabea para trs e bufou impacientemente. Ela colocou a
     mo no bolso do casaco, pegou o bilhete e sacudiu-o na frente de Elizabeth por
     tempo suficiente para que ela reconhecesse seu papel de carta.
           -- Pode ficar com ele para sempre se fizer o que eu mandar.
           Penlope virou-se, exibindo suas costas cobertas de vermelho para
     Elizabeth, que deu um passinho tmido em sua direo.
           -- O que voc quer que eu faa?
           -- Encontre-me na minha casa na quarta-feira de manh, s dez horas.
     Tentarei pensar numa maneira de impedir que voc se case com Henry sem
     arruinar sua reputao.
           -- Mas eu...
           Penelope passou a mo por um corte de seda bordado com fios de prata e
     ouro e ento observou Elizabeth por cima do ombro, vendo que seus olhos
     estavam arregalados de fria e medo.
           -- Liz, voc no tem escolha.
           Uma fina camada de suor surgira na testa de Penelope e seu estmago se
     embrulhou. Estava na hora de ir. Ela tirou sua saia escarlate de cima dos ps e
     marchou para o elevador sem olhar para trs. Sabia que Elizabeth estaria na sua
     casa no horrio marcado, com a mesma expresso de desespero.
           Ao chegar numa fileira repleta de tecidos beges e cor de marfim, Penlope
     colocou a mo sobre uma escrivaninha e disse:
           -- Ah, Liz... - Ela se virou e encarou Elizabeth, lanando-lhe um olhar
     assustador. - Acho que voc vai ter de escolher seu vestido sem minha ajuda.




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                      g|t x V|v
                     Um comentrio sobre cores: tons de vermelho,
                     escarlate e cereja devem ser escolhidos com
                     muito cuidado, especialmente por jovens
                     mulheres que se preocupam com a impresso
                     que se ter delas.

           TRECHO RETIRADO DA LADIES'STYLE MONTHLY, SETEMBRO DE 1899




          a                   a tarde de seu primeiro dia de liberdade, Lina ficou
                              agradavelmente espantada ao pensar em todas as coisas
                              maravilhosas que poderia fazer para passar o tempo. Ela
     saiu do hotel onde estava hospedada na rua Vinte e seis e entrou na Sexta
     Avenida, ansiosa por comear sua nova vida. Agora que possua uma fortuna to
     extraordinria, no desejava mais evitar os olhares das pessoas de alta classe ou
     agradar a ningum com exceo de si mesma. E queria que tudo que fizesse fosse
     grandioso.
           Lina passara grande parte da manh dando detalhes sobre o romance de
     Elizabeth e Will para Penelope Hayes e tornando-o ainda mais escandaloso, para
     assim satisfazer sua nova benfeitora. Mas no contara a ela que a famlia Holland
     poderia estar pobre. Estava compreendendo melhor a maneira como Penelope e
     outras meninas lidavam com segredos e, agora que descobrira o quo valiosa
     podia ser aquela informao, decidira guard-la por mais algum tempo.
           Penelope dera a Lina algumas roupas e jias velhas em troca do bilhete e da
     histria sobre Elizabeth e Will. Os vestidos j haviam sado um pouco de moda,
     mas Lina no podia reclamar. A roupa preta de empregada ficara para trs. Ela
     passou cerca de uma hora experimentando suas coisas novas e finalmente
     escolheu um vestido vermelho de po. Penelope tinha dito que aquele era um de
     seus favoritos, mas que todos j a haviam visto usando-o na primavera passada.
     Mas os sapatos que Penlope lhe dera eram pequenos demais e Lina foi forada a
     colocar suas velhas botas pudas.
           Lina observou seu reflexo na vitrine de uma floricultura que ficava na
     esquina da rua Vinte e seis com a Sexta Avenida e admirou a forma como sua
     silhueta ficava no vestido vermelho. Ele havia sido especialmente desenhado
     para outro corpo, mas mesmo assim ficara bem nela. Seu nariz arrebitado e cheio
     de sardas e seus lbios grossos no seriam considerados belos pela alta
     sociedade,  claro, mas Lina ergueu o queixo e teve certeza de que possua
     alguma beleza. Era uma grande vingana poder usar seu talento para fazer
     penteados nela prpria.
           Lina tinha certeza de que, no futuro, quando Claire visse o nome de sua
     irm caula das colunas sociais, acima do nome de Elizabeth Holland,


                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DII
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     consideraria o dia em que ela fora mandada embora uma ocasio feliz. Will
     tambm veria seu nome no jornal,  claro. Lina ficou deliciada ao imaginar a
     surpresa dele em ver como a velha Liney ficara rica e famosa. Ele viria procur-
     la, com os olhos brilhando de admirao, e lhe diria o quanto sentira sua falta.
     Era assim que Elizabeth Holland conquistava coraes: nunca correndo atrs,
     sempre bancando a difcil. Fora isso que Penelope dissera.
           Lina sorriu para sua imagem na vitrine, que parecia estar mudando a cada
     segundo, e ento decidiu ir para o lado leste da cidade, passando pelas lojas de
     chocolate e pelos alfaiates com seus toldos listrados, aproximando-se cada vez
     mais de sua velha vizinhana. Logo, ela estava na Quinta Avenida. Estava no
     territrio de Elizabeth mais uma vez, a poucos quarteires da manso dos
     Holland, mas sua vida de empregada parecia ter sculos. Ao atravessar o parque
     na Madison Square, Lina viu o arco do triunfo que havia sido erguido em
     homenagem ao almirante Dewey e sua colunata. Atrs dela, a coluna do Madison
     Square Garden se erguia bem no alto - ela sabia que Will j estivera ali uma ou
     duas vezes, para ver algum jogo. Foi ento que Lina avistou, do outro lado da
     rua, o Fifth Avenue Hotel, um dos locais onde as meninas Holland iam tomar ch
     com sua tia. Ela lembrou que era isso que as senhoras de classe faziam quando
     no havia nenhum outro compromisso - tomavam ch. Lina observou o edifcio
     de mrmore branco de seis andares, com suas janelinhas quadradas, e considerou
     aquilo um sinal. Ela desamassou seu vestido vermelho.
           A Avenida estava cheia de carruagens, bondes e homens usando chapus.
     Lina ia apenas beber um ch, mas sentia-se como se estivesse sendo apresentada
     formalmente  alta sociedade. Pela primeira vez na vida, iam servir a ela, e no o
     contrrio. Lina se perguntou se ia encontrar com Elizabeth, talvez fazendo um
     intervalo entre uma compra e outra na Lord & Taylor que, afinal, ficava a meros
     trs quarteires dali. Como Elizabeth ficaria chocada ao descobrir que ela no era
     mais Lina Broud, a criada. Agora era Lina Broud - Carolina Broud - uma mulher
     com quinhentos dlares na bolsa e um futuro maravilhoso peia frente.
           Lina atravessou a Avenida, pegando a saia nas mos para que ela no
     arrastasse na sujeira. Ela passou pela multido de carregadores que estava parada
     na porta do hotel e entrou no lobby, passando os olhos pelos suntuosos tapetes e
     sentindo o cheiro delicioso de caf e flores frescas. Lina j estivera ali antes, mas
     sempre fazendo alguma coisa para a famlia Holland. Certa vez, ela at
     vislumbrara a redoma de vidro que havia no salo de ch, sob a qual eram
     exibidos os bolos disponveis no cardpio. Lina deu um passo na direo do salo
     e viu um dos atendentes do hotel vindo falar com ela.
           -- Boa tarde, senhorita... - disse ele, mas ento parou de falar subitamente.
           O homem olhou para o vestido, para os ps e para o rosto de Lina e ela, que
     h poucos segundos estava plenamente confiante, sentiu-se muito envergonhada.
           -- A senhorita est hospedada no hotel? - perguntou o atendente.
           -- No - admitiu Lina com um pouco de tristeza. - Estou na West Side Inn,
     que fica na rua Vinte e seis...
           Ela no teve coragem de continuar, pois viu que o homem estava olhando
     de novo para seus ps. Lina olhou para baixo; ainda estava segurando o vestido e,
     com isso, suas botas velhas estavam completamente  mostra. O atendente fez



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     um gesto para um outro homem, que estava usando um uniforme igual, e ele se
     aproximou.
           Lina olhou em torno e se deu conta de que as senhoras que atravessavam o
     lobby estavam acompanhadas por outras mulheres ou por um de seus criados. Ela
     se perguntou como podia ter achado que conseguiria passar por uma menina de
     alta classe to facilmente e em to pouco tempo. O primeiro atendente estava
     olhando para ela e sussurrando algo para o segundo, que olhava com nojo para
     suas botas.
           -- Com licena - disse o segundo atendente. - Voc veio encontrar algum
     aqui no hotel?
           -- No - respondeu Lina, arrasada.
           -- Ento vamos ter de lhe pedir para sair - disse o primeiro atendente com
     um sorriso de desprezo inteiramente desnecessrio, pois Lina j estava se
     sentindo bastante humilhada.
           Ela gostaria de ter desaparecido naquele segundo, s para poder se afastar
     do olhar de escrnio dos dois atendentes. Lina aproximou-se da porta e correu
     para a rua, ouvindo o vestido vermelho farfalhar em suas pernas. Ela decidiu
     entrar na Broadway, no local onde esta cruzava a Quinta Avenida, formando um
     tringulo. Continuar a descer aquela avenida s serviria para lembr-la do quanto
     fora tola. Lina estava andando to depressa que mal via o que estava  sua volta e
     por isso levou um susto ainda maior quando bateu com fora no peito de um
     homem.
           -- Perdo, senhorita.
           Lina reconheceu imediatamente o homem em quem esbarrara, mas levou
     alguns segundos para acreditar que ele estava falando com ela com tanta
     educao. Era o vendedor da Lord & Taylor, aquele que Claire declarara ser
     bonito. Aquele que era contratado especialmente para seduzir as jovens da alta
     sociedade - algo que Lina no era.
           -- Sinto muito - disse ela, abaixando os olhos.
           -- No, sou eu quem lamenta - afirmou o rapaz timidamente.
           Ele estava usando uma camisa social bege clara e um colete de seda
     marrom e seu palet estava pendurado no brao. Lina achou-o ainda mais belo do
     que da primeira vez em que o vira, o que tornava ainda pior o fato de que ela no
     conseguia imaginar nada para dizer. Ela ficou olhando estupidamente para seus
     olhos cor de mel.
           -- Provavelmente vai considerar grosseiro da minha parte dirigir-me 
     senhorita desta maneira, mas creio conhec-la de algum lugar. Talvez tenha tido
     o prazer de atend-la na loja de departamentos Lord & Taylor?
           Lina sorriu instantaneamente. Pelo menos uma pessoa no mundo no a
     considerava uma criada.
           -- Ou talvez tenha visto seu retrato no jornal?
           O rapaz da Lord & Taylor estava sorrindo tambm. Ele tinha um nariz
     longo e um vestgio de barba no queixo e era muito mais alto do que Lina.
           -- Talvez uma meno sua, relacionada a algum baile?
           Lina deu de ombros evasivamente. Aps ter sido expulsa do hotel, ela
     sentiu que precisava tomar muito cuidado para no cometer erros. Mas no



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     queria que aquele momento acabasse. Ser confundida com uma dama, e ainda
     por cima por um rapaz to bonito e gracioso, era bom demais.
           -- A senhorita no est sozinha, est? Seus pais ainda esto no hotel?
           Lina olhou para o prdio de mrmore e ficou feliz ao ver que nenhum dos
     dois atendentes estava na porta.
           -- Oh... no. Estou hospedada aqui sozinha.
           -- A senhorita me parece to familiar... - disse o rapaz de novo, virando o
     rosto para poder observ-la melhor.
           Lina no conseguiu se controlar e continuou sorrindo alegremente.
           -- Acho que  um mistrio - disse ela.
           -- Bem, a senhorita se incomoda se eu tentar me lembrar um pouco mais?
     Talvez possamos tomar um drinque juntos.
           Lina corou sem querer.
           -- Ah, sei que no parece correto, mas a senhorita no ser a primeira
     garota chique que vai comigo para partes menos luxuosas da cidade. Prometo
     devolv-la sem um arranho.
           -- No  isso - disse Lina, sentindo-se desconfortvel de novo e temendo
     revelar sua identidade verdadeira. -  que eu j estou envolvida com algum -
     explicou ela, lembrando que toda aquela metamorfose, ou pelo menos a maior
     parte dela, era especialmente para Will.
           -- No tem importncia - disse o rapaz, dando um sorriso malicioso. -  s
     por uma tarde. E eu prometo no contar a ningum.
           Lina pensou em Will mais uma vez e desejou que ele estivesse ali
     cortejando-a no lugar do vendedor. Mas tambm desejou que esse momento
     maravilhoso durasse mais um pouco.


                                                ***
           Quando os olhos de Lina se acostumaram com a penumbra, ela viu um cho
     repleto de serragem e paredes cobertas por folhas de jornal. Garonetes mais
     novas do que ela iam de mesa em mesa carregando canecas de cerveja. Havia
     uma mulher gorda num dos cantos cantando uma musica chamada Old Folks at
     Home, que Lina j ouvira Claire assobiar. Embora ainda fosse de tarde, a cena
     dentro do bar achar que a noite cara de repente.
           -- Bem diferente da Quinta Avenida, no ? - comentou o rapaz da Lord &
     Taylor.
           Lina assentiu e ento se deu conta de que cometera um erro: ela no comera
     nada o dia todo e estava se sentindo um pouco tonta. Alm disso, todo o dinheiro
     que Penelope lhe dera estava guardado na bolsinha de seda que levava debaixo
     do brao. E ali estava ela, num bar no Bowery, uma regio famosa por seus
     bares, casas de penhores, bordis e pessoas perigosas.
           -- Como  mesmo seu nome? - perguntou ela.
           -- Tristan Wrigley.
           Lina reparou que o cabelo claro do rapaz estava um pouco desgrenhado e
     ele sorriu com uma expresso enrgica que ela no compreendeu inteiramente.
           -- E o seu? - perguntou Tristan.


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           -- Carolina Broud.
           Lina gostou do som de seu nome completo e sorriu. Arrependeu-se de no
     ter expandido o sobrenome tambm, afirmando se chamar "Carolina Broudhurst"
     ou "Carolina Broudwell".
           Tristan fez um gesto para o barman e em poucos segundos duas enormes
     canecas de cerveja preta surgiram diante deles e a espuma derramou sobre o
     balco.
           -- Perdoe-me se no paro de olhar para a senhorita. Mas  que tenho
     certeza de que nos conhecemos antes, mas seu nome no me soa familiar...
           -- No faz muito tempo que fui apresentada  sociedade.
           Lina tomou um gole de cerveja e no soube dizer se gostara ou no. Ela
     nunca tinha tomado aquilo, s bebera um pouco do usque de Will algumas
     vezes, e achou que parecia algo estragado. Mas Lina se lembrou de que uma das
     empregadas da cozinha um dia lhe dissera que, se no havia comida, uma cerveja
     e um cigarro eram quase to bons quanto. Ento, ela bebeu mais um pouco e
     disse:
           -- Eu devo me parecer com muitas outras meninas.
           -- Nem um pouco.
           Tristan deu aquele sorriso de novo. Era um sorriso diferente de todos os que
     Lina j vira e ele a fazia sentir feliz, aquecida e tambm um pouco culpada.
           -- A senhorita  muito bonita, srta. Broud.
           -- No v tendo nenhuma ideia, sr. Wrigley - avisou ela. - J disse que
     estou envolvida com algum. Ele est no oeste do pas tentando fazer fortuna,
     mas isso no significa que...
           -- Ah, j entendi - disse Tristan alegremente, piscando um olho e fazendo
     uma expresso parecida com a de Will. - Seu namorado no tem dinheiro o
     suficiente para deixar seus pais felizes e por isso est tentando ganhar uns
     trocados para poder obter sua mo.
           Lina ficou lisonjeada ao ouvir aquilo e desejou que fosse verdade. Ela corou
     e Tristan pareceu compreender que devia mudar de assunto.
           -- Aposto que a senhorita nunca viu um lugar como esse - disse ele,
     virando-se para trs e observando o cmodo longo, que tinha um telhado baixo
     feito de estanho. - Est vendo aquele homem de cartola?
           Lina seguiu o olhar dele e viu um homem de estatura mediana com um
     nariz amassado e olhos pequenos. Ele estava sentado numa mesa, cercado de
     mulheres que lhe pareceram estar quase to bem vestidas quanto ela.
           -- Aquele feio? - perguntou ela.
           Tristan riu.
           -- Aquele  Kid Jack Gallagher. Matou um homem a socos h dois dias.
     Foi uma luta longa e o oponente dele nunca tinha sido derrotado por ningum.
     Bom, at ento,  claro.
           -- Se ele  um assassino, porque aquelas moas bonitas esto lhe dando
     tanta ateno? - perguntou Lina, observando as mulheres em volta de Kid Jack.
           -- No so moas bonitas. So putas. E esto ali porque sabem que ele
     ganhou muito dinheiro com a luta.
           -- Ah.



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           Tristan ergueu sua caneca e jogou a cabea para trs, bebendo todo seu
     contedo. Ele olhou para Lina de forma um pouco selvagem.
           -- Quer tentar?
           Lina sorriu. Sempre gostara de um desafio. Ela jogou a cabea para trs e
     tomou toda a cerveja de uma s vez. Quase se engasgou, mas conseguiu. Tristan
     fez outro gesto para o barman.
           -- Tome mais uma - disse ele, mostrando as duas novas canecas que
     haviam surgido.
           -- Se o senhor insiste - disse Lina, olhando para sua segunda cerveja.
           Ela j estava bastante tonta, mas adorara o fato de que Tristan lhe
     considerava uma mulher da sociedade que enveredara por um mau caminho.
     Alm do mais, no queria voltar para o hotel e ficar sozinha naquele quarto
     coberto por um papel de parede velho e com vista para outro prdio.
           As horas se passaram. Lina inventou diversas historinhas sobre si mesma
     para contar a Tristan, sempre tomando cuidado para no dar muitos detalhes. Ele
     ouviu tudo com grande interesse. Ela bebeu mais trs cervejas e, quando se deu
     conta, estava quase caindo do banquinho em que se sentara.
           -- Ei - disse Tristan gentilmente, ajudando-a a se endireitar. - Tome
     cuidado.
           -- Obrigada.
           Lina deu uma risadinha, colocou a mo sobre a boca e arrotou, dando um
     sorriso bobo para o homem que estava sentado ao seu lado.
           -- Sabe, Christian - disse ela, apertando os olhos para ele e perguntando-se
     se o nome que dissera estava correto. - Gosto de voc. No tanto quanto gosto de
     Will. Jamais poderia amar outro homem alm dele. Mas gostei de conversar com
     voc.
           Tristan pegou a mo de Lina e beijou-a.
           -- Acho que finalmente lembrei quem voc .  amiga de Adelaide
     Wetmore, e foi comprar broches na loja h duas semanas.
           Lina riu e balanou a cabea.
           -- Talvez uma das netas do comodoro Vanderbilt?
           Lina ergueu as sobrancelhas ao ouvir essa sugesto, mas teve de balanar a
     cabea de novo.
           -- Ento, talvez eu esteja reconhecendo-a porque a senhorita est envolvida
     no casamento de Elizabeth Holland e Henry Schoonmaker?
           Ao ouvir aquele nome, Lina parou de sorrir.
           --  isso, no ? Voc  uma das amigas de Elizabeth Holland?
           -- As Holland - disse ela, furiosa. - A famlia toda  horrvel.
     Principalmente Elizabeth.
           --  mesmo? Ela sempre me pareceu muito educada.
           Lina balanou a cabea com nojo. Ela lembrou que, se Elizabeth no tivesse
     enganado Will e roubado seu amor, ele estaria apaixonado por ela.
           -- Ela  assim em pblico. Mas quem a conhece sabe bem que ela 
     insuportvel.
           Lina parou de falar, concluindo que j revelara demais. Ento, ela se
     recordou de que o homem com quem estava conversando cobrara contas de seus
     ex-empregadores.


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           -- Alm do mais, eu sou muito mais rica do que os Holland.
           --  mesmo? - disse Tristan, colocando lentamente sua caneca sobre o
     balco. - as os Holland so uma famlia to antiga.
           -- Mesmo assim - disse ela orgulhosamente, sabendo que estava sendo tola,
     mas incapaz de parar. - Eu poderia comprar todas elas.
           -- Srio? E o que faria com elas se as possusse?
           -- Eu as obrigaria a esfregar o cho da minha casa, a remendar minhas
     meias e a comprar lrios de uma cor muito especfica para mim - disse Lina,
     adorando aquela fantasia.
           -- Parece trabalho demais para as Holland - disse Tristan com um olhar
     maroto.
           -- Ah, voc no as conhece. Famlia horrvel. So umas princesinhas.
     Principalmente Elizabeth - disse Lina, tomando um gole de cerveja - Gostaria
     que ela morresse.
           -- Posso dar um jeito - afirmou Tristan, inclinando-se para frente. - Sei que
     quem me v com esse terno e esse jeito de falar pensa que no combino com
     pessoas como Kid Jack Gallagher. Mas se voc quiser fazer Elizabeth Holland
     desaparecer...
           Tristan ergueu uma de suas sobrancelhas louras. Lina deixou sua caneca
     cair pesadamente sobre o balco, desconcertada com essa mudana de assunto.
     Ento, ela olhou para Tristan - que estava srio agora, mas que estivera to alegre
     a tarde toda - e percebeu que ele devia estar brincando. Ela colocou a mo na
     frente da boca e deu uma risadinha. Era terrvel rir daquilo, mas havia uma certa
     graa na ideia de Elizabeth sendo assassinada por um dos rapazes que
     costumavam entregar seus vestidos. Alm disso, era s uma fantasia.
           -- Ia ser bem feito - disse Lina aps parar de rir.
           -- Vamos brindar a isso, Carolina - disse Tristan, batendo sua caneca na
     dela.
           Logo, o mundo todo pareceu estar embaado; os rostos das pessoas em
     torno ficaram distorcidos e a msica ficou mais alta. O brinde com Tristan foi a
     ltima coisa de que Lina se lembraria no dia seguinte.




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          X              lizabeth acordou cedo na tera-feira e no conseguiu
                         adormecer de novo, embora tenha ficado grata pelo pouco que
                         dormira. Ela passara a noite inquieta e rodeada por fantasmas.
     No teve energia para escolher uma roupa nova e por isso colocou o mesmo
     vestido que usara no dia anterior, o vestido de algodo bordado com decote
     quadrado e mangas trs-quartos franzidas. Ainda faltava muito para a hora do
     caf da manh quando ela terminou de ser vestir. Mas, de qualquer maneira,
     Elizabeth no estava com fome, e por isso foi para a saleta que havia no terceiro
     andar. Era ali que as mulheres da famlia Holland escreviam suas cartas e
     guardavam sua correspondncia.
           A coisa mais importante que Elizabeth encontrou no cmodo foi uma pilha
     de tecidos da Lord & Taylor que deviam ter sido entregues na tarde do dia
     anterior. A saleta era mais simples que o resto da casa, com o cho feito de tacos
     largos de madeira escura e uma cornija de metal sem adornos na lareira. O papel
     de parede era marrom com folhas de veludo. Os metros e mais metros de
     musselina de seda e renda belga cintilavam na escrivaninha do canto do
     aposento. L havia tambm um bilhete do sr. Carroll, pedindo que ela lhe
     dissesse se aprovava os tecidos e afirmando que seu assistente passaria ali de
     tarde para apanh-los e lev-los para sua loja na rua Vinte e oito. Mas Elizabeth
     no estava com cabea para aquilo. O que ela desenhava, mais que tudo, era
     poder conversar com seu pai.
           As cartas que Edward Holland enviara para sua filha mais velha ficavam
     guardadas em diversas das pequenas gavetas de uma enorme armrio de mogno.
     Elizabeth recebera envelopes brancos com selos do Japo, da frica do Sul e do



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     Alaska, e mantinha todos organizados por data, amarrando as cartas de cada ms
     com uma fita azul-clara. As cartas de seu pai estavam repletas de observaes
     sobre povos estrangeiros e ideias sobre o que era ter dignidade pessoal. Edward
     Holland viajara muito. Ele dizia que o fazia por causa dos negcios, mas na
     verdade quisera ver o mundo.
           Elizabeth abriu uma das gavetas e tirou um punhado de cartas. Mesmo antes
     de seu pai morrer, ela criara o hbito de vir at a saleta e escolher uma de suas
     cartas a esmo, buscando conselhos ou sabedoria. Agora, precisava disso mais do
     que nunca e, por isso, fechou os olhos e percorreu as margens abertas dos
     envelopes brancos com a ponta de seu belo dedo. Quando escolheu um, Elizabeth
     abriu os olhos e viu as letras longas e inclinadas desenhadas por seu pai. Ela
     pegou o envelope e releu o bilhete, que devia ter vindo junto com um presente
     qualquer.
           -- "Lembre-se sempre de ser verdadeira" - leu ela num sussurro. -
     "Verdadeira e honesta como a menina que eu conheo to bem."
           Elizabeth sentiu a vergonha se espanhando por seu corpo. Enti era isso que
     seu pai lhe diria se estivesse vivo. Ela fechou os olhos e pensou no quo mal as
     palavras "verdadeira" e "honesta" lhe descreviam naquele momento. Mas talvez
     ainda houvesse tempo para mudar isso.
           Elizabeth se virou, atravessou o corredor e entrou no cmodo que servira de
     escritrio para seu pai, segurando o bilhete.
           Agora, aquele aposento era usado por sua mo todas as manhs, onde ela
     examinava as contas cada vez mais numerosas da famlia e lia os jornais, como
     se esperasse encontrar uma maneira de reaver sua fortuna. Elizabeth encostou o
     rosto na porta e bateu.
           Ningum respondeu. Ela esperou alguns segundos e entrou, pisando leve.
     Ali estava sua me, vestida de negro e sentada  grande mesa de carvalho com
     tampi de couro vinho onde seu pai costumava escrever. Os cabelos da sra.
     Holland, que estavam sempre muito bem presos e muitas vezes tambm cobertos
     por um chapu, caam-lhe pelos ombros. Eles eram do mesmo tom de castanho
     que os de Diana, mas tinham alguns fios brancos. A sra. Holland olhou para cima
     e desejou bom dia para a filha.
           -- Mame, preciso falar com a senhora sobre esse casamento - disse
     Elizabeth, entrando no aposento na ponta dos ps.
           A sra. Holland assentiu, indicando que ela podia continuar a falar, mas no
     tirou os olhos da carta que tinha nas mos.
           -- Tenho pensando nas coisas que papai desejava para ns, na maneira
     como ele vivia sua vida e como esperava que vivssemos a nossa. Estava lendo
     suas cartas esta manh e encontrei uma na qual ele me pedia para ser sempre
     verdadeira e honesta. Casar com Henry Schoonmaker me impediria de ser ambas
     as coisas.
           Elizabeth esperou que sua me dissesse alguma coisa, mas ela nem se
     moveu.
           -- Acho que papai gostaria que eu me casasse por amor - disse ela, com a
     voz trmula. - E, embora eu fique muito lisonjeada com o interesse do sr.
     Schoonmaker e saiba que ele  uma pessoa muito importante, sei que no o amo,
     nem um pouco. E acho que nunca amarei.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DJG
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           A sra. Holland se recostou na cadeira de carvalho e couro em que estava
     sentada, mas mesmo assim no olhou para sua filha.
           Ela comprimiu os lbios, mas no fez qualquer outro movimento. Embora a
     sra. Holland nunca houvesse sido bonita e houvesse envelhecido muito desde a
     morte do marido, Elizabeth podia discernir nela a menina que tanto
     impressionara seu pai quando ainda se chamava Louisa Gansevoort. Cada gesto
     seu demonstrava autoridade.
           -- Creio que devo ficar feliz com a desero de nossos funcionrios, j que
     no posso mais pag-los. Mas  doloroso, especialmente por ele ter sido o criado
     pessoal de seu pai.
           Elizabeth ficou to pasma com essa aluso a Will que disse a primeira coisa
     que lhe veio  cabea.
           -- O que voc est lendo, mame?
           --  uma carta, minha filha.
           -- De quem?
           -- De Snowden Trapp Cairns, que foi o guia de seu pai quando ele viajou
     para o Yukon, no Alaska.
           -- Oh - disse Elizabeth, lembrando vagamente daquele cavalheiro de
     Boston, que tinha cabelos louros e boas maneiras, apesar de gostar de passar o
     tempo escalando montanhas. - Ela  muito interessante?
           A sra. Holland largou a carta e olhou para cima. Seu olhar estava tranquilo
     e ela avaliou a filha de forma quase melanclica.
           -- Seria muito bom se voc pudesse se casar por amor, minha filha. Talvez,
     se seu pai no tivesse sido morto... - Ela fez uma pausa, franzindo os cantos da
     boca. - Mas no agora.
           -- Morto?
           Elizabeth sentiu uma dor fsica ao pronunciar aquela palavra. Toda sua
     confiana desapareceu, dando lugar para essa nova mgoa.
           -- Mas o papai teve um ataque cardaco quando estava dormindo!
           A sra. Holland fez um gesto de desespero.
           -- Essa foi a nica maneira possvel de contar a histria para vocs duas... e
     para todo mundo. Seu pai era jovem demais para ter um ataque cardaco. O sr.
     Cairns me diz nessa carta que ele se envolveu numa transao suspeita de terrar
     no Alaska pouco antes de sua morte. Essas pessoas no so educadas como os
     Holland. Garimpeiros no vm de famlias como a nossa. Em geral, eles so
     criminosos. E seu pai se envolveu nessa histria.
           Elizabeth achou que ia passar mal e precisou direcionar toda sua energia
     para no cair desmaiada.
           -- No importa mais, querida Elizabeth. Temo que seu pai tenha feito
     escolhar muito ruins na hora de investir sua herana. Ele teria gostado de v-la se
     casando por amor, mas no ficaria feliz em saber que sua famlia estava
     arruinada.  isso que voc quer? Que sua famlia fique arruinada?
           Elizabeth balanou a cabea devagar, aterrada. Ela estava sentindo as
     lgrimas surgindo em seus olhos e h dias no fazia outra coisa alm de chorar.
           -- timo, porque s h uma coisa a fazer. A vontade de seu pai seria v-la
     colocando sua famlia antes de voc mesma, Elizabeth.  o que pessoas como
     ns sempre fizeram.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                cz|t  DJH
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           A sra. Holland ergueu o queixo e levantou levemente a voz para deixar
     clara sua posio:
           -- Voc precisa se casar com Henry, Elizabeth. No vou mais consider-la
     minha filha se no o fizer.




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                              cz|t  DJI
                     http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=65618057



                         g|t x fxx
                     ftA Vt|t?
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                                                    g|t j|zx


          d            uando Lia Acordou, ela estava coberta de suor frio. Sua cabea
                       doa e havia um zumbido detestvel em seus ouvidos. Estava
                       numa cama, porm uma que era bem mais larga que a de seu
     quarto de hotel. O teto era de madeira sem qualquer pintura ou ornamento e s
     havia uma janela no aposento, estreita e suja, que dava para uma rua do centro da
     cidade. Lina tentou se lembrar de como viera parar ali, mas s se recordou de um
     bar escuro cheio de figuras embaadas e de suas risadas incontralveis. Um
     segundo depois ela se lembrou de Tristan, da cena em frente ao Fifth Avenue
     Hotel e do fato de que sara ontem com toda sua fortuna dentro da bolsa.
           Lina colocou a mo no peito e saiu correndo da cama. Ela ainda estava
     usando a angua e o espartilho que Penelope lhe dera e encontrou o resto de sua
     roupa empilhado na nica cadeira que havia no quarto. Sua bolsa estava acima do
     vestido, que fora muito bem dobrado, e todas as notas estavam l dentro. Havia
     um bilhete tambm.
           Lina leu a primeira parte do bilhete sem entender direito - do que ele ia
     cuidar, exatamente? Mas a parte dos sapatos estava bastante clara. As
     vergonhosas botas de Linas haviam desaparecido e, no lugar delas, surgira um
     par de sapatos de couro com saltos baixos, to belos quanto qualquer objeto das
     Holland. Por alguns segundos, Lina s consegiu se concentrar neles.
           Ela colocou-os e deu alguns passos pelo quarto, vestindo apenas a angua, o
     espartilho e seus sapatos novos. Nada jamais lhe cara to bem. Lina imaginou
     seu futuro como uma dama da sociedade, repleto de vestidos feitos sob medida e
     sapatos elegantes. Ela se casaria com Will Keeler, que j teria feito uma fortuna


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DJJ
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     no oeste do pas. Por alguns segundos, ficou deliciada, mas um raciocnio lgico
     surgiu em sua mente enevoada e todas as coisas boas que estava sentindo foram
     substituidas por uma imensa vergonha.
          Ela estava saltitando pelo quarto de um estranho, usando nada alm da
     roupa de baixo qua ganhara da ex-amiga de sua ex-patroa. Ontem, Lina tivera a
     chance de se comportar como uma moa de famlia rica, mas, em vez disso, se
     embebedara num lugar vulgar e agora estava ali, acordando num quarto estanho
     sem se lembrar direito do que acontecera na noite anterior. Lina sentiu desprezo
     por si mesma por ter se desviado tanto, e to rapidamente, do caminho que
     pretendia trilhar.
          Ela vestiu-se depressa, pegou a bolsa e o bilhete e saiu dali o mais
     rapidamente possvel, descendo por uma escada estreita e se perguntando como
     pudera se deixar enganar to facilmente. Tristan a confundira com uma dama,
     mas Lina acabara de perceber que estava muito longe de ser uma.




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DJK
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                         g|t x b|
                     Aparentemente, a srta. Elizabeth Holland perdoou seu noivo, o sr.
                     Henry Schoonmaker, por sua m conduta durante os festejos em
                     homenagem ao almirante Dewey, pos h rumores de que o casamento
                     foi antecipado para este domingo, oito de outubro. Devido ao tempo
                     escasso para os preparativos, dizem que os melhores floristas,
                     cozinheiros e costureiros da cidade esto trabalhando sem parar para
                     conseguir organizar o suntuoso evento.  muito provvel que a unio
                     das famlias Holland e Schoonmaker possa ser considerada como o
                     maior casamento do sculo XIX.

         NOTA DA COLUNA "GAMESOME GALLANT", DO JORNAL NEW YORK
     IMPERIAL, TERA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO DE 1899.



           -- O maior casamento do sculo XIX! - repetiu Penelope enojada.
           Ela estava caminhando devagar pela sala de estar, reservada apenas para
     seu uso pessoal, que ficava no segundo andar da manso de sua famlia. A tarde
     estava bonita e a cidade estava agitada. Penelope, que segurava seu cozinho
     perto do peito, beijou a cabea dele.
           --  uma certa hiprbole, voc no acha? - perguntou ela.
           -- Definitivamente  um certo exagero - respondeu Isaac, que fumava um
     pequeno cigarro fcsia. - E voc sabe que, em geral, eu gosto de exageros.
           -- Pelo amor de Deus - disse Penelope, revirando seus enormes olhos azuis.
     - Meu nome, e no o de Liz, deveria estar no jornal ao lado do de Henry. Ela me
     deixa furiosa.
           Penelope bateu o p no cho uma vez, voltou-se abruptamente e andou das
     janelas que davam para o oeste at as janelas que davam para o sul. Isaac cruzou
     suas pernas grossas e exalou um pouco de fumaa.
           -- Eu conheo o rapaz que escreve essa coluna. Ele se chama Davis
     Bernard.  primo de segundo grau da minha me ou qualquer coisa assim. Talvez
     ns pudssemos...
           -- Mas no importa, porque eu no estou noiva de ningum, estou?
           Penelope, que usava um vestido preto, estava sentindo calor e coceira, alm
     de estar impaciente com tudo e todos. Teve vontade de arrancar o estofado
     branco e dourado dos mveis da sala, mas ainda no perdera a cabea a ponto de
     destruir um bom brocado. Ela suspirou, voltou-se para Isaac e disse, mais
     controlada:
           -- Desculpe. No quis ser grosseira.  tudo to difcil... Ela praticamente
     me ameaou, sabia?
           -- Mesmo? Como?



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                           cz|t  DJL
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           -- Ela disse que se eu contasse a todos o que ela fez, isso tambm acabaria
     com a minha imagem - respondeu Penelope, voltando a quase gritar. - Com a
     minha imagem! Como se fosse eu que estivesse dormindo com o cocheiro!
           Isaac ergueu suas sobrancelhas claras e perfeitamente esculpidas.
           -- Ela tem razo - disse ele com cuidado. - Vai ser difcil para voc reaver
     Henry se estiver ligada  ruina de Elizabeth, ou parecer de beneficiar dela. A alta
     sociedade no gosta dos orportunistas.
           Isaac balanou o dedo de um lado para o outro. Penelope emitiu um som
     gutural e arregalou os olhos;
           -- Eu no sou uma oportunista! - lamuriou-se ela.
           Robber se remexeu, querendo pular para o cho, mas Penelope segurou-o
     com firmeza. Ela andou at onde Isaac estava e desabou no sof ao lado dele.
     Alguns segundos de um silncio constrangedor se passaram e ento Penelope
     continuou, com a maior tranquilidade possvel.
           -- Eu no vou suportar se ela ficar com ele. Entendeu? Precisamos de um
     plano, um plano perfeito, que acabe com esse noivado imediatamente.
           -- Ns vamos pensar em alguma coisa.
           Isaac coou a cabea de Robber e deu tapinhas carinhosos nos dedos longos
     de Penelope.
           -- Ela vai estar aqui amanh de manh. Como vamos conseguir pensar num
     plano em menos de vinte e quatro horas?
           -- Penny, voc sabe que eu sou muito vom nisso...
           -- Ela  to perfeita em tudo! - interrompeu Penelope, levantando-se e
     jogando Robber no colo de Isaac. - Todo mundo acha! E, enquanto isso, ela
     estava... fazendo voc sabe o que com os serviais.
           Penelope deu um sorrisinho quando algo lhe ocorreu.
           -- Ela provavelmente achava que estava fazendo a coisa correta para um
     cristo, entregando-se para quem mais precisava - disse ela.
           Isaac deu uma risadinha sadnica ao ouvir isso.
           -- E voc acha que ela vai aparecer amanh?
           --  claro. Ela deve estar apavorada. Eu estaria.
           Penelope riu sem alegria, cruzou os braos e continuou a andar de forma
     agitada por sobre o cho de nogueira negra.
           -- Voc devia ter visto a cara dela, Isaac. Parecia um fantasma, de to
     branca.
           Isaacbateu a cinza do cigarro no cinzeiro, que era mantido a um metro do
     ch por uma escultura de diversas ninfas banhada a ouro. Ele apoiou o queixo na
     palma da mo, pensativo.
           -- Bem... j um bom comeo.
           Penelope trincou o maxilar e cerrou os punhos, balanando-os no ar com
     frustrao.
           --  claro que  um bom comeo. Seria melhor ainda se pudssemos
     mostrar para todo mundo a piranha que ela . Assim, todos compreenderiam por
     que ela no pode se casar com Henry e tudo voltaria para o lugar. Mas
     aparentemente, isso seria ruim para a minha imagem.




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DKC
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           Penelope soltou um grito, atirou-se no cho e bateu nele com os punhos.
     Isaac se levantou do sof e pegou-a pelas axilas, obrigando-a a ficar de p. Ele
     abriu um enorme sorriso, fazendo suas bochechas gorduchas se moverem.
           -- Voc precisa se acalmar. Nunca vai conseguir o que quer se no puder
     controlar sua raiva.
           -- Eu sei!
           Penelope respirou algumas vezes, tentando lembrar que j virara o jogo a
     sei favor. Ela se apoiou em Isaac e os dois foram at as janelas que davam para a
     Quinta Avenida. L embaixo, carruagens passavam devagar, carregando
     passageiros que fingiam no estar observando os veculos ao lado e que s vezes,
     quem sabe, tambm olhavam para cima para ver se conseguiam deslumbrar a
     menina mais bela da cidade. Penelope virou de costas para a Avenida, mostrando
     a curva dramtica de sua coluna para os passantes. Ela detestava pensar que
     qualquer um deles pudesse consider-la uma pessoa fraca.
           -- E ainda por cima eles anteciparam esse casamento s para me
     enfurecer...
           -- Bem, tenho certeza de que no foi s para lhe enfurecer.
           Penelope olhou com dio para Isaac.
           -- No vou tolerar perder para Elizabeth! - berrou ela. - No quero que
     todos achem que uma idiota de uma dessas famlias velhas roubou meu
     namorado!
           -- Calma, minha querida - disse Isaac, massageando os ombros da amiga e
     usando um tom de voz bem doce. - No podemos ficar dando voltas dessa
     maneira. Precisamos pensar num plano at amanh. Temos as cartas certas na
     mo. S precisamos saber como vamos jogar. E vamos saber.
           Penelope pousou o rosto na lapela de Isaac e lembrou-se da cena na Lord &
     Taylor, tentando descobrir qual era a fraqueza de sua rival. Mas tudo o que viu
     foi o rosto de Elizabeth, com o queixo tremendo e os olhos repletos de tristeza.
     Ela continuava enlouquecida de raiva e por isso levantou mais uma vez, foi at o
     sof onde Robber estava deitado e pegou-o. O cozinho soltou alguns latidos,
     mas Penelope se recusou a larg-lo.
           -- Precisamos encontrar um jeito, Isaac. No vou aguentar perder. Prefiro
     ver Elizabeth morta ao v-la casada com meu Henry.




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DKD
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                                                      X|tux{
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                      yt@? t  x{ vxxt x tvxw| |A
             TRECHO DO DIRIO DE DIANA HOLLAND, TERA-FEIRA, 3 DE OUTUBRO DE
     1899.




             @X              nto foi mesmo nove da noite que voc quis dizer! -
                             exclamou Diana.
                                  Henry havia aberto o porto lateral para ela e os dois
     tinham atravessado um caminho de cascalho e entrado na estufa de teto de vidro.
     Aps fechar a porta, ele se virou e sorriu para Diana, fazendo-a esquecer
     instantaneamente de tudo que planejara dizer.
           -- Tive medo de que voc no entendesse - disse ele alegremente. - Mas
     no muito medo.
           Diana ainda estava segurando o marcador que encontrara dentro do livro de
     Walt Whitman e que agora estava no bolso de sua capa. Ela o lera diversas vezes
     no caminho, s para se certificar de que Henry Schoonmaker a convidara para
     visit-lo, e numa hora inapropriada para moas de famlia.
           A estufa cheirava a terra e flores e continuava to bela como naquela noite,
     h uma semana e meia. Eles passaram por folhas gigantescas e mudas raras e,
     quando chegaram do outro lado, Hanry abriu uma porta que dava num quartinho.
     O teto ali tambm era de vidro, mas fosco e mais baixo, e havia uma cama
     coberta por uma colcha feita  mo.
           -- Esse era o quarto do jardineiro - explicou Henry. - Mas ele comeou a
     namorar uma das costureiras de Isabelle, e agora eles esto casados e dormem
     juntos na casa. Ele me deixa us-lo de vez em quando.
           Diana se perguntou o que ele queria dizer com "de vez em quando" e o que
     queria dizer com "usar". Mas ficou absorta pela beleza do quarto. O ar era fresco
     por causa de todas as plantas e a iluminao vinha de lmpadas amarelas simples.
     No havia velas, incenso ou champanhe, sempre presente nas cens de seduo



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                cz|t  DKE
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     descritas nos folhetins. Eles pareciam estar distantes de tudo, num lugar remoto e
     belo.
           --  lindo aqui - disse ela.
           -- Para ser sincero, no achei que voc viesse. Afinal, a nica coisa boa que
     tenho  minha estufa - disse Henry provocando-a e fazendo-a se lembrar de como
     ele parecera diferente quando ela dissera essa frase. - Achei que ia querer vir,
     mas...
           -- Mas achou que eu no ia conseguir? Sou bastante engenhosa, Henry.
           Diana piscou para ele, que sorriu. Os dois estavam sorrindo sem parar. Ela
     tirou o capuz de sua capa e esperou que Henry viesse peg-la. Foi o que ele fez,
     desabotoando-a de cima para baixo e deixando Diana apenas com seu vestido de
     cambraia azul-marinho de bolinhas, que ela botara para no parecer que estava
     indo a nenhum lugar especial se fosse pega.
           -- Que bom - disse Henry.
             Ele olhou para Diana com admirao at que ela comeou a ficar
     vermelha. Ento, Henry botou os dedos na gola do vestido, onde ficavam os
     primeiros botezinhos brancos.
           -- Eu no queria estar muito bem-vestida, caso algum...
           Henry interrompeu-a com um logo beijo na boca. Ele enlaou-a e trouxe-a
     mais para perto, apertando seu corpo contra o dela e deixando a palma da mo
     em suas costas, o que causou uma sensao deliciosa em Diana. Foi um beijo
     molhado, com um ritmo prprio, que no acabava nunca. D iana temeu que a
     emoo fosse forte demais para seu corao inexperiente. Henry estava sorrindo
     quando finalmente se afastou dela, mas seu sorriso agora era mais gentil.
           Henry pegou o primeiro boto e virou-o entre os dedos. Diana deu um
     suspiro fundo que fez seu peito subir e descer. Ento, ele foi desabotoando um a
     um, at chegar em seu torso. A parte de cima do vestido de Diana caiu sobre sua
     cintura e ela ficou s com um chemise transparente lhe protegendo os seios.
     Diana pressionou um lbio contra o outro, tentando respirar mais devagar. Henry
     manteve os olhos fixos nela enquanto tirava seu vestido pela cabea. O vestido
     caiu ao cho e Diana ficou apenas com a roupa de baixo.
           Ela jogou a cabea para trs e seus olhos escuros brilharam.
           -- Ento voc me atraiu aqui para me arruinar? - disse, com a voz mais
     rouca do que o normal.
           Henry beijou o pescoo dela, no lado oposto ao que beijara no dia anterior e
     ento afastou os braos.
           -- No, prometo que no vou fazer isso.
           Diana tentou no demonstrar desapontamento. Henry deitou na cama e
     dobrou os braos atrs da cabea para fazer um travesseiro. Ele estava com uma
     camisa amarelo-clara e pareceu mais esguio do que nunca deitado ali.
           -- Chamei-a aqui para que voc pudesse me fazer todas as perguntas que
     quis fazer quando nos conhecemos. Qualquer pergunta, e juro que vou responder
     honestamente.
           Henry piscou o olho para Diana, o que a deixou mais tranquila, e ela ficou
     um pouco aliviada de no ter que fazer aquilo no que estava sempre pensando.
     Pelo menos, no por enquanto.
           -- Qualquer pergunta? - quis saber ela, sentando ao lado dele na cama.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DKF
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           -- Qualquer uma.
           Ele escolheu um cigarro da cigarreira dourada que deixara na mesa de
     cabeceira e acendeu-o. Diana pegou o cigarro, deu uma tragada e devolveu-o. Ela
     exalou, olhando para o teto, e ento o encarou.
           -- Muito bem... se posso fazer qualquer pergunta... ento me diga o que
     voc acha de mim.
           Henry deu uma risada e tragou o cigarro, pensativo.
           -- Acho que voc  a menina mais naturalmente adorvel que j vi. Tem
     uma expresso marota que voc faz que me d vontade de saber exatamente o
     que est passando pela sua cabea e ajud-la a colocar qualquer travessura em
     prtica. Gosto do seu jeito engraado de andar, e de como sempre parece grande
     demais para qualquer aposento. Para ser breve, srta. Diana - ele pegou a mo dela
     e beijou-a -, direi apenas que voc tem mais vida do que qualquer outra pessoa
     que conheo.
           Diana mordeu o lbio e sentiu o sangue lhe subindo s faces.
           -- Gostei dessa brincadeira - sussurou ela.
           -- Eu poderia passar a noite toda lhe elogiando, mas voc logo ficaria
     cansada. Faa outra pergunta.
           -- Voc j partiu mesmo inmeros coraes?
           Diana percebeu que a ala de seu chemise cara, deixando seu ombro nu,
     mas ela no a colocou de volta no lugar.
           -- J parti coraes, mas no tantos como dizem por a.
           -- J se apaixonou?
           -- J - disse Henry firmemente, com uma expresso um pouco triste. - Uma
     vez.
           -- Quem era ela?
           -- Agora voc precisa prometer que no vai contar a ningum o que vou
     lhe dizer.
           Diana respirou fundo, excitada, e deitou-se de lado na cama, apoiando a
     cabea na palma da mo.
           -- Prometo.
           -- Ela pertencia  alta sociedade nova-iorquina, assim como voc, e seu
     nome de solteira era Paulette Riggs, mas quando a conheci ela j se chamava
     Lady Deerfield.
           -- Paulette Riggs! Ela tem quase trinta anos! - exclamou Diana, sem
     conseguir de controlar. - E  casada com um lorde!
           -- Eu sei - disse ele, soltando uma risada malanclica e encontrando
     habilmente a coxa de Diana por debaixo do chemise. - Mas eu tinha dezoito anos
     na poca e ela era a coisa mais fascinante que j vira. Ela passou a temporada em
     Newport, porque seu pai estava doente naquele ano, e Lorde Deerdield ai caar
     tantas vezes que a fez se sentir sozinha.
           -- Como foi que acabou?
           -- Mal - disse Henry, suspirando e apertando um pouco a coxa de Diana. -
     Ela simplesmente se cansou de mim aps algum tempo, mas eu continuei
     escrevendo cartas e tentando marcar encontros que nem um idiota.
           -- Voc tem saudades dela?



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DKG
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           Diana ficara um pouco assustada ao saber que essa mulher, que tinha a pele
     muito branca, os lbios muito rubros e porte de princesa, j fora amante de
     Henry. Mas ainda queria todos os detalhes da histria,  claro.
           -- No mais. J passou tanto tempo. Ela tinha um jeito de me olhar com
     uma carinha de amuada... que nem voc, na verdade. Mas parei de sentir
     saudades dela h muito tempo.
           -- E voc s foi apaixonado por ela na vida?
           Henry assentiu, alisando a coxa de Diana.
           -- E com quantas voc j... amou?
           Ela encarou-o, apesar de estar morrendo de vergonha de ter feito a
     pergunta. Henry parecia estar achando um pouco de graa naquela falta de
     palavras. Ele demorou um pouco para responder, e Diana no sabia se estava
     fazendo contas ou repensando a promessa de responder a qualquer pergunta.
           -- Cinco - respondeu Henry, afinal.
           -- E todas eram casadas com lordes ingleses?
           -- No! E nem eram todas moas de famlia, como voc. Mas eu me diverti
     com todas elas.
           -- E quem foi a ltima garota que se deitou com Henry Schoonmaker?
           Henry se remexeu, tirando a mo da coxa dela e apoiando-se nos cotovelos.
     Ele abriu a boca, mas ento voltou a fech-la.
           -- Voc disse que eu podia perguntar qualquer coisa! - protestou ela,
     querendo saber que nome o faria hesitar tanto.
           Henry desviou os olhos e falou um nome que Diana conhecia muito bem:
           -- Penelope Hayes.
           -- No! - disse ela, sem saber se brigava com ele ou dava uma risadinha. -
     Ela deve ter ficado zangada com...
           Diana parou de falar, percebendo que aindano estava preparada para falar
     em Elizabeth. Henry revirou os olhos e deu um suspiro exasperado, concordando.
           -- No   toa que ela anda to esquisita - continuou Diana. - E voc...
     voc... com ela!
           Henry agarrou a coxa de Diana com mais fora desta vez. Eles estavam
     muito prximos e ela podia sentir os menores movimentos do corpo dele.
           -- Ela  o tipo de garota que... bem, ela  mais selvagem do que eu
     imaginava.
           -- Ah.
           Diana percebeu que a conversa estava ficando mais grave, mas mo se
     importou. Ela queria saber como dizer a Henry que tambm gostava de falar
     srio com ele.
           -- Muito bem! - disse ela. Acho que sei tudo sobre voc agora.
           -- Mas eu no quero mais ser assim - disse Henru num tom contrito,
     mexendo nos botes da camisa. - Quero tomar mais cuidado com os sentimentos
     dos outros. No gostaria que voc pensasse que isso aqui  um jogo. Naquele dia,
     voc me disse que no  um brinquedinho qualquer. No quero que pense que
     estou s me divertindo com voc.
           --  por isso que vocme convidou para vir aqui? - perguntou Diana,
     erguer mais o corpo e fixando seus olhos brilhantes nele. - Para esclarecer isso?



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DKH
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           -- Foi. Bom, foi para isso e para... Quando eu me casar com sua irm, no
     vou mais poder...
           Henry olhou para baixo e deslizou a mo pela pele de Diana at chegar na
     sua cintura. Ela assentiu.
           -- Voc precisa mesmo se casar com ela, no ?
           -- Preciso... Bem,  que...
           -- Eu entendo. E no quero saber por qu.
           Diana vinha pensando nos motivos pelos quais Elizabeth ia se casa com
     Henry e suspeitava que deveria haver uma fora parecida impelindo-o a fazer
     aquilo. Ela sentiu a tristeza lhe dominando, mas queria ser a primeira a dizer em
     voz alta o que eles dois estavam pensando.
           -- Essa vai ser a nica vez que vamos nos encontrar.
           Henry encarou-a aps alguns segundo e assentiu. Ele estendeu a mo e
     colocou-a na parte de trs da cabea de Diana, aproximando o rosto dela do seu.
     Diana examinou intensamente a beleza morena dele, para poder se lembrar dela
     para sempre. L fora, uma rajada de vento fez com que as rvores batessem
     contra o telhado da estufa - uma tempestade devia estar chegando - mas nem
     assim Henry desviou os olhos. Ento, ele a beijou com uma sofreguido que a
     deixou com vontade de chorar.
           -- Se eu prometer no fazer nada para macular sua pureza e perfeio, voc
     concorda em passar a noite comigo?
           Diana assentiu e sorriu, pronta para tudo. Henry sorriu tambm.
           -- timo, pois h algumas perguntas que eu gostaria de fazer tambm.
           E, com isso, Diana baixou o que restava de suas defesas e se deixou levar
     pelos olhos safados e o charme insupervel de Henry Schoonmaker.




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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DKI
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                               dtxt
                     A coisa mais importante para qualquer noiva,
                     mesmo uma que j possui toda a beleza que uma
                     boa linhagem e uma criao impecvel podem
                     garantir,  o descanso. Ela deve sempre
                     descansar, ou acabar ficando nervosa. Se isso
                     acontecer, no dia de seu casamento ela ter a
                     aparncia de uma menina que j conhece o
                     mundo um pouco bem demais.

         TRECHO DE AS LEIS DO CONVVIO NA ALTA SOCIEDADE, DE L.A.M.
     BRECKINRIDGE




          a                    aquela noite, Elizabeth sonhou que estava numa parte
                               distante do pas com Will, onde havia colinas entre as
                               casas e ningum tinha uma costureiro favorito em Paris.
     Depois, ela sonhou que estava toda vestida de branco com uma ridcula coleira
     de renda belga e que Panelope estava rindo maldosamente e jogando arroz
     envenenado em sua direo. Mas, durante a maior parte do tempo, Elizabeth
     ficou olhando para o teto e desejando no estar acordada to constantemente. Ela
     mal dormira na noite de segunda e parecia que tambm no ia conseguir
     descansar naquela.
           Elizabeth no tinha como fazer as horas insones passarem mais rpido, pois
     no tinha muita coisa em que pensar, j que suas opes eram to escassas e to
     pouco atraentes. Ela fora ensinada a sempre agradar os outros, com sua
     aparncia, seus atos e suas maneiras. Mas, agora, no podia fazer mais nada alm
     de ser egosta. Se fizesse o que sua me lhe pedira, seria acusada de ser uma
     libertina que trara sua classe. E se fizesse o que Penelope, a mais falsa das
     amigas, queria, perderia o nico lar e o nico meio de viver que j conhecera. E
     se seguisse sua prpria vontade... bem, j era tarde demais para isso.
           Quando Elizabeth se cansou de olhar para o teto, ela se levantou e foi at o
     closet, pegando seu quimono branco e cobrindo seu corpo frqgil com ele.
     Passara o dia todo no costureiro. Era preciso fazer o vestido de casamento, o
     vestido que ela usaria na recepo e muitas pequenas coisas para seu enxoval.
     Elizabeth ficara o dia inteiro de p, ouvindo os outros falando dela como se no
     estivesse ali.
           E o pior  que ela havia ficado sozinha o tempo todo. Elizabeth imaginara
     seu casamento muitas vezes quando era pequena, de diversas maneiras. Em
     alguns momentos, pensava numa cerimnia simples, na qual ela carregaria yum
     buqu de grberas. Em outros, era um casamento suntuoso que saa em todos os
     jornais e no qual usaria um vestido com uma enorme cauda decorada com


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     pequeninas rosas de seda que se arrastava por todos os degraus da igreja. Mas
     Elizabeth sempre achara que a parte de escolher o vestido seria divertida. Na
     verdade, ela passara o dia servindo de manequim para um pequeno exrcito de
     costureiras que tentavam desesperadamente fazer de tudo para agrad-la. No
     final, estava se sentindo dolorida e isolada, e havia sido levada para casa pelo sr.
     Faber em vez de Will que, antigamente, estaria esperando por ela com a
     carruagem.  claro que Penelope no estivera presente. Mas Diana - Diana no
     tinha motivo nenhum para no ter comparecido e ajuduado-a a determinar se
     estava linda ou ridcula. Mas ela tampouco se interessara em ir, preferindo ficar
     no quarto lendo e sofrendo com sei l o qu.
           Elizabeth andou para l e para c em seu quarto, ficando cada vez mais
     chateada com a ausncia da irm. Afinal de contas, ela estava sacrificando sua
     prpria felicidade em nome da famlia. Estava renunciando a todos os seus
     desejos para que as Holland no ficassem arruinadas. E Diana nem se
     incomodara em largar seus livros por um dia.
           Elizabeth abriu a porta do quarto com um gesto largo e machou pelo
     corredor. Ela ergueu o punho para bater na porta de Diana, mas ento se
     controlou. No era culpa dela que sua irm mais velha houvesse se apaixonado
     pelo homem errado e que continuasse a am-lo, mesmo sabendo que jamais daria
     certo. No era culpa dela que a situao financeira da famlia estivesse to ruim.
     Elizabeth pousou a mo na porta, respirou fundo e deu algumas batidinhas gentis
     e fraternais.
           -- Di?
           Ela olhou para o final do corredor, onde ficava o quarto de sua me, e
     torceu para que ela no viesse ver o que estaca acontecendo. Desde a manh de
     ontem, Elizabeth sentira que havia uma distncia cada vez maior entre ela e sua
     me. No tinha mais nada a dizer para ela.
           -- Di? - chamou Elizabeth de novo.
           Diana no respondeu e ela decidiu entrar. Aps alguns segundos,
     compreendeu que o quarto estava vazio. Diana no estava l. Havia vestidos
     espalhados pela cama e pelo cho e sapatos virados em todos os ngulos. A gata
     Lillie Langtry olhou preguiosamente para Elizabeth e cruzou as patinhas.
           Elizabeth ficou nervosa e comeou a procurar no closet e atrs das
     poltronas. Ela olhou as janelas que davam para a varanda - elas estavam
     fechadas, mas destrancadas. Estava prestes a ir l para baixo e ver se Diana fora
     pegar um livro ou um copo de leite quando notou uma caixa de chapu que
     estava exposta pela metade debaixo da cama. A tampa dourada estava torta e
     Elizabeth viu que dentro da caixa havia um chapu-coco marrom. Ele era igual a
     todos os outros chapus-cocos do mundo, mas ao v-lo, ela se lembrou
     instantaneamente de uma certa tarde h duas semanas, quando seu mundo
     comeara a se desintegrar.
           Elizabeth manteve os olhos no chapu, horrorizada, enquanto atravessava o
     quarto. Lillie Langtry soltou um miadinho e caminhou ao lado dela, fazendo um
     crculo em volta da caixa e deitando-se ali perto. Quando Elizabeth pegou o
     chapu, a primeira coisa que notou foram as iniciais bordadas na fita azul clara
     que passava pela parte interna da aba: HWS.



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           Ela desabou sobre a colcha de algodo e foi a que viu os dois pedaos de
     papel dentro da caixa, fazendo um contraste com o veludo negro que a forrava.
     Elizabeth precisou se forar a peg-los e ler os dois bilhetes que Henry escrevera
     para sua irm. A assinatura dizia apenas HS, mas ela no duvidou que eram dele.
     No podia saber quando exatamente ela mandara para a Diana o bilhete pedindo-
     lhe que guardasse o chapu e o outro afirmando que no conseguia parar de
     pensar nela. Mas suas intenes estavam claras e o fato de que Diana no estava
     em seu quarto quela hora da noite demonstravam quais eram as dela.
           Os msculos do rosto de Elizabeth pareciam estar rgidos e gelados. Ela se
     recostou na cama, abraando os joelhos e rodopiando o chapu com o dedo.
     Lillie Langtry ficou de p, espriguiando-se, rodeu Elizabeth e ento se deitou no
     travesseiro ao lado dela. Elizabeth largou o chapu e suspirou. Ela poderia ter
     rido da situao, se fosse o tipo de menina que achava graa na perversidade,
     mas essa horrvel prova de que sua irm havia sido corrompida no lhe parecia
     nada divertida.
           Elizabeth foi tomada de fria ao se dar conta de mais uma coisa: pelo
     menos metade da culpa por seus problemas com Penelope era de Henry. Ela no
     sabia como exatamente tinha sido o envolvimento dos dois, mas decerto fora isso
     que provocara a vingana de sua ex-amiga. E agora, ele estava em algum lugar da
     cidade seduzindo a pobre e inocente Diana. E, depois de tudo isso, Henry ainda
     esperava que Elizabeth se cassasse com ele num futuro nada distante.
           Elizabeth se levantou da cama como se tivesse resolvido qualquer coisa,
     mas na realidade no havia nada a fazer alm de recolher as roupas espalhadas de
     Diana. Sua raiva e seu desespero foram crescendo a cada segundo, conforme ela
     guardava os inmeros vestidos que sua irm caula pensara em usar naquele
     encontro traioeiro.




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                    dtxt x h
                                 ctt t |t w x vtA


          @b                   que isso significa? - perguntou Diana, quase explodindo
                              de felicidade ao examinar a cruz de lpis-lazli com a
                              frase gravada.
           Ela passou o dedos sobre as letras, ansiando por encontrar uma maneira de
     se tornar a noiva de verdade de Henry. Mas Diana j sabia que aquilo seria
     impossvel. Desde que eles haviam sado da estufa, casa segundo passado com
     ele parecia-lhe uma ddiva preciosa. Os sons da cidade que despertava surgiam
     do lado de fora da carruagem, mas Diana sentia como se eles estivessem na outra
     margem do rio.
           -- Meu pai deu para minha me antes de eles se casarem. Nunca entendi o
     significado. Acho que ele deu isso para a menina de dezessete anos com quem se
     casou na esperana de que ela sempre tivesse essa idade - explicou Henry, dando
     uma risadinha irnica. - Mas no  por isso que estou dando-a para voc.
           -- Eu sei - garantiu Diana, escondendo a cruz no corpete.
           --  a mais discreta que todos os presentes que ele deu a ela depois. Acho
     que  por isso que gosto dela. Eu s tinha quatro anos quando minha me morreu,
     mas acho que ela possua aquele tipo de beleza natural que fica melhor com
     menos ornamentos.
           Diana registrou. Ela aprendera tanto sobre Henry na ltima noite que ele
     agora era praticamente outra pessoa e tudo que dizia parecia ser um segredo s
     deles dois. Ela se afastou do encosto da pequena carruagem de duas rodas em que
     eles estavam, a nica que Henry pudera pegar do galpo dos Schoonmaker sem
     ningum notar, e olhou para fora. Henry parara a carruagem no meio da
     Broadway e eles estavam esperando pelo momento certo para Diana sair, se
     misturar aos transeuntes e voltar para casa. Ela observou Henry com adorao e
     tentou sorrir.
           -- Vai ser difcil v-lo se casando com Liz, Henry...
           Diana pretendera dizer algo mais profundo e bombstico, mas sua garganta
     estava fechada e to dolorida que ela soube que no conseguiria emitir mais
     nenhum som.
           Henry beijou-a abaixo do olho direito. Diana olhou para ele uma ltima vez
     antes de baixar seu capuz e sair da carruagem. No instante em que seus ps
     tocaram a rua, ela achou mais fcil se afastar e se unir s hordas de pessoas que
     iam para o trabalho.  sua volta, homens usando chapus-coco e ternos
     vagabundos andavam depressa, sem tempo para se perguntar quem seria aquela
     menina de capuz.



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DLC
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           Em pouco tempo Diana encontrou o beco da rua Dezenove que dava no
     jardim doa Van Dorans, colado ao seu. Ela se arriscara escalar a trelia na noite
     anterior, o que fora quase to perigoso quanto se aventurar sozinha pelas ruas de
     Nova York  noite, mas hoje decidiu entrar pela portinha que dava no poro da
     casa, onde as roupas da famlia eram lavadas. De l, Diana subiu rapidamente a
     escada dos fundos, at que se viu no segundo andar, muito prxima da porta de
     seu quarto.
           No havia ningum l dentro, o que era algum alvio, mas o quarto estava
     diferente de como ela o deixara. Todos os vestidos que tirara do closet para
     selecionar o que usaria em sua noite com Henry haviam sido guardados, assim
     como seus sapatos. E, em cima de sua cama, que tambm fora arrumada, estava o
     chapu de Henry, exatamente no centro. Diana, apavorada, foi at onde estava o
     chapu e o apanhou. Ela se sentiu congelada, imobilizada pelo horror e pela
     tristeza ao imaginar quem entrara em seu quarto na noite passada.




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                   dtxt x W|
                     Tornou-se bastante aceitvel chegar atrasado,
                     um novo fenmeno social que me desagrada
                     muito. Uma verdadeira dama sempre chega
                     exatamente na hora combinada.

          TRECHO DO LIVRO COLETNEA DE COLUNAS SOBRE A CRIAO DE JOVENS
     DE CARTER, DA SRA. HAMILTON W. BREEDFELT, EDIO DE 1899




          X            ram 9:30 da manh de quarta-feira e Elizabeth estava no meio
                       da confuso matinal da Broadway, paralisada pela
                       desesperana. Todo aquele caos - as carroas puxadas por
     cavalos, os bondes, os cocheiros gritando, o som das rodas de carruagem contra o
     pavimento, a multido de pedestres - parou de existir em sua mente. A cena que
     ela acabara de testemunhar no fora uma surpresa aps as provas que havia
     encntrado na noite anterior, mas a emoo que estava sentindo era espantosa.
           A figura encapuzada se sua irm mais nova desaparecera na rua Vinte e um.
     Ver Diana numa esquina de Manhattan to cedo confirmara todas as suspeitas de
     Elizabeth. Mas ela permanecera estranhamente imvel, observando a pessoa que
     fora deixada para trs. Ele sara de sua carruagem e estava de p na calada.
     Elizabeth no podia ter certeza, pois estava sempre correndo aps seus encontros,
     mas achava que a maneira melanclica como Henry estava olhando para a rua
     Vinte e um no era muito diferente da expresso que Will fazia todas as manhs,
     quando ela virava as costas para ele e entrava em casa.
           Ela passara quase a noite inteira acordada, mas mesmo assim se levantara
     sem ter a menor ideia de como ia subjugar Penelope, salvar Diana ou aceitar a
     ideia de se casar com o detestvel Henry Schoonmaker. Tentara se vestir com
     alguma determinao, com o mesmo vestido de algodo listrado que usara no dia
     em que ele pedira sua mo e, porque achava que o tempo estava prestes a virar,
     com uma capa caramelo com o forro de flanela. Uma vez vestida, Elizabeth no
     soubera mais o que fazer e por isso decidira caminhar at a casa de Penelope,
     descendo toda a Quinta Avenida. Todos os empregados e habitantes da casa
     estavam ocupados com alguma tarefa relacionada ao casamento e, nos poucos
     segundo em que ningum pedira sua opinio sobre nada, ela conseguira escapulir
     sem ser notada.
           Na noite passada, Elizabeth havia chagado  concluso de que seu noivo era
     a pessoa mais licenciosa que ela j conhecera. Mas agora, vendo-o em seu terno
     preto simples com a expresso de quem acabara de perder aquilo que lhe era
     mais caro no mundo, ela teve certeza de que Henry no estava tentando se
     aproveitar de Diana. Ele realmente amava sua irm. E, embora Elizabeth no



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     soubesse explicar direito, estava cada vez mais convencida de que Diana o amava
     tambm. Ela estivera errada. Sua raiva desaparecera em segundos.
           Uma carroa alta levando diversos homens de terno parou entre Henry e
     Elizabeth, pensando em como entrar no trfego da larga Avenida. Aps a carroa
     passar, Elizabeth viu que Henry se virara e estava olhando para ela.
           Ele abaixou a cabea, mas manteve os olhos, cheios de remorso e
     resignao, fixos nos dela. Elizabeth viu que Henry no era muito diferente dela -
     ele tembm estava disposto a se casar com algum por algum motivo que tinha
     mais a ver com famlia, obrigaes e classe social do que com amor, embora seu
     corao desejasse outra coisa. Henry tocou a aba do chapu, cumprimentando-a.
     Elizabeth abaixou a cabea lentamente em resposta, para mostrar a ela que o
     compreendia, e ento se virou e seguiu para o norte da cidade. Tinha um
     encontro marcado e no podia se atrasar.
           Tudo estava diferente agora, mas ainda era to impossvel quanto antes.
     Elizabeth percebeu tristemente que tudo ficaria mais fcil se ela no existisse. Ela
     no precisava mais andar quarenta quarteires at a mans dos Hayes para saber
     o que devia fazer. Num segundo, se deu conta do ato devastador que precisaria
     cometer.




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                     dtxt x gܣ
                     Vemos nossos pecados refletidos em todo lugar:
                     na palidez dos rostos de nossos entes queridos,
                     no arranhar dos galhos das rvores nas janelas,
                     nos estranhos movimentos dos objetos
                     cotidianos. Essa coisas podem ser mensagens de
                     Deus ou nossa mente nos pregando peas, mas
                     de qualquer modo no nos  permitido ignor-
                     las.

         TRECHO DO LIVRO COLETNEA                    DE    SERMES,       DO   REVERENDO
     NEEDLEHOUSE, EDIO DE 1896




          W                 iana estava imvel em seu quarto h mais de uma hora,
                            perguntando-se o que deveria fazer com aquele chapu,
                            quando um grito vindo do primeiro andar da casa tirou-a de
     seu estado de choque. Seu corao ficou gelado de pavor. Quando ela sara de
     casa na noite anterior, parecera-lhe impossvel que algum fosse frag-la. Afinal,
     ningum andava prestando muita ateno nela ultimanete e, alm disso, todo o
     episdio parecera ter ocorrido num mundo mgico, terminando de forma to
     abrupta como havia comeado. Mas o rudo que viera l de baixo fora um grito
     de tristeza, raiva, confuso ou uma combinao dos trs.
           Diana olho para o chapu. Estava tentando pensar em alguma histria para
     explicar aquela prova bvia de sua culpa quando outro grito, mais parecido com
     um gemido de triteza, lhe chegou aos ouvidos.
           Diana atirou o chapu de Henry embaixo da cama e foi at seu closet. Os
     vestidos que ela tirara dali na noite anterior estavam todos l dentro. Era tarde
     demais para trocar de roupa e, por isso, ela decidiu ver no espelho como estava
     sua aparncia. No havia nada de diferente nela mas, aps ter passado a noite
     com Henry, Diana estava se sentindo bem mais velha do que antes. Os lamentos
     recomearam e ela no teve outra escolha alm de descer dois degraus da escada
     de cada vez e lidar com o inevitvel crculo de acusaes e confisses.
           Diana entrou na sala de estar e se deparou com Penelo Hayes, cujos cabelos
     escuros estavam estranhamente desgrenhados e cujo vestido vermelho se
     espalhava por sobre o tapete persa preferido de Louisa Holland. Ela estava
     encharcada e no dizia coisa com coisa, alm de estar dando gritos aqui e ali.
           -- Graas a Deus voc chegou - disse tia Edith, indo at Diana e abraando-
     a.
           -- Como pde dormir at tarde num dia como hoje? - perguntou sua me,
     aproximando-se tambm e empurrando a cabea de Diana contra o peito. - Com
     todas as tragdias que essa famlia j sofreu...


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  DLG
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           -- Do que voc est falando? - sussurou ela, sem conseguir falar mais alto.
           Diana olhou para Penelope por sobre todos os braos que a enlaavam. Ela
     ficara subtamente quieta.
           --  quase insuportvel - disse a sra. Holland.
           -- Certamente  insuportvel - concordou a tia Edith.
           Naquele momento, Claire entrou correndo na sala.
           -- Encontrei um policial na rua - disse ela, histrica. - Ele disse que vai at
     a delegacia chamar seus superiores. Sra. Holland, a senhora precisa de seus sais?
           -- Sim, Claire, por favor. E traga gua tambm.
           As trs mulheres da famlia Holland foram juntas para o sof mais prximo
     e se sentaram. Diana j compreendera que aquilo nada tinha a ver com seu
     encontro com Henry. Algo muito pior devia ter acontecido. Ela olhou mais uma
     vez para Penelope, cuja expresso indicava que ela fora testemunha de alguma
     ocorrncia muito grave.
           -- O que aconteceu? - perguntou Diana.
           Sua corao estava batendo to depressa que ela mal podia ouvir. Tanto sua
     me quanto sua tia estavam plidas e pareciam exauridas de tanto chorar. Ela
     deram as mos por sobre o colo de Diana.
           -- Sua irm - disse tia Edith com a voz trmula.
           -- Ela... ela nos deixou, Diana.
           -- Deixou? - repetiu Diana estupidamente. - Para onde ela foi?
           Fois ento que Diana comeou a reparar em alguns detalhes. O chapu,
     colocado com tanto zelo perfeccionista no centro da cama impecavelmente
     arrumada. Fora uma mensagem de Elizabeth. A cada segundo que se passava, ela
     se tornava mais horrivelmente clara. Diana se sentiu tonta e enojada consigo
     mesma.
           -- Aconteceu esta manh - disse Penelope, que de repente recobrara a voz.
           Ela se aproximou pisando firme e se sentou numa pequena almofada de
     seda na frente do sof onde estavam Diana, sua me e sua tia. Todos os sons e
     cores pareceram exagerados para Diana e ela viu e ouviu muito bem as pequenas
     gotas de gua que caam do corpo de Penelope e atingiam o cho.
           -- Elizabeth veio me visitar de manh. Ns havamos planejado ir ao
     costureiro juntas - explicou Penelope, falando devagar como se estivesse
     pensando em cada palavra que dizia ou se esforando para no chorar. - Ela
     estava muito nervosa com o casamento. Acho que estava se dando conta de
     quantas coisas teria que resolver at domindo. Achei que seria uma boa idia das
     um passeio de carruagem s margens do rio para acalm-la. Queria que
     tivssemos privacidade e por isso tentei dirigir eu mesma. S queria tranquiliz-
     la. Afinal, tudo vai dar certo... ou ia dar certo. Foi isso o que eu disse a ela.
           Penelope parou de falar e Diana virou-se de olhos arregalados para a me,
     esperando que ela completasse a histria. Mas, antes que a sra. Holland pudesse
     dizer qualquer coisa, Penelope recomeou:
           -- Havia um homem estranho perto do rio. Os cavalos se assustaram e... e...
     eu no consegui control-los! No pude... oh... oh,oh,oh!
           -- Ela caiu - disse a sra. Helland, mal podendo se conter. - No rio. E ento
     Penelope e a carruagem foram arrastadas por muitos quarteires antes que ela



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                cz|t  DLH
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     conseguisse controlar os cavalos. Quando ela voltou, no havia sinal de Elizabeth
     em lugar nenhum.
           --  o meu faetonte novo. Ele  to rpido e to alto! - explicou Penelope e
     Diana quase achou que ela estava se gabando. - Ainda no consegui compreender
     o que aconteceu. E a gua, quando tentei encontr-la... Estava to fria, to
     horrivelmente fria.
           Diana estava completamente atnita, mas a cena que encontrara em seu
     quarto lhe fez acreditar. Certamente havia sido Elizabeth que entrara l e
     guardara todas as suas roupas. E ela soubera de quem era aquele chapu e, ao
     somar isso com a ausncia de Diana, compreendera o que aquilo significava.
           -- Mas como ela pode ter cado se Penelope continuou na carruagem? -
     peguntou Diana.
           Ela no queria fazer aquelas perguntas, mas era preciso. Uma culpa abjeta
     estava tomando conta de Diana, que sentiu a cruz que Henry lhe dera lhe
     perfurando a pele e fazendo-a lembrar-se do que fizera. Sua irm estava morta e
     era tudo culpa dela. Diana olhou para Penelope, que estava encarando-a com uma
     expresso que parecia ser de puro choque.
           -- Quer dizer... - disse Diana numa voz que mal era audvel. - Voc no
     acha que ela se jogou de propsito, acha?
           A sra. Holland e a tia Edith se afastaram de Diana, e um profundo silncio
     tomou conta da sala. Diana pensou ter visto uma ponta de interesse nos olhos de
     Penelope, mas ela desapareceu to rapidamente como surgira e ela voltou a
     mostrar apenas aflio em seu rosto.
           -- Estamos todos abalados - disse a tia Edith. - Ou voc no diria uma coisa
     dessas.
           -- Diana, esse  um momento horrvel, e  compreensvel que voc no
     saiba bem o que est dizendo. No poderia saber, ou no teria dito uma frase
     dessas.
           A sra. Hollando estava tentando falar com tranquilidade mas, embora suas
     faces no mostrassem qualquer expresso, havia algo em seus olhos que indicava
     a dor imensa que ela sentia.
           -- Voc deve ir para seu quarto - disse ela. - Deve descansar. Mas no diga
     mais isso, pois talvez algum possa acreditar.
           Diana ficou grata por sua me querer que ela deixasse a sala. Ela atravessou
     o corredor sem olhar para trs nenhuma vez. Seu peito parecia frgil de tanta
     tristeza, como se pudesse pegar fogo ou se desfazer subitamente. Diana no
     poderia suportar ficar perto de pessoas que a consideravam inocente. Talvez
     Elizabeth houvesse amado Henry tambm, a seu modo. Talvez ela houvesse
     ficado to enlouquecida ao descobrir o segredo da irm que decidira tirar a
     prpria vida. Elizabeth deve ter sentido que o mundo todo estava de cabea para
     baixo e talvez as guas do rio Hudson houvesse lhe parecido mais confortveis fo
     que um universo onde os Holland eram pobres, o casamento nada tinha a ver com
     amor e onde seu futuro marido passava a noite com sua irm caula.
       Diana entrou em seu quarto e apanhou o chapu de Henry. Ela no pensara nas
         consequncias de seus atos da noite passada e agora elas seriam horrendas e
        eternas. Diana jamais sentira culpa antes, mas agora estava dominada por ela.
      Deitou-se na cama, colocou o chapu sobre o rosto e deixou as lgrimas rolarem.


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                dtxt x dt
                     ... E h tambm a princesa americana que nos deixou prematuramente,
                     tragada pelas guas do rio Hudson. O misterioso caso de Elizabeth
                     Holland est sendo chamado de acidente, mas h diversas razes para
                     acreditar que foi o oposto. H muito que no foi explicado, incluindo
                     alguns relatos de que havia um homem - alto, esguio e bem-vestido -
                     na margem do rio.

         TRECHO DA COLUNA POLICIAL DO NEW YORK IMPERIAL, QUINTA-FEIRA, 5
     DE OUTUBRO DE 1899




          a                    a manh de quinta-feira, Lina acordou e escolheu uma
                               saia e uma blusa clara para vestir. Essas peas no eram
                               to chamativas quanto o vestido vermelho que ela
     colocara h dois dias, mas Lina estava cansada de vermelho por enquanto. Alm
     do mais, o que estava vestindo era bonito o suficiente para impressionar sua irm
     sem deix-la com cimes. Ao sair apressadamente da manso dos Holland, ela
     combinara com Claire de encontr-la s onze da manh de quinta - o nico
     momento em que sua irm tinha alguma certeza de que seus servios no seriam
     necessrios - em um dos bancos do parque da Union Square. Lina ainda estava se
     sentindo um pouco envergonhada por ter se embebedado naquela noite e torceu
     para que, quando encontrasse Will, ele no adivinhasse que ela se comportara
     daquela maneira. Era um certo alvio no conseguir se lembrar direito do que
     acontecera.
           Lina arrumou o cabelo da maneira que estava acostumada, partindo no
     meio e preso num coque, e ento colocou um casaquinho justo. Ao ver o quanto
     j estava tarde, ela pegou a bolsa e saiu correndo pelas escadas, passando
     rapidamente pelo recepcionista do lobby, que estava adormecido.
           Estava chovendo muito l fora e ocorreu a Lina que talvez Claire no
     pudesse ir ao encontro por causa do tempo. Mas ela no podia desistir. Sabia que
     Claire faria de tudo para comparecer e no podia decepcion-la. Alm disso, Lina
     estava secretamente torcendo para que Claire tivesse notcias de Will. Talvez ela
     soubesse de algo que pudesse ajudar Lina a encontr-lo. Como no tinha um
     guarda-chuva, ela roubou a edio do Imperial que estava em cima do balco da
     recepo.
           Lina desceu cuidadosamente o nico degrau que levava do hotel para a rua,
     onde ainda havia um toldo para proteg-la. O cu estava cinza-chumbo e no ar
     havia o cheiro de toda a sujeira que estava saindo dos bueiros e tomando as
     caladas. Algumas pessoas passaram com guarda-chuvas pretos e as que no
     haviam pensado em trazer um rapidamente ficavam encharcadas. Lina desdobrou



                        Zwuxx
g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                            cz|t  DLJ
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     o jornal, tentando ao menos proteger sua cabea da gua, e sentiu um calafrio na
     espinha ao ler o nome de Elizabeth.
           Ali estava ele, na pgina onze. Elizabeth Holland cara no rio Hudson e
     acreditva-se que ela estava morta. Lina teria ficado meno atnita se a manchete
     do jornal dissesse que o fim do mundo havia sido marcado para o final da tarde
     daquele dia. Ela j sentira tantas coisas por Elizabeth - adorao, inveja, cimes,
     fria - que lhe parecia impossvel que ela pudesse simplesmente morrer. Quando
     Lina pensou nisso, uma vaga memria surgiu em sua mente, mas ela no
     conseguiu se lembrar bem do que era. Estava se sentindo tonta.
           Lina se forou a seguir em frente, colocando o jornal sobre a cabea para
     formar uma espcie de tenda. Em poucos segundos, a gua entrou em seus
     sapatos. Ela comeou a correr na direo leste, mas aps alguns quarteires o
     jornal j estava completamente molhado e Lina precisou se proteger sob o toldo
     de uma floricultura.
           No final da rua, ela viu a enorme Quinta Avenida se expandindo. Ainda
     estava longe de seu destino, mas estava bem perto do Fifth Avenue Hotel, onde
     havia sido humilhada. A chuva caa aos borbotes sobre o pavimento e um
     trovo ressoou l longe. Lina olhou para cima e viu um homem cruzar a rua,
     parcialmente escondido sob um gigantesco guarda-chuva preto. Ela subtamente
     se lembrou dos adjetivos alto, esguio e bem-vestido, que lera no artigo sobre
     Elizabeth, e sentiu-se muito nervosa. O homem do guarda-chuva aproximou-se
     de Lina com passos largos. Ela quis sair dali, mas o jornal que tinha nas mos
     estava ensopado demais para servir para alguma coisa.
            O homem estava to perto de Lina que ela reconheceu a barba loura por
     fazer e o nariz longo dele. Ela o conhecia. Era Tristan sem dvida, o vendedor da
     Lord & Taylor. Lina lembrou a noite que passara com ele no bar e tentou se
     afastar.
           -- Lembra-se de mim? - perguntou ele.
           Tristan colocou seu guarda-chuva acima da cabea dela e as grossas gotas
     de chuva bateram pesadamente contra ele. O rosto de Lina estava muito molhado
     e ela teve que piscar para tirar a chuva de sus olhos verdes.
           -- Lembro - respondeu Lina, baixinho.
           -- Srta. Carolina, cuja beleza no me sai da cabea. Vejo que j leu o
     Imperial.
           Lina afastou rapidamente o olhar. A tinta do jornal escorrera e lhe manchara
     os dedos.
           -- Porque no vamos tomar caf juntos, para que eu possa lhe contar o que
     aconteceu?
            Lina assentiu. No sabia o que fazer. Estava confusa, gelada e
     amedrontada. Pelo menos a chuva no estava mais lhe molhando. Tristan fez um
     cumprimento com a cabea e sorriu para ela, como que para tranquiliz-la. Mas
     Lina, apavorada, no pde deixar de se perguntar o que exatamente havia
     combinado com ele naquela noite.




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                 dtxt x V|v
                    A perda dramtica de uma das mais importantes jovens damas da alta
                    sociedade  duplamente trgica devido ao fato de que Elizabeth
                    Holland ia se casar com o solteiro mais desejado de Nova York nesse
                    domingo. Todos os que amavam a srta. Holland esto se reunindo na
                    casa de seu noivo, Henry Schoonmaker, numa espcie de veglia. O pai
                    do infeliz rapaz, William Sackhouse Schoonmaker, triplicou o valor da
                    recompensa oferecida pelo prefeito Robert Anderson Van Wyck por
                    qualquer informao que leve ao corpo da srta. Holland. Muitos tm
                    comentado sobre a presena de Penelope Hayes nesses lugares, j que
                    ela foi a ltima pessoa que viu Elizabeth viva, alm de j ter tido um
                    romance com o jovem Schoonmaker.

         TRECHO RETIRADO DA REVISTA CIT CHATTER, SEXTA-FEIRA, 6 DE
     OUTUBRO DE 1899




          @
     estar envergonhado.
                              chocante, absolutamente chocante, que no haja qualquer
                             sinal dela - afirmou o pai de Henry com uma voz que
                             rossoou na sala de estar da famlia. - O prefeito deveria

           Henry estremeceu ao ouvir seu pai fazer uma ligao entre a morte de
     Elizabeth e a corrupo e incompetncia do prefeito de maneira to indelicada.
     Mas ele tinha a obrigao de ficar ali ao lado, assentindo como se concordasse.
     Aquele era um momento trgico demais para Henry correr o risco de ser
     considerado insensvel, principalmente quando o interlocutor de seu pai era um
     reprter do New York World. Alm disso, todos os membros das famlias
     Schoonmaker e Holland, alm de alguns amigos, estavam reunidos em sua casa,
     para chorar juntos e aguardar por qualquer notcia de Elizabeth. Assim, Henry
     continuou parado ao lado de seu pai, parecendo mais franzino e plido do que
     nunca em comparao com ele.
           O corpo est desaparecido e no surgiunem mesmo um pedao da roupa
     dela flutuando na gua - continuou o sr. Schoonmaker. - Ela pode ter sido
     resgatada por um rebocador e vendida como escrava branca. E eu culpo o
     prefeito por isso. Ele  apenas um peo dos democratas, nunca est interessado
     em realizar nada.
           -- E quanto ao senhor, sr. Schoonmaker? - perguntou o reprter, voltando-
     se para Henry. - O que est achando dos trabalhos de resgate?
           No havia nada de apropriado que ele pudesse dizer e, por isso, Henry
     meramente abaixou os olhos. Alguns segundos se passaram, at que seu pai
     sucumbiu  tentao de continuar discursando. Nem mesmo a morte da noiva de
     seu filho lhe fazia parar de pensar na cena poltica nova-iorquina.


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           -- Vai surgir um escndalo daqui a pouco - disse o sr. Schoonmaker. -
     Espere s para ver. O prefeito est metido com a Consolidated Ice, e eles esto
     comprando todas as fbricas concorrentes. Eles vo aumentar o preo do gelo,
     talvez at dobrar, e o povo vai querer cortar a cabea do prefeito. Mas, ah, sim...
     Elizabeth. A recompensa que Van Wyck ofereceu pelo corpo  to baixa que
     chega a ser um insulto. E meu filho Henry... olhe s para ele. Mal pode falar de
     to arrasado.
            Henry comprimiu os lbios de constragimento ao ver todos os olhares
     pousando sobre ele. Decidiu sair dali, com medo de no conseguir disfarar o
     nojo que estava sentindo do pai. Foi at a mesa, onde um buf variadssimo fora
     servido para os convidados, composto por pes doces, caf, cidra e uma
     quantidade quase obscena de frutas frescas. Os pratos de prata haviam sido
     colocados na mesa, sobre uma toalha negra rstica. Henry estendeu a mo por
     cima das uvas vermelhas e pegou o vidro de usque, colocando um pouco mais
     em seu copo. H dois dias ele se sentia como se estivesse fora de seu corpo. 
     sua volta, a mquina do luto j fora ligada. Todos j estavam usando suas roupas
     mais negras e recatadas e fazendi suas expresses mais graves. Ningum olhava
     Henry nos olhos. Eles evitavam ficar muito prximos dele, assentindo
     solidariamente em sua direo. Algumas das meninas solteiras mais ousadas, ou
     talvez mais estpidas, cobriam as bocas com as mos e lanavam olhares
     amorosos para Henry, mas ele estava triste demais para prestar ateno a
     qualquer uma delas. Estava triste por causa de Elizabeth, mas tambm por causa
     de Diana. Estava triste por causa de toda aquela confiso. Era impossvel para
     Henry parar de pensar no olhar que Elizabeth lhe lanara na esquina da
     Broadway com a rua Vinte e um, na manh de quarta-feira, antes que o mundo
     virasse de cabea para baixo. O rosto de Elizabeth estivera to melanclico na
     ocasio e ela o encarara com tanta sabedoria que Henry tinha certeza de que
     havia descoberto tudo de ruim que ele fizera.
           -- Meus psames.
           Henry viu o rosto macilento de Carey Lewis Longhorn, um homem que j
     fora bonito e que era chamado pelos jornais de "o mais velho solteiro de Nova
     York". Ele tinha mais de setenta anos e era famoso por colecionar pinturas das
     beldades da alta sociedade. Henry imaginou que o retrato de Elizabeth fizesse
     parte da coleo.
           -- Obrigado, senhor.
           -- Voc vai ficar bem, jovem Schoonmaker - disse o homem, desviando
     seus olhos tristes de Henry e dando-lhes alguns tapinhas nas costas. - Eu sempre
     fiquei.
           Henry ficou parado perto da mesa do buf, olhando para o outro lado da
     sala, onde estavam os parentes de Elizabeth. Eles haviam ocupado diversas
     cadeiras e dois sofs estampados que ficavam logo abaixo de uma imensa janela.
     A famlia Holland parecia ter crescido. Henry sempre achara que eles eram
     apenas quatro, mas havia cerca de vinte ali. Todos os primos, tias e tios haviam
     sado de suas rbitas privadas para rodear  sra. Holland e a filha que lhe restara.
     Diana estava usando um vu negro curto que cobria metade de seu rosto e
     mantendo os olhos sempre baixos, jamais encarando Henry. L fora, a chuva caa
     sobre a Quinta Avenida, assim como sobre o resto da cidade, mas Diana estava


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     imvel, aparentemente indiferente  tempestade que havia na rua e  tempestade
     que ocorria  sua volta.
             Nas ltimas semanas Henry se tornara mais consciente do que nunca da
     necessidade de se tornar um homem mais srio - e, nos ltimos dois dias, eles
     conseguira completar a transformao. A morte de uma menina de sua classe de
     maneira to ilgicaj seria motivo para parar e refletir. O fato de ser uma menina
     com que ele estava to ligado e que conhecia to mal lhe causara um sentimento
     de culpa e angstia quase impossvel de suportar. Henry achava que, se tivesse
     sido uma pessoa mais respeitvel desde o incio, nada disso teria acontecido.
     Mas, ainda assim, estava precisando se controlar para no passar o tempo todo
     olhando para Diana.
           Era uma tortura saber que Diana estava em sua casa e ter de ficar to longe
     dela. Havia tanta gente entre eles. Ela estava muito graciosa em seu vestido negro
     de mangas longas e justas, com os cachos escondidos sob o chapu. Henry sabia
     que ela devia estar arrasada de dor e que a noite que haviam passado juntos,
     trocando carcias e segredos, devia ser uma terrvel lembrana. Ele queria ir falar
     com Diana e descobrir o que ela estava sentindo. Queria ouvi-la dizendo que no
     culpava. Que no o odiava. Mas no havia maneira de retir-la do meio daquela
     multido de parentes que estavam em torno dos Holland e, por isso, Henry
     apenas suspirou e tomou mais um gole de usque.
           -- Voc parece estar precisando de um amigo.
           Henry olhou para cima e viu Teddy Cutting. Ele observou Diana e viu que
     ela estava recusando um prato de comida que uma de suas primas insistia em lhe
     oferecer, e ento voltou a encarar o amigo. Teddy estava usando um terno negro
     com uma rosa branca na lapela, como muitos dos outros homens que estavam ali.
     Ela se tornara o smbolo de Elizabeth. Henry no estava usando uma, mas s
     porque largara seu palet em algum lugar e no estava com vontade de procur-
     lo. Mas ningum ia brigar com ele por estar apenas de camisa e colete, nem por
     estar com o cabelo desgrenhado num dia como aquele.
           -- Preciso mesmo - admitiu Henry.
           Ele permitiu que Teddy pegasse seu brao e o levasse para a saleta que
     havia ao lado da sala de estar.
           -- Voc parece muito abalado.
           -- E estou.
           -- Devamos ir ajudar. Fazer alguma coisa. Os homens que esto dragando
     o rio no podem estar trabalhando com a vontade que teramos. Talvez
     pudssemos reunir os tripulantes do Elysian e ir l ver o que pode ser feito.
           -- Talvez - disse Henry sem entusiasmo.
           Eles entraram num aposento onde nenhum dos convidados chagara ainda e
     Henry se deu conta de que era o salo de recepo com o papel de parede
     vermelho vivo onde seu noivado com Elizabeth fora anunciado. Ele se lembrou
     de como a ideia de se casar com Elizabeth Holland lhe parecera horrvel e de
     como a simples meno da palavra "casamento" fizera seu corao de enregelar.
     Henry lembro que desejara que Elizabeth evaporasse, para que ele pudesse voltar
     a ser livre, e teve horror de si mesmo.
           -- Mal estou conseguindo me mexer - ele disse a Teddy.



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           --  to horrvel. To inacreditavelmente horrvel - concordou Teddy,
     piscando os olhos, que estavam vermelhos de tristeza e fadiga. - O mundo parece
     ter mudado, voc no acha? Lembra como falamos dela no dia da corrida? E
     agora ela est morta.
           Teddy balanou a cabea, atnito. Henry se lembrou das coisas que dissera
     naquela ocasio e no teve coragem de olhar para o amigo. Ele s podia
     agradecer por Teddy no ter visto a expresso desconsolada de Elizabeth no dia
     em que ela morrera.
           -- Agora voc pode voltar a se esquivar do casamento e todas as outras
     meninas podem voltar a tentar lhe fisgar... - Teddy tentou dar uma risada e olhou
     para Henry q uando este no o acompanhou. - Desculpe-me. No sei o que me
     deu. S estou... chocado.
           Henry assentiu e colocou a mo sobre o ombro de Teddy, para assegurar-
     lhe que compreendia.
           -- Estou bebendo esse troo sem para, mas no consigo ficar bbado - disse
     ele, baixinho. - Mas obrigado por conversar comigo. Qualquer coisa  melhor do
     que ouvir meus prprios pensamentos.
           Teddy assentiu.
           -- Mas ns precisamos fazer alguma coisa. Por que no participamos do
     resgate? Vai ajudar voc a parar de pensar.
           -- Tem razo.
           Henry usou os dedos para arrumar o cabelo e ento deu um sorriso triste
     para Teddy.
           -- Gostaria de fazer isso. Mesmo. Mas  que a irmo de Elizabeth, a Di...
     Quer dizer, a Diana. Estou preocupado com ela e no quero deix-la sem...
           -- Sem o qu?
           Teddy subtamente pareceu estar constrangido e a animao que havia em
     seu rosto desaparecera.
           --  que eu no consigo parar de pensar nela.
           Henry se virou na direo da sala de estar onde estavam os convidados.
     Havia diversos cmodos entre a sala e o aposento onde ele estava, mas Henry
     conseguia ver as janelas do canto atravs das portas abertas. Ele no pde
     discernir Diana naquele momento, mas sabia que ela estava ali no meio.
           -- Fico pensando no que ela deve estar passando. Deve estar arrasada. E
     fico pensado em como ela  linda e que, aps algum tempo...
           Henry parou de falar ao sentir que Teddy estava desconfortvel. Aps
     algum tempo, ele estava prestes a dizer, talvez ele pudesse se casar com Diana.
     Talvez todos eles pudessem voltar a ser felizes.
           -- Henry - disse Teddy, olhando por cima do ombro e de volta para o
     amigo. - Voc perdeu algo que jamais poder ser substitudo. Entendo que queira
     tentar. Mas o que voc sugeriu... nunca mais diga isso para ningum. No est
     certo.
           Teddy se virou e comeou a caminhar de volta para sala. Henry viu que
     fizera uma grande tolice e, desejando no ter revelado seu desejo por Diana,
     seguiu-o rapidamente.
           -- Teddy, eu...



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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                               cz|t  ECE
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           -- No se preocupe, Henry - interrompeu seu amigo, fazendo um gesto que
     indicava que ele deveria esquecer o assunto.
           Alguns segundos mais tarde, eles ouviram um gemido cacofnico vindo da
     sala de estar. Os dois seguiram adiante e viram, atravs dos muitos umbrais que
     os separavam dos outros, uma menina de cabelos escuros ajoelhada no cho. Sua
     saia negra formava uma espcie de cone em torno de suas pernas e em sua cabea
     havia um pequeno chapu de veludo negro. No havia nenhum vu cobrindo seu
     rosto e assim era possvel ver, mesmo  distncia, que o choro histrico estava
     vindo de Penelope Hayes.
           -- Vamos at o rio ver o que pode ser feito - disse Teddy, enojado.
           Henry ficou furioso. Ele quis que Diana o olhasse por um segundo, para que
     ele pudesse mostrar a ela que sabia o quo falsa era a dor de Penelope. Henry se
     arriscou a olhar para onde os Halland estavam e, nesse mesmo segundo, Diana,
     ainda espremida entre duas matronas vestidas de negro, levantou o vu e
     encarou-o. Havia tristeza e resignao em seus olhos e Henry viu que ela tambm
     reconhecia a falsidade de Penelope. Um homem passou por entre eles, indo na
     direo de Penelope, e por um segundo a viso de Henry foi tapada. Quando o
     homem saiu da frente, Diana baixara novamente o vu. Henry se perguntou se
     alguma vez olharia nos olhos dela de novo.




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                     dtxt x fx|
                     A alta sociedade est extremamente chocada para dizer qualquer
                     coisa. Seus membros esto tristes demais para serem vistos na Quinta
                     Avenida, ou para dar as festas que lhes fizeram to famosos. E hoje
                     ser o dia mais triste de nossa cidade em muito tempo, pois o funeral
                     da srta. Elizabeth Holland ocorrer nesta manh, na Igreja Episcopal
                     da Graa.

         NOTA DA COLUNA "GAMESOME GALLANT", DO JORNAL NEW YORK
     IMPERIAL, DOMINGO, DE OUTUBRO DE 1899




          W                  iana    Holland       ficou    imvel   enquanto     Claire
                             cuidadosamente escovava, partia e tranava seus cabelos.
                             Era um penteado mais simples do que o que geralmente
     usava, mas os cabelos estariam cobertos por um chapu e, alm disso, sua
     aparncia no lhe importava mais. O rosto de Diana ficara inchado e depois
     descarnado em questo de dias. Pelo espelho, ela viu o rosto plido de sua criada,
     que parecia ter chorado quase tanto quanto ela.
           -- Vai ficar tudo bem - disse Diana, embora no acreditasse nisso.
           -- Oh, srta. Diana - disse Claire, enlaando-a e apertando-a. - Probrezinha.
           Diana deu um sorriso triste e deixou que Claire a abraasse.
           --  que  to difcil de acreditar - disse ela.
           -- Eu sei. Eu sei. Mas hoje vocs vo deix-la descansar em paz com Deus
     e, aos poucos, voc vai conseguir lidar com isso.
           Diana passou os dedos na le fina que ficava abaixo de seus olhos, tentando
     dar-lhe mais vio. Ela estava h vrios dias aprisionada pela dor e rodeada de
     primos, tios e tias. Eles falava pouco, comiam pouco e passavam metade do
     tempo em casa e a outra metade na casa dos Schoonmaker, que davam uma
     recepo todos os dias, com a escassa esperana de que alguma informao sobre
     Elizabeth ou sobre seu corpo ainda pudesse ser obtida. Diana no teria
     conseguido parar de pensar em Elizabeth, mesmo que houvesse tentado.
           Ela sabia que cometera um ato terrvel. Descobrira isso no dia em que
     Elizabeth morrera, mas desde ento vinha sendo cada vez mais dominada pela
     tristeza e pela culpa. Merecia mesmo ficar feia.
           -- Pronto - disse Claire.
           Ela colocara um chapu na cabea de Diana e um vu preso a ele,
     escondendo seus olhos inchados. Diana ficou de p, permitindo que sua criada
     verificasse os fechos de seu vestido. Era um dos vestidos de sarja preta que ela
     usara durante o luto por seu pai, muito simples, sem qualquer adorno. A cintura
     era marcada, deixando as curvas de Diana um pouco mais acentuadas.
           -- Gostaria que voc pudesse vir conosco.


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g{x _x DM _ @ Tt Zwuxx                                                            cz|t  ECG
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           -- Eu sei - disse Claire, colocando o brao em volta dela e levando-a at a
     porta. - Mas preciso preparar a comida do funeral e s Deus sabe quanta gente
     vai vir. Todos os Holland, o pobre sr. Schoonmaker e sua famlia, seus primos do
     lado Gansevoort, e...
             Diana pousou a cabea no ombro de Claire, que continuou a enumerar
     tudo o que precisaria ser feito antes que o funeral acabasse enquanto elas desciam
     a escada. Era um pouco reconfortante ouvi-la falando de coisas to cotidianas.
     Quando chegara, em frente  porta que dava na sala de estar, Diana sorriu, deu
     um beijo na bochecha de Claire e entrou sozinha. Os mveis haviam sido
     cobertos por panos negros e o ar estava repleto do perfume forte dos mais de cem
     buqus que haviam sido enviados para a famlia da falecida. O tempo ruim
     chegara para ficar e a luz que entrava pelas janelas era difusa e melanclica.
           Diversos dos parentes de Diana olharam-na com solidariedade. Ela tentou
     parecer grata, mas queria que a cerimnia acasse logo. A dor que estava sentindo
     era privada, misturada ao dio que sentia de si mesma.
           -- Oh, Di! Di!
           Diana se virou e viu Penelope aproximando-se depressa. Ela era um choque
     de beleza em seu vestido negro debruado de renda com a saia em camadas. Seus
     olhos azuis estavam to frescos quanto no final de um baile e seus cabelos foram
     adornados com a maior quantidade de penas de avestruz que Diana j vira. Ela se
     lembrou subitamente da palavra que Henry usara para descrever Penepole:
     selvagem.
           -- Oh, Di, como voc pode suportar o dia de hoje? - disse Penelope,
     agarrando as mos de Diana, que estavam cobertas por luvas pretas.
           -- E voc? - perguntou Diana com frieza, afastando-se dela.
           -- Eu mal posso,  claro.
           Os gestos de Penelope mostravam que ela np desistira de fazer teatro, mas
     ela ao menos deixara de fingir que estava chorando.
           --  claro.
           Diana tentou no levantar a voz, mas o pesar fraudulento de Penelope lhe
     dava nojo. Era bvio que ela estava muito satisfeita com o ocorrido. J estava se
     arrumando toda, na esperana v de conseguir chamar mais ateno agora que
     sua rival se fora. Era um insulto que Penelope pudesse ser bem-vinda na casa dos
     Holland.
           -- Todo mundo sabe o quanto voc est arrasada, Penelope - disse Diana,
     cheia de dio. - Ns todos j vimos suas lgrimas. Por que no fica um pouco
     quieta, para que possamos ter paz?
           -- Mas, Diana - replicou Penelope num tom baixo, mas intenso, que mais
     ningum poderia escutar -, garanto-lhe que no tenho idia do que voc est
     falando.
           -- Voc  uma mentirosa. E mente muito mal.
           Diana ficou feliz por estar de vu. Ele abafou sua voz e disfarou a emoo
     que fez o sangue lhe subir s faces, mas no impediu que sua tia Edith, que
     estava ali perto, ouvisse o que ela dissera.
            Tia Edith murmurou algo para a prima com quem estivera conversando,
     pedindo licena. Em poucos segundos a sra. Holland surgira ao lado de Diana.
     Penelope ainda estava na frente dela, encarando-a com os olhos arregalados e um


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     ar levemente zombeteiro. Mas a me de Diana pegou-a pelo brao, fez um gesto
     de desculpa para Penelope e arrastou-a at o corredor. Aps elas sarem, algum
     fechou a porta da sala.
            Diana esperou uma bronca da me, mas em vez disso sentiu uma bofetada
     no rosto. Ela estremeceu, mais de surpresa do que de dor.
            -- Por que voc fez isso? - perguntou ela.
            -- Diana, por favor, comporte-se. No vou suportar mais falta de educao.
     Voc  tudo o que tenho agora. Precisa aprender a preservar sua famlia.
            A sra. Holland falou lentamente, como se estivesse exausta, e seus olhos
     vermelhos tinham uma expresso de splica. Num segundo, Diana compreendeu
     que o mundo de sua me rura que ela mal estava conseguindo permanecer de
     p.
            -- Por favor, no me decepcione no dia em que vamos nos despedir de
     Elizabeth.
            Diana abaixou a cabea, conformada.
            -- Obrigada. Agora entre na segunda sala de estar e, quando estiver se
     sentindo melhor, volte e se junte a ns no cortejo. Parece-me que voc est
     agitada demais para ficar junto dos outros.
            Diana tentou pensar em algo para dizer que pudesse tranquilizar sua me,
     mas s conseguiu assentir antes de entrar no cmodo que ficava no lado oposto
     do corredor. A sala mudara completamente. No havia nada nas paredes e todos
     os vasos pintados  mo, todas as esttuas e bugigangas tinham desaparecido. Os
     quadros que ela examinara no dia em que conhecera Henry Schoonmaker, com
     mares cor de turquesa e cus cor de carvo, no estavam mais l. No havia nem
     mesmo um buqu meio murcho para decorar o aposento. Sua pobre me vendera
     tudo. Diana sentou-se pesadamente em um dos sofs e se deu conta de que o que
     estava prestes a acontecer com sua famlia no seria nada romntico.
            Ela ouviu passos no corredor - os convidados estavam indo embora. Eles
     deviam ter se esquecido dela, pois ningum entrou na sala para lhe dizer que
     estava na hora. Diana ouviu-os abrindo a porta e saindo para a rua, a caminho do
     funeral. Penelope estava entre eles, fingindo estar arrasada. Ao pensar nisso, ela
     cerrou os punhos, mas logo respirou fundo e tentou se acalmar. Diana no queria
     ir  igreja de jeito nenhum, mas no podia se esconder do que fizera.
            Or ar gelado lhe envolveu assim que ela saiu de casa. Ainda estava cedo
     demais no ano para fazer tanto frio, mas at o parque parecia ter assumido um
     doloroso ar de inverno. Diana observou aquele dia triste, to nublado que parecia
     tingir a paisagem de preto e branco, e sentiu-se mais sozinha do que nunca.
            Havia uma confuso na calada. Os parentes de Diana estavam tentando
     subir em suas carruagens com alguma dignidade, mas no estava, conseguindo.
     Ela viu que o sege de sua famlia j partira, conduzido pelo sr. Faber.
            Foi ento que Diana sentiu algum lhe puxando a manga do vestido. Ela se
     virou e viu que um menino surgira como que do nada. Ele era to magro que
     parecia no ter comido nada h vrios dias e seu casaco estava todo remendado.
            -- Voc  a srta. Diana Holland? - perguntou o menino, apertando os olhos
     como se tentasse v-la melhor.
            Diana assentiu. Ela viu que as ltimas carruagens estavam indo embora e se
     perguntou se deveria correr at elas.


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           -- Tem certeza?
           -- Tenho! - respondeu Diana, indignada.
           Ela viu algumas carruagens de aluguel no final da rua e ficou mais tranquila
     ao saber que havia testemunhas ali perto.
           -- No me olhe com essa cara - disse o menino gravemente. - Disseram
     para mim que era muito importante no entregar para a pessoa errada.
           -- Entregar o qu para a pessoa errada?
           O menino balanou a cabea.
           -- Primeiro voc precisa responder  pergunta.
           -- Que pergunta? - indagou Diana, atnita com esse dilogo absurdo e
     imprudente.
           -- A pergunta sobre o Vermeer que seu pai deu para sua irm Elizabeth...
           Havia um instinto to profundo em Diana que ela se esqueceu por um
     segundo de sua tristeza e de sua culpa e exclamou subitamente:
           -- Ele deu aquele quadro para mim!
           O menino pareceu avali-la e ento sorriu.
           -- Foi isso que ela disse que voc ia dizer.
           Ele colocou a mo no bolso e tirou um envelope amarelo e quadrado, no
     qual havia o nome de Diana escrito com uma caligrafia que ela conhecia muito
     bem.
           -- Onde voc arranjou isso? - perguntou ela num sussurro.
           -- Chicago. Ela pagou minha passagem para c e me pediu para entregar
     isso para voc. Para a menina que ia dizer que o quadro era dela.
           -- Obrigada - disse Diana, rasgando o envelope e lendo freneticamente a
     carta que ele continha.

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                                                                X|tux{A

           Quando Diana terminou de ler, sua dor de cabea desaparecera e um calor
     se espalhara em seu peito. Ela estivera errada. Elizabeth era a irm romntica que
     tinha uma paixo secreta. Fora ela que largara tudo para viver uma aventura.
           Diana olhou para as rvores que balanavam ao sabor da brisa e sentiu que
     nascera de novo. Ela no precisaria se afastar de Henry para sempre. Elizabeth
     estava viva - Diana no levara a prpria irm a cometer um ato terrvel. O mundo
     ainda estava de braos abertos para ela. Diana olhou com gratido para o menino,
     que j estava caminhando na dire]ap da Broadway. Ela tentou se parecer com
     uma menina a caminho de um funeral, mas no conseguia impedir um sorriso
     radiante de surgir em seu rosto. Diana estendeu o brao, chamando uma
     carruagem de aluguel.




                                                   Y|
          A Srie The Luxe  composta at o momento por 4 volumes (Luxe,
     Romurs, Envy e Splendor). Apenas o primeiro volume foi publicado no
     Brasil e at o momento a editora responsvel pela publicao no
     divulgou quando ser a publicao do volume 2. Assim que Romurs for
     publicado no Brasil, o mesmo ser digitalizado pela comunidade
     "Tradues e Digitalizaes" assim como os demais volumes.
          Caso a editora no publique a continuao de "Luxo", iremos
     traduzir o restante da srie na comunidade "Tradues e
     Digitalizaes".


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